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Minha primeira ascensão a montanha alta

Minha primeira ascensão a montanha alta

Hiking no Vulcão Iztaccihuatl no México a mais de 5000 metros de altitude acima do nível do mar

High Mountaineering Hiking Mountaineering

No dia seguinte da primeira parte da adaptação a altitude no Nevado de Toluca (leia o relato anterior), o mesmo guia de montanha me levou para uma aventura ainda maior.

Encontrei-me com o guia por volta do meio-dia, ele estava com outro guia e uma dupla de espanhóis que também estavam indo para a montanha. Pegamos a estrada e chegamos no acampamento base em torno das quatro da tarde. Chovia um pouco mas isso não foi um problema, tínhamos a visão da montanha e a empolgação só crescia.

Fizemos uma caminhada de adaptação de 40 minutos a 4000 metros, que é a altitude do acampamento base, e eu me saí muito bem. Comemos macarrão e pão para incrementar o estoque de carboidratos, Daniel, o guia, me ensinou a usar os grampões (peças denteadas para encaixar nos sapatos de caminhada para ter mais aderência na neve), distribuiu os equipamentos e às sete da noite fui me deitar para descansar antes do trekking que começaria na madrugada.

Meia noite e meia Daniel acordou todos nós (eu já estava acordada antes dele, na verdade mal consegui dormir, apenas cochilei por alguns instantes), comemos mais um pouco e a 1:50am estávamos no portão de entrada da trilha com nossas lanternas de cabeça prontos para começar.

Começamos então a subir, os cinco, em um ritmo de adaptação. Os espanhóis, ambos na faixa dos 40 anos me deram a impressão de ter muito mais experiência do que eu neste tipo de hiking, eles tinham seus próprios equipamentos de escalada no gelo e caminhavam relativamente bem. Tive ânsia de vômito logo no início e Daniel ficou um pouco preocupado. Nos dividimos em dois grupos, Lorenzo, o outro guia, foi na frente com os espanhóis e eu e Daniel um pouco mais devagar atrás quando o enjoo melhorou. Subimos a passos lentos parando de vez em quando para que eu pudesse retomar o fôlego.

Um pouco acima dos 4500 metros de altitude a neve começou a cair, nunca tinha visto a neve antes, fiquei prestando atenção no evento e até consegui esquecer um pouco o cansaço. Evitava parar por muito tempo por que quando o fazia o frio vinha cruel. A cada micro sinal de dor de cabeça, um grande gole de água.

Chegamos em um abrigo que fica localizado a 4700m verticais, imediatamente antes de começar a parte mais difícil. Paramos ali por um tempo para comer e descansar, o primeiro grupo tinha chegado poucos minutos antes. Não sei exato o tempo da parada mas foi em torno de 20-30 minutos. Eu estava bem cansada, comi um sanduíche e fiquei parada apenas me concentrando para o restante e poupando energia.

Continuamos para a parte mais difícil, a íngreme subida até o joelho (a montanha tem a forma de uma mulher deitada e os cumes são comparados às parte do corpo, joelhos, peito e cabeça). Nevava mas não o suficiente para que precisássemos usar os equipamentos especias de escalada em gelo (grampões e piolet). Foi uma subida bem difícil, me sentia muito cansada, mas um cansaço diferente, não como o de várias horas de exercício, o corpo não respondia eficazmente aos comandos, comecei a pensar na volta e começou a bater uma angústia muito grande. O meu guia olhou para mim e percebeu o quão cansada eu estava então nos encordou.

O dia começou a clarear mas as nuvens nos tiraram o visual. Por alguns poucos minutos o céu limpou e a visão que tive foi a mais incrível que já passou pelos meus olhos em toda a minha vida. Queria tirar uma foto mas só conseguia gastar a energia que tinha para respirar e caminhar. Parei e olhei por algum tempo quase sem acreditar, queria continuar subindo mas não queria deixar de olhar para aquele infinito de rocha salpicada de branco abaixo de mim. Daniel viu o quão deslumbrada eu estava e tirou a primeira foto na montanha, mas as nuvens já estavam invadindo de novo.

Após me arrastar montanha a cima finalmente chegamos ao primeiro pico, o joelho. Continuamos a caminhada em direção à barriga e o cansaço chegou a um ponto de pânico. Meus dedos estavam duros e congelados e doíam muito, havia muita neve, estávamos rodeados de nuvens e o vento era forte, comecei a chorar e disse ao guia que não chegaria ao cume, que queria voltar, que estava com medo do retorno, ele tirou as minhas luvas, aqueceu as minhas mãos e disse que não me deixaria desistir, estávamos perto do topo e ele me levaria de volta até a base depois do summit (o ponto mais alto da montanha). Parei de chorar e continuei, confiando nele.

Mais alguns duros metros à frente, muito cansada, chorei de novo e pedi outra vez para voltar e ele disse que não, que faltava muito pouco, Lorenzo, que vinha logo atrás guiando o outro grupo, me disse "continua, a dor é temporária mas a glória é para sempre". Respirei fundo, me acalmei, e mesmo assustada prossegui. Não enxergava absolutamente nada, era tudo branco pela neve e pelas nuvens, assustador, mas Daniel guia grupos toda semana àquela montanha e conhece o caminho melhor do que a palma da mão dele. Continuei caminhando, evitando pensar até que enfim, summit. Mal pude acreditar. Não tinha forças para nada, nem para fotos, o frio me congelava, os guias tiraram algumas fotos e em cinco minutos já estávamos começando a descida.

Estava muito sonolenta, em todas as paradas, por menores que fossem, eu tipo que cochilava, em pé mesmo, despertava com o guia puxando a corda. Ele foi quase que me puxando por boa parte do caminho de volta e só quando estávamos chegando novamente ao abrigo a 4700m comecei a me sentir melhor e com mais energia. Finalmente tive disposição para pegar a minha câmera e tirar uma foto. Fizemos mais uma parada para comer e o restante do caminho foi bem melhor.

Chegamos à base a uma hora da tarde, após onze horas de caminhada (seis horas de subida e cinco horas de descida) e eu estava sentindo apenas o cansaço da longa caminhada mas só consegui realmente desfrutar do feito depois de ir para o hostel e dormir.

O sentimento imediatamente depois foi meio confuso, ao mesmo tempo queria e não queria fazer isso de novo. É como a dor do parto, você sabe o quanto foi ruim mas você não consegue reproduzir o sentimento e isto te faz pensar que não foi tão mal, mas tenho certeza que posso treinar e fazer isso bem melhor e mais preparada. É impossível para mim ficar longe da adrenalina e dos desafios, esta é quem eu sou, e no fim das contas já estou planejando a próxima alta montanha.

Obrigada por lerem e acompanharem minhas aventuras! Até a próxima!

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Renan Cavichi
Renan Cavichi 02/23/2018 16:17

Que belo perrengue em Nicole rsrs! A foto nas pedras cobertas de gelo dá uma boa noção do ambiente! Lugar fantástico! Estive no México em janeiro e fiquei namorando esses Trekkings nos vulcões, mas o destino dessa vez foi o litoral em Zihuatanejo! Bom saber que tem mais bons motivos pra voltar pra lá :D Parabéns pela conquista! Bem-vinda! :)

Sabrina Marques
Sabrina Marques 02/17/2019 13:32

Amei seu relato Nicole.... obrigada por compartilhar!!!