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MANTIQUEIRA TRAILS BIKEPACKING - 2017

MANTIQUEIRA TRAILS BIKEPACKING - 2017

Eu precisava voltar para as montanhas...

Bikepacking Mountain Bike Camping

ROTAÇÃO MANTIQUEIRA BIKEPACKING - EDIÇÃO 02

Se passaram 2 meses desde a primeira edição do Rotação Mantiqueira, e nossa, a correria de SP já estava uma loucura. Eu precisava voltar para as montanhas, sentir aquela sensação de leveza de novo, ter aquele pleno contato com a natureza. Isso se tornou um vicio nos últimos anos.

UM DIA ANTES

É sempre uma correria, tudo precisa estar de acordo com o tutorial. Planejar a rota; fazer o checklist; conferir tudo, faltou algo…corre atrás; manutenção da bike; compra de passagem, e mais um pouco. Até que por final esteja em ordem.

O PLANO

Pegar o ônibus no Terminal Rodoviário do Tiete em SP com destino a Passa Quatro - MG, conhecer o Parque Nacional de Itatiaia e depois seguir por aventuras nos 230 km do Caminho dos Anjos, um lindo circuito para atividades outdoor no Sul de Minas.

Mas não aconteceu tudo como planejado, a começar com problemas na Sra. Aventureira.

PASSA QUATRO E A FÁBRICA DO RAIMUNDO

O ônibus me deixou na rodoviária em Passa Quatro por volta das 11h da manhã, montei a bike, abasteci as caraminholas e logo comecei a pedalar. Itamonte estava a 28km, eu precisava seguir por uma antiga linha férrea que cruzava a cidade toda. Foi bem fácil de achar, ela fica na avenida principal. Mas já na primeira força que coloquei nos pedais em uma pequena subida, a roda traseira saiu do lugar.

De cara já identifiquei o problema. Era o tensionador da corrente, sua solda estava trincada e abrindo cada vez mais.

Por sorte encontrei os “brotherzinhos”. Dois garotos que estavam brincando na cidade e me levaram até a Fábrica do Raimundo, onde ganhei uma solda nova.

A peça ficou ótima e não me custou nada mais do que uma boa conversa com o seu Raimundo. Contei a ele sobre minhas aventuras, e ele disse que de uns anos pra cá o turismo tem ganhado muita força naquela região e que a Serra da Mantiqueira tem atraído muitos praticantes “dessas coisas que cês fazem de se aventurar”.

Após o susto pude continuar com o pedal mas um gostinho diferente já estava me acompanhando nessa aventura.

Itanhandú é uma das cidadezinhas que fica entre Passa Quatro e Itamonte, nela eu demorei para achar a rota, todas as pessoas que eu perguntava passavam informações diferentes.

Quando encontrei, havia uma placa com as iniciais “ER” indicando que aquele trecho fazia parte da Estrada Real, hoje a maior rota turística do Brasil com mais de 1.630 quilômetros de extensão.

CAMPING EM ITAMONTE

Um lanche rápido em Itamonte antes de encarar 12 km de uma difícil subida de serra até o Picus, abrigo de montanha administrado pelo casal aventura Felipe Guimarães @feradamontanha e Thaiana Ferreira @tatanamontanha, lá me instalar para no dia seguinte conhecer o Parque Nacional de Itatiaia.

Já no camping conheci uma turma de gringos que estavam ali afim de fazer a travessia da Serra Fina, considerada a mais difícil do Brasil. Me virei com gestos e mímicas para me comunicar.

Chico um uruguaio super legal e guia da turma me ajudava nessa parte.

Preparei uma janta e fiquei por horas, mais dando risada do que conversando com os gringos.

O frio estava castigando a gente naquela noite, então entrei para a barraca me esconder dele e descansar um pouco.

PARQUE NACIONAL DE ITATIAIA, FRIO E TUDO PRETO NA VOLTA

A dúvida pela manhã era entre conhecer o parque ou pedalar por 80 km em sua volta. Fiz muito bem ter escolhido o parque, ele é lindo!

Chegar até ele foi uma luta, 21 km de ataque a todo momento, um misto de subida de serra e estradão de terra. A parte boa são sempre as belíssimas paisagens montanhosas, incluindo a radiante Serra Fina como destaque do trajeto.

Na portaria são cobrados R$ 16,00, um dinheiro justo e muito bem gasto. É possível acampar na base do parque, no Abrigo Rebouças, mas é necessário reservar antes. À partir do abrigo só é permitido ir caminhando pelas diversas trilhas: Agulhas Negras, Pedra do Altar, Prateleiras, Couto, Cachoeira do Aiuruoca e outras. Algumas são obrigatória a presença de guias.

Deixei a bike no abrigo, troquei as sapatilhas por um par de botas de trekking que eu levei comigo e decidi por encarar os 2.665 metros de altitude da Pedra do Altar.

No cume da pedra, pude desfrutar de incríveis paisagens de vales e cordilheiras de montanhas, e de uma sensação inexplicável que esse contato com a natureza trás para a nossa alma.

O parque é bastante frequentado por escaladores, existem diversas vias de escalada por ali. Da Pedra do Altar, eu conseguia avistar alguns pequenos pontos coloridos se movendo no pico do Agulhas Negras.

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A volta para o camping foi meio traumática, eu não achava que iria voltar tarde e não me preparei para isso. Fez muito frio e eu ainda tinha a volta toda, 21 km agora só de descida.

Sai do parque com o céu ainda claro, mas a escuridão me pegou no meio do caminho. Não sentia meus dedos para apertar os freios, não enxergava um palmo na minha frente, o vento batia forte cortando os meus lábios e a pior parte era que eu não tinha nenhuma iluminação comigo.

Caminhões e carros passavam por mim na serra com aquelas buzinadas de fazer doer a cabeça. Qualquer desatenção minha poderia ser fatal.

Quando cheguei ao camping a primeira coisa que fiz foi tomar uma ducha quentinha e entrar para barraca, tirar aquela tensão que eu estava e me aquecer.

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Pelas 8h da manhã todos já estavam de partida no camping, eu como sempre fiquei por último.

Conheci uma mulher já de meia idade e uma imensa vontade de criar um blog de aventuras dedicado a pessoas da terceira idade. Ela estava sozinha e de saída para conhecer o parque.

Eu e o Chico conversamos por horas naquela manhã, ele me contou um pouco sobre suas aventuras e uma viagem de bike que fez pela América do Sul.

EI VOCÊ ESQUECEU ISSO!

Eu tinha que seguir viagem, então me despedi do pessoal do camping, terminei de arrumar minhas coisas, tomei um café e comecei a pedalar, dessa vez até Alagoa.

Parei na mesma lanchonete que comi quando cheguei na cidade e para comer também pedi o mesmo lanche. Depois de encher a barriga, fui para estrada encarar 40 km de serra.

Tudo estava correndo bem, e quando eu já estava pedalando, pronto para dedicar horas suadas em cima da bike, ouvi umas buzinas atrás de mim.

Era a mulher da lanchonete com algo na mão, gritando - Ei você esqueceu isso!

Era a minha carteira, com meus documentos e cartões.

Agradeci imensamente a mulher, que por bondade pura pegou seu carro e foi me encontrar na estrada. Pude perceber que ainda existem pessoas boas nesse mundo.

Passei o caminho todo pensando nisso. Parecia que algo ñ estava me deixando continuar com essa aventura.

SERRA DO PAPAGAIO

Eu estava na estrada, encarando aquela serra cheia de sobe e desce quando avistei placas para a Serra do Papagaio. Havia planejado passar por ela e fazer alguns registros.

Pedalei por horas tentando encontrar o acesso ao Parque mas não consegui, o dia acabou indo embora e eu tinha que encontrar um lugar para passar a noite.

Mais alguns quilômetros e um vale lindo de montanhas clareou na minha frente, dei uma analisada no local e parecia perfeito para montar acampamento.

Preparei a janta dentro da barraca mesmo, pois estava muito frio. Na cidade as pessoas haviam me dito que a previsão era para 8ºC na madrugada. Então tratei de me agasalhar muito bem nessa noite.

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A Sra. Aventureira amanheceu coberta por geadas. Aquele frio todo realmente aconteceu.

Eu já acordado nem fiz questão de levantar, fiquei quietinho até o sol aparecer e mudar a temperatura do ambiente.

No caminho eu peguei uma descida bem íngrime e grande parte dela era de umas pedras parecidas com aqueles olho-de-gato. Meus freios trabalharam muito bem ali.

O acesso ao Parque estava a poucos quilômetros de onde eu havia passado a noite, mas não fui até ele. Optei por pedalar e ir para cidade almoçar.

SRA. AVENTUREIRA NÃO ESTÁ LEGAL

Em Alagoa, fui em busca de um restaurante para comer de verdade.

Tudo estava perfeito até esse momento. Comi bem, ganhei paçocas e abasteci as caraminholas. O difícil foi levantar da mesa.

Pedalando não muito longe a Sra. Aventureira começou de novo a apresentar problemas. Quando eu colocava forças nos pedais, parecia que eles giravam em falso e isso foi se agravando.

Depois de mais alguns quilômetros um outro problema parecia ter aparecido. Um barulho de algo batendo estava me incomodando muito.

Parei para entender o que era e vi que a pinça do freio traseiro estava solta e parecia estar quebrada, o que confirmei quando olhei mais de perto.

Juntei a parte trincada na outra, apertei o parafuso e consegui parar com o barulho, mas meu freio traseiro estava comprometido.

Esse problema eu consegui amenizar. Agora o problema nos pedais só foi piorando com cada subida, até que cheguei ao ponto de descer da bike e empurrar para não ficar completamente sem os giros, o que me fez ficar na estrada por mais uma noite.

O sol já estava baixando nas montanhas e Aiuruoca estava a 24 km. Nas condições que eu me encontrava a escolha mais inteligente a se fazer era parar em algum lugar, montar acampamento e esperar o dia amanhecer, eu não iria achar nenhuma bicicletária antes de chegar a cidade.

Por todo momento eu seguia sempre ao lado do Rio Aiuruoca. Em Itamonte um senhor havia me dito que muitos aventureiros acampam na beira do rio.

Foi bem fácil achar um lugar, um terreno descampado com o barulho do rio de trilha sonora para aquela noite.

Acabei nem jantando, o almoço em Alagoa me sustentou muito bem e segurou a fome por muito tempo.

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PARTIU EMPURRAR A BIKE

Tentei levantar bem cedo no dia seguinte, até consegui, mas voltei para a barraca e fiquei lá por um tempo.

Me virei com um café rápido e levantei acampamento. Consegui água em uma fazenda próxima.

Troquei as sapatilhas pelas botas para ficar mais confortável e fui para estrada, dessa vez empurrar e não pedalar a Sra. Aventureira.

Foram 20 km de estrada, quase nada de subidas e nas descidas eu pulava na bike e ia só com o embalo.

Não foi nada fácil, mas com certeza me rendeu uma boa experiência e um bom momento para decidir sobre parar por ali e voltar para SP.

Já na cidade fui almoçar e atrás de informações para ir embora. Havia 2 opções, ir até Caxambu pegar um ônibus na Rodoviária ou esperar até 00h e tentar vaga em um ônibus que passaria em Aiuruoca com destino a SP.

Decidi por Caxambu, mas estava a 42 km e eu não conseguia pedalar. Corri atrás de taxi e nada. Até que me indicaram uma pessoa que fazia viagens entre as pequenas cidades da serra, o Fabinho, que me cobrou 100 dinheiros para levar eu e a Sra. Aventureira em um fusquinha todo ajeitado. Achei muito caro, mas era minha única opção. Esperar pelo ônibus era algo incerto, ele só passa uma vez por semana e sempre lotado.

UM COLETE REFLETIVO NA ESTRADA

O fusquinha do Fabinho foi que foi, trocamos poucas palavras. A Sra. Aventureira estava toda desmontada no banco traseiro.

De longe eu avistei um ciclista na estrada com um Colete Refletivo, um senhor de meia idade com um aspecto muito cansado - Mas tarde ele iria se sentar ao meu lado no ônibus.

Caxambu é uma cidade muito bonita, já bem civilizada. Muitas pessoas na rua aproveitando o lindo dia que fazia naquele domingo, uns dos principais atrativos da cidade, o Parque das Águas estava lotado. Os Teleféricos que levam até o Mirante de Caxambu estava em constante movimento.

Consegui comprar passagem para 16h30, por pouco ñ encontrava mais e o próximo ônibus seria apenas às 23h.

Enquanto esperava na plataforma da Rodoviária, 4 ciclista apareceram pedindo informações, eles estavam cheios de alforjes e à 3 dias na estrada também fazendo o Caminho dos Anjos. Lamentaram o meu ocorrido, disseram que tiveram problemas com uma bike, mas nada tão sério e conseguiram seguir viagem.

Algumas pessoas com mochilas cargueira nas costas chegaram em uma espécie de caravana. Pareciam também estar realizando alguma aventura pela serra. Achei muito legal isso, inclusive o cara que parecia ser o guia da turma, eu havia visto parado em um ponto de ônibus na cidade de Itanhandú.

O ônibus chegou e todos se apressaram para colocar as malas no bagageiro e subir para seus assentos.

Como da outra vez, tirei apenas a roda da frente e a bolsa de guidão da Sra. Aventureira. Dessa vez eles não me pediram documento da bicicleta.

Depois de um tempo já dentro do ônibus, aquele Sr. de Colete Refletivo na estrada sentou do meu lado. Não me contentei e puxei assunto, ele com um tom de ciclista bem experiênte disse que estava participando de um AUDAX de 600km, e a 2 dias na estrada só pedalando estava desistindo depois de apagar algumas vezes em cima da bike por cansaço.

Essas provas exige muito dos ciclistas, são disputas de altíssima resistência e orientação em estradas, visando sempre o bom desempenho e superação, pedalando cada vez mais longe.

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No caminho pegamos um trecho com muito trânsito, o que fez com que chegássemos em SP com quase 2 horas de atraso.

O plano para a segunda edição do Rotação Mantiqueira não foi concluído, ficou com um gostinho de incompleto. Essa aventura me mostrou que mesmo estando um passo a frente dos problemas, eles podem sim acontecer e fazer mudar o contexto da história.

Trouxe pra casa mais experiência, e estarei mais preparado para as próximas.

Até breve!

--

Confira a Edição 01 dessa aventura

Acompanhe minhas aventuras também pelo instagram

DADOS

• TRAJETO - SERRA DA MANTIQUEIRA

(Passa Quatro > Itanhandu > Itamonte > Parque Nacional de Itatiaia > Parque Nacional Serra do Papagaio > Alagoa > Aiuruoca)

• PERÍODO - 4 dias

• DISTÂNCIA - 165 Km

• ALTITUDE - 2450 metros

• HORAS PEDALANDO - 14 horas e 50 minutos

• DIFICULDADE - 5/10

Leonardo Ferreira
Leonardo Ferreira

Published on 08/01/2017 23:26

Performed from 07/12/2017 to 07/16/2017

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Vivi
Vivi 08/04/2017 09:58

Sempre precisamos voltar para a montanha né? =) Belas imagens!!

Leonardo Ferreira
Leonardo Ferreira 08/04/2017 11:05

Vivi, sim. Um vício muito bom! haha. Obrigado!

Fabio Fliess
Fabio Fliess 08/04/2017 14:45

Show!! Muito bom Leo!

Leonardo Ferreira
Leonardo Ferreira 08/05/2017 14:36

Obrigado Fábio! \o/

Eduardo Aguiar
Eduardo Aguiar 08/22/2017 13:15

e aí Léo , fizemos o caminho dos Anjos em Junho, foram 3 dias maravilhosos, vc deu sorte que sua Sra Aventureira não quebrou na Serra do Pq do Papagaio, alí é vc e Deus, não tem nada, sem falar das subidas e descidas PUNK, mas parabéns por mais essa aventura, eu estive vendo a outra viagem que vc fez saindo de Extrema MG, show de bola !!

Leonardo Ferreira
Leonardo Ferreira 08/22/2017 14:01

Oi Eduardo...Muito obrigado cara e parabéns para vocês que conseguiram concluir o caminho! Eu vou querer voltar e concluir em breve. Aproveitei muito enquanto conseguia girar, paisagens lindas de tirar fôlego. Obrigado por acompanhar os relatos! :P

Luís Felipe A. dos Santos
Luís Felipe A. dos Santos 12/06/2017 18:06

Fala Leooutdoor! Cara, parabéns pela trip! Mandou bem no percurso! Cara, outra coisa.. desculpe ser chato a esse ponto, mas, teria como você falar a marca e onde comprou as bolsas de sua bike? Não to achando em lugar nenhum uma boa FRAMEBAG (bolsa de quadro em triângulo) para minha bike! Tá osso! E outra.. Como você conseguiu prender os sacos estanque no GARFO de sua bike? Teria como detalhar melhor? Desculpe as milhares de perguntas! Grande abraço!

Leonardo Ferreira
Leonardo Ferreira 12/11/2017 21:18

Fala Luís! hahahaha...tranquilo cara! Obrigado, foi uma aventura e tanto! Vamos lá... A bolsa do quadro foi feita artesanalmente pela minha mãezinha que mandou benzasso (rs!) Bolsa de selim - Eleven Bags - https://spino.bike/collections/acessorios Bolsas térmicas - Eleven Bags - https://spino.bike/collections/acessorios Bolsa de guidão - Blackburn design - http://www.mercadinhodabici.com.br Os sacos eu improvisei um suporte com uma base sólida para o saco estanque ñ escorregar e prendi no garfo com "Enforca Gatos", depois com fita elástica envolvendo o saco e o garfo. Isso foi feito na primeira viagem na segunda eu já estava com um suporte protótipo desenvolvido junto com a CURTLO. Fique à vontade com as perguntas, rs. Boas pedaladas camarada, abraço!

Leonardo Ferreira

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