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Rota Z: travessia Lavras x Carrancas

Trekk de 4 dias e 3 noites entres as duas cidades, um total de 55 km. Trilha repleta de cachoeiras fabulosas.

Trekking Mountaineering

Eai galera, aqui relato minha primeira experiência em publicar uma aventura própria. Espero que gostem e não esquecam de me criticar nos comentários!

O resumo de informações está final!

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Era dezembro de 2018, eu estava no 4º ano da universidade e mais uma vez consegui reunir alguns amigos que toparam uma travessia maluca: a pouco conhecida Rota Z. Um caminho que sempre nos despertou curiosidade pela imensidão e beleza da serra, as diversas cachoeiras e a dificuldade em percorrer todo o trajeto sem ter alguém com experiência na trilha.

Depois de um semestre com as matérias mais puxadas da universidade e uma vontade enorme de ir para o silêncio da montanha, decidimos fazer uma aventura na nossa região e acabamos escolhendo pela travessia Lavras x Carrancas (Rota Z), região onde estudamos. Era uma rota com somente 2 relatos disponíveis na internet e muito pouco conteúdo sobre. Aliás, a travessia é conhecida como Rota Z pois a cadeia montanhosa forma um Z, e é possível ver pelas imagens de satélite.

Tive o prazer de estar acompanhado pelo Rafael, Wagner (Judô) e Wigor (Zidane). Eram amigos que já possuiam equipamentos mas, como eu, estavamos meio que iniciando no mundo outdoor. Na época, ainda eramos estudantes de engenharia (florestal e civil) e morávamos no mesmo alojamento da universidade.

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Evitarei descrever informações de pontos durante o caminho (água, acampamentos, etc), pois tudo já está resumido no tracklog. Visite o link do wikiloc no final do texto, que lá é descrito.

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1º dia

Para iniciar a trilha, tivemos que tomar um ônibus da cidade de Lavras até o Parque Ecológico Quedas do Rio Bonito (5 reais). De lá iniciamos o caminho em uma porteira - o primeiro kilômetro é em propriedade privada, mas o proprietário já é acostumado a receber trilheiros.

Como a maioria de trekkings em montanhas, o primeiro dia é um dos mais pesados. Pois o ganho de altitude é absurdo e é o dia em que nós estamos mais pesados (~12kg). E nessa travessia não é diferente.

Além disso, o bioma da região é o cerrado com transição para a Mata Atlântica. Assim, a paisagem no pé da montanha é de floresta densa e no topo da montanha de vegetação rasteira.

Antes de começar a trilha, levamos em consideração atravessar a Serra do Campestre e terminar o dia acampados na Cachoeira do Paraíso. Logo, tinhamos um longo caminho a percorrer.

Nesse dia, caminhamos em trilhas de gado sem sinalização nenhuma. Se caso você fizer esse trajeto, atente-se sempre às bifurcações em cima da serra pois como o sinal de satélite para o celular não era dos melhores, nos perdemos várias vezes. E, como você deve saber, se perder sempre é chato e desgastante pois todos estamos cansados e imaginar que caminhamos atoa é desmotivante. Assim, prepare-se e imprima a rota em tamanho aumentado.

Fique atento à agua, pois no primeiro dia há um ponto de coleta no início e outro no final. No meu caso, levei 4 litros de água para caso não chegar na cachoeira.

Além de muros de pedra levantados no séc. XIX por escravos, pequenos animais selvagens (principalmente aves) e a caminhada em alta montanha, o primeiro dia não reserva grandes atrações.

Assim, por volta das 18:00, chegamos na cachoeira do paraíso, lugar incrível e com uma vibe que sentíamos muita saudade desde quando acampamos 1 ano antes.

Cachoeira do Paraíso, poço de cima.

 

2º dia

Nesse dia, nossa meta era chegar na Cachoeira das Aranhas. Mas como tudo na vida não é flores, não esperavamos que o maior ganho e perda de elevação que enfrentariamos na vida estava por vir.

Brincamos as primeiras horas da manhã nos dois poços da cachoeira (a água estava fria pra porra) e, assim, as quatro tartarugas sairam as 11:00 pensando chegar no destino final lá para as 17:00.

Os quatro pateta.

Logo no início, passamos por uma teia gigante de aranhas!!! Sei lá, ela devia ter uns 10 metros de extensão com umas 200 aranhas gigantes. Foi a coisa mais espetacular no mundo animal que presenciei na vida!

Depois, entramos no Cânion da Pirambeira pelo trilho de trem para tirar umas fotos. Em baixo do cânion, corre o Rio Capivari. Lugar muito bonito para uns clicks, principalmente quando temos um modelão desse de calça caindo.

 Wigor, 1º lugar no Segredos UFLA.

Depois do caniôn, subimos o primeiro desafio do dia: a Serra da Estância. Uma subida nada fácil, mas possível de ser feita com uma dose de alegria e força nos pé.

Como o primeiro pico era um dos mais altos da travessia, podiamos ver toda a Serra do Campestre, que atravessamos no dia anterior, e mais outras 4 serras que iriamos atravessar em mais 3 dias.

Rafael, Serra da Estância.

Nesse dia, há uns 4 pontos de coleta de água intercalados (tudo descrito no tracklog) e como há muitas subidas e descidas, não perca energia carregando muita água, cuidado.

A paisagem é incrível na Serra da Estância. Tivemos a oportunidade de caminhar por lugares poucos visitados e estar de frente com algumas formações rochas de encher os olhos. E, tudo isso, no silêncio da montanha. Lugar de escape para cada um de nós. Lugar para refletirmos sobre nossas vidas. Lugar para conhermos mais sobre o nosso eu interior. E isso, dinheiro nenhum poderia comprar.

Lembra que nossa previsão de chegada era as 17:00? Então, chegamos numa casa abandonada no meio do caminho as 18 e começamos a nos preocupar. O sol já tinha se escondido nas montanhas que deixamos para trás e ainda havia muito caminho a percorrer. Além disso, nosso grupo estava cansado de caminhar depois de 7 horas no sol (sendo que já tinhamos caminhado 8 hr no dia anterior).

Olhamos o mapa novamente e calculamos mais 3 horas de caminhada. Uma grande parte de mim dizia para montar acampamento ali mesmo. Mas lá no fundo eu sabia que tinhamos de continuar. Nos reunimos, e, depois de uma boquinha com algumas ideias trocadas, decidimos correr o risco e continuar a trilha até a cachoeira.

Pomos as nossas headlamps na cabeça e lá, no meio do nada, estava os quatro patetas a caminhar no meio do breu. Nossas pernas doiam, nossa mente já estava exausta e as mochilas pesavam. Queriamos logo chegar no destino e montar acampamento.

E incrivelmente às 22:00, depois de 11 horas de caminhada, chegamos na tal Cachoeira das Aranhas. Nunca, mas nunca na nossa vida haviamos nos desgastado tanto em um dia. E se valeu a pena? Sinceramente não sei. Talvez deviamos ter acampado na casa abandonada, talvez não. A única coisa que sabiamos era que esse dia foi uma provação mental e física para cada um de nós.

 

3º dia

 

Se você mora na região de Lavras ou estiver visitando, a Cachoeira das Aranhas é aquele destino escondido de tudo e que pouca gente frequenta. Uma das cachoeiras mais bonitas que visitei na vida. Se tiver oportunidade, visite-a.

A vista que temos de lá é da próxima foto. Podemos ver a Serra do Galinheiro e a Serra de Carrancas a sudoeste. A cachoeira em si é um pouco escondida na parte de cima do camping. Ela é formada por um poço maior com uma pequena queda. Mas o melhor de lá, na verdade, é a vista e as outras mini piscinas que são formadas depois da cachoeira (logo ao lado do camping). Nem preciso falar porque se chama Cachoeira das Aranhas, não é? hahahah

Ao fundo, a Serra do Galinheiro e a de Carrancas.

Aproveitamos bastante a manhã e o lugar. Acabamos saindo tarde de novo, mas com a noção de que acampariamos quando desse 17:00 - 18:00.

Olhando o mapa com mais cuidado para não cometer o mesmo erro do dia anterior, decidimos ter como meta do dia atravessar a Serra do Galinheiro, subir a Serra de Carrancas e acampar lá no alto para ver o famoso vôo dos passaros pela manhã do dia seguinte.

Os primeiros kilometros que caminhamos foram em estrada de barro, por onde os carros passavam. Seguimos nesse caminho até a Serra do Galinheiro. Antes de subir, nos depararamos com a Igrejinha Jacarandá, descrito lá no tracklog, e viramos à esquerda para atravessar a serra. Contudo, depois de voltar para casa  e pesquisar uns caminhos alternativos, vemos que ao virar à direita na igrejinha tomariamos um caminho melhor para subir a serra e de cara conheceriamos a Cachoeira da Andorinhas. Minha dica para você que vai percorrer esse caminho, é seguir essa instrução. Não esqueca de me dizer como foi.

Ao começar a subir a Serra do Galinheiro pensamos em nos abastecer com 3 litros de água cada um, não sabendo o que viria pela frente. Encontramos uma pequena casa no pé da serra que estava em construção e decidimos chamar alguém por lá para pedir água. Ninguem respondia. Então o Rafael entrou pela parte de trás da casa para ver se tinha alguma bica fácil para encher nossas garrafas. Rapidinho ele voltou com as garrafas cheias. Em seguida foi o Wigor buscar água. Nesse momento, enquanto ele estava lá atrás da casa em construção, ouvimos um barulho de moto e diversos cachorros vindo em nossa direção. Puta que pariu, pensamos. Vamos ser presos por invadir propriedade privada, a casa caiu. Começamos a nos desesperar porque não tinha como gritar para o Wigor sair de lá.

A moto chegou com o nosso amigo ainda dentro da casa. O motoqueiro era um boiadeiro da nossa idade com seus cachorros de roça. Me apresentei junto com o Rafael, morrendo de medo, e falamos que eramos trilheiros e estavamos em direção a Carrancas. O homem, que estava todo desconfiado com a gente (não era todo dia que isso acontecia, não é) disse que o caminho que estavamos fazendo era o certo. A família dele vivia em uma casa perto e ele pensava que o dono da casa em que estavamos tinha chegado. De cabeça mais tranquila, seguimos em frente.

Em cima da Serra do Galinheiro, encontramos essa pegada maior que nossa mão.

É hoje que iriamos morrer, brincavamos desesperados. Cogitamos em tudo quanto é tipo de animal tinha passado por ali (urso, elefante, dinossauro, sei lá) e acabamos chegando na conclusão que era uma onça parda, típica da nossa região. Enquanto seguimos o rumo da trilha, que era o mesmo que o animal passou, tiramos tudo quanto era faca de nossa mochila e cada um olhava para uma direção diferente, morrendo de medo.

Cruzamos a cachoeira do galinheiro e nada do animal. Ficamos mais aliviados logo depois. Ao chegar em casa, descobrimos que essa pegada não poderia ter sido de uma onça. Mas o mistério continua até hoje, rsrs.

Era 17:00 quando finalmente atravessamos o mar de eucaliptos que acabamos nos perdendo lá dentro. Depois, fomos de encontro à uma fazenda que tinha um pessoal. Pedimos um pouco de água e tiramos algumas informações. Conhecemos o simpático Tirulipa, um trabalhador da fazenda - não lembro o nome dele, mas era algo do tipo. Esse senhor nos indicou tomar um outro caminho para subir a serra e acampar numa casa abandonada perto de onde morava. Pensamos bem e aceitamos a ideia. Seu Tirulipa ia nos guiar até onde iriamos ficar, mas pediu para adiantarmos e seguirmos caminho a pé até a saída da fazenda que logo depois ia nos alcançar de cavalo.

No caminho de saída da fazenda, chegava um gado liderado por um boi de 5 metros de altura com uns chifres de 3 metros de diametro. Nunca vimos algo igual! Ele nos encarava bufando e a gente cagava de medo. Era uma situação onde estavamos indo caminho opostos, nós saíndo e o gado chegando. Não sabiamos o que fazer, pois o lugar era bem estreito. Quando o boi golias tomou a iniciativa de ir na nossa direção, Rafael foi o primeiro a deixar as coisas e tentar atravessar a cerca, o homem ficou preso nos arames. Me escondi atrás da porteira e rezei para que o bicho não enfezasse comigo, que situação hilária minha gente! A boiada passou, ufa.

Depois de 1 hora de caminhada com seu Tirulipa no cavalo, encontramos a casa abandonada e ali montamos acampamento. A casa ficava logo em baixo da Serra de Carrancas.

 Algo que nunca esquecerei na minha vida: o que passamos essa noite. Como vemos nas imagens acima, as nuvens não estavam anunciando chuva, nem ventando estava. Mas parecia que o mundo ia cair durante a noite.

Aconteceu que ao preparar a janta com nosso fogareiro, começamos a ouvir barulhos absurdos de trovões e nada de chuva. Era já 21:00 e enquanto estavamos comendo nossa sopa com macarrão com bacon com calabresa com goiabada com banana, começou a chuviscar e pulamos para nossas barracas deixando nada de fora.

As vezes ficava curioso e tirava a cabeça da barraca para ver o que estava acontecendo. Os trovões eram tão intensos que era possível enxergar toda a serra no breu da noite. Era um atrás do outro, não parava. Logo depois, a chuva chegou com mais força onde estavamos e só  podia rezar para que nada de fatal nos atingisse. Para ter ideia, era possivel ver tudo dentro da barraca com os clarões.

Lembro bem que quando fui apagando de sono, imaginei seu Tirulipa como um anjo de Deus enviado para nos tirar do caminho e não acampar em cima da serra. Uma gratidão imensa tinha surgido dentro de mim em dedicação àquele homem simples. Quem sabe o que seria de nós hoje se tivessemos subido a serra.

 

4º dia

 Acordamos cedinho decididos terminar a trilha naquele dia. Tomamos nosso café bem rápido e paramos num riacho logo em seguida para lavar tudo que estava sujo e tomar um mini banho.

Depois de 20 min de caminhada para encontrar o tal caminho escondido para subir a serra, nos perdemos diversas vezes. Passamos por florestas densas e infelizmente perdi meu isolante térmico sem perceber.

Depois de 1 hora de caminhada em lugares que nem tinha trilha, encontramos um caminho de cavalo. Seguimos por ele para ver onde daria. Depois de 2 horas de subida intensa, finalmente tinhamos conquistado o último grande desafio que nos faltava: a Serra de Carrancas.

Lá em cima decidimos improvisar na rota de volta para casa. Em vez de continuar em cima da serra até o asfalto e de lá pegar um circular para Lavras, optamos em descer do outro lado para conhecer a Cachoeira da Esmeralda. Fizemos esse trajeto em 2 horas e não nos arrependemos. A cachoeira foi um dos lugares mais espetaculares que vimos na travessia e na vida. A água é da cor e do brilho de uma esmeralda, além de ser cristalina. O poço é grande e bom de nadar. A pequena queda fazia uma massagem muito gostosa nas nossas costas. Estavamos precisando!

Algumas pessoas que estavam na cachoeira perguntaram qual era o motivo de tanto equipamento, quando explicamos o que tinhamos acabado de fazer, todos ficavam com queixo caido. Ninguém acreditava.

Lá mesmo conhecemos um casal que nos deu carona até a cidade de Carrancas. De lá tomamos um dedão em uma kombi de supermercado até a cidade de Itutinga e assim pagamos um circular até Lavras.

Capitão Cueca. Serra de Carrancas.

A morte te chama. Cachoeira da Esmeralda.

 

O homem quadradão. Quase na cachu do paraiso.

 

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.Tracklog (com descrição de pontos): 

https://www.wikiloc.com/hiking-trails/travessia-z-lavras-carrancas-34913074

.Carta topográfica:  

https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SF-23-X-C-I-3.jpg

.Gasto por pessoa (alimentação e circular): ~100 reais

.4 dias e 3 noites

.54 km ao total

.Nível técnico: difícil

Rodolfo Gomes
Rodolfo Gomes

Published on 08/16/2019 17:13

Performed from 12/01/2018 to 12/04/2018

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Elidiane Dias Paiva
Elidiane Dias Paiva 09/12/2019 11:50

Essa nossa região é dahora demais. Mandou bem no relato! Deu vontade de colocar a mochila nas costas e ir fazer esse rolê.

Rodolfo Gomes
Rodolfo Gomes 09/12/2019 19:55

Hahhahaha simboraa!!

Fabricio Magalhaes Meirel
Fabricio Magalhaes Meirel 03/28/2020 08:11

Tive a oportunidade de conhecer a cachoeira do paraiso, ler esse relato foi dr certa forma nostálgico! Mas no meu caso foi só um dia de acampamento.

Rodolfo Gomes

Rodolfo Gomes

Lavras - MG e Vila Velha - ES

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