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Petrô x Terê em Dois Dias e sob Forte Chuva, Vento e Frio

Petrô x Terê em Dois Dias e sob Forte Chuva, Vento e Frio

O que se esperava ser Dois dias de Deslumbre se tornaram Dois dias Plenos de muito Aprendizado e Aventura nesta Travessia Mágica

A Travessia Petrópolis x Teresópolis é percorrida, normalmente, em três dias no sentido de Petrópolis para Teresópolis devido à maior facilidade e ao fato de que se avista a Serra dos Órgãos de frente. Esta travessia corta de sentido oeste para leste o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO). É o terceiro parque mais antigo do Brasil. Foi criado por Getúlio Vargas, em 1939. O ex-presidente transformou a região em um Parque Nacional. Entretanto, cem anos antes, D. Pedro I já havia desbravado a região, tendo comprado uma fazenda em Petrópolis, onde atualmente funciona o Palácio Museu Imperial. História à parte, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos é protegido pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que exige algumas regras para manter o parque preservado, como por exemplo, limite de 100 pessoas por dia, além de taxas para poder percorrer e se abrigar nas áreas próprias para tal no parque. A Serra dos Órgãos chama atenção de longe. A formação rochosa é o grande charme da região e é lá que está o famoso Dedo de Deus, considerado o berço da escalada brasileira. Fora isso, é no PARNASO que está, também, a Agulha do Diabo, eleita uma das 15 melhores escaladas em rocha no mundo. Desde que comecei a praticar trekking, esta Travessia sempre teve seu lugar guardado como a próxima a ser concretizada. E foi, em setembro de 2015, que tive a chance de realizá-la. Através do Facebook, vi tal excursão agendada pelo amigo Francisco De Assis Cardoso, o grande Chico. Apressei-me em assegurar uma das vagas, ou melhor, duas, porque, sem mesmo explicar direito, coloquei a minha Amiga e companheira de Trilhas, Dayana Oliveira no grupo também, para sua surpresa inclusive. Não tinha como perder a oportunidade. Seria até então nosso maior desafio dentro do trekking... A travessia Petrô x Terê, além de ser considerada uma das mais belas, se não a mais bela, travessia do Brasil, é também considerada uma das mais difíceis. Como dito acima, normalmente se faz em três dias, mas nosso grupo iria fazer em dois. Devido à grande procura pelo feriado, tivemos que nos contentar com a travessia em período reduzido. As pernas já começaram a bambear e o temido trecho do Cavalinho já me tirava o sono desde o início dos preparativos para a aventura. Afinal, meu medo de altura ainda me perseguia. Durante toda a semana que antecedeu nossa viagem, as chuvas não paravam em Belo Horizonte e nem no Rio e a preocupação quanto à realização ou não da travessia era nítida entre muitos no grupo. Porém, com toda a experiência do Chico e grande conhecimento da região, a aventura foi mantida e saímos de Belo Horizonte pouco antes da meia noite de uma sexta-feira.

Chegamos a Petrópolis antes das cinco da manhã e ficamos aguardando e dormindo na van a poucos metros da portaria do Parque. Antes das sete da manhã, adentramos o parque e o guarda que nos atendeu havia relatado que muitos aventureiros cancelaram e outros estavam abortando a travessia por conta das chuvas. Havia chovido muito na noite anterior. Sem dar muita importância ao fato, Chico se manteve firme e, sob os olhares incrédulos do guarda-parque da unidade, continuou com os trâmites burocráticos para nossa travessia. Tudo conforme o planejado, então colocamos o pé na trilha. O tempo estava nublado e com jeito de chuva a qualquer momento. Seguimos pela mata em trilha com leve aclive, sempre com o Rio Bonfim em nossa companhia. À medida que íamos avançando e já deixando a companhia do rio, a trilha acusou uma subida em ziguezague contínuo e os mais ágeis abriam grande distância do pelotão de trás, no qual me mantive. Encontramos todos na Pedra do Queijo, tradicional ponto de parada e mirante, mas do qual não se tinha uma visão legal do vale à nossa frente devido ao tempo nebuloso. O pelotão mais rápido continuou pouco depois da nossa chegada. Em poucos minutos, dava para vê-los ganhando a colina acima da Pedra do Queijo. Retomamos nossa caminhada. O Chico se manteve perto de nós a partir deste trecho e liberou a galera mais rápida na frente. Chegamos a um pequeno platô no alto da trilha e pudemos ver o alto da montanha coberto de pesadas nuvens. Descemos por um breve e curto declive e logo começamos a subir novamente até alcançar o Ajax, último ponto de água potável antes do Abrigo do Açú. Chegando lá, tomamos um susto com o grande número de montanhistas que ali estavam, inclusive uma turma de escoteiros. Todos eles desistindo da travessia e retornando do Açú. Essa medida havia sido tomada por conseqüência das chuvas da noite anterior e a previsão de mais pluviosidade nos dias seguintes. Abastecemos de água e novamente sob os olhares incrédulos continuamos nossa subida. Agora, já era hora de encarar a temida Isabeloca. Começou a chover, ventar e o frio apertou. Colocamos nossas capas de chuva e seguimos, sempre topando com pessoas voltando em sentido contrário. Mesmo com a chuva e neblina, deu para ver pontinhos coloridos no alto da Isabeloca, que eram nossos colegas mais rápidos já vencendo a montanha em passos rápidos. Trata-se do ponto mais íngreme da travessia. Da portaria de Petrópolis até o Chapadão onde avançamos até os Castelos do Açu, é um ganho de altitude de mais de 1.000 metros. Já na metade da subida, a chuva e o vento estavam bem fortes e o frio congelante. Chegamos enfim ao Mirante Graças a Deus e ao Chapadão. Visual zero, não dava para ver cinco metros à frente. Vento soprando muito forte, situação que eu nunca tinha enfrentado na vida. Chico tomou à dianteira e me esforcei para não perdê-lo de vista, mantendo o mesmo cuidado ele tinha conosco. Fiquei próximo à Dayana e havia mais outras quatro pessoas conosco. O chapadão possui uma vegetação bem rasteira e lajeada, onde se deve tomar cuidado para não se perder devido à falta de trilha naquelas condições de visibilidade. Para nos guiar Totens e chapas coloridas fixadas no chão foram de grande ajuda. Só vimos o Castelo do Açú quando, de fato, nos aproximamos deles e vimos sua magnitude. Ficamos um pouco sob ele nos protegendo da chuva, até que tomamos o caminho para o abrigo.

Nossos colegas mais rápidos já estavam lá há uma hora. Não havia outro grupo. O cenário era desolador. Muita neblina, vento, chuva e alguns do grupo especulando abortar a travessia e voltar naquela tarde mesmo para Petrópolis. Chico argumentou, de todas as formas, para que nos mantivéssemos calmos e que aguardássemos a manhã seguinte para tomarmos uma decisão com mais firmeza.

Armamos nossas barracas na área de camping e esperamos pelo melhor no dia seguinte. Não choveu durante a noite, mas o vento soprou forte. Acordamos cedo e, incrivelmente, o tempo havia melhorado. Poucas nuvens cobriam o céu e logo tratamos de colocar o pé na trilha e continuar nossa travessia. Todos se animaram e partimos. Descemos por uma laje íngreme de pedra até um pequeno vale, onde começamos a subir e, olhando para trás, era incrível como o caminho pelo qual descemos era íngreme e tortuoso. Seguimos então até o topo do Morro do Marco, onde pudemos, enfim, ter uma visão mais clara da beleza da Serra dos Órgãos, quando milagrosamente, as nuvens se dispersaram e deu para ver o Dedo de Deus, Garrafão, Pedra do Sino e, até mesmo, um pouquinho da cidade do Rio de Janeiro. Corremos para tirar fotos antes que as nuvens cobrissem novamente aquela pintura.

Continuamos o sobe desce no segundo dia da travessia. Descemos o Morro do Marco e atingimos o Vale da Luva. Subimos o Morro da Luva, que tem início em uma pequena mata. O morro é bem abrupto e muitos tiveram dificuldade na subida. Acelerei minha subida e, com muito esforço, cheguei ao topo. Larguei minha mochila e fui auxiliar a Dayana, descendo ao seu encontro e carregando a mochila dela até o topo. Ao longe, se via que a chuva viria a qualquer instante. O tempo havia fechado novamente. Um dos colegas do grupo estava com muita dificuldade e o Chico então, para o bem do grupo em geral, dividiu o peso da sua mochila com os demais. Depois do descanso e lanche, prosseguimos com nossa caminhada. Descemos novamente até atingir as lajes em declive até o trecho do elevador, um dos pontos mais esperados da travessia. É uma elevação bem íngreme, em rocha, com degraus de ferro fixados para ajudar na subida. Confesso que em alguns pontos mais atrapalha do que ajuda. Todos subiram sem problemas.

Mas no alto do Morro do Elevador, a chuva nos pegou em cheio. Gelada e acompanhada de muito vento. Descemos com muito cuidado o lajeado que estava escorregadio feito sabão e que nos levaria ao Morro do Dinossauro, alguns desceram até de bunda para ter mais segurança. A neblina também estava bem grande, ao passo que o cuidado tinha que ser redobrado. Chegamos ao Vale das Antas, onde nos abastecemos de água e seguimos adiante em trilha com muito barro e lama sem tempo de descansar. Estávamos nos aproximando da Pedra da Baleia e, quando chegamos nela, o vento estava absurdamente forte. Fomos em fila indiana atravessando a pedra e o vento estava tão forte que parecia que ia nos jogar pirambeira abaixo. Ao longe, alguns raios cruzavam o céu e alguns do grupo até incitaram e provocavam Odin com o singelo e provocador grito: “É SÓ ISSO QUE VOCÊ TÊM ODIN?”. Confesso que não achei graça, devido há alguns anos, três montanhistas terem morrido devido à uma descarga elétrica durante a travessia. Vencemos a Pedra da Baleia e seguimos rumo ao Mergulho, ponto que antecede o trecho do Cavalinho. Quando chegamos lá, fiquei de frente com uma das cenas mais lindas da minha vida, se não for a mais... de Cachoeiras e cascatas Gigantes descendo pelos paredões do Garrafão e da Pedra do Sino. Uma visão Maravilhosa e única. Infelizmente, ninguém tirou foto, devido a forte chuva que caía e todos preservavam seus celulares e câmeras. Contudo, ficou registrada na memória aquela cena inesquecível. Aquele momento foi bem difícil porque tivemos que lidar com a chuva, vento e frio enquanto Chico instalava cordas de segurança para descermos o Mergulho. Após instalar as cordas, começou a operação. Eu, Robson Oliveira e Joselaine Filgueiras descemos e, cada um de um ponto do Mergulho, fomos recebendo as cargueiras uma a uma para que os demais pudessem descer sem as mesmas, através da técnica do rapel. Como estava muito frio, cada um que ia descendo foi pegando sua mochila e seguindo rumo ao Cavalinho. Eu, que não queria ser o último a transpor o cavalinho, devido à ajuda no mergulho, fiquei para trás. Chegando no Cavalinho, a maioria já tinha passado por ele e chegou a minha vez.

A despeito do medo que sentia antes da travessia deste trecho, colhendo informações em blogs e vídeos no youtube e, até mesmo, durante a travessia com a ansiedade de se chegar lá, cheguei bem tranqüilo. Chico me orientou com a pegada das mãos e pés e, quando assustei, já tinha passado por ele. Para quem não sabe, o termo Cavalinho se dá porque se trata de uma pedra existente em uma estreita canaleta bem ao lado do paredão da Pedra do Sino e que, para transpor, é preciso um movimento como se fosse montar em um cavalo. Do lado esquerdo, um precipício do qual evitei olhar para baixo. Neste trecho, a chuva tinha parado e a neblina se esvaecido. Entretanto, uma pequena enxurrada corria pela canaleta. Quando avancei depois do cavalinho, me deparei com a maioria do grupo parada sem saber como transpor outro obstáculo que, na primeira olhada, vi a razão de ser o tão falado e temido Cavalinho. Como o ponto ali de parada era bem estreito, todos ficaram amontoadas e o Chico gritava lá de trás para todos continuarem. Thibault Perrigault, um francês que estava conosco, já tinha vencido tal obstáculo e apareceu de repente já lá de cima. Num momento de “Foda-se” e coragem eu peguei minha mochila e entreguei a ele e, ignorando o precipício ao lado e sem medo algum, subi por aquele degrau estreito de pedra e me sentei de frente para todos. Dei uma olhada à minha direita e me dei conta da altura do precipício, me mantive firme e tive paz para ficar deslumbrado como uma imagem linda e única ao meu olhar.

Um a um foi me passando a mochila e eu repassando para o Thibault e fui ajudando cada pessoa a subir. Passado este trecho, há uma escada de ferro e chegamos ao fim da canaleta. Daí continuamos por uma trilha estreita que contornava a Pedra do Sino e, com poucos metros, já deu para enxergar o Abrigo quatro. Quando chegamos foi que eu sentei e me dei conta do trecho todo do cavalinho e fiquei sem saber como encarei tudo na mais perfeita ordem e controle. Fiquei orgulhoso de mim. Descansamos e nos secamos o quanto pudemos, mas logo a chuva retornou e continuamos nossa caminhada, agora rumo à Barragem de Teresópolis para terminar nossa travessia. A trilha segue em descida em zigue e zague e, sem possibilidade de erro, cada um desceu no seu ritmo e, pouco antes das 18h00, todos alcançaram a portaria sede de Teresópolis. Pudemos tomar um banho quente e colocar roupas secas para o retorno a Belo Horizonte. Foi uma Travessia de muitos desafios, com um tempo muito ruim nos dois dias. Muita chuva, barro, lama, neblina, visibilidade zero e muito vento. Não vamos em busca de conforto, vamos em busca de aventura e estamos sujeitos a todo tipo de situação. Inclusive, a que encontramos foi a pior possível, mas com muita garra e sacrifício, concluímos. Com orgulho, fomos o único grupo em todos que estavam no Parque a concluir a travessia. Mas é isso aí. Sem sacrifício não há conquista, não é mesmo? Eu sempre digo que toda experiência é válida e o perrengue encontrado e superado fica na lembrança. Enfrentar seus limites e medos sempre é possível. A frase "Com ou sem Aventura?" nunca foi tão real nesta travessia, e foi sim, com muita aventura. Participaram além dos citados anteriormente nesta aventura os amigos e amigas Alessandra Lima, Ângela Miranda, Fabio Teixeira, Glauciane Nogueira, Igor Pereira, Jonatan Oliveira, Juliana Guimarães, Luiz Clarke, Marlon Avelar, Robson Oliveira, Rômulo Ramos, Rosângela Ramos e Stephanie Cunha.

Roger Pixixo
Roger Pixixo

Published on 07/30/2018 16:16

Performed from 09/05/2015 to 09/06/2015

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Alexandre Polar
Alexandre Polar 08/30/2018 00:34

Grande,Pixixo!

Roger Pixixo

Roger Pixixo

Belo Horizonte

Rox
87

Montanhista, Fundador e Guia Líder na EcoPix Trekking & Hiking. Amante da Natureza e Aventuras. Músico e Escritor Aspirante em Horas Vagas.

www.instagram.com/ecopix_trekking/

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