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Travessia de respeito, MUITO Respeito

Travessia de respeito, MUITO Respeito

Travessia do Rio Branquinho, de Parelheiros até Itanhaém

Camping Navigating Waterfall

Fazia anos que essa trilha me povoava os pensamentos. A matéria do Estadão de 2011 me aguçara ainda mais o apetite, 74 resgates no período de um ano! Um guia indígena teria se perdido com um grupo de 28 pessoas! (aliás, grupo gigante para esse tipo de empreitada). Mata quase intocada, de acesso pelo extremo sul da cidade. A dispersão da violência em SP sempre me fez evitar essas trilhas de acesso mais simples, supondo com isso minimizar os riscos de entreveros humanos. As N correrias do dia-a-dia contribuíam para que ela ficasse sempre para depois. Para mim, era uma trilha a ser feita com grande cuidado, dedicando tempo à preparação e sendo criterioso com os companheiros de pernada.

Anos se passaram, minhas pernadas foram ficando mais ousadas, e mesmo assim, não arriscava colocar o pé nessa trip. O relato de perdidos se mostrava frequente, e sabedor de que a imprensa faz de uma tempestade uma brisa e vice-versa, eu acompanhava as esparsas informações que surgiam. Inclusive histórias de desaparecimentos e conflitos naquela região povoavam os noticiários policiais.Acostumados ao determinismo citadino, esquecemos facilmente de que há muitos lugares onde o homem não reina. A Serra do Mar é exemplo de manual de um desseslocais.

Em 2019, lá por meados de outubro, surgiu no grupo Trekking SP a proposta de fazer essa trilha. Eu havia entrado no grupo havia um bom tempo, mas feito uma única trilha com eles, para o Corcovado de Ubatuba. Mesmo assim, acompanhava os comentários no grupo e mantinha boa impressão quanto à seriedade e dedicação dos organizadores das pernadas, de forma que não hesitei muito em entrar no grupo montado e passar a acompanhar os preparativos. Com o “de acordo” do organizador da trip, convidei a Myka Oil para a pernada.

O grupo da pernada cresceu um bocado nos dias seguintes, me preocupando um pouco, mas decidi relaxar, deixando a natureza seguir seu curso. É comum uma expressiva minguada nas vésperas, ainda mais quando a previsão de tempo não aponta céu de brigadeiro. Nas vésperas a instabilidade climática e outros compromissos foram limando, um a um, os pretendentes. Destacando que não me meteria numa travessia de rio que não despertasse segurança para fazê-la, mantive firme a determinação, independentemente do tempo. Caso as chuvas que se avizinhavam elevassem por demais o nível dos rios a se cruzar, eu estava determinado a aguardar que as aguas abaixassem ou retornar serra acima, mas não desistir sem tentar.

Na quarta à noite, comprei as bolachas, fubá e milho de pipoca que pretendia levar como “pedágio” pela passagem nas terras indígenas, arrumei a cargueira com rede, isolante, lanterna de cabeça e de emergência, duas blusas de trekking, uma segunda pele para o tronco, outra para as pernas, dois pares de meias extras, duas cuecas, uma jaqueta impermeável, GPS com os trajetos próximos gravados, liner, kit de medicamentos e de emergência, fitas para prender a rede, um tarp para proteger das chuvas. Uma vez que a Myka havia dito que levaria um facão, separei apenas o canivete. Para as refeições, peguei um pacote de macarrão à primavera liofilizado, de preparo rápido, dois pães italianos, um pacote de preparado para fondue de queijo, ovos, manteiga, farinha de mandioca para tapioca. Para os lanches de trilha, castanhas, queijos salgados, salame e mel. Como fogareiro, levei um à combustível sólido, muito leve, para testar. Separei 3 pastilhas de combustível para ele considerando que faria 2 refeições e que teria o fogareiro da Myka, como garantia caso não funcionasse a contento. Garanti espaço na cargueira para dois litros de água, apesar de imaginar que um litro seria suficiente, dada a grande quantidade de nascentes que imagina que encontraríamos na pernada. Levei o filtro mini Sawyer, mesmo achando pouco provável seu uso.

Como partiria para SP após o almoço, do trampo para o Revelando SP 2019 e, de lá iria direto para a trilha, já saí de casa paramentado, com as roupas de trilha e as botas destoando no escritório. Pesei a mochila sem agua, e o peso me preocupou: sem água, estava com 12,7 kg. Mesmo descontando os 600 g do saco de dormir que emprestaria para a Myka, ainda ficaria acima dos 12 kg.No escritório, fiz nova otimização dos equipamentos, deixando para trás: liner extra para a Myka, saco de bivaque e o piso “extra” de barraca para usar com o saco de bivaque. Deixei também os pacotes de fubá e de milho para pipoca. Com essa nova otimização, minha cargueira ficou perto dos 11 kg, sem água.

Desde a véspera, o grupo estava cada vez mais enxuto, e durante a quinta feira, os últimos dois do grupo original tiveram que abandonar o barco, por diferentes motivos. De forma que estávamos em 3: eu, a Myka e o Will... qualquer desistência agora nos obrigaria a alternar os planos, já que seria por demais imprudente tentarmos a empreitada em dupla. Quando vi no celular diversas mensagens do Will, temi pela pernada... felizmente, não era uma nova desistência, ao contrário: não só ele confirmava o intuito, como ainda tentava antecipar seu início. Respondi que buscaria chegar o mais cedo possível, mas que não imaginava chegar antes das 21h30 no ponto de encontro. No Revelando SP, peguei meio litro de licor de pimenta, para celebramos os finais de cada trecho. Encontrei a Myka no metrô Santa Cruz e seguimos para o Terminal Santo Amaro, descendo na estação Largo 13.Como previsto, pouco após as 21:30 h, estávamos com o grupo reunido e partimos para o Terminal Parelheiros, coração acelerado.

A viagem foi longa, evidenciando o quanto é complexa a questão do transporte público para as regiões mais afastadas do centro. Mesmo sem grandes percalços no trânsito, levamos pouco mais de uma hora até o outro terminal. Lá pegamos outro ônibus, agora com ponto final na Estrada da Barragem, onde começaríamos a caminhada. Aproximadamente, às 23h chegamos ao final, vestimos as cargueiras e passamos a caminhar em passo acelerado, de forma a nos distanciarmos da civilização, nosso receio naquele trecho. Com isso em mente, forcei a caminhada pela estrada rural e, pela primeira vez, ouvi a Myka pedir para maneirar no passo... nunca imaginei que ela tivesse limites, foi uma surpresa, kkk. Reduzimos um pouco, deixando ela tomar a dianteira e ditar o ritmo, ciente da intenção de minimizarmos a exposição naquela região. Meus óculos embaçavam com o vapor que exalava nas expirações fazendo com que eu caminhasse alternando uma neblina particular com uma ausência quase total de noção de profundidade. Os tropeços foram vários, mas como não consigo usar a lente de contato mais que 12 h sem incômodo aos olhos, preferi guardar o uso dela para a região de mata. O “mais devagar” dela ainda era bem célere, e em pouco tempo, vencemos os quilômetros iniciais e alcançamos a linha férrea, viramos à esquerda e passamos a seguir os trilhos até as ruínas da Estação Engenheiro Evangelista de Souza, onde chegamos pouco depois da uma da madrugada (01:10) e paramos para um breve descanso e algumas fotos. Discutimos a possibilidade de pegar uma carona nos trens que passariam, mas com a minha baixa noção de profundidade, os dormentes escorregadios e à noite, fui enfático no recusar da proposta. Numa clara demonstração de que partilhava a caminhada com um grupo sensato, meus colegas acataram meus argumentos e se resignaram a uma caminhada excruciante no alternar dos dormentes que escorregavam e das britas que “massageavam” as solas dos pés. No meu caso, como havia arrumado um ferimento na planta do pé direito, no final de semana anterior, toda vez que forçava a região, sentia uma ferroada de dor particular, de forma que procurava evitar as britas e pisar mais nos dormentes.

Depois de uns 15 minutos de descanso, retomamos a pernada, agora seguindo pelos dormentes escorregadios pela mistura de óleo das máquinas com água da chuva que havia caído durante os últimos dias e que nos seguiria em diversos momentos da trip.

Combinamos de seguirmos pelos trilhos, saindo de ambas as linhas, com o aproximar dos trens, de forma a evitar o risco de sermos pegos por um trem, ou uma máquina, que viesse nos trilhos em sentido contrário. Nossa média horária despencou, devido às condições da via para caminhantes, e apenas após as 2:30 h chegamos ao primeiro dos túneis que passaríamos. Fizemos alguns segundos de silêncio, buscando identificar a proximidade de alguma composição e, em seguida atravessamos tão rápido quanto pudemos o atravessamos. Do outro lado, buscamos identificar a numeração, de forma a estimar quantos deveríamos cruzar, já que a trilha tem início após a saída do túnel 24. Como o primeiro que cruzamos era de número 27, seriam ainda 3 os túneis a serem superados. Identificamos uma “coxia” de cada lado, distante cerca de 50 m da entrada, para permitir o “safa-onça” de alguém que esteja no túnel e seja surpreendido pela passagem de uma composição.

Como o mundo é pequeno e só as montanhas não se encontram, pouco depois (03:00 h) encontramos 3 amigos do Will: Marcos Picoli, Eduardo Loures e Carlos Broccoque estavam a caminho da descida pelo Capivari. Combinamos um possível encontro no acampar após a confluência dos rios. Seguimos em frente, e num trecho em que não me parecia haver espaço suficiente entre a encosta do morro e a linha (de descida) para abrigar trilheiros e mochilas, insisti para irmos para o outro lado, onde a encosta era um pouco mais distante da linha. Acontece que o trem que se aproximava estava subindo e ficamos espremidos entre essa encosta e os vagões em movimento, foi um momento de certa ansiedade. Eu, particularmente, estava pensando que, se estava apertado ali, do outro lado, não haveria espaço para o cabra e sua cargueira. Há alguns trechos mais tensos nesse trecho da caminhada. Pouco depois, a passagem simultânea de dois trens em sentidos contrários foi motivo de nos colocarmos à margem das linhas e redobrarmos os cuidados no atravessar dos túneis.

O último túnel a atravessarmos, o de número 24, se mostrou o mais longo de todos, com 6 coxias. Como o trem que subia estava parado e não tínhamos nenhuma noção de por quanto tempo ficaria assim, atravessamos com extrema atenção, atentos a qualquer ruído e contando as coxias de forma a termos, o tempo todo, qual era a mais próxima. Já havíamos combinado de colocarmos as cargueiras no chão, permitindo mais espaço na coxia que porventura utilizássemos.

Pouco após as 04 h, encontramos a placa que marca o início da trilha e deixamos a linha férrea, passando a descer de forma acentuada, buscando um local para acamparmos e descansarmos um pouco antes de seguir em frente. Nesse momento começou a chover de forma mais intensa, e os preparativos para o primeiro acampamento foram acelerados. Com o dia nascendo, estávamos com as redes estendidas. Tentei cochilar, mas a claridade do dia tornava isso difícil, de forma que desmontei minha rede, fiz um pequeno ninho com o isolante e fiquei apreciando a mata e a chuva que caia. Aproveitei para fazer pequenas explorações enquanto meus colegas de trip dormiam, procurando fazer pouco ruído para não atrapalhar o sono deles. Nessa madrugada, meu relógio marcou mínima de 17ºC, fica fácil perceber que, cansados, mal agasalhados e mal alimentados a noite de quem se perde na SM pode se mostrar um perrengue sério, com a hipotermia sendo um perigo real para todos que trilham por ali.

Começamos a desmontar acampamento às 09 h e pouco após as 10 h estávamos em marcha. Nesse dia, a caminhada não seria longa, mas a descida extremamente escorregadia pela chuva fazia com que caminhássemos devagar, escolhendo bem onde e como pisar. Mesmo assim, todos compramos nosso metro de trilha, cada um por sua vez.

Pouco após as 10:30 h tivemos o momento de ápice do dia: por entre as copas, vislumbramos dois grandes macacos, vergando as copas das arvores conforme se movimentavam, cruzando a trilha de oeste para leste. O grande porte e o pelo, entre amarelo e marrom-avermelhado nos fez supor que fossem Muriquis. Continuamos a descida, entre escorregadelas, orquídeas, bromélias e desvios das árvores que haviam caído na trilha. Uma em especial exigiu maior trabalho para atravessar a copa, pois a queda parecia bem recente, e a passagem aberta entre os ramos era bastante precária.Numa das curvas da trilha, tivemos nosso primeiro visual das montanhas ao redor, com uma queda d’água quase que em frente, apreciamos a vista e retomamos a descida, alcançando as margens do Rio Branco da Conceição, às 11:40 h. Atravessamos o rio e passamos a seguir pelas margens, em alguns momentos por dentro dele, buscando uma área mais propícia para armamos o acampamento. Com o local para o acampamento escolhido e a ferida no pé direito incomodando bastante, às 13:30 gozei doprimeiro banho da pernada, aproveitando o sol, bem tímido, que era pouco mais que uma claridade para tirar as botas e esticar as pernas. Depois de cuidar do ferimento e relaxar uns minutos, parti para preparar o almoço do dia, feijoada com arroz de 7 grãos, enquanto a Myka aproveitava a privacidade de uma pedra rio acima para o banho, e o Will armava o acampamento.

Acampamento armado e almoço preparado, a feijoada rapidamente desapareceu no esquema rodizio e, posso dizer estava deliciosa. Em seguida o Will foi curtir o rio também rio acima. A Myka foi para o acampamento, e eu aproveitei a privacidade para uma rápida incursão semi-nudista pelo rio que me rendeu, além de muita alegria, contato com uma parte não tão amigável da fauna local. Fiquei uns 10 minutos tirando sanguessugas que se fartavam do meu sumo vital.

Estendemos as roupas nas pedras para que secassem um pouco e a Myka começou a preparar a fondue. Enfiei na cabeça pavimentar um pouco do piso do acampamento com pedras chatas e fiz algumas viagens nessa intenção... ah, o conforto... que trabalho que temos por ele, rsrs.

O Will conseguiu uma fogueira que afastou a maioria dos vampiros voadores, mas as mutucas não se intimidaram, de forma que nos restava matarmos quantas podíamos, enquanto alimentávamos as outras. Com pedacinhos de alho picado e uma dose de licor na foundue, passamos o tempo bebericando licor de pimenta, garfando os pedaços de pão italiano, recobrindo de queijo e apreciando a tranquilidade da mata, sem descuidar de nos defendermos das sanguinárias mutucas.

Caí na rede, de barriga cheia e pouco antes de adormecer, lembro de ter visto a Myka recolher as roupas e espalhá-las pelo acampamento, sugeri fazer um varal com um dos bastões, mas as roupas encharcadas estavam muito pesadas e não rolou.... se não fosse a Myka me acordar, teria ido num sono só até o outro dia. Os três amigos do Will haviam abortado a travessia pelo Capivari, pois a mochila de um deles, havia descosturado logo no começo. Ajudei a acordar o Will e voltei a dormir, eles seguiram um pouco em frente e montaram acampamento.

Com o cansaço físico e a noite anterior virada em claro, dormi profundamente e dizem, ronquei. Como não ouvi e não gravaram, continuo cético a respeito. Acordei com o dia clareando e fui bater perna pelas margens do rio, na esperança de encontrar uma Gongoria bufonia florida, já que sei que está começando a florada delas e são abundantes na Serra do Mar. Encontrei pequenas orquídeas, e muitas outras arrastadas pelo rio, mas Gongoria em flor, nenhuma. Estendi as roupas molhadas nas pedras de novo, fiz algumas fotos do acampamento, preparei um pão com manteiga na chapa fiquei curtindo. Pouco após as 8:00 h começou a chuviscar e tive que recolher tudo novamente. Com a quantidade de sol desses dois dias, não secaríamos nunca as roupas, kkkkk.

Começamos a desmontar o acampamento às 09:00, partindo para a confluência dos rios Branquinho com o Capivari, pouco após as 10:00. Esse trecho tem mais bifurcações, inclusive uma que talvez seja um atalho e segue à esquerda do rio. Como não era uma trilha exploratória, retomamos sobre os nossos passos até encontrar a bifurcação que passara despercebida, e na qual, o caminho “correto” se mostrava bem menos marcado que o caminho “errado”. De volta à trilha certa, pouco antes do meio dia (11:40) nos deparamos com a confluência dos rios Branquinho e Capivari. Não identificamos o ponto em que o Rio Branco de Cima, se entrega ao Rio Branco da Conceição, formando o Rio Branquinho. Momento de grande alegria, fizemos várias fotos e fomos brindados com um sol delicioso. Depois dos registros, começamos a atravessar as águas turbulentas, fazendo isso por partes, vencendo primeiro o Branquinho, que estava com as aguas mais transparentes e frias, e em seguida o Capivari, que mostrava maior turbidez e águas pouco mais quentes. Apreciei demais observar as águas percorrerem alguns metros antes do Capivari, de maior volume, se impor sobre o rio Branquinho. Ao contrário do encontro do Rio Solimões com o Rio Negro, que percorrem quilômetros antes de suas águas se imiscuírem, a elevada turbulência dos rios de serra faz com que essa homogeneização ocorra em poucos metros.

Ao cruzar os rios tivemos dois momentos de tensão... no primeiro, a Myka me pediu auxílio e eu não entendi o que falava e fiquei supondo que ela propunha descer boiando o rio, enquanto ela dizia que não conseguia prosseguir naquele momento, e que estava com receio de ser arrastada pela força das águas. Resultou cômico, mas poderia ter sido trágico. Eu havia me adiantado alguns metros na travessia justamente para fotografá-los, certo de que a situação estava sob controle... felizmente o Will estava mais próximo, entendeu o que ocorria e agiu rápido, ajudando-a transpor aquela parte do Capivari. Em seguida, seguimos pelas pedras, já próximos da margem esquerda do rio, em busca do ponto de retomada da trilha. A Myka havia visto um ponto que lhe parecia ser a continuação da trilha, uns 50 m rio acima da minha posição. Por minha vez, concluí que seria mais provável o ponto de retomada da trilha estar próximo da confluência e, analisando com mais atenção o barranco à frente, notei inequívocos sinais de passagem humana, numa curta escalaminhada. Com a comunicação verbal inviabilizada pelo ruído das corredeiras, gesticulei para que voltassem. Com o coração apertado, vi a Myka sumir do campo visual, talvez buscando verificar se ali também havia trilha. Apreensivo, aguardei que o Will olhasse em minha direção, para lhe sinalizar que iria subir o barranco e seguir na direção em que ela havia sumido. Antes que isso ocorresse, porém, voltei a ter visual da Myka, que descia por dentro do rio, mas bem próxima da sua margem... mais alguns minutos e o trio estava novamente completo, com o Will já no alto do barranco e a Myka logo na minha frente.

Descobriria depois, que a confluência dos dois rios marca a tríplice divisa municipal entre São Paulo, Itanhaém e São Vicente. Até ali, quando nos mantínhamos na margem inicial (à direita de quem desce) do rio branquinho, trilhávamos terras paulistanas, quando o cruzávamos, o fazíamos em terras são vicentinas.

Continuamos a margear o rio, agora nominado Itanhaém, descendo e subindo os barrancos conforme a mudança de seu curso nas cheias, criava meandros e atalhos, que mesmo após o baixar das águas, sinalizavam a força erosiva que a chuva agregava ao seu regime, naturalmente bravio, e que com as cabeças d’água, ficava ainda mais violento. Não nos restava nenhuma dúvida, que cruzar aquelas águas, com o nível muito elevado era flertar com a morte. Nesse sobe e desce, encontramos à margem do rio, um trecho de trilho de decanvile de pouco mais de um metro de comprimento, registro de que ali, em tempos idos, houve estrada para exploração comercial, muito provavelmente, de banana.

Encontramos uma pegada que nos parecia de felino, por não ter as unhas marcadas. Logo depois encontramos grande quantidade de frutos de um amarelo claro, quase esféricos e com um sabor citríco. Para quem não comia nada há várias horas, estavam deliciosos, comemos vários. Pesquisando em casa, fiquei com a impressão de serem ubajaí ou uvaia.

Continuamos a caminhar, observando os sinais crescentes de presença humana, em pegadas, cortes de vegetação, restos de coivaras e plantações. As touceiras de bambus, de tão larga e versátil aplicação também indicavam que nos aproximávamos da aldeia.

Pouco antes das 14 h (13:47 h) alcançamos a casa do Vera Tupã, velho conhecido do Will, de quando ele fez a travessia pelo Rio Capivari. Trocamos algumas palavras, conhecendo um pouco dessa simpática figura, e nos despedimos informando dos outros 3 trilheiros amigos que viriam mais tarde. Retomamos a caminhada, e pouco depois, encontramos a maior árvore dessa pernada, quiçá a maior árvore que já havíamos visto em mata. De espécie por nós desconhecida, devia ter uns 5 m de diâmetro na base e, pelo menos 20 m de altura. Não nos furtamos em tirar fotos e mais fotos de tão majestoso gigante.

Retomamos a pernada, cruzando o rio Itanhaém, mesmo com o nível das águas próximo dos joelhos, a correnteza não era desprezível. As marcas nas margens indicam que o nível sobe facilmente em mais um metro, quando chove forte na serra. Não chega a ser um rio muito largo, com talvez 40 m nesse ponto. Com o extravasar para as margens talvez alcance uns 60 m. Mesmo assim, reforço que cruzá-lo em cheia é de altíssimo risco e deve ser evitado a todo custo. Nossas alternativas planejadas eram acampar às margens e aguardar baixar ou, na pior das hipóteses, retomar trilha acima até Parelheiros.

Cruzado o Rio Itanhaém, pela primeira e última vez dessa pernada, a trilha continua e logo em seguida, alcançamos a parte principal da aldeia, onde distribuímos as balas e bolachas que levávamos para as crianças que encontramos. Foi legal de ver a alegria dos pequenos, mas surgiu um adulto que, de forma rude, tomou a frente dos pequenos, exigindo que lhe déssemos as coisas, sob a alegação de que ele distribuiria. Como a postura dele não nos inspirou confiança, entregamos a ele o pouco que sobrara e, desconversando, nos mandamos dali. Já na estrada, apertamos o passo e pouco após as 15 h alcançamos a Cachoeira das Três Quedas, onde fizemos nosso último acampamento. A Myka aproveitou a privacidade e a beleza cênica para sua primeira experiência de nado nua em cachoeira. Como contaria depois, sem ser emcachoeira também... essas gerações mais novas, ainda bebê são constrangidas pela cultura sexista... desceu lá da parte alta da cachoeira tão feliz que quase não se continha. Subi depois e aproveitei até para lavar a roupa enquanto curtia a melhor hidromassagem que conheço, feita com água gelada de cachoeira... faltou apenas um bocado de sol para aquecer depois, mas não se pode ter tudo... então, estava perfeito. Nessa noite preparamos um arroz com linguiça delicioso, seguido de um macarrão à primavera. Para acompanhar, tivemos limonada, suco de uva e o licorzinho de pimenta. Tentamos uma pequena fogueira, mas, em função da cachoeira ao lado e do fechado da mata, toda a lenha que havia por perto estava encharcada... o jeito foi reforçar um pouco no repelente e nos recolhermos, resignados, às redes para novo embate tríplice entre a adrenalina da caminhada, a necessidade de dormir e o apetite insaciável dos pernilongos, borrachudos e mutucas que se banqueteavam de qualquer parte do corpo que alcançassem. Próximo da meia noite, o Will aproveitou que alguém acendeu a lanterna (acho que fui eu) para puxar papo, já que ainda não fechara os olhos, eao descobrir tanto eu quanto a Myka acordados, ficamos trocando impressões sobre a pernada atual, outras que já fizemos, planos de pernadas futuras até que aos poucos, o Will parou de responder (entendemos que havia adormecido), trocamos mais algumas palavras e voltamos a dormir (ou tentar, rsrs).

Como de hábito, acordei com o alvorecer, me agasalhei para o friozinho matinal (15ºC), preparei dois pacotes de sopa instantânea bem quente e fui passear pelos arredores, enquanto aguardava a hora de acordar meus companheiros, já que nesse dia o combinado era levantarmos às 7 h para prepararmos o café, desmontar acampamento e descer para encontrar o resgate, combinado para 10 h, na aldeia. Como estávamos após a aldeia, decidimos que estaríamos na estrada às 9:00 h de forma a interceptar o Zé Pretinho, quando esse passasse em direção à aldeia. Foi dia de preparar as crepiocas com queijo provolone, mozarela e nutela. Mesmo com dois ovos apenas, deu uma quantidade muito simpática de crepiocas. Em seguida preparei pães com manteiga na chapa e queijo quente. Enquanto o pessoal terminava a arrumação das cargueiras, subi para mais um banho de cachoeira matinal... a água estava geladinha, muito revigorante.

Terminamos de arrumar as cargueiras, fizemos alguns registros, agora com o sol já brilhando forte e começamos a rápida descida até a estrada. Para minha alegria, encontrei 3 pequenas pixiricas maduras nos arbustos à beira da estrada e as compartilhei com a Myka e o Will. Como havia muito tempo a aguardar e pouco a fazer, resolvemos ir caminhando pela estrada, na direção do bar do Zé Pretinho, que faria nosso resgate, mais para passar o tempo que outra coisa. Nessa hora, a Myka, revigorada pela noite e bem alimentada, resolveu descontar o que sofrera na madrugadinha de sexta, quando pediu para que reduzíssemos um pouco o passo, e, passando sebo nas canelas e nos joelhos, turbinou a caminhada matinal. Eu, que sou mais velho, sedentário e acima do peso, tenho pouco folego, mas muita gana... apertei o passo junto com ela, disposto a ver quem pediria arrego primeiro... o Will vendo a situação, valeu-se da experiência em corridas de montanha por N cantos Brasil afora e deixou-se ficar por último, sem permitir que abríssemos muita distância, apenas administrando o momento de acelerar e nos deixar para trás. Felizmente para todos, com pouco mais de 4 km caminhados, vimos chegar a caminhonetezinha do Zé Pretinho. Não nego que subi na caçamba aliviado. Como havia a possibilidade dos outros trilheiros contarem com aquele resgate, seguimos para trás, em direção à aldeia indígena, onde possivelmente, nossos amigos da tentativa do Capivari estariam. Antes de alcançarmos a aldeia, porém, fomos obrigados a manobrar para dar passagem a um caminhão que levava alguns indígenas para uma partida de futebol. Ao manobrar, acabou por estourar o pneu dianteiro, mas em 4 para trocar, em minutos estávamos com o carro novamente em condições. Verificamos com os índios que não havia outros trilheiros aguardando na aldeia, retornamos agora em direção ao bar do Zé Pretinho, onde pegaríamos o ônibus para a rodoviária.

No caminho, tivemos a grande sorte de testemunhar um panapanã, onde uma miríade de borboletas amarelas se concentrou num pequeno trecho de estrada. Meus colegas desceram para filmar o fenômeno por dentro, e eu aproveitei para filmá-los dentro do fenômeno. Apenas a gentileza de parar e esperar que registrássemos o momento, para mim, já valia o custo do resgate. Chegando no bar, brindamos com cerveja gelada e guaraná (a Myka tem aversão a cerveja), enquanto aguardávamos terminamos com o licor de pimenta. Dali seguimos para a praia, para petiscar uma porção de camarão, tomar outra gelada e molhar os pés no Atlântico. Como a Myka estava pertinho de casa, fez questão de nos acompanhar até a rodoviária para ajudar e se despedir. Descobri que, de ônibus, de Itanhaém a Santos é praticamente o mesmo tempo que de Itanhaém a São Paulo.

2 Comments
Myka Oli 11/22/2019 11:46

Aiiiiii, que incrível! Cada momento com vocês foram mágico! Obrigada pelo convite e pela companhia! Sou grata por cada instante nessa pernada deliciosa! ❤️🥰

Rogério Alexandre Francis 11/26/2019 11:53

Foi um prazer compartilhar aquelas matas e aguas contigo, Myka!! Grande trilheira que vc está se tornando!

Rogério Alexandre Francis

Rogério Alexandre Francis

Santos e SP

Rox
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Montanhista de FDS, engenheiro de formação, aficionado por historia, geografia e biologia. O cume não pode ser a maior alegria da pernada.

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