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Cabeça do Dragão

Cabeça do Dragão

Subida solo ao Cabeça do Dragão no Parque Estadual dos Três Picos - Salinas - Nova Friburgo - RJ em 20/10/2020.

Hiking Mountaineering

Essa foi a minha segunda vez nesse lugar maravilhoso que é o Vale dos Deuses. Fui sozinho pra lá e me hospedei dessa vez no Refúgio Três Picos do Zezin. Da primeira vez eu havia ficado no Mascarin, que é mais próximo do parque, mas como pra subir até lá, é preciso ter um 4x4, acabei ficando mais embaixo desta vez. Estava na cota de 1.200 m de altitude. Pro cume do Cabeça do Dragão seriam aproximadamente 800 metros de ascensão. Arrumei a mochila, preparei minha janta e quando estava me preparando pra deitar, reparei uma mariposa enorme que ficava batendo no teto e caindo algumas vezes na cama. A bicha tinha cerca de 10 cm, e não me senti confortável de dormir na sua companhia. Fui no carro, peguei o dormitório da barraca e montei no corredor da cozinha. Quando fui ver a hora, já passava das 23 h e eu teria que acordar às 2 h da manhã pra ter alguma chance de ver o sol nascer, já que ele nasceria as 5:15 da manhã. Adormeci rapidamente e acordei antes do despertador tocar, às 01:40. Estava mesmo ansioso. Desmontei o dormitório, calcei a bota e as 1:50 estava iniciando a caminhada.

Logo na saída do refúgio algumas situações inusitadas aconteceram. O cachorro do Zezin começou a me seguir, abanando o rabo e parecia que eu teria uma companhia para fazer a trilha. De repente ele solta um choro e volta rapidamente pro refúgio com o rabo entre as pernas. Daí a pouco minha lanterna capta um par de olhos na beira da cerca e quando eu jogo a luz pude perceber a imagem de um felino se abaixando. Não era muito grande mas foi bem assustador. Mais alguns metros e mais um par de olhos acompanhando meu progresso de cima de uma árvore. Tudo bem, era só uma coruja. Mais adiante vejo três pares de olhos na estrada e como eu já imaginava encontrar pelo caminho, eram três bovinos no meio da estrada por onde eu teria que passar. Ficaram parados, olhando atentos. Eu tinha que traçar um plano rapidamente para me livrar deles e tive a ideia de subir no lado mais alto da estrada, atravessar a cerca e ir margeando-a até ter passado por eles. O problema era que havia uns charcos no pasto, mas não tinha outra opção. Só que pra minha surpresa os bovinos começaram a descer a estrada correndo assustados. Aí não tive dúvida, pulei a cerca de volta pra estrada e fui tocando eles, batendo no bastão e gritando até chegar numa bifurcação onde eles seguiram a estrada oposta à que eu deveria seguir. Passado o susto, pude me concentrar na caminhada que já começava a ganhar altitude em direção ao Parque Estadual dos Três Picos. Cheguei na pedra do Sofá, primeiro local de descanso às 3:30 e ali já pude perceber que não chegaria a tempo de ver o sol nascer. Pelo menos não do cume. Mas, por um outro lado, seria bom fazer o último trecho no claro. Assim que a temperatura do corpo começou a cair, me preparei novamente e retomei a caminhada. Cheguei ao Vale dos Deuses e resolvi comer uma banana, já que dali seria uma tocada, de 1:30 até o cume. E as 5 horas da manhã, consegui chegar até um mirante onde dali já seria possível contemplar o nascer do sol. Só que estava completamente fechado o tempo. Meu campo de visão não alcançava além do que 10 metros. Já começava a clarear e percebi que meu senso de orientação estava perdido. Se eu subia de costas pros três picos o cume deveria ficar à minha esquerda mas o GPS apontava pra direita. Fiquei sem entender muito mas segui o aparelho que realmente estava certo. Pelo visto o acesso a parte rochosa da montanha se dá pela sua face leste. Em algum momento a trilha na mata cruza de um lado pro outro. O trecho final foi dentro de muita cerração, e fiquei bastante apreensivo mas continuei, uma vez que tinha um GPS, pilhas, e na pior das hipóteses poderia acionar o SOS do meu SPOT.

Chegando no cume, às 5:30, pude perceber pela primeira vez porque que se chama Cabeça de Dragão. Na pedra mais alta existe uma falha geológica, talvez provocada pela queda de um raio, que tem realmente o formato da cabeça de um dragão.

Estava bastante fechado e caia uma garoa. Fiz um vídeo rápido e resolvi procurar um local mais abrigado do vento.

Era um cenário bem assustador, me senti no filme do Gabriel e a montanha nesse momento. Localizei o livro de cume mas como precisava me aquecer, resolvi voltar pra assiná-lo depois.

Sentei mais abaixo num local onde a vegetação protegia do vento e comecei a colocar as camadas de fleece e o casaco de pluma. A sensação térmica era baixa por causa da garoa e do vento e coloquei a camada impermeável também, protegendo meus pés na capa de chuva da mochila. Sentei em cima da bag do camelbag, que é térmica e isolou o frio do chão e comecei a preparar meu café.

Depois de bem alimentado e aquecido, pude dar uma boa relaxada, na esperança que o tempo abrisse. Mas não aconteceu, e pelo contrário, parecia que estava piorando. O vento mudou de direção e começou a pegar onde eu estava deitado. Era hora de bater em retirada mas antes a missão penosa de ir lá no cume assinar o livro. Nessa hora rolou uma tensão porque o vento só piorava, o que pode suceder em duas coisas. Ou o tempo limpava ou poderia piorar. Fiquei um pouco nervoso e na minha pressa pra assinar logo e sair fora, acabei quebrado a tampa da urna. Já comuniquei esse incidente ao CET que irá providenciar a substituição. No nervosismo nem consegui pensar direito no que escrever. Mas assinei e meti o pé dali, pois precisava agilizar minha descida.

Na descida eu estava um pouco nervoso e aí o psicológico teve que atuar. Pedi a mim mesmo para manter a calma e no final correu tudo bem. Sem maiores percalços, consegui chegar em segurança no Refúgio.

Agradeço a Deus pela proteção divina e por poder estar tão próximo da sua obra e comungar desse sentimento de pertencimento à algo maior.

Namastê!

Ricardo Ávila
Ricardo Ávila

Published on 10/23/2020 13:00

Performed on 10/20/2020

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Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 10/26/2020 10:01

Muita diversão nessa trilha, Ricardo. Bom te ver na montanha.

Ricardo Ávila
Ricardo Ávila 10/26/2020 10:16

Obrigado Bruno, é bom estar de volta!