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Kilimanjaro via rota Rongai - Hakuna Matata!

Kilimanjaro via rota Rongai - Hakuna Matata!

Relato de expedição ao Monte Kilimanjaro, realizada em setembro de 2018.

Mountaineering Trekking High Mountaineering

Aproveitando o período de isolamento social para botar em prática a ideia de compartilhar relatos das aventuras na plataforma AventureBox. Inicialmente vou postar alguns textos já publicados no Boletim do Centro Excursionista Brasileiro - CEB. Para complementar e trazer algo novo, compartilho algumas fotos não publicadas no Boletim.



Relato publicado no Boletim do Centro Excursionista Brasileiro, edição Novembro/Dezembro de 2018. Disponível em www.ceb.org.br.



Os Massais são povos tradicionais com presença marcante na região central da Tanzânia, país do leste africano. São povos originalmente nômades, costumam vestir um manto vermelho ou azul característicos e vivem da criação de bovinos e caprinos. Assim como os animais africanos, seu habitat é fora dos ambientes urbanos, muitas vezes dividindo espaço com os gigantes selvagens.

Na região central da Tanzânia, os Massais são tão comuns quanto as zebras e os gnus, animais com grandes populações. Esses animais vivem em áreas selvagens, inseridos ou não em unidades de conservação e, assim como os tribais, chegam a percorrer quilômetros em busca de água para subsistência.

Os Massais e os animais selvagens africanos possuem algo bastante comum com os montanhistas do mundo inteiro que vão até a Tanzânia para subir ao monte Kilimanjaro: a resiliência. Atacar o cume do Kilimanjaro (Uhuru Peak é o ponto mais alto do continente africano, com seus 5895 metros acima do nível do mar), requer a capacidade de se adaptar às diferentes situações existentes em seu trajeto.

Em setembro de 2018, me juntei a outros dez ceebenses e mais um amigo do sul do Brasil para encarar a missão de ascender ao teto da África pela rota Rongai. Foram necessários alguns meses para a concepção da expedição, planejada pelo sócio Marcelo Morgado e guiada pela Cláudia Bessa.

Chegamos em Arusha, cidade de onde partem as expedições ao Kilimanjaro, no dia 09/09, data anterior ao início da expedição. Houve uma reunião prévia com o guia local para as instruções iniciais e o check de equipamentos. No dia seguinte, acordamos cedo para tomar um café reforçado, o último antes do início da expedição. Partimos em direção ao Kilimanjaro National Park pelo portão Rongai, próximo à fronteira com o Quênia. A viagem durou cerca de cinco horas e fomos contornando a montanha conforme nos aproximávamos. Após a distribuição de volume e peso entre os carregadores, iniciamos a caminhada. Percorremos uma trilha leve por duas horas, totalizando pouco mais de 4 km de distância e vencendo cerca de 300 metros de altitude no primeiro dia.

Escalação pronta para o início da expedição. Em pé, da esquerda para a direita: Luciano Jamas, Alan Braga, Yvana Pereira, Marcos Bugarin, Cláudia Bessa e Luciano Monteiro. Sentados: Rafael Damiati, Alda Ramos, João Mollica, Kleber Trabaquini, Celeste Viana e Marcia Pinheiro

O Simba Camp, local do primeiro pernoite, está situado a 2671 metros de altitude. Já nesse primeiro dia, alguns sentiram uma leve dor de cabeça. Como a altitude não era significante, atribuímos o desconforto ao jet leg e remédios para dor de cabeça resolveram o problema. Ao final do primeiro dia, passada a ansiedade de estar na montanha, nos concentramos para colocar em prática tudo que foi estudado e planejado nos meses anteriores. Caminhar em ritmo cadenciado, hidratar-se e alimentar-se adequadamente e ter boa dose de paciência. A temperatura estava agradável nesse primeiro dia, sem a necessidade de segunda camada térmica. A noite, antes de dormir, o termômetro registrava 12º C. Frio agradável, mas que seguramente pioraria nos acampamentos seguintes.

No segundo dia da expedição já acordamos, naturalmente, antes do horário combinado, conforme o dia começou a clarear. A disposição geral do grupo era boa, mas alguns relataram dificuldades para dormir. A reação parecia mais ser um misto de ansiedade e alimentação diferente do que pela altitude, que ainda era baixa. Fato é que esta foi a primeira experiência em alta montanha de boa parte do grupo. Após o café e reabastecimento individual de água, houve a apresentação da equipe local envolvida na expedição. Eram 46 pessoas, sendo um guia principal, cinco guias auxiliares, trinta e sete carregadores, um cozinheiro e um auxiliar de cozinha e um responsável pela logística do banheiro. Para nos receber de forma calorosa, eles cantaram e dançaram músicas típicas, animando bastante o grupo para seguir a caminhada.

Seguimos para o Second Cave (3450 metros de altitude) realizando 4:30 horas de caminhada, um ritmo bastante tranquilo, fundamental para guardar energias e permitir o processo de aclimatação. Após chegarmos no acampamento, almoçamos e descansamos. No final da tarde, fizemos uma caminhada de aclimatação (ascensão de 150 metros) e voltamos para o jantar. A segunda noite foi um pouco mais fria e o termômetro registrou 5º C dentro da barraca.

Nossas barracas no Second Cave, com o Kibo em segundo plano

No terceiro dia, partimos em direção ao Kikelewa Camp (3600 metros de altitude), com ganho de cerca de 200 metros de altitude. Ainda assim, o trecho caminhado foi maior do que os dias anteriores, totalizando cinco horas de atividade. O ritmo foi sempre muito tranquilo, seguindo o quase mantra dos nativos “pole pole”, que em suaíli significa devagar devagar. A estratégia era ir lento, poupando energia para o dia de ataque ao cume, o mais longo e exigente da expedição.

No quarto dia da expedição ultrapassamos os quatro mil metros de altitude. Saímos de Kikelewa e fomos até o Mawenzi Tarn Hut, situado a 4315 metros acima do nível do mar. A distância percorrida foi de aproximadamente 3,5 km, percorridas em pouco mais de 4 horas. Para quem faz caminhadas em baixa altitude, como as nossas aqui no Brasil, esse ritmo parece muito lento. Mas a verdade é que a estratégia adotada pelos guias acabou tendo efeito positivo no dia do cume. No final da tarde do quarto dia fizemos nova caminhada de aclimatação que durou uma hora e meia, com ascensão de 150 metros, e ganhamos uma visão espetacular do Kibo (a parte do Kilimanjaro que tem a forma de vulcão) e do imponente Mawenzi. Voltamos para o jantar, sempre precedido pelo check das condições de saturação de oxigênio e pulso de cada participante. Essa foi a noite mais fria de acampamento. O termômetro dentro da barraca registrou 1,3º C e o gelo do lado de fora pela manhã nos certificou que a temperatura realmente esteve abaixo de zero.

Grupo reunido após uma caminhada de aclimatação e o belo Mawenzi ao fundo

Na manhã do quinto dia progredimos ao Kibo Hut (4720 metros de altitude), o campo base das rotas Rongai e Marangu. Ao entrarmos no último vale antes do Kibo, tivemos a espetacular visão do vulcão desde sua base. Fomos também recebidos com bastante vento e frio, pela constante obstrução da luz do Sol pelas nuvens. A caminhada durou quase seis horas, respeitando as paradas e as passadas pole pole. Chegar no acampamento base foi emocionante por si só, mas ainda tinha muito por vir. Tiramos fotos, assinamos o livro de registros e logo fomos em direção às barracas para comer e descansar. No final da tarde tivemos o check de final de condições pessoais, seguido do briefing de ataque ao cume e jantar. Tudo combinado e partimos para o descanso...enfim era chegado o grande momento!

Empolgados com o visual do Kibo e a proximidade do acampamento base

Após tomar um chá quente e comer alguns biscoitos, partimos para o ataque ao cume por volta de meia-noite do dia 15/09. Logo no início já avistávamos o cordão de luzes das lanternas dos que estavam subindo, ziguezagueando, a perder de vista encosta a cima. Fizemos uma parada no Williams Point (marco dos cinco mil metros de altitude) e depois na Hans Meyer Cave (5150 metros). A partir dai começaram os maiores desafios. A temperatura foi caindo conforme subíamos e rapidamente já estávamos abaixo de zero. Alguns participantes começaram a sentir os efeitos da altitude com mais intensidade. Náuseas e dor de cabeça eram sintomas frequentes, além das paradas mais demoradas e do aumento da sensação de frio. Os que começaram a sofrer mais precisaram sentar, respirar fundo e, acima de tudo, colocar a cabeça no lugar. Nesse momento, o grupo já havia se dividido em três, de acordo com as condições dos participantes. Isso resultou também nos diferentes horários de cume dos colegas.

Prosseguimos firmemente em direção ao Gilman’s Point (5685 metros de altitude), numa subida cada vez mais fria e cansativa, onde fomos brindados com um lindo amanhecer. Nesse ponto o termômetro indicava -8,5º C, a menor temperatura registrada em toda a expedição. Não podemos negar que a época do ano foi bem escolhida e o tempo nos ajudou muito. Desse ponto em diante foi só emoção...Ver a cratera do vulcão, totalmente coberta pela neve foi absolutamente incrível. Seguimos o caminho ao cume, passando pelo Stella Point (5756 metros de altitude) antes de finalmente atingir o Uhuru Peak.

Levando a bandeira do CEB mais uma vez ao cume do continente africano

Alan, Bugarin e Kleber no teto da África

É impressionante como a emoção toma conta nesse final. Pensamos em muitas coisas, muitas pessoas, e refletimos sobro todo o esforço para chegar ali. O horário de cume variou entre os participantes, mas entre 07:30 e 09:00 estivemos lá. E ficamos muito felizes por levar a bandeira do CEB para lá novamente. A descida “esquiando” pelas morenas (também conhecida por esqui boliviano) é muito divertida e rápida. Por volta de meio dia todos já tinham voltado ao acampamento base. Tivemos tempo pra comer, descansar um pouco e logo percorrer 9 km até o Horombo Hut (3720 metros de altitude), acampamento que faz parte da rota Marangu (também conhecida como rota Coca-Cola, a mais popular e comercial). O dia do cume começou cedo, acabou tarde e nos impôs percorrer maior distância do que os dias iniciais, totalizando cerca de 27 km.

Um grupo feliz e contente no final da expedição

Acampamos a última noite no Horombo Hut e lá a aventura já tinha uma cara de fim, restando apenas os 20 km do dia seguinte para encerrar no portão do parque. Nossa expedição terminou com 73 km caminhados e ganho de altitude de mais de 4700 metros. Para celebrar nossa conquista, mais música e dança com os nativos...e por que não arranhar o suaíli? Impossível não ficar com aquela canção na cabeça...

Jambo! Jambo bwana! / Olá! Olá senhor!

Habari gani? Mzuri sana! / Como está? Muito bem!

Wageni, wakaribishwua! / Visitantes, vocês são bem-vindos!

Kilimanjaro? Hakuna matata / Kilimanjaro? Não há problema!

Rafael Damiati
Rafael Damiati

Published on 03/24/2020 10:54

Performed from 09/10/2018 to 09/16/2018

1 Participant

Kleber Trabaquini

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520

4
Fabio Fliess
Fabio Fliess 03/24/2020 11:01

Sensacional. Deu saudades desse lugar. Parabéns pela conquista!

Rafael Damiati
Rafael Damiati 03/24/2020 11:06

Valeu Fabio! Quem foi sabe que lá é realmente um lugar especial.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 03/24/2020 13:25

Adorei o Pole Pole. Parabéns, irmão. Seja bem vindo. Bora girar essa plataforma e o mundo Outdoor de textos legais.

Rafael Damiati
Rafael Damiati 03/24/2020 13:51

Valeu Bruno! Me inspirando em vocês que já fazem acontecer por aqui já há algum tempo. Tmj 👊🏼