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Viviane 09/05/2018 17:06
A montanha da vida

A montanha da vida

Meu relato é sobre minha primeira experiência na Patagônia Argentina! Fantástico!

Depois de alguns meses dessa jornada, resolvi fazer como outros aqui no grupo e compartilhar um relato que fiz da primeira experiência que vivi na Patagônia!! Quem puder ir, recomendo muito é incrível!!

Foram apenas 7 dias nas montanhas! 7 dias que carreguei nas costas tudo o que tinha e precisava. Sem Internet, sem telefone e na maior parte do tempo escolhi caminhar sozinha, em silêncio, mas com pensamentos longe e por vezes tão perto e tão profundos. Rebobinei filmes na memória. Lembrava da minha infância, adolescência, das escolhas da vida adulta. Pensava na forma que fui criada, que me tornou independente e ao mesmo tempo tão ligada por laços fraternais. Essa mesma criação que instiga em mim essa ânsia por viver. Tentei entender quando tudo começou, esse sentimento pelas montanhas, por me sentir vulnerável, pequena e ao mesmo tempo parte de algo grandioso.
Pelo caminho encontrei muita gente admirável, homens e mulheres incansáveis e fortes que carregavam suas mochilas enormes e seus filhos nos ombros, ensinando ainda no colo as razões de se respeitar a natureza e o quanto ela faz bem. Motivações que mostram o quanto tudo é possível quando se quer e se está preparado para suportar.
Perdi o fôlego várias vezes e por várias vezes achei que não fosse conseguir, dor nas pernas, a mochila começava lá pelo terceiro dia, machucar e pesar, as bolhas nos pés ardiam, eu sentia os ossinhos doendo a cada passo. Os pensamentos começavam a ser destrutivos, e o clássico questionamento "O que eu tô fazendo aqui?" surgiam com frequencia. A trilha não era difícil tecnicamente, mas a distância caminhada por dia, o aclive, o sol que ardia na pele, o peso, as dores, faziam o psicológico trabalhar.
Nesses momentos eu pensava na minha família. Ah! sempre eles que são o gás para eu encarar meus desafios, pensar no quanto meus pais são fortes, guerreiros, saber que tenho o sangue deles me impulsionava.
Eu sou uma apaixonada por plantas e flores e iniciei a caminhada descrente que as encontraria, por tratar-se de um lugar de clima hostil, muito frio, eu prometi a mim que se ao longo desses dias caminhando eu encontrasse alguma flor, dedicaria a meus avós, em especial minha amada Vó Alzira que havia partido a pouco tempo o que ainda me dói muito, uma mulher guerreira que até o fim lutou e lúcida não sabia lidar com o fato de dar trabalho à outras pessoas. A saúde e a independência era-lhe preciosa demais. Eu precisava ser grata pela minha saúde e sentir meu corpo vivo.
Eu não podia imaginar que em meu caminho encontraria tantas, mas tantas flores, de tantas cores e formatos, senti-me acariciada e cuidada todos os dias. Coloriram meu caminho de saudade e boas lembranças enchendo-me de coragem.
Porém, no trecho onde o sol não perdoou, por alguns quilometros de subida ingrime e escorregadia ofereci cada passo meu a todos aqueles que gostariam de estar em meu lugar e por diversas razões não podiam. Falta de saúde, dinheiro, tempo...escolhas. Pessoas que eu gostaria que pudessem ver com meus olhos as tantas coisas lindas que eu puder ver naqueles dias. Por essas pessoas eu pensava em continuar.
Não sei o que me fez escolher as montanhas, mas estando nelas, vejo que existem inúmeras pessoas que também estão lá, cada uma com suas razões. E todas pelo fascínio em adentrá-las, colocar-se vulnerável às decisões, saber virar-se, aceitar o que ela oferece e compreender que cada um está lá porque quer.
O sol quente do dia, o frio congelante da noite tornam árduo o trabalho da mente e somam-se a decisões como tomar banho na água do degelo.
Com certeza, se me perguntarem por que eu subo a montanha, eu diria: Porque ela está lá! E alguma nova parte de mim também está e eu preciso ir lá buscar!!

Foram poucos dias, mas não pouco intensos, nem perto do que muitos já fizeram, mas muito, perto do que eu já havia feito. Dias que me deram espaço para pensar na vida, em planos, desfazer preconceitos, reavaliar atitudes, resgatar valores, matar alguns demônios e aceitar outros.

Por fim, a Argentina tem sim sua magia e encanto, encontrei muita hospitalidade, gente solidária, principalmente com meu espanhol hehehe o espírito de montanha é muito presente nesse povo!! Certamente o aprendizado está no caminhar, mas sem dúvida quem caminha tem a recompensa da chegada, seja ela, em casa, no cume, ou até um por ou nascer de sol incrível, não importa, dividir algo assim com alguém que amamos e que escolhemos para dividir a trilha e perrengues da vida, dividir com amigos fortes que topam estar conosco e viver essas mesmas experiências de peregrinar, amigos e família, que mesmo apreensivos, esperam a nossa volta ansiosos pelas histórias. Compartilhar!! Isso tudo forma o grande sentimento de GRATIDÃO, que toma conta do meu peito e faz tudo ter sentido.

Olhando ao horizonte das retas da Ruta 40 dou um suspiro profundo para continuar a escrever enquanto sou a co-pilota da rodada, entre mates e amendoins, essas memórias que transcrevo se misturam com a ansiedade de estar a exatos 1.073Km de casa, do meu refúgio quentinho e cheio de amor, onde todos os demais que amo, minha Cachorra Makalu, família, amigos, trabalho, esperam a minha volta para que eu continue a subida da montanha...da Vida!!

Viviane
Viviane

Published on 09/05/2018 17:06

Performed from 02/09/2018 to 02/17/2018

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Renan Cavichi
Renan Cavichi 09/06/2018 23:05

Que lindo o texto Viviane! Por um momento me fez lembrar de uma reflexão: Não se conquista a montanha, conquista-se a si mesmo! Bem-vinda! :)

Maway
Maway 09/18/2018 10:04

que incrível! <3