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Rastreamento de trilhas

Seguir trilha é uma das habilidades mais importantes do trekking. E se vc perdê-la?

Peter Tofte
Peter Tofte 01/12/2021 14:36

"Adiante resolvi descer para a parte seca do leito do rio que parecia ser um atalho, mais rápido e direto, sem os pedregulhos da trilha que seguia serpenteando pela encosta. Era mais liso com vários bancos de areia e barro seco. Andei um pouco e pluft! O que parecia ser barro duro na verdade era uma crosta de barro congelado cobrindo uma lama líquida por baixo, como se fosse um lago congelado. Tentei sair e pluft com a outra bota. Saí e subi para a encosta. Às vezes esqueço que uma trilha, antes de tudo, é o consenso de centenas de pessoas que passaram antes por ali e que decidiram ser aquele o melhor e mais racional caminho." Relato Quebrada de Matienzo, Parque Provincial Aconcágua, fevereiro de 2008

Uma das habilidades mais importantes do excursionismo (trekking) é saber seguir (rastrear) uma trilha. Quando é fácil apenas seguimos ela. Quando é difícil, ou tênue, temos que rastreá-la. Perder uma trilha normalmente é roubada certa no trekking.

Quem quiser realmente se aventurar sem guia deve saber ler mapa topográfico, orientar-se, saber usar bússola e GPS. Entretanto, manter-se na trilha é importante. Se sair dela provavelmente vai perder tempo. Pode até se perder. Ou ainda ser obrigado a bater facão, abrindo nova trilha, o que representa um impacto ambiental.

Mesmo usando um tracklog em GPS (ou Wikiloc ou em outrs Apps de navegação) podemos perder a trilha devido a precisão do equipamento. Já ocorreu comigo a noite. Isto porque quem fez o tracklog que seguíamos no Wikiloc marcou os pontos com um intervalo de tempo longo. Assim perdemos rapidinho a trilha num matagal. Fomos obrigados a acampar num lugar longe do ideal para esperar o dia amanhecer. Daí a importancia de saber seguir trilhas, mesmo com estes auxiliares de navegação.

Quando estou num grupo sem guia e trilha tênue, normalmente vou na frente, para rastrear o caminho, ou outra pessoa com mais experiência. Mas isto não quer dizer que já não tenhamos errado o caminho algumas vezes. Errar ensina.

Há trilhas e trilhas. Algumas fáceis de seguir e bem marcadas, as trilhas batidas. Outras tênues e sem marcação. Trilhas em ambientes bem selvagens exigem atenção redobrada. Não haverá habitação por perto para perguntar pelo caminho correto.

Exemplo de trilha batida, visivel de longe.

Da minha experiência passo algumas dicas e macetes que talvez sejam úteis.

1) Não siga a trilha cegamente. Pode ser a trilha errada! Cheque com outras referências. Esteja munido, ao menos, com uma das seguintes coisas: mapa topográfico, croquis, way points ou track log (caso tenha GPS). Anote as informações de amigos que já percorreram o mesmo trajeto. Quando não tenho estas informações, especialmente um mapa topográfico, contrato um guia.

Checando referências num mapa topografico.

2) Ao encontrar alguém vindo em sentido contrário na trilha pergunte se está no caminho correto, a distância que falta, referências, se há desvios. Isto não o diminui em nada. Humildade é o caminho da sabedoria.

3) Entretanto preste muita atenção às informações dadas, pois a gente simples do campo tem outro vocabulário, outra maneira de se expressar. Você pode entender algo diferente do que eles querem dizer. Já ouvi gente dizendo “vire a direita” e apontar para a esquerda. Infelizmente nos grotões do Brasil tem gente que não aprendeu certo o que é esquerda e direita.

4) A trilha é, sobretudo, um caminho lógico traçado por dezenas de pessoas que passaram antes de você. TRILHA TEM LÓGICA. Estas pessoas jamais vão escolher o caminho mais difícil entre dois pontos a não ser que seja o único possível. Vale a lógica do menor esforço. Assim, para cruzar uma serra, normalmente a trilha vai através de um passe nas montanhas (colo ou selado). Dificilmente vai subir num cume para depois descer. Aparecendo uma elevação no caminho, a trilha normalmente a contorna, seguindo curvas de nível. Se a rota que você segue está se tornando cada vez mais difícil (brejo, mata fechada, subida muito íngreme), suspeite de que saiu do caminho. Se for uma antiga trilha de tropeiros isto é ainda mais verdadeiro porque mulas e cavalos carregados muitas vezes não passam por lugares que um homem a pé consegue passar.

Assim, se vc perdeu a trilha lembre-se: A TRILHA TEM LÓGICA! Procure-a onde seria mais lógico (mais fácil) ela percorrer. Esta é a lição mais importante que aprendi em anos de trilha.

5) Saiu da trilha? Tente traçar de volta o mesmo caminho que seguiu desde o ponto que descobriu ter saído da trilha até um lugar que reconheça que, sem dúvida, faz parte da trilha.

6) Recomece daí tentando ver para onde a trilha vai. Especialmente em caminhos de montanha e/ou com muita vegetação, a trilha pode dar um zignau repentino. Podemos seguir em frente sem perceber o erro.

7) Nos trechos mais difíceis para navegação redobre a atenção: exemplos são os lajeados e trilhas que seguem pelos leitos dos rios. A saída e continuação da trilha, às vezes, não é logo no outro lado da laje ou do rio. Outros terrenos difíceis são aqueles com capim elefante. A distância entre uma touceira e outra do capim dá impressão que é uma trilha. Neste caso, do capim elefante, se possível, pegue uma referência, tire a direção com a bússola e siga por ela.

Ao atravessar um rio atenção a continuidade da trilha na outra margem! Voltando da Três Barras/Mucugê (foto Lucas Planeta Outdoor).

Na foto abaixo o capim cobria a trilha por cima. Apenas ao nivel do chão percebiamos o caminho.

8) Nos lajeados muitas vezes a pedra pisada está ligeiramente mais desgastada, se pode notar uma pequena diferença na cor. Atenção ao sair do lajeado e pegar terra novamente. A saída as vezes está um pouco oculta. Minha prática mostra que as trilhas percorrem o lajeado o máximo possível (porque é mais fácil) só saindo dele quando acaba.

9) Nas paradas, especialmente em pontos elevados, sempre olhe tanto à frente, tentando descobrir por onde segue a trilha (com ajuda de mapa e das referências), como para trás, para saber o caminho de volta. Lembre-se: se não sabe como seguir em frente está desorientado. Se também não sabe voltar, está perdido.

10) O amanhecer e o entardecer, com sol baixo, são ótimos para criar sombras na vegetação e no relevo e descobrir trilhas que estariam ocultas com sol mais alto. Mas para perceber isto devemos estar numa posicão mais elevada.

11) Para gravar o caminho percorrido, para voltar, vale usar o GPS, tirar fotos na máquina digital, tomar rumos com a bússola e anotar. Não confie nas pegadas deixadas. Vento e chuva rapidamente as apagam. Mas se for segui-las, conheça antes o rastro deixado por suas botas para não seguir o de outra pessoa (se está desejando retornar).

12) Perceba o padrão do chão pisado na trilha, seja em terra, na vegetação, nas pedras e lajes. Isto vai acostumá-lo com pequenas nuances que o ajudam a descobrir a trilha em terrenos difíceis. Em trilhas pouco percorridas as vezes apenas o capim pisado indica o caminho.

Esta trilha está mais tênue, embora ainda fácil de seguir.

13) Em locais com bifurcações e/ou vários caminhos, paralelos (típico de caminho de gado), normalmente é melhor seguir o mais batido e que vai na direção que você deseja. Sendo o caso de trilhas paralelas de gado, siga aquela que tiver pegadas de gente, especialmente botas de trilha.

Trilha que provavelmente é caminho de gado.

14) Às vezes o que aparenta ser o rumo mais direto na verdade não é o caminho. Pode haver uma grota, brejos e outros obstáculos. Assim não se espante se a trilha aparentemente tomar outra direção. Pode estar apenas contornando alguma dificuldade do terreno. Mas lembre-se: depois de algum tempo a trilha tem que retomar a direção pretendida!!

15) Um famoso e experiente caminhante disse: estar perdido é um estado de espírito. Se você tem habilidades mínimas de navegação e, ao menos, sabe sua posição aproximada, na verdade não está perdido. Apenas saiu da trilha.

16) Se começar a sentir pânico, pare, sente e respire fundo. Não adianta nada seguir neste estado. Só vai piorar as coisas.

17) Respeite as condições meteorológicas. Chuva e neblina dificultam muito a navegação e seguir trilha a não ser que ela seja muito batida. Acampe ou se abrigue e espere o tempo melhorar. Considere até desistir da caminhada.

Cânions do RS com viração. Nestas condições é fácil perder a trilha. Melhor parar. Só prosseguir com GPS ou Wikiloc. Há um abismo oculto na névoa.

18) Se estiver irremediavelmente perdido procure encontrar um riacho ou rio e descer o seu curso. Além de ter água, mais cedo ou tarde encontrará gente. Mas, por vezes, é a pior opção porque alguns rios, especialmente em montanhas e cânions, tem trechos intransponíveis (cachoeiras por exemplo). Avalie com cuidado. Seguir rios é melhor em terreno plano.

19) Outra opção é subir num ponto alto acessível que dê para descortinar uma ampla vista.

20) Ao planejar uma caminhada procure memorizar as referências mais importantes, os marcos principais do trajeto. Procure também planejar uma rota alternativa de fuga (plano B), um atalho, se algo der errado.

21) Muitas vezes a trilha no chão está apagada mas cortes de facão nos galhos e ramos indicam que a passagem é por ali. Quanto mais recente, melhor.

22) Mato fechado significa que errou o caminho ou a trilha não existe mais. Já tentei seguir trilhas indicadas em mapas que não existiam mais. Desisti. Aqui no Brasil, com clima tropical, a vegetação cresce muito rápido e fecha rapidamente a trilha sem uso. Isto também depende muito do solo. Quanto mais pedregoso o solo mais a trilha subsiste.

Trilha chegando na cachoeira da Lavra Velha. O chão é de pedrinhas de quartzito branco. Esta trilha, mesmo que seja abandonada, vai subsistir por muito tempo.

23) Nas matas, por vezes, encontramos trilhas estreitas, feitas por pequenos mamíferos (pacas, cotias, tatus). Não adianta seguí-las. E são trilhas para animais baixos, com vegetação espessa em cima.

24) Se pretende retornar por onde foi deixe marcas em pontos-chave, como totens de pedra, galhos atravessados e outras sinalizações. Evite usar plásticos e outros elementos não naturais do ambiente.

25) Se estiver procurando uma trilha que viu numa foto de satélite, procure andando em zig zag na área que supõe que ela esteja. Se estiver acompanhado, os companheiros devem seguir numa frente em linha de modo a cobrir a maior área possivel. Isto vale também se acaso você perdeu a trilha.

26) Em poças de lama e pontos com areia na trilha observe pegadas de animais nestes lugares (os rastros ficam mais visíveis nestes pontos). Animais selvagens também gostam de usar trilhas! Já vi rastros de uma sussuarana e seu filhote numa trilha a apenas 7 km da cidade de Mucugê na Chapada Diamantina. É sempre interessante saber que espécies transitam na região!

A prática é a melhor professora. Boa sorte!

Crédito da maioria das fotos: Cristina Macedo e Rodrigo F. de Oliveira.



7
Rodrigo Oliveira
Rodrigo Oliveira 01/12/2021 14:49

Utilizamos muitas dessas habilidades nesta última empreitada pelo água suja, mocotó... muito bom, como de costume!

Fabio Fliess
Fabio Fliess 01/12/2021 17:10

Dicas de ouro Peter!! Muitas são velhas de guerra, mas que sempre valem a pena repetir.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 01/13/2021 08:22

"Trilha tem lógica". Matéria completíssima!!

Peter Tofte
Peter Tofte 01/13/2021 13:29

Valeu Rodrigo, Fabio e Bruno!

Peter Tofte
Peter Tofte 01/13/2021 13:36

Se tiverem outras dicas acrescento na matéria com a autoria!

Jose Antonio Seng
Jose Antonio Seng 01/13/2021 19:38

Muito boas dicas !

Peter Tofte
Peter Tofte 02/22/2021 11:57

Valeu Seng!

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
1985

Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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