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Travessia Cassino-Chuí

Travessia Cassino-Chuí

Travessia solo Cassino-Chuí, 222km, desde o Molhe da Barra do Rio Grande até o Molhe da Barra do Chuí, fronteira Brasil-Uruguai.

Trekking Camping Long Distance

Se pedissem para resumir sucintamente essa travessia, diria: DESAFIO MENTAL.

O desafio foi mais difícil do que imaginei, nem tanto pela parte física, mais pela parte psicológica. A natureza, apesar de dramática, não oferece muito estímulo visual e a monotonia faz você perder a referência de tempo e espaço fazendo parecer que você nunca sairá daquele lugar, tem que jogar com a mente para não pirar!

Uma grande quantidade de animais mortos, principalmente tartarugas, denunciam os efeitos nocivos da pesca com redes naquela região.

Essa travessia está começando a ficar mais conhecida agora, porém, seguramente, em pouco tempo, fará parte do seleto grupo de travessias clássicas do Brasil, como Serra Fina, Vale do Pati ou Petro-Tere.

Dia 0 - 27/02/21(sábado)

Finalmente, depois da longa fase de planejamento, programação e preparação, chegou o grande dia de iniciar a tão almejada aventura! Sai de Sampa sem problemas, tive que passar no supermercado antes de ir para o aeroporto para sacar dinheiro e comprar filme plástico para embalar a mochila já que ia despachar devido ao canivete e pagar mais de 100 conto no aeroporto para fazer isso não rola! Embalei a mochila dentro do Uber, foi o tempo exato de embalar e chegar no aeroporto! Embarquei sem problemas e dormi antes mesmo do avião decolar já que, na ansiedade da viagem, não tinha dormido nada na noite anterior. Cheguei em POA 9:50 como previsto, desembarquei e fui para a rodoviária pegar o busão para Rio Grande, tentei adiantar, mas nada feito, tive que esperar até às 14:00, tempo de almoçar tranquilo, partimos 14:00 em ponto e no ônibus apaguei de novo, chegamos em Rio Grande às 18:40, Uber para o hotel.

No dia anterior, conferindo o equipamento, vi em um noticiário que o Rio Grande do Sul iria entrar na bandeira preta para controle da pandemia e todos os comércios não essenciais iriam fechar no dia seguinte, pensei: "Pronto, todo o planejamento e preparação por água abaixo por não ter onde comprar gás!", empresas aéreas, por segurança, não permitem o embarque e/ou despacho de material inflamável, botijão de gás para camping faz parte desta lista!

Como eu sabia que tinha uma loja de materiais de camping na esquina do hotel que eu ia ficar, liguei para eles e a Juceleia me atendeu, isso era 17:40, expliquei a situação e pedi se o hotel poderia comprar e eu reembolsaria quando chegar, ela disse que precisaria solicitar aprovação para tirar dinheiro do caixa do hotel. Caramba! Não iria dar tempo, o comércio fecharia às 18:00, solução, fiz um PIX para a Juceleia e ela, amavelmente, comprou o gás e salvou minha travessia! Hotel Atlântico em Rio Grande, pessoal muito atencioso e solícito, muito obrigado!

Fiz checkin, tomei banho e fui jantar, Cris metre gente boa!! Fui para o quarto liguei para os meus pais e, como de costume, por segurança, claro, para a galera me acompanhar também, postei minha aventura no Face e Insta com link do SPOT e apaguei.

Dia 1 - 28/02/21(domingo) - CURIOSIDADE

Acordei às 6:00 e fui tomar café da manhã às 6:30, voltei para o quarto às 7:00 e terminei de arrumar a mochila, sai do hotel 8:30, peguei um Uber que me deixou nos molhes da Barra às 9:15, fui até o ponto inicial, tirei as devidas fotos, iniciei o Spot e comecei a jornada às 9:30 em ponto.

Comecei andando bem, 5,2 km/h, sentindo-me bem e com isso logo veio o pensamento: “Acho que consigo fazer mais que os 28 km programados de hoje”. Mas não demora muito para sentir as primeiras dores no pé e no km 12 aquela famosa dor inconveniente anunciando início de bolhas, afetou um pouco meu psicológico, km 12 e já sentindo que bolhas estão chegando, efeito de 1 ano afastado das trilhas! Antes de iniciar a travessia tinha conversado com o Lauro que tinha completado a travessia 2 semanas antes, durante a conversa ele me deu uma dica anti-bolhas, 15 min com os pés no mar, volto coloco novas meias secas e começo a andar novamente e não é que melhorou mesmo!

Apesar de ser anunciada como uma praia deserta, passei o dia inteiro vendo pessoas e carros, muitos vão até ao famoso naufrágio Altair, no km 26.

Como planejado cheguei no km 28, às 16:30, entrei para o lado das dunas, buscando as casas que havia visto pelas imagens de satélite no Google Earth durante o planejamento e bingo! Encontrei alguns ranchos de pescadores aparentemente sem ninguém, local perfeito, abrigado do vento e da areia das dunas e com uma pequena estrutura externa, pia e chuveiro, montei minha barraca e quando estava dentro, inflando o isolante e o travesseiro, escutei uma caminhonete chegando, olho para fora e vejo dois caras, vou até eles e peço permissão para acampar ali, o primeiro, mais hesitante, começa a gaguejar quando escuto lá de dentro da casa: “Pode acampar sim”. O rapaz sai super de boa, pergunto seu nome, ele responde: "Apolo". O outro: “Alex”.

Voltei para minha barraca para terminar de arrumar as coisas e tratar o início de bolhas nos pés quando chega o Apollo para puxar papo, perguntou de onde eu era, assuntos triviais de praxe, e soltou: "Bah, a gente veio antes das mulher pra tomar umas, somos de boa, não te preocupa". Apollo ficou mais 10 min conversando e voltou para o rancho, eu voltei para a manutenção dos pés, depois fui tomar banho e fazer janta, terminada a janta fui ao rancho conversar um pouco, logo após escrevi o diário do dia e apaguei para me recuperar!

Dia 2 - 01/03/21(segunda-feira) - FRUSTRAÇÃO

Acordei às 6:20, tentei sair as 8:00, mas estava demorando muito para tomar café e arrumar as coisas, acabei saindo as 9:00, fiz curativos nas bolhas, mas não consegui desenvolver mais que 3,2 km/h, comecei a cair na realidade da travessia! É um ritmo confortável, mas longe dos 4,5-5 km/h que tinha planejado, meio-dia, 9 km, “Putz, ontem nesse horário já tinha completado 12,5 km com 30 min a menos de caminhada, desse jeito não vou terminar nunca essa travessia”, pensei. Passei o dia se decepcionando com o meu rendimento, mas completei, às 18:20, os 28km programados para o dia, montei a barraca e após a janta, quando estava escrevendo o diário, comecei a reconsiderar o meu planejamento inicial: “Pelo gps andei 58 km, dentro do planejado, faltam 230 – 58 = 172 km, considerando que tenho mais 5 dias, tenho que fazer uma média de 172 / 5 = 34,4 km/dia, de acordo com o rendimento médio do dia de 3 km/h, 34,4 / 3 = 11,5 h/dia, tenho que sair 6:00 todo dia”.

Considerei 230 km do tracklog que estava seguindo, mas tinha feito as medições antes, usando o Google Earth, e deram 218 km, porém, em planejamento, melhor considerar o pior dos casos. Terminei de escrever o diário, dei uma checada nas bolhas, pareciam controladas e “saudáveis”, mas vi que seriam uma constante durante toda a viagem, não me afetou, estava me sentindo bem e com um bom plano traçado novamente, é incrível como meu otimismo muda quando estou alimentado!

Dia 3 - 02/03/21(terça-feira) - DOR

Começar cedo mostrou o seu efeito, 33 km, 2 acima do planejado inicial, mas 1 abaixo do replanejado, amanhã quero fazer 36 km, mas será bem difícil, os km finais são bem duros, uma guerra psicológica e as bolhas pioram a situação, meu tendão do pé esquerdo inflamou, salompas se mostrou uma excelente ideia!

O ponto alto do dia foi o farol Sarita, nada mais, nessa parte central da travessia há pouco estímulo visual, nada além de mar, areia, dunas e mais areia, isso faz você perder a referência de tempo e espaço, o que parece ser 1 hora, você olha no relógio e passaram somente 5 min e quando você acha que andou uns 2 km, você confere e não passaram de 500 m!

Essa falta de referência causa uma sensação de sufocamento, de que você nunca vai sair daquela praia, você tem que jogar com a mente para distrair e não pirar, minha saída foi fazer contas de velocidade e localização e apostar em que horário eu iria chegar em determinado local ou quilometragem, às vezes eu ganhava, às vezes eu perdia, de mim mesmo!

Dia 4 - 03/03/21(quarta-feira) - MEDO

O dia começou bem! Os analgésicos combinados com as salompas e os curativos nas bolhas deixaram meus pés quase "zero", fiz 4 km/h nas primeiras duas horas, mas logo o rendimento caiu com o retorno das dores, terminei fazendo 3,2 km/h, no caminho vi uma baleia morta, acho que era uma jubarte, tartarugas mortas é uma constante, já até perdeu a graça de ver, apesar de serem bem grandes, ah, vi o que parecia ser um lobo-marinho morto também.

Os finais dos dias são bem tensos, pois, além das dores e a auto pressão por atingir a meta de quilometragem, ainda é necessário encontrar um bom local de camping abrigado do vento e decidir o momento exato de coletar água na quantidade correta para não ficar sem e não caminhar com peso desnecessário e hoje, em especial, passei dois “cagaços” adicionais. No meio da tarde estava contabilizando quantas apostas já tinha ganhado de mim quando vejo, ao longe, uns cachorros saindo do meio das dunas em disparada na minha direção, pensei: “Devem vir aqui para pedir comida ou brincar”. Enganei-me miseravelmente!

Quando se aproximaram vi que a postura deles era de ataque e imediatamente a adrenalina disparou e me coloquei em postura de defesa, reação instintiva total, eram uns 8 ou 9 canídeos, cercaram-me, eram todos cachorros pequenos para medianos, mas tinha um maiorzinho, seguramente o líder da matilha, que era mais agressivo, esse estava postado na minha frente, apesar de ser o maior e mais agressivo, não era ele que eu estava preocupado, era com os que estavam atrás de mim, eu não conseguia vê-los e não tinha muita agilidade para virar devido a mochila cargueira, fechei a cara e encarei o líder nos olhos, ele não recuou, continuou latindo e se aproximando, falei: “Totó, você vai se dar mal se aproximar mais”. Não deu outra, quando ele chegou a uns 2 metros, paau, deitei o bastão de caminhada nele, acertou o focinho, “cain, cain, cain, cain”, saiu correndo e os outros com ele, correram uns 100 metros e se voltaram novamente para mim voltando a ladrar, esperei um pouco para ver o que iam fazer, não fizeram nada além de rosnar, então voltei a andar e eles começaram a me seguir e latir, mantendo uma distância de uns 100 metros, ficaram assim durante uns 500-600 metros e desistiram, seguramente estavam defendendo o território, muito interessante as reações instintivas, tanto minha quando deles, senti-me orgulhoso e totalmente integrado à natureza naquele momento!

Como se não bastasse a adrenalina do assalto canino, na hora de montar o camping, outra descarga de adrenalina. Logo depois do final da floresta de pinus há uma zona com dunas a perder de vista, minha meta era fazer 36 km, mas quando me dei conta da situação, só areia onde a barraca não ancora, anoitecendo e ventando bastante, uns 25-30 km/h com rajadas de 50-60 km/h, pensei: "Ferrou". Quando completei 33 km vi ao longe o que parecia ser um resto de cerca, falei: "É lá, minha salvação". Se aproximei, deu exatos 33,4 km, e era um resto de cerca com alguns tocos no chão que usei junto com meu bastão de caminhada para fixar a barraca, o que seria de mim sem esses bastões! Deu o dobro de trabalho, escavava 20 cm de areia e o vento devolvia 10, fiquei exausto, mas o trabalho rendeu, acho que foi a melhor fixação que já fiz, ficou ótimo, bem estável e na areia! Barraca fixada, começa a rotina, entra, se reidrata para compensar o dia, faz janta, cuida das bolhas e dores, se higieniza, na medida do possível, escreve o diário e finalmente dormeeee, QUE DIA!!

Dia 5 - 04/03/21(quinta-feira) - REPLANEJAMENTO E RECOMPOSIÇÃO

Durante a noite teve alguns chuviscos, mas por volta das 5:30, quando estava tomando o café da manhã, despencou chuva e eu acho que o fato de estar sobre areia favoreceu para minar água por debaixo da barraca e começar a molhar tudo, peguei as coisas, desarmei a barraca, embolei tudo e joguei dentro da mochila, mas não adiantou, eu e minhas tralhas estávamos ensopados, que ótimo jeito de começar o dia!

Na noite anterior, após escrever o diário, fiquei pensando: "Não seria melhor mudar o objetivo de 7 dias para 8 dias e tirar o dia de descanso no farol do Albardão, estou de férias e não estou conseguindo curtir o lugar, tudo que faço é acordar-andar-dormir, não dá tempo para mais nada e ainda nesse ritmo que estou vou me machucar mais sério, o tendão inflamado já é um sinal e ainda tem as bolhas", claramente a dinâmica da travessia estava me incomodando, dormi com isso na cabeça e com a chuva pela manhã tive certeza que era a coisa certa a fazer, descansar e colocar os equipamentos para secar.

Estava uns 8 km do Farol, então em 2 horas estava lá, estava tudo fechado, eu já esperava, pois tinha lido que a Marinha determinou o não recebimento de pessoas em todos os faróis durante a pandemia, bati palma e gritei: "Olá Marinha", 2 vezes, e não saiu ninguém, chamei mais algumas vezes e nada feito, tudo fechado, sabia, pelas imagens de satélite que tinha estudado, que logo depois do Farol tinha um arroio, então decidi ir para lá.

Sai do Farol, andei mais uns 2 km e encontrei o arroio, segui seu percurso na direção oeste e depois de uns 100 m encontrei um gramado, decidi acampar ali, a chuva já tinha parado e o sol saiu com força, então armei a barraca, coloquei o power bank para carregar no carregador solar e estendi as roupas e equipamentos molhados para secar, depois sai só de cueca para explorar a área, vantagens de estar isolado! Encontrei uma mini lagoa de areia branca e fiquei ali matando o tempo, finalmente estava curtindo o lugar, encontrando beleza onde estava enxergando somente isolamento e pressão mental e aquilo me mostrou que as pressões que enfrentamos normalmente somos nós mesmos que criamos e acabamos perdendo qualidade e não aproveitando melhor nosso tempo! No final do dia voltei para a barraca, power bank carregado, roupas e equipos secos, contudo observei que o tempo estava mudando novamente, com o vento querendo mudar de direção, isso me preocupou muito, pois se a barraca se comportasse como naquela manhã eu teria uma noite miserável! Entrei na barraca, fiz a minha rotina diária e dormi, preocupado com a possibilidade de chuva.

Dia 6 - 05/03/21(sexta-feira) - SEGURANÇA

Realmente, durante a noite choveu bastante, mas a barraca aguentou bem, a hipótese da areia favorecer a entrada de água na barraca parece ser verdadeira!

Acordei, fiz o desjejum e ao abri o zíper da barra o velho ditado se comprovou, “Depois da tempestade vem a calmaria”, dia lindo, mas percebi também que o vento realmente tinha mudado de direção, vento sul, contra! Fazer o quê? Bora, mochila nas costas, botas amarradas e sebo nas canelas!

Com todo o ocorrido do dia anterior minha estratégia tinha mudado, eu faria a travessia em 8 dias e não em 7 como planejado inicialmente, seriam mais 3 dias de 28 km, menos puxado que os dias anteriores que me pareceu melhor para evitar uma lesão grave já que meu tendão do pé esquerdo estava bem inchado, indo na base de salompas, dorflex e cataflam. Com exceção do vento contra e de uma chuva relativamente forte no início da tarde, a caminhada não teve muitas coisas diferentes dos dias anteriores, a mesma monotonia dos outros dias, mar-areia-dunas a perder de vista-areia-mar, assim foi os 28 km, especial são os últimos 3 km que parecem 10 km, pois não terminam, enfim, encontrei o rancho do Ricardo, rancho muito bonito por sinal e que, no planejamento inicial, deveria ter chegado no dia anterior, o Ricardo não estava, esperei sentado na varanda do rancho e como ele não chegava resolvi montar a barraca no seu quintal, uns 30 min depois que terminei de montar ele chegou dirigindo uma Bandeirantes com mais 4 pessoas, explicou que estava construindo outro rancho, uns 600 m a oeste, mais para dentro da mata, pois a casa atual estava condenada pelas dunas, realmente, durante a espera eu tinha observado que as dunas já estavam adentrando seu quintal.

Pedi permissão para acampar no seu quintal por aquela noite, ele deixou e falou que podia tomar banho também, depois de 5 dias sem banho meu cheiro não devia estar dos melhores, pensei: "Ótimo, melhor que eu esperava", para minha surpresa, quando sai do banho, ele falou: "Pega suas coisas e pode dormir no quarto de hóspedes". Nossa, não podia acreditar, morrendo de felicidade fui desmontar a barraca e trazer minhas coisas para dentro da casa e para minha surpresa ainda maior, a janta estava servida, escabeche! Comemos, conversamos sobre assuntos diversos, muito culto o Sr. Ricardo, e finalmente pedi licença para me retirar e ter o meu merecido descanso EM UMA CAMA!

Dia 7 - 06/03/21(sábado) - FELICIDADE

Acordei após uma ótima noite de sono e recuperação, Sr. Ricardo já estava acordado, tomei o café da manhã, despedi-me do Sr. Ricardo, ele voltou para a obra do seu novo rancho e eu parti, nada de novidade no trajeto, com exceção de umas ruinas e de uns ranchos abandonados, de novo, os últimos 3 km foi aquele martírio, mas cheguei no rancho que também encontrei previamente nas imagens de satélite, não estava abandonado, mas não havia ninguém, quando me aproximei vi que bem na frente do rancho havia aquelas bombas antigas de água que aparecem em filmes do velho oeste e pensei: “Será que está funcionando?”, bombeei algumas vezes e surpresa, água! Bem bonito o lugar, com dunas, que estão condenando o rancho também, e uma pequena lagoa nos fundos.

Quando cheguei encontrei um grupo de motocross que havia me passado na praia com um a reboque, fui me aproximando quando todos saíram e ficou somente o Julinho, ele me explicou que sua moto havia quebrado, então o pessoal voltou e seu filho, que também estava no grupo, iria voltar com sua caminhonete para regatá-lo, ficamos ali conversando sobre assuntos diversos quando seu filho chegou, colocou a moto no reboque e partiram.

Logo após a partida do Julinho e filho montei a barraca e como eram 17:00 e havia 2 horas de sol ainda aproveitei para explorar os fundos do rancho, tirei fotos lindas, as melhores da travessia, eu acho, esperei o pôr do sol nas dunas para tirar fotos e foi um espetáculo, fechando a última noite com chave de ouro!

Retornei para a barraca, fiz minha rotina e fui dormir para o último e derradeiro dia, o sentimento é estranho, o oposto da primeira noite de camping, quando o que eu mais queria era ficar solitário, ansioso pelas aventuras que passaria, agora quero ver gente, sair logo daqui, ter o conforto de volta, é incrível como uma semana no meio da natureza, sem conforto, onde tudo que você faz despende uma quantidade considerável de energia, te faz valorizar coisas simples, como um copo de água gelada!

Dia 8 - 07/03/21(domingo) - ANSIEDADE

Acordei bem cedo, umas 4:30, na ansiedade de terminar a travessia, tomei o café, desmontei camping e umas 6:30 já estava caminhando em direção à Barra do Chuí. Os primeiros 14 km foram rápidos e cheguei de forma descontraída no vilarejo de Hermenegildo, para os íntimos Hermena, é um trecho de uns 3 km de praia na frente da vila, várias pessoas me intercederam com a indagação de onde estava vindo, quando falava Barra do Rio Grande, cada um tinha uma reação, uns falavam que eu era louco, outros me davam os parabéns pela coragem e ousadia.

Um dos Salva-vidas que estava de plantão começou a caminhar comigo, pois estava interessado em fazer a travessia, mas tinha dúvidas de como fazê-la, principalmente de como obter água, fui explicando todo o processo da travessia e os pontos de atenção e 3 km passaram sem eu ver, ele se despediu no final da praia e disse: "Parabéns, são 13 km daqui para frente, você conseguiu”. Bom, na verdade faltavam 12,2 km que foram os mais demorados de toda a travessia, do ponto onde o Salva-vidas me deixou ainda não dava para ver a Riviera do Chuí e muito menos a Barra do Chuí, fui conseguir enxergar as primeiras edificações da Riviera faltando 8 km para finalizar, porém, na ansiedade de terminar, cada metro que passava parecia quilômetros e cada segundo parecia horas, assim foi até eu avistar as primeiras pessoas, pescadores, ao longe, porém ainda não via os molhes, pois, depois, chegando mais perto, vi que havia uma duna obstruindo minha visão, fui conseguir avistar os Molhes do Chuí faltando 4 km para finalizar.

Esses 4 km, em tempo, pareciam os 218 km que eu já tinha percorrido, não terminavam, mas aos poucos os molhes foram ficando maiores e de repente faltavam 30 metros, tirei o celular e comecei a gravar o final e... cheguei! Coloquei a mão nas pedras dos Molhes do Chuí, tinha terminado a travessia, que alegria, consegui! A jornada que tinha começado há 7 dias, 14h e 32min tinha terminado, que grande experiência, parece bobagem ir de molhe a molhe, mas assim como chegar no cume de uma Montanha, molhe a molhe é apenas parte da jornada, o mais importante, o que te transforma, é a jornada e o que você aprende com ela e eu aprendi muita coisa!

Thiago Char
Thiago Char

Published on 03/21/2021 17:33

Performed from 02/28/2021 to 03/07/2021

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Rafael Damiati
Rafael Damiati 03/22/2021 08:32

Parabéns pela conquista, Thiago! Consegui reviver cada etapa da travessia com seu relato.

Thiago Char
Thiago Char 03/22/2021 10:35

Valeu pessoal!! @Fabio Fliess, vai nessa cara, a travessia vale cada segundo!

Paula @mochilaosabatico
Paula @mochilaosabatico 03/22/2021 18:36

Ótimo relato! Obrigada por compartilhar em tantos detalhes. Eu até tenho curiosidade de fazer essa travessia, mas confesso que o fato da paisagem ser sempre a mesma é bem desanimador. Espero que vc tenha curtido 😉

Peter Tofte
Peter Tofte 03/23/2021 17:31

Parabéns! E belo relato! Será que a pisada na areia facilita problemas musculares e formação de bolhas? Sua tenda é a Assault da TNF (um tecido só)? Dizem que infiltra água nela quando chove.

Thiago Char
Thiago Char 03/24/2021 22:35

Obrigado pessoal! Paula, realmente, esse é o contra da travessia, mas no geral vale a pena, eu curti sim! Peter, o tendão inflamado eu correlaciono com o terreno sim, a praia tem uma leve inclinação que eu acredito que acabou sobrecarregando meu pé esquerdo, agora as bolhas eu já não sei, de fato não é um terreno que estou acostumado, porém estava afastado das trilhas há um ano devido a pandemia, acredito que foi a junção dos dois.

Fábio Brum
Fábio Brum 04/08/2021 23:33

Olá Thiago! Parabéns pela conquista! É uma experiência única, fiz em Janeiro e foi difícil, mais da metade dos arroios estavam secos kkkk Abraço!

Thiago Benedicto
Thiago Benedicto 07/21/2021 12:03

Sem duvida o melhor relato que já li do Cassino! PQP que show!

Thiago Char
Thiago Char 07/26/2021 09:53

Valeu Thiago!! Caramba Fábio, deve ter sido tenso, pois são os arroios que viabilizam essa travessia.

Thiago Char

Thiago Char

São Paulo

Rox
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Apaixonado por Montanhas, desde que me conheço por gente, mesmo não tendo nascido em uma região de Montanhas. Por quê?  "Porque elas estão lá." George Mallory

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