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Leveza na trilha

Trekking leve ou ultraleve - modo de usar.

Peter Tofte
Peter Tofte 06/02/2020 15:26

LEVEZA É FUNDAMENTAL, não só na trilha como na vida!

Vejo muita gente sobrecarregada na trilha, levando peso além do necessário. Costumo dizer que o peso de uma mochila grita se o trilheiro é novato ou macaco velho.

Além de poupar a articulação dos joelhos e dos pés, a experiência de caminhar vai ser muito mais agradável. Presenciei vários camaradas de trilha com muito peso, cansados ou caindo a toda hora (peso excessivo desequilibra). Compartilho com vocês aqui o que aprendi em anos de trilha.

Quanto mais você conhece, menos você carrega e menos medo sente. O MEDO é o maior peso que as pessoas carregam na trilha. MEDO de passar fome, comida em excesso, MEDO do frio, roupas além do necessário, MEDO da noite e de bichos,  pesadas barracas em vez de tarps (toldos) ou bivaque. Lógico que um pouco de medo para avaliar situações e tomar decisões durante a trilha é sempre saudável!

Habilidades também substituem peso. Por exemplo, se você sabe ler o terreno e interpretar uma carta topográfica não precisará levar tanta água na mochila. Saberá onde encontrar.

Mas lembre-se: o limite da redução do peso é a sua segurança. Não deixe em casa o que você vai precisar na trilha. Não troque peso por segurança!

Geralmente equipamentos mais leves são mais caros, porém isto não é regra. É possível encontrar no mercado coisas leves por preços bem mais acessíveis. Recomendo muito os vídeos do GRAXAIM CONGELADO, com boas dicas de itens a preços mais acessíveis.

Não acredito que “carregamos o peso do nosso conforto”. Creio que dá para fazer trilha muito confortável com pouco peso. Tenho amigos, excelentes trekkers, que gostam de ir pesados, com  preparo físico bem melhor em relação a mim. Mas noto que no final do dia estão mais acabados do que eu e as vezes resolvem parar para acampar porque não aguentam mais caminhar enquanto eu ainda poderia prosseguir se desejasse.

Confortável.

Embora não haja um padrão técnico internacional, por convenção muita gente aceita que até 7,0 Kg de peso base é trekking leve e até 4,5 kg é trekking ultraleve, para 3 estações (excluindo inverno com neve). Peso base é o peso da sua mochila sem consumíveis (comida, bebida e combustível). Os bastões não entram na conta porque leva na mão.

OS TRÊS GRANDES

Não adianta cortar o cabo da escova de dente e deixar de prestar atenção nos pesos pesados de qualquer trekking: mochila, abrigo e sistema de dormir.

MOCHILA: Normalmente num trekking ultra light as mochilas não são grandes (menores que 45 litros) e são de DCF (Dyneema Composite Fabric). Não tem suporte rígido nas costas por isso são limitadas normalmente a carregar no máximo 12 kg. No meu caso tenho uma mochila minimalista de 45 litros que pesa 680 gramas (a ARCTERYX ALPHA 45) e que não é de DCF, dando conta do recado para até 4-5 dias no Brasil e, por exemplo, 3 dias no outono nos Pirineus. Além disto é impermeável, dispensando capa.

Há mochilas com suporte que não são muito pesadas. Entre elas destaco as da GRANITE GEAR.

Eu com a ALPHA 45 vermelha e Fabio Dal Gallo com uma mochila fabricada por ele e pela Cris, superleve! Na foto da portada o Edver Carraro com outra ALPHA 45 na serra catarinense.

ABRIGO: deixe a tenda convencional em casa. Opte por um abrigo tipo tarp ou abrigos sem varetas, que usam os próprios bastões de trekking como suporte. As varetas são um dos itens que mais pesam nas barracas. Sugiro olhar os sites da HYPELITE MOUNTAIN, SIX MOON DESIGNS, ZPACKS e GOSSAMER GEAR. A 3F UL chinesa tem coisa boa a bom preço. Mesmo as grandes companhias estão começando a oferecer produtos nesta abordagem light ou ultralight.

Escolha abrigos feitos de silnylon, polysil ou, se tiver mais grana, de DCF. São leves, resistentes e mais impermeáveis. Esqueça o pesado Nylon com revestimento de PU, material de características inferiores.

Notem que principalmente a tarp (toldo) exige alguma prática para escolher o local do acampamento e a montagem. Mas é deliciosa. Você não ficará fechado num casulo. Tem vista ampla e espaço bem maior. Pode cozinhar debaixo dela. Uma sensação muito grande de proximidade com a natureza. 

Abaixo a tarp numa laje de pedra. Sem espeques, usando pedras para prender os cordoletes. Chapada Diamantina.

A esquerda uma Hexagon Pocket Tarp 113 gramas, em DCF da ZPACKS  e uma tarp (verde) da KELTY em silnylon. Notem na tarp o espaço interno e a ventilação. Serra catarinense. A noite fez entre 8 e 10°C.

Há mosquiteiros levíssimos que deixam sua noite tranquila, sem insetos. Destaco a Nano Mosquito Net da SEA TO SUMMIT. Ou simplesmente dormir com um véu mosquiteiro em volta do seu chapéu. O resto do seu corpo está protegido pelo saco de bivaque. Nunca tive problema com bichos.

Dormindo na Toca do Ancorado, com o mosquiteiro da SEA TO SUMMIT.

 

SISTEMA DE DORMIR. Saco de dormir aqui no Brasil? Repare que na foto logo acima não há saco de dormir. Por que não apenas um saco de bivaque com um liner? O saco de bivaque, além de criar um microclima no seu interior, também evita que pingos de uma chuva de açoite atinjam você debaixo da tarp. Na Chapada Diamantina é o meu padrão. No inverno eu coloco também um agasalho e uma calça de lã merino para enfrentar temperaturas menores. Logicamente não dá para usar só isto no inverno em Itatiaia, Serra Fina e outros locais mais ao Sul e de maior altitude. Nestes casos não dispense o saco de dormir. Dê preferência a um de pluma (menor peso e mais eficiente). Se po$$ível escolha um de down 800 a 900, que são as melhores plumas. Uma alternativa de menor peso é adotar o sistema de barreira de vapor (vapor barrier).

Bivaque sem tarp na Chapada, debaixo de uma noite estrelada, também sem saco de dormir. Mas tive que botar agasalho no meio da noite

Embora o isolante térmico menos pesado seja um simples de célula fechada (de espuma) ainda gosto e uso os infláveis devido ao conforto. A THERM-A-REST tem os melhores, por ter mais tempo de mercado, e com excelente relação peso, conforto e R value (medida de isolamento térmico). Levo geralmente um de tamanho 3/4 que dá para cabeça tronco e coxas. A mochila deitada isola os pés.

Para completar uma lona de Tyvek, resistente e leve,  impermeabiliza o chão ao redor de seu isolante.

Itatiaia, camping ao lado do Rebouças,  -1ºC a noite. Sem barraca, com tarp, saco de bivaque e saco de dormir.

COZINHA

O fogareiro mais leve é uma fogueira. O problema é o apoio para as panelas, o que pode ser arranjado com pedras, se disponíveis. Para resolver isto tenho um fogareiro de titânio para gravetos (gravetos são mais fáceis de achar e queimar). Mas nem sempre é permitido ou viável o uso de fogueiras. Para poucos dias uso um fogareiro a álcool. Um fogareiro a gás é o que normalmente representa melhor relação peso/poder calorífico. Mas também depende do número de dias (imagine carregar um monte de cartuchos de gás vazios na mochila, perto do final do trekking). Em alta montanha, acima da linha da neve, não tem jeito. Vai ter que levar um pesado fogareiro de benzina para derreter gelo. Assim a decisão depende do número de dias, previsão de tempo e local.

Gosto de apetrechos de titânio: panela e talher. São muito leves, extremamente resistentes. Valem o preço porque duram a vida inteira. Desvantagem é a condução térmica elevada: cuidado para não queimar a comida no fundo da panela.

Fogareiro de gravetos e panela, ambos de titânio. Peso do combustível: zero.

Para lavar a panela e utensilios de cozinha não levo bucha nem detergente. Uso areia  (arear as panelas) e musgo para a limpeza. A natureza a gradece.

COMIDA

Liofilizada, gostosa, altamente energética (alta densidade calórica = carboidratos). Dá para conciliar? Creio que sim. Infelizmente no Brasil ainda não contamos com muita opção de comida liofilizada gostosa (lá fora tem muita coisa deliciosa). Mas abuse do chocolate, mel, massas (gosto da capelli de angeli ou vermicelli, cozimento rápido). Também tem risotos de cozimento rápido, frutas secas, pasta de amendoim, torradas okoshi, etc… Todas com ótimo conteúdo calórico. Abuse da tradição dos tropeiros, leve paçoca (farofa pilada com carne de sol, durável e gostosa). Nada de comida light porque seu gasto energético deve ficar acima de 3.000 calorias dia. Some as calorias das embalagens e veja se suprem sua necessidade energética. Se o trekking vai ser bem selvagem, leve mais um dia ou dois de comida. Ser leve na trilha não significa passar fome! O segredo de diminuir o peso da comida é pouco conteúdo de água (comida liofilizada, desidratada ou seca) e alta densidade energética.

Normalmente o gasto de comida desidratada e energética é entre 800 a 1200 gramas por dia por pessoa. Costumo adotar a média de 1.000 gr dia. Se num total de 5 noites de trilha eu pesar minha comida e ficar abaixo de 5,0 kg já fico desconfiado e checo a quantidade de calorias.

Tire os alimentos das embalagens originais pois são pesadas. Reembale em sacos plásticos ou ziplocs.

Para transportar água nada de Nalgene ou cantis de alumínio. Uso garrafas PET de água mineral ou PLATIPLUS. A vantagem do último é que é dobrável quando não está em uso e posso usar como travesseiro inflável se soprar pela boca e fechar.

VESTUÁRIO

A boa notícia é que no Brasil (posso falar por mim na Chapada Diamantina/Bahia), há um clima excelente para praticar o trekking leve ou ultraleve. Mas SEMPRE devemos consultar sites de meteorologia para termos uma previsão acurada, não ficando com proteção térmica de menos.

Use o sistema de camadas. Escolha para cada camada o que há de mais leve. Gosto da combinação underwear sintético ou de lã merino, casaco de pluma e, como capa de chuva, um poncho. Alguns modelos de poncho se convertem em tarp (uso esta opção quando quero ir muito leve). Uma balaclava de fleece é essencial (a cabeça é onde mais perdemos calor). Um gorro de fleece também é legal para noites mais frias.

A hipotermia é o maior risco para quem vai ultraleve. Não erre a mão!

Este casaco, embora não seja de pluma, segura bem o frio - THERMOBALL da TNF. Ou será devido a fogueira e ao chá? Picos da Bahia.

Basta uma roupa para o dia, outra para noite. A tardinha, já acampado, lavo as roupas que usei durante o dia. Em regra, no dia seguinte estão secas. Roupa de uso, não estou falando de agasalho e capa de chuva, que estão a parte.

Toalhinha de banho: uma 30 cm X 30 cm de secagem rápida é o que uso, mesmo num banho de rio na Patagônia.

CALÇADO

Embora bons tênis sejam os mais leves (trail runners) aqui ainda fico no tradicional, eu uso botas. Há modelos de botas bem leves e que oferecem maior proteção para os pés. O meu problema com tênis é que eles não são muito duráveis em terrenos variados e muito acidentados, o que normalmente enfrento nas trilhas.

Dois pares de meia de boa qualidade, Um deles apenas para usar de noite, de preferência de lã merino. Se o trekking vai durar vários dias, melhor 3 ou 4 pares.

Sandálias. Não leve, afinal você não está passeando na sala de sua casa. Ou eu fico descalço ou uso as botas sem meia no acampamento. Acostume a endurecer o couro da sola do seu pé andando descalço. É impressionante o que uma sola bem curtida é capaz de suportar.

NECESSAIRE

Num pequeno necessaire uma lanterna leve de cabeça, isqueiro BIC, um canivete (gosto de um OPINEL nº 8, com apito), mini sabonete biodegradável, mini pasta de dente, mini escova, mini fio dental, pedaço de cordolete extra, mini canivete Classic da VICTORINOX (o menor e mais barato de todos), pequeno lápis, pequeno bloco de notas, uma vela e um travesseiro inflável. Um pouco de protetor solar e labial.

MEDICAMENTOS

Leve seus medicamentos de uso. Além disto costumo levar antisséptico, anti-inflamatório, analgésico e um antibiótico de amplo espectro (gosto do Ciprofloxacino e da Doxociclina - este último é tratamento de referência para a febre maculosa). No caso de antibiótico converse com seu médico. Devem ficar num compartimento rígido (flexível estoura os blisters) e a prova d’água. Alta montanha tem uma série de medicamentos específicos.

BASTÃO DE TREKKING

Ainda não tem? Trate de comprar. É o que diferencia homens de meninos na trilha. Além de poupar seus joelhos, evita desequilíbrio, espanta cachorros e é o suporte de seu abrigo ultraleve. Não uso os leves de fibra de carbono porque acho caros e frágeis.

NAVEGAÇÃO E RASTREABILIDADE

Nada mais leve que um bom mapa topográfico e uma boa bússola. E que também são a prova de falhas. Devem estar associados a habilidade de navegar. Entretanto um GPS deve ser utilizado na falta de cartas topográficas da região em que fará a trilha. Um GPS também é útil no caso de baixa visibilidade. Há relógios com GPS, o problema é a precisão menor e a autonomia da bateria (digo isto por experiência).

Se estiver fazendo trilha sozinho ou mesmo com companheiros mas off trail por área selvagem, leve um SPOT ou similar. O pouco peso deste equipamento não é nada em relação a segurança que te trará.

Um bom mapa, entre outras coisas, é ótimo para visualizar toda a trilha e discutir a rota com os companheiros de caminhada.

MULTIUSO

Já citei alguns itens multiuso: poncho-tarpa, bastões, agasalhos (substituindo saco de dormir). Merece menção especial o smartphone, um equipamento muito versátil. Substitui uma câmera fotográfica, comunicação (onde há sinal) e alguns Apps podem substituir o GPS (MAPS.ME, WIKILOC, etc…). No peso do smartphone devemos acrescentar o peso de uma capa de proteção para intempéries e um power bank/fiação.

Poncho-tarpa na mata atlântica no RJ. Na ocasião esqueci os cordoletes. Tive que improvisar com cipó.

FINALMENTES

Uma balança de cozinha ajuda muito a escolher as opções possíveis. Mas não é por poucas gramas que você deve deixar de lado algo mais eficiente. Por exemplo, um casaco bem mais quentinho que só pesa um pouco a  mais do que outro com bem menos isolamento térmico.

Muito importante é testar estas combinações de equipamentos leves. O que funciona para um pode não funcionar para outro. Comece minimalista em trilhas mais fáceis e depois aumente o grau de dificuldade, verificando se suas escolhas leves estão funcionando. Não vá ultraleve por terrenos ou climas nos quais nunca teve experiência.

Vai ter ocasiões em que provavelmente passará por perrengues. Mas faz parte do jogo e tornam a viagem uma verdadeira aventura.

Mesmo que você não compre o pacote todo (por exemplo prefira ainda usar uma tenda convencional), sempre ganhará alguma coisa ao adotar algumas das práticas/equipamentos leves/ultraleves. Seu corpo e espírito agradecerão.

Venha para o lado ultraleve da força!

Em tempo: nenhum vínculo, patrocínio ou relação comercial com as marcas aqui citadas. O que uso é porque escolhi e foi comprado com meu dim-dim.

Um vídeo com meus amigos Ramon Quevedo e Paula Yamamura do Mochilão Sabático, na Chapada. Eu com mochila bem leve.

 

 

 

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Ernani
Ernani 06/02/2020 19:09

Muito bom Peter! Você é nossa referência!

Peter Tofte
Peter Tofte 06/02/2020 19:26

Valeu Rei Leão!

Graxaim Congelado
Graxaim Congelado 06/03/2020 15:59

Muito bom, que todos compartilhem a informação dessa forma! Obrigado por citar o canal!

Paula (Mochilão Sabático)
Paula (Mochilão Sabático) 06/03/2020 17:02

EX-CE-LEN-TE!!!!

Peter Tofte
Peter Tofte 06/03/2020 19:01

Valeu Graxaim, valeu Paulinha!

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 06/03/2020 19:29

Muito bom!!

Renan Cavichi
Renan Cavichi 06/04/2020 09:51

Dicas valiosas, valeu Peter!

Peter Tofte
Peter Tofte 06/04/2020 11:13

Valeu Bruno e Renan. Quando puderem venham trilhar leve aqui na Chapada!

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Peter Tofte

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Salvador, Bahia

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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