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Peter Tofte 25/03/2026 20:07 com 2 participantes
    PN Perito Moreno -  Rio Lácteo / Laguna Los Témpanos

    PN Perito Moreno - Rio Lácteo / Laguna Los Témpanos

    Terceira parte e última trilha dentro deste belo parque, para conhecer a laguna dos icebergs.

    Trekking Montanhismo Acampamento

    26/02

    Após o Circuito Grande da Península Belgrano (ver relato) fomos direto para o começo da trilha Rio Lácteo. Assim fechariamos todas as 3 principais trilhas do Perito Moreno.

    A pickup nos deixou no final da estrada de rípio, no estacionamento, onde partimos para o refúgio Gilberto, a menos de 500 metros de distância. A ideia era pernoitar ali pelo adiantado da hora. Tudo conforme o planejado e reservado junto aos guarda-parques.

    Chegando no refúgio Gilberto, visível acima da mancha de árvores adiante e esquerda de Paula.

    O Refúgio Gilberto.

    Apesar de ser do tipo pequeno a disposição dos beliches permitia até seis pessoas dormirem nele.

    A quantidade de lenha no depósito lateral denotava que este refúgio, logo no início da trilha, era pouco usado. Provavelmente o pessoal chega mais cedo e percorre logo os 12 KM até o próximo refúgio (Cris e Doug).

    A construção fica a sotavento do morrinho de onde tirei a foto abaixo. Notamos que todos os abrigos são construídos para ficar a sotavento do vento predominante. Isto faz uma bruta diferença.

    O abrigo fica pertinho de um rio de água cristalina. Portanto ele não nascia num glaciar.
    Fomos eu e Lúcia para o rio tomar banho. Desta vez mergulhei nele, num trecho que formava uma pequena banheira. Afinal os guarda-parques só proibiram o banho direto no lago! O mergulho tem que ser rápido. No segundo tchibum para molhar o corpo senti a cabeça latejando. O fluxo sanguíneo deve sofrer um repentino desvio da superfície para o interior do cérebro. Com este aviso desisti do terceiro tchibum e saí para me ensaboar. Na hora de tirar o sabonete do corpo aí sim usamos as panelas para não jogar sabão na água corrente.

    Prosa na mesa de jantar. Outra vez só nos quatro. Estamos ficando desacostumados de tendas. Pura mordomia. Delícia ficar nestes refúgios.

    Eu e Lúcia no controle de qualidade enquanto Ramon prepara a janta.

    O nome do refúgio, Gilberto, é uma homenagem ao grande benfeitor do Parque Perito Moreno, Gilbert Butler, que construiu todos os refúgios através do Butler Conservation Fund ou Butler Parklands.

    Com a salamandra acesa a temperatura no interior ficava em torno dos 20°C. Durante a noite, sem ninguém alimentando o fogo ele se extinguia e a temperatura baixava para 11°C lá dentro.

    27/02

    Mochilas prontas saímos para uma caminhada de 12 KM até o Cris e Doug ao longo do vale do Rio Lácteo.

    Novamente trilha muito bem feita, sinalizada, padrão PCT. A cada KM uma placa indicava a quilometragem percorrida.

    O dia estava nublado com chuvinhas esparsas.

    Um pouco antes da metade do percurso um mirante. Bem visível no vale, a seguir, um grande areal de terra de aluvião proveniente de um vale lateral, onde ficava o Cerro Penitentes. Lembrava um pouco os vales na região do Aconcágua (exceto pela vegetação, que é muito maior aqui) como a Playa Ancha.

    Rio Lácteo. Deveria ser Rio Café con Leche. O grande areal de aluvião está bem mais visível. Escorre a partir do vale lateral.

    A trilha fica sempre afastada do rio Lácteo, lá embaixo, na sua margem esquerda verdadeira. Apenas se aproxima do rio perto do abrigo Cris e Doug.

    As montanhas abaixo estão na margem oposta (margem direita verdadeira).

    Se no começo da trilha predomina uma mata arbustiva de lengas, na metade do caminho começa uma vegetação baixa de estepa patagônica e, no último trecho, uma bonita floresta de Coihues.

    O penúltimo córrego que atravessamos antes de chegar no abrigo.

    Quase chegando. Ultimo rio a atravessar.

    Chegando. Na mata arbustiva de lengas no centro da foto abaixo estão os locais designados para armar tendas e dois banheiros secos. Bem inteligente! Os arbustos quebram a força do vento.

    Mais ao fundo, na foto acima, antigo puesto dos pastores, bem arruinado, feito de madeira e folhas de flandres. Pertencia a Estancia El Rincón que era dona de todo este vale e do vale Hermoso Superior. No verão até 14 mil ovelhas pastavam aqui.

    Os novos abrigos ficam mais a direita, pouco visíveis na foto.

    Nesta noite não conseguimos reserva do refúgio. Um casal de argentinos o ocupava. Mas havia 3 domos ao lado. Três pessoas que nos encontraram no caminho, voltando, conversaram pouco antes com Paula e Ramon (que estavam mais adiantados) e nos disseram que recomendaram o domo do meio para eles, melhor conservado. Mas nossa dupla de amigos disseram que deixariam ele para nos. Isto é que é parceria e amizade!

    Chegamos e, de fato, vimos que eles ficaram no 1º domo e deixaram o melhor para nos.

    Cada domo tinha duas camas de campanha com colchoneta, uma mesa e uma ou duas cadeiras além de um baú para guardar coisas. Mas não tinha a tão querida salamandra. A noite seria mais fria.

    Fizemos a janta juntos num dos domos. Me arrependi amargamente por ter dito para não trazermos vinho já que estavamos sobrecarregados com comida para 12 a 15 dias. Bico seco todo este tempo.

    Altitude ali era cerca de 1.000 metros.

    Eu e Ramon fomos buscar água para beber e cozinhar num córrego um pouco distante, na mata antes da chegada. Ela era cristalina, ao contrário da água do Rio Lácteo.

    O dia foi todo nublado com chuvinha ocasional. Por isto eu e Lúcia desta vez esquentamos água e tomamos banho de cuia dentro do antigo puesto.

    28/2

    Paula, no seu Garmin Mini ou Inreach (não recordo ao certo) viu que o tempo iria melhorar no início da tarde. Não valia a pena subir até a laguna Los Témpanos com tempo fechado. Assim preparamos um almoço quente.
    As 14 horas o sol firmou. Partimos. Lucia preferiu ficar.

    Em frente ao domo de Ramon e Paula. O nosso está ao fundo. O sol apareceu.

    Rio Lácteo. Logo adiante está a travessia

    A travessia se dá num efluente do Lácteo, creio que é o rio Formoso.

    Sistema interessante. Uma estaca bicolor de aço indica se seria segura a travessia. Se apenas estiver visível o vermelho seria proibido o cruze. Achei um pouco conservador o nível do rio colocado como limite pelos guarda-parques.

    E havia também uma altura mínima para poder atravessar o rio. Paulinha quase é reprovada.

    Mas Ramon passou com louvor no exame.

    Paula me fotografou ao final do cruze.

    No início da subida para o glaciar um campo de boulders. Estas toneladas de rocha foram tratoradas pelos glaciares avançando, antes de recuarem ao final das eras glaciais.

    O rio Lácteo descia cortando em meio as morenas, formando algumas cachoeiras.

    Ganhamos altura e, em seguida, uma grande esplanada onde pircas indicavam o caminho.

    E No final da esplanada caminhamos cortando uma pedregosa sequência de morenas que indicavam o número de eras glaciares que cavaram este vale.

    Finalmente chegamos. Os Témpanos estavam concentrados na ponta da laguna onde estávamos, empurrados pelo vento oeste.

    Infelizmente o soberbo Cerro San Lorenzo estava escondido entre nuvens, a esquerda. Os glaciares que dão origem aos icebergs estão na encosta dele.

    Alguns icebergs tinham cor muito azul. Alguns sujos de terra.

    Felizes. Ramon gosta de fazer caras e bocas.

    Após as fotos e vídeos voltamos. A previsão era o tempo abrir apenas no final da tarde. Não queríamos pagar para ver. O San Lorenzo parecia a mansão da Família Adams, com eternas nuvens de tempestade em cima, segundo Ramon.

    Na descida, em meio a uma morena, pisei numa grande pedra que se moveu e me estatelei no chão batendo com o joelho. Felizmente, além da dor e um rasgo na calça, nada demais. Um fratura é sempre ruim a dois dias da cidade mais próxima (isto se conseguíssemos transporte no estacionamento no início da trilha).

    Volta tranquila. A dor no joelho cedeu.

    Pouco depois do regresso, já no acampamento, vimos que desanuviou o tempo, o sol surgiu bonito, e o San Lorenzo apareceu. Corremos para a margem do Lácteo para fotos.

    Eu e Lucia num dos momentos mais felizes da viagem Chile 2026. Por que será? San Lorenzo ao fundo.

    Havia conhecido a face Norte da montanha (lado chileno) há 9 ou 10 anos atrás. Agora via o outro lado.

    O refúgio Doug e Cris estava reservado. Mas como não apareceu ninguém até as 20 horas eu e Lucia nos mudamos para ele. Ramon e Paula gentilmente o deixaram apenas para nos, ficando no domo.

    01/03

    O dia amanheceu também nublado. Iríamos voltar para outro pernoite no refúgio Gilberto, no início da trilha. Dia seguinte seria nosso resgate.

    Foto do refúgio Cris e Doug, homenagem a Doug Tompkins e sua esposa Cris. Eles compraram este vale e doaram ao governo argentino, para incorporarem ao PN Perito Moreno. O Doug conheceu esta região ao explorar vias de escalada na face Sul do San Lorenzo e se apaixonou pelo local.

    Este refúgio, erguido em 2016, é um dos construídos pelo magnata Gilbert Butler, através de sua fundação. Ele fez sua fortuna em Wall Street. Mas é um entusiasta outdoor. Gosta de montanhismo, caiaque, bike e sky. O objetivo de sua fundação é criar áreas preservadas naturais abertas ao público ou criar infraestrutura nos parques existentes. Ele gastou 3 milhões de dólares no PN Perito Moreno.

    Todos os refúgios foram pré-fabricados em Bariloche, transportadas as peças até o início do sendero onde foram levados por 2 construtores e 6 porteadores por 12 KM, carga média de 30 kg, num total de 120 porteios. Total transportado, 3.600 kg, para fazer o refúgio. Pagou uma diária de 100 a 200 dólares aos montanhistas contratados ou a trabalhadores de Gobernador Gregores.

    Foto de foto mostrando o trabalho árduo dos porteadores.

    Se estivesse no parque, naquela época, até topava por esta diária em dólares, além de estar colaborando num projeto bonito neste cenário lindo. Com 10 anos a menos, acho, apenas acho, levava os 30 kg, kkkkkk.

    Volta também com tempo nublado e chuvinha. Mas o tempo mais ruim parece que fica mais concentrado no fundo dos vales, onde estão as geleiras.

    Mas no retorno deu para ver o Cerro Penitentes, com 2.884 m.

    Chegamos cedo no Gilberto.

    Ao entardecer, com chuva, apareceram dois jovens mochileiros, um colombiano e um ucraniano. Tinham acabado de chegar no carro do Ucraniano. Pessoal simpático.

    Primeira vez que teríamos que dividir um refúgio.

    O ucraniano preferiu dormir no carro porque queria maratonar na Netflix e o som incomodaria os demais. Assim só compartilhamos com o colombiano.

    A noite esfriou bem. Nevou no pico das montanhas ao redor do Vale.

    02/03

    Dia da partida. Sem pressa. Rocio só viria nos buscar às 10 horas.

    Esta neve nos cumes não havia no dia anterior.

    Arrumamos as coisas e saímos do refúgio.

    As empoderadas da trilha, contentes ao final do trekking no Perito Moreno, na pontezinha logo antes do estacionamento.

    A Rocio chegou na pick-up e fomos para a sede do Guarda-Parques para registrar a saída. Lá encontrei um argentino que só faltou se ajoelhar diante de mim pedindo carona para sair do parque. Falei que de nossa parte tudo bem, mas que deveria falar com a Rocio, dona do veículo. Ela recusou porque ele teria que ir na caçamba (cabine lotada com 5) e isso poderia dar problema se parados pela Policia Carretera.

    Ali deu para sentir o quão difícil é depender de carona neste parque. Ver um argentino implorar não é comum de se ver.

    Contratamos com a Rocio o retorno para Los Antiguos. Não valia a pena regressar para Gobernador Gregores para pegar um ônibus caro e as 3 da madrugada.

    Almoçamos em Bajo Caracoles. Acho que não tem uma dúzia de casas. Só aparece no mapa porque é a única coisa em dezenas de Km na Ruta 40. É tão monótona a estepa patagônica que tive que fazer um esforço para não dormir. Tremendo contraste com a Carretera Austral chilena, onde cada curva surpreende com um novo cenário maravilhoso.

    Lá pelas 18 horas chegamos em Los Antiguos. Pagamos 185 doletas cada casal a Rocio e nos despedimos, também de Paula e Ramon. Eles ficariam na vila argentina e nós iríamos para Chile Chico.

    Para acompanhar eles no Parque Patagônia teríamos que perder 2 dias para ir a Coyhaique para comprar uma tenda e voltar. Naquela cidade, capital de Aysén, há uma loja da Doite e outra da TNF.

    Outra coisa, o roteiro completo, de Jeinimeni para Cochrane, proposto por eles, via 7 lagunas e com side trips, levaria um tempo que não dispúnhamos.

    Inclusive, para voltarmos mais rápido para Santiago, compramos passagem Balmaceda (aeroporto de Coyhaique)-Santiago para termos mais folga de tempo em Aysén.

    Conseguimos em Los Antiguos um "táxi" clandestino para fazer a travessia fronteiriça por 35 mil pesos chilenos. Não estávamos afim de andar 6 km e poderíamos chegar depois do fechamento da Imigração e Aduana (19:30) no Chile (ver o primeiro relato da série sobre o Perito Moreno).

    Foi uma jornada linda por um dos melhores parques da Patagônia. No quesito estrutura o Perito Moreno é imbatível. E free! Os quatro ficamos desacostumados de dormir em tendas, viciados no conforto dos refúgios.

    Foi uma das melhores trilhas que fiz na Patagônia em todos estes anos. Não só pela companhia mas pela beleza e estrutura do lugar.

    Parabéns à Argentina, a APN (Administración de Parques Nacionales), aos guarda-parques e a Butler Parkland por este parque maravilhoso e bem conservado!

    Aqui vão dicas para o PN Perito Moreno:

    1) Possivelmente é melhor ir via Argentina, com voo até El Calafate e depois ônibus até Gobernador Gregores.

    2) Sempre contratar transporte privado para ir ao parque. Não se fie em carona. O ideal é pegar os autorizados a trafegar no Perito Moreno. Há uma boa distância de estrada de ripio entre um sendero e outro. O ideal é formar um grupo de 4 para ratear custos.

    3) Ou então ir com o próprio carro. Carro de locadora vai ficar parado boa parte do tempo no início das trilhas. Acho que não compensa.

    4) É um parque para ir com a família e crianças devido as excelentes trilhas e estrutura.

    5) Leve toda a comida e gás que precisa. Não há lugar para compras. Para todos os 3 senderos, algo como 12 a 15 dias de comida. O excesso de comida em relação ao 1° e 2° senderos vc pode deixar com os Guarda-Parques ou com o transporte privado que te resgatará. Foi o que fizemos.

    6) Numa emergência obviamente vc pode ir para uma Estância para se hospedar e comer. Mas prepare o bolso.

    7) Água fácil nas trilhas.

    8) Saco de dormir para -10° C conforto (para mulheres) ou limite (para homens). Pequei neste aspecto.

    9) Faça as reservas dos refúgios com antecedência se for em janeiro/fevereiro. Conseguimos com certa facilidade porque chegamos lá quase no fim da alta estação (final de fevereiro) e porque o parque é o menos visitado da Argentina (dificuldade de acesso).

    10) Consulte sempre a previsão do tempo antes de ir. Os guarda-parques te informam. Mas repare que é algo que só tem horizonte de 3 dias. Paulinha tinha um Grarmin inreach ou mini com atualização a cada 6 horas, salvo engano.

    11) Não tem internet ou sinal de celular em todo o parque. Conseguíamos sinal apenas no Starlink do carro da Rocio ou na Estância La Oriental.

    Peter Tofte
    Peter Tofte

    Publicado em 25/03/2026 20:07

    Realizada de 26/02/2026 até 02/03/2026

    2 Participantes

    Paula @mochilaosabatico Ramon

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    443

    1 Comentários
    Paula @mochilaosabatico 27/03/2026 11:42

    Para a perfeição só faltou o Cerro San Lorenzo ter aparecido quando estávamos na Laguna Los Tempanos. 

    1
    Peter Tofte

    Peter Tofte

    Salvador, Bahia

    Rox
    4369

    Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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