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Travessia Parque Nacional do Caparaó ES - MG

Travessia Parque Nacional do Caparaó ES - MG

Um pouco de nossas aventuras no Parque Nacional do Caparaó, travessia de ES à MG, Como sempre, muitos perrengues nos aguardavam. Grupo Kaare

Prefácio

1º dia: Quinta 29/03/2018 Perrengues iniciais

Bom, primeiramente começarei esse relato incentivado pelos diversos que tenho lido, relatos de superação, de perrengues, de incentivo e luta contra os próprios limites que de certa forma despertaram-me o interesse em redigir esse póstumo, diga se de passagem, foi primeiramente oral e lapidado em sua forma escrita.

Deixo uma ressalva, onde dissertarei um breve presságio não da trip, a caminhada em si (trekking) mas o meu trajeto até o ponto de encontro da viagem (Bar Central ao lado do Terminal Tietê).

Essa viagem foi minha primeira travessia, na verdade meu segundo Cume, e nosso destino: nada mais nada menos que o Parque Nacional do Caparaó, onde o cortamos sentido ES/MG cujos objetivos principais eram: Nascer do sol no Pico Cristal (6º, 2,769 m) subida ao Pico do Calçado (extraoficialmente o 4º, 2849 m) e o tão famoso e ilustre (Pico da Bandeira, 3º, 2892 m). Proponho um grande agradecimento aos Grupos Kaare Espírito de Aventura e Trilhadeiros Montanhismo, que me proporcionaram essa incrível e magnificante experiência.

Voltemos ao relato, decidi fazer uma proeza, levar ovos durante a viagem, havia comprado um porta ovos e fui fazer o teste. Durante a ida de Taboão da Serra até o Terminal Tietê, tive uma luz de que eles haviam quebrado dentro da cargueira, e quando estava a verificar, o ônibus passou em uma lombada e arremessou os 6 ovos ao ar (estavam intactos). Consegui salvar 3, os outros 3 rolaram corredor do “busão” adentro ao ponto de uma pessoa pega-lo todo quebrado e dizer:

- Moço, você deixou cair seu ovo!

O filhote de galinha, todo quebrado e melecado, joguei janela afora. Os outros 2 viraram omelete com o pisar dos passageiros que entravam, se perguntando o que era aquela lambuzeira e o cheiro de ovo.

Enfim, Tietê a frente, embarquemos e Caparaó ai vamos nós! Só que não! Outra ressalva: A Van foi mudada de última hora, não havia lugar suficiente para todas as cargueiras, metade foi no corredor da Van, não havia tomadas, bancos traseiros não acomodavam e o ar condicionado mal funcionava. (Uma sina?) O novo motorista na tentativa de economizar utilizou outra rota pelo interior de Minas, uma rota repleta de curvas sinuosas, acentuadas, não dupla, o que tornou as aproximadamente 10 horas de viagem tensas e melancólicas.

2º dia: Sexta Feira Santa 30/03/2018 Que a aventura comece!

Nesse momento você já deve estar cansado com a leitura, mas enfim vamos lá. Perrengues iniciais a parte, chegamos ao tão esperado Parque Nacional do Caparaó, sentido ES. Nosso destino foi o primeiro acampamento Casa Queimada, há exatamente 9 km da portaria Pedra Menina, passando pelas esplêndidas e exuberantes cachoeira do Sete Pilões e cachoeira da Farofa cujas águas cristalinas e gélidas formavam magníficas piscinas naturais, verdadeiras obras de arte da natureza. Detalhe que esses 9 Km foram subindo, o que consumiu grande parte das nossas energias, foi uma ladeira realmente desgastante, corpo frio, início de temporada de montanha, falta de treino, cargueiras pesadas (início do trekking). Esperávamos que a Van nos levasse até um certo ponto, mas não pôde entrar no parque por estar com 18 pessoas, 3 a mais que o permitido.

Por volta das 17 chegamos ao nosso primeiro destino: o acampamento Casa Queimada. Uns mais a frente, outros chegando já na sequência. Agora era levantar barraca, matar quem estava nos “matando” e repousar, pois, despertaríamos as 3 da matina rumo à nascente solar no cume do Cristal. A temperatura estava agradável, por volta de 5 graus. Fomos contemplados com um plenilúnio divino, extraordinário. Luna nos presenteava em sua forma mais fervorosa.

Pouco antes das 21 já estávamos abrigados, devido a relatos antes lidos e pelas informações sobre as baixas temperaturas por lá, além do saco de dormir (7 graus) havia levado um cobertor médio, e uma blusa tipo anorak (aprox. 2 kls). Resultado: foi uma noite amena, usei o saco como colchão e me agasalhei com o cobertor.

3º dia: Sábado - 01/04/2018 Objetivos cumpridos!

Esse foi o dia mais pesado do Trekking, 1 noite mal dormida, cansaço da caminhada e uma noite com poucas horas de sono, e tínhamos 3 cumes a cumprir. O primeiro (Pico Cristal) em um ritmo mais pesado, na tentativa de alcançar seu cume antes das 6. Desacordamos as 2 e 30, desarmamos os apetrechos noturnos, uma breve forrada no estômago e “bora” subir. Um grupo com uma pegada mais forte, carinhosamente apelidado de (Quarteto roots) decidiu que alcançaria o cume do Bandeira antes das 6 para o nascente. O restante do grupo e eu decidimos manter o que já estava acordado. Foi meu primeiro trekking noturno, um traquejo emocionante, a cada passo a subida se tornava mais íngreme, muitas pedras, pedregulhos, mato, barro, lama, trechos afunilados e trechos de escalaminhada exigiam cada vez mais dos músculos. A ânsia e a voracidade da ascensão ao propósito se transformavam em vigor e intensidade. Tomado por um êxtase inexplicável, me deparei sozinho em meio a trilha, muito além do grupo, e pouco atrás dos que seguiam a frente. Ao levantar os olhos me deparei com uma obra arquitetônica da Natureza: o crepúsculo do Pico Cristal e a vislumbrante lua cheia proporcionaram um dos mais belos panoramas que já repertoriei. Assobiei. Constatei que logo atrás vinha meu parceiro e chefinho Diogo também estonteado pela visão que prescrevia. Os monstros que seguiam em frente rumo ao Bandeira também notaram nossa aproximação e nos reagrupamos. Um minuto pra retomar o fôlego e prosseguimos novamente. Já não estava mais só (ufa) e prosseguimos juntos até a encruzilhada, onde, seguindo pela esquerda toparíamos o Cristal, e a direita sentido Calçado e Bandeira.

Encruzilhada a frente, nos separamos. Até então estávamos Quarteto roots, Mitre, Diogo e eu onde pegamos rumos diferentes. O Cristal estava ali bem a nossa frente, tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Era pouco mais de 5 da manhã. Confesso que nesse momento duvidei que cumpriríamos nosso objetivo. Entre a base do pico e nós estavam imensos vales, um matagal. Em certo momento refleti em ir um ritmo mais lento, questionando se chegaríamos ao cume até o horário previsto. Agradeci por não estar sozinho nesse momento, foi quando a experiência do então chefinho (Diogo) entrou em cena. O tempo todo incentivando, entusiasmado. “Vamos Taboão! A gente consegue!”.

Deixamos as cargueiras pouco além da encruzilhada. Só com água e lanterna em mãos fomos ao ataque, o Trackloc nos indicava em frente. Foi uma sessão de rasga mato alucinante, estava fazendo a frente. Vez em outra deixa algo cair e Diogo ia resgatando até que chegamos aos pés da montanha. Agora era “só” subir. Foi uma corrida contra o tempo. A subida ao cume é um pouco técnica (um pouco) exige equilíbrio, uma bota bem aderente e o mais gostoso, a escalada.

Subimos em um ritmo alucinante, nesse momento já não sentia mais nada, todos sentimentos de insegurança e incerteza haviam dado lugar a sensação de capacidade e heroísmo, quando exatamente às dez para as seis finalizamos nosso primeiro feitio. Palavras são poucas para expressar a emoção que me dominava. É um fenômeno inexplicável. Uma mistura de presságios, admiração pela obra divina, assombrado pela percepção de que não somos nada diante a amplitude e a vastidão da criação natural sísmica. De um lado, tínhamos o mais incrível nascer do sol entre tapetes de nuvens intermináveis, e ao lado oposto, a lua cheia se despedia de nós como forma de agradecimento. Abracei meu companheiro que também permanecia perplexo com o que via. Ao cume do sexto, 2 totens, uma carta geográfica provavelmente do IBGE e uma vista de tirar o fôlego. Estávamos a 2769 m. Os primeiros raios solares nos atingiram com conforto e alívio. Como se um remédio renovasse nossas energias para que prosseguíssemos rumo ao sucesso que ainda nos faltava. Nossa contemplação durou aproximadamente 30 minutos. Sonho realizado! Vislumbrar o tapete de nuvens. (Essa imagem do tapete de nuvens visto em uma foto, foi o que me incentivou ao montanhismo).

Descemos igual duas crianças bobas que acabaram de ganhar seu mais desejado presente. Chegando a base da montanha, nos encontramos com alguns integrantes do grupo que estavam um pouco atrás. Trocamos algumas informações e prosseguimos até as cargueiras, onde o grupo todo se reagrupou para tomar o café da manhã.

Era hora de descanso e recuperação, ficamos ali por quase 2 horas, esperando os que haviam subido, outros desistiram do Cristal e ficaram por ali mesmo.

Reagrupados, café reforçado tomado, cargueiras as costas e partimos sentido Pico do Calçado e consequentemente o Pico Da Bandeira. Essa caminhada não exige nada técnico do trekker, mas sim um grande esforço físico, por ser uma ladeira bem íngreme. O que chamou a atenção foi o fato de, ao topo Bandeira haver uma cruz e pouco mais abaixo, uma imagem de Cristo. Também há uma torre abandonada, onde obtivemos a informação que fazia parte de uma residência instalada ali há tempos atrás. Não entrarei em detalhes da história do Bandeira, mas, o que deixo é que por volta de 1859, D. Pedro II determinou que fosse colocada uma bandeira do Império no pico mais alto da Serra do Caparaó (Fonte icmbio.sp.gov.br). Confesso que não senti a mesma emoção que antes.

Já era umas 10 horas da manhã, infelizmente o tempo estava um pouco encoberto (neblina), o que impediu que apreciássemos o horizonte de forma mais abrangente. Objetivos cumpridos, agora era hora de prosseguir. Ainda havia quase 6 km até nosso próximo acampamento, no Tronqueira, passando pelo camping desativado do Terreirão. Agora começava a sessão de descidas, que particularmente, pelo menos para mim foi uma tortura. O que subo sorrindo, desço chorando, devido à grande exigência dos joelhos. Alguns cogitaram ainda os cumes do Tesouro e Tesourinho, mas foram desmotivados pelo tempo fechado. Nesse trecho a trilha já é mais aberta, mas muitas pedras, e sempre descendo. Caminhamos aproximadamente 3,4 km até o Terreirão, onde fizemos pausa para o almoço, era quase meio dia.

Já alimentados, prosseguimos sentido Tronqueira, onde fizemos nosso último pernoite. A essas horas as solas dos pés já castigavam com tantas pontas de pedras pisoteadas, panturrilhas desgastadas, o peso da cargueira já incomodava assando os trapézios. Foi o momento que mais perrenguei, esses 6 quilômetros pareceram 20, e o corpo já dava sinais de fadiga e exaustão. Após quase 4 horas caminhando, passamos as bordas do vale encantado, cujo nome faz jus ao local. Um conjunto de cachoeiras que formam piscinas naturais, quedas de água formam uma geologia impressionante. Era nosso destino no próximo dia.

Atingimos o acampamento Tronqueira por volta das 5, já em MG. O camping é bem estruturado, há banheiros com chuveiros (água gelada) pias para utensílios de cozinha e uma área de camping consideravelmente grande. Agora era hora de confraternizar, trocar experiências, relatos dos acontecimentos, dos perrengues, dar risadas, nos alimentar e tomar aquele “quente” para relaxar. (Aqui, um adendo a apetitosa Macarronada com calabresa da Companheira Araguacy, que alimentou boa tarde da galera).

Essa noite estava mais fria, depois de um coquetel a “la brasileira” com direito a cachaça com mel, vinho e conhaque São João da Barra, nos abrigamos por volta das 23h)

4º e último dia – 02/04/2018 Domingo (O vale Encantado)

O Vale Encantado fica 300 metros acima do acampamento, acordamos às 7 para desfrutar de nossa última atração. Como citei anteriormente e vale tem uma anatomia única, uma interação de quedas e cachoeiras que formam exuberantes piscinas naturais com águas gélidas que proporcionam uma terapia ao corpo já exausto. Por seu um lugar muito almejado, formavam filas de admiradores disputando um espaço para contemplar seus fluidos, almejando fotos e registros únicos. Nossa estadia ali durou uma hora, pois ainda havia um grande perrengue pela frente. A descida até a portaria.

Fomos informados que Van não poderia fazer o resgate até o camping, o que apressou nossa permanência ali. Portanto, teríamos que caminhar 6 quilômetros em um declive acentuado. A essas horas, já sentia um desconforto no joelho, e, por sorte ou destino, conheci um casal que teve a bondade de levar a cargueira até a portaria. Durante a descida, tivemos um bônus: a linda cachoeira Bonita, sim seu nome é esse mesmo. Não houve tempo para usufruir de suas águas, mas os poucos minutos ali foram suficientes para desfrutar de sua gloriosa beleza.

Durante a descida, o desconforto só aumenta, o que me deixou um pouco abalado. Literalmente descidas são piores que as subidas, exigem demais dos joelhos, e em certos momentos sentia que as rótulas sairiam fora da pele, como uma fratura exposta. Esse trekking durou 2 horas. Enfim, chegamos a portaria, e nossa Van estava a nossa espera. Era meio dia. A viagem havia acabado. (só que não rsrs.)

Posfácio

Por volta das 2 horas, decidimos almoçar, todos famintos. Paramos em um restaurante com um valor atraente, algo de se duvidar. 13 reais por 1 prato que você mesmo se servia, e 16 reais, comida à vontade, com direitos a ovos fritos. A comida desceu maravilhosamente bem, (não sei se pela fome e exaustão não percebemos nada anormal), e comparando a um pacote de bolachas que custava 9 reais, o preço da comida parecia dubitável.

Decidi acompanhar o motorista na frente, exigimos que voltasse pela via Dutra. Trafegamos durante a tarde toda, passando pelo interior de MG e RJ. As 7 horas já escurecendo passamos por Volta Redonda, e, dali em diante, comecei a sentir um desconforto intestinal. Não era possível, não havia comida nada anormal, por que estaria acontecendo aquilo? Como teríamos que chegar cedo, pois havia trabalho no dia seguinte, me senti vergonhoso em atrasar a viagem para fazer necessidades fisiológicas, quando, ligeiramente ouço um reboliço no interior da van, um cochicho, quando ouço uma alma abençoada dizendo “motorista, para no posto que tem gente passando mal!”. Foi música para meus ouvidos, àquela hora minha situação já era crítica. Chegando ao posto, me surpreendi: havia uns 5 integrantes com o mesmo problema, saíram correndo da Van sentido banheiros com as mãos atrás, e eu na sequência. A situação era tão crítica que, alguns mal saiam do banheiro e do restaurante do posto, já tinham que voltar correndo. Necessidades feitas, prosseguimos. Minutos depois, não acreditava que aquilo estava acontecendo, a dor intestinal não passava, uma queimação profunda se misturava com uma espécie de animal que parecia devorar as tripas. Convoquei o um dos integrantes sobre o problema, e por incrível que pareça, quase todos membros do grupo estavam com o mesmo problema (disenteria). Dali em diante cada banheiro de posto que passamos foi castigado por uma chuva de estrume, nem o motorista se safou. Concluímos que a comida de antes não estava boa. Em alguns, a situação era tão crítica que mal dava para esperar a porta da Van abrir. Era gente se jogando pela janela, pulando as cargueiras nos corredores almejando unicamente um vaso sanitário. Até postos de gasolina fechados foram praticamente obrigados a abrir devido a nossa proeza gástrica. Em um, só havia 1 vaso, onde foi feito um revezamento 4x10 para utilização do mesmo. Banheiros sem portas foram usados, a essa hora a vergonha era um mero detalhe. Poucos se safaram, os que não comeram feijão.

Uma volta que estava planejada para 10 horas, durou quase 15, boas delas foram gastas nas toaletes dos postos da rodovia Dutra. Um retorno épico, (caganeira épica) que, passando o tempo que for, ficará na memória de cada um dos envolvidos. Quero agradecer a cada um dos que participaram dessa viagem. Cada um de vocês teve um papel essencial e fundamental para o sucesso. Graças a Deus todos chegaram bem as 4 horas da manhã, no terminal Tietê.

Aprendizados com essa viagem:

Na prática, o que é ser resiliente.

Colecionar momentos, não coisas.

Ser protagonista de sua própria história.

Amigos são amigos, independentemente de qualquer coisa.

Analisar bem os locais onde comer.

A obra divina é maravilhosa.

Rafael Soares
Rafael Soares

Published on 04/24/2018 21:17

Performed from 03/29/2018 to 04/02/2018

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Luiz Carlos G Lira
Luiz Carlos G Lira 04/24/2018 23:16

Mano... Esta de parabéns... Não poderia ter um relato mais honesto.. show

Felipe Meira
Felipe Meira 04/27/2018 07:48

Muito legal o relato, ótima escrita. Já presenciei algo semelhante quando o um amigo também teve problemas intestinais no retorno do Caparaó, será uma maldição do Caparaó hehehehe.

Rafael Soares
Rafael Soares 04/27/2018 10:40

Obrigado Felipe Meire, tentei compartilhar ao máximo descrições e sensações com o leitor. Realmente, tbm já ouvi casos e casos de perrengue no Caparaó, seria essa tal maldição? rs

Ana Retore
Ana Retore 05/01/2018 15:31

Parabéns pelo relato, muito legal! O tapete de nuvens também foi minha motivação para o montanhismo por coincidência, rsrs e diga-se de passagem que é uma visão maravilhosa... 😊 Estou com muita vontade de conhecer o Pico da Bandeira agora (sem almoçar em restaurantes suspeitos, claro 😂)

Rafael Soares
Rafael Soares 05/02/2018 09:13

Olá Ana obrigado! Esse tapete de nuvens é simplesmente surreal!. Sim, suspeite de valores baixos, principalmente em restaurantes a beira da rodovia, Parque do Caparaó em sí é sensacional, vale muito a pena.