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O poder das montanhas: Aconcágua 2017

O poder das montanhas: Aconcágua 2017

Das montanhas na Irlanda em 2016 até o Aconcágua em 2017

High Mountaineering Trekking Mountaineering

No começo de 2014, estava vivendo uma ótima fase da minha vida, fazendo um intercâmbio na Irlanda, conhecendo lugares novos, pessoas novas, mas ainda assim não me sentia completamente preenchido, feliz. Foi quando surgiu a ideia de fazer um trekking sozinho pelo sul da Irlanda. Durante quatro dias vivi verdadeiras experiências de liberdade e autoconhecimento em meio as montanhas, consegui fazer a ascensão a alguns cumes, dentre eles o Carrauntoohil (1.038m), maior montanha da Irlanda.

Após essa experiência minha alma necessitava ser preenchida constantemente com esse sentimento e assim fui me aproximando mais da natureza. Em 2015, fiz algumas montanhas, Pico do Paraná (1.877m), duas vezes; Pico do Agudo (1.224m); Caminho da Fé (350km – 9 dias); Pedra da Mina (2.798m); Huayna Potosí (6.088m); Agulhas Negras (2.791m); Morro do Couto (2.680m) e outras. Neste ano também sai de um ótimo emprego em uma empresa multinacional, realmente o montanhismo mudou meu jeito de ver a vida. Antes meu sonho era ser um grande empresário, vestir terno, ganhar muito dinheiro. Hoje meu sonho é descobrir esse mundo, as montanhas e a mim mesmo.

Em 2016, estava certo que seria o ano da montanha, e assim foi. Comecei a fazer um mestrado na POLI-USP e morando em São Paulo tive a oportunidade de ir muitas vezes para montanha. Neste ano completei sete das dez maiores montanhas brasileiras. E então parti para fazer travessias, que são trekkings mais longos que passam por várias montanhas, e são realizados em períodos maiores. Consegui realizar a travessia na Serra Fina (em 4 dias e depois em 14 horas); Travessia Marins – Itaguaré; Travessia Petrópolis -Teresópolis; Travessia na Serra do Ibitiraquire e Travessia Transmantiqueira.


Todas essas idas a natureza mudaram radicalmente meu jeito de ser e o como vejo o mundo. A realização de travessias, ascensões e expedições, nos tiram bruscamente da zona de conforto, nestes ambientes não existem todas as facilidades que temos na cidade e isso me fazia valorizar cada vez mais as pequenas coisas da vida. Lá era só eu e a montanha, não existe distrações para mente e você é obrigado a encarar os seus pensamentos. Na natureza não estamos no controle da situação, não apagamos as luzes quando queremos, não ligamos o aquecedor quando está frio, o que temos que fazer é aceitar, agradecer e seguir em frente.E foi na busca de tudo isso que resolvi seguir para a Cordilheira dos Andes. A primeira expedição realizada foi ao Cerro Plata (5.950m), uma montanha próxima a Mendoza, no vilarejo de Vallecitos. A ascensão foi realizada em 8 dias, junto com meu amigo Matheus Basso. Fizemos três dias de aclimatação chegando ao cume do Lomas Blancas (3.900m), San Bernardo (4.150m) e Franke (4.900m). Após este período seguimos para os acampamentos altos, La Veguita, El Salto e por fim La Hoyada. E no dia 15 de janeiro chegamos ao cume do Cerro Plata ás 11:30 da manhã depois de 6 km de trekking e aproximadamente 1400 m de ascensão em altitude.


Após descansar 3 dias em Mendoza foi a vez de contemplar as belezas do Aconcágua. No dia 21 de janeiro eu e o Paulo Henrique Oliveira, entramos no parque. Não havíamos contrato serviço de guia, alimentação ou se quer porters, apenas contratamos o serviço de mulas, que nada mais é do que o transporte de parte dos equipamentos da entrada do parque (Horcones) até o acampamento base (Plaza de Mulas). Passamos primeiramente pelo acampamento Confluência (3.300m), onde conhecemos Alexis que ficou como terceiro integrante do grupo, fizemos uma caminhada de aclimatação até Plaza Francia (4.150m), de onde tivemos a vista para a face sul do Aconcágua, uma das paredes mais difíceis e perigosas de serem escaladas do mundo.

Seguimos para o acampamento base, Plaza de Mulas, (4.300m), que parece mais uma cidade, existem muitas empresas trabalhando no Aconcágua, é uma montanha extremamente comercial. Em Plaza oferecem serviço de banho ($10), internet (15 min - $10), refeições ($20-50), acomodações ( $100-200), porters ($150-170) e outros. Não vou mentir, isso me assustou no início e me deixou incomodado. Na sequência fizemos um trekking de aclimatação para o Cerro Bonete (5.100m) e por fim avançamos para os acampamentos em direção ao cume. Que são três, Canada (4.900m), Nido de Condores (5.600m) e Colera (5.950m). Nós sempre seguíamos a estratégia de subir com parte do equipamento para o acampamento acima e retornar para dormir em um local mais baixo.


Isto porque a altitude era a pior inimiga nesta expedição. Uma subida muito rápida poderia nos causar o que chamamos de MAM (Mal Agudo da Montanha), que gera sintomas como dor de cabeça, insônia, perda de apetite, náuseas, tosse seca, vertigem e isto pode se agravar até para um edema cerebral, edema pulmonar e morte. Portanto seguimos fielmente nosso plano para que pudéssemos estar bem aclimatados. Infelizmente o Paulo sentiu fortes dores na coluna quando estávamos em Nido de Condores e em uma decisão muito consciente ele decidiu abortar a subida.
Porém eu e Alexis seguimos em frente, para o acampamento Colera e no dia 31 de janeiro ás cinco da manhã começamos a ascensão final ao cume. Lembro como hoje, o dia estava muito frio, sensação de -30ºC. Depois de passar o refúgio independência (6.500m), entramos em uma parte chamada Traverse, muito exposta ao vento, eu não sentia mais parte da minha face e o Alexi que estava atrás de mim falou que retornaria para um lugar mais abrigado pois estava com muito frio. Eu só queria seguir em frente. Neste dia tenho certeza que algo a mais estava acontecendo ali, não era apenas a minha força corporal que estava agindo, mas sim uma força maior que vinha de todas as pessoas que estavam torcendo por mim.


Pedi permissão a montanha para seguir, e sutilmente ela concedeu, continuei até La Cuerva, onde se inicia o ponto mais difícil da escalada, La Canaleta, um aclive com inclinação de 40º e um mix de pedra e gelo. Aqui os passos eram curtos e a respiração ofegante, mas a mente estava em paz e eu via um filme passar de tudo que já havia vivido na natureza e nas montanhas. A 50 metros do cume a emoção começou a tomar conta do meu ser, pensava apenas na minha família e amigos. Então as 11:30 cheguei ao cume do Aconcágua (6.962m), estava no ponto mais alto do hemisfério Sul, mas então a montanha me ensinou mais uma lição para a vida, próximo a cruz que marca o cume estava um estadunidense que havia morrido a umas 20 horas, segundo informações de um ataque cardíaco. Eu e o chileno Gonçalo que chegamos quase juntos ao cume, fomos os primeiros a avistar o corpo.


Tive um tempo para meditar no cume e percebi como nosso corpo é frágil, vulnerável e olhando em volta compreendi o quão pequeno somos neste mundo material. Mas aprendi também que a alma, essa sim é grande, e que estando com a alma em paz e a mente sã podemos realizar o que quisermos. E que essa expedição não tinha nada a vê com o subir mais alto, mas sim a minha relação com a natureza, com a montanha, com as pessoas e com Deus. Agora sinto que posso chegar a altitude que eu quiser, basta alinhar meu corpo, mente e alma. E tenho certeza que você que está lendo também pode realizar qualquer sonho que tenha, basta encontrar esta força que esta dentro de você, acreditar no seu propósito e agir. Namaste. Obrigado a todos. Maringá no topo das Américas.

Pedro Abrão
Pedro Abrão

Published on 05/05/2019 09:40

Performed from 01/21/2017 to 02/04/2017

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Pedro Abrão

Pedro Abrão

Sao Paulo - Brasil

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Doutorando em engenharia civil e apaixonado pelas montanhas. Venho buscando a montanha como meio de encontrar a felicidade. Atualmente no Projeto 10+ Andes.

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