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Cobiçado, Mesmo!

Cobiçado, Mesmo!

Montanhismo é isso: beleza, consciência, amizade, integração com a natureza, aproximação com pessoas de bem.

Hiking Mountaineering

Eu conhecia esse menino apenas pelas redes sociais, através de um casal muito amigo também apenas pelas redes. Mas aí eu já estava muito saudosa das montanhas. E esse rapaz conhecia a maior parte das montanhas da região serrana de Petrópolis. Então na terça-feira resolvemos que faríamos a travessia Cobiçado-Ventania. E iríamos nos conhecer pessoalmente também. Estava tranqüila porque ele foi muito bem recomendado.

Conversamos um longo tempo na segunda à noite sobre o tempo. A previsão para Petrópolis estava excelente, mas para as bandas de Teresópolis não era boa. Mas o menino-guia morava num lugar privilegiado e de sua varanda podia avaliar os céus, além dos sites de tempo dar a previsão. Ele era o que chamamos “minhoca-da-terra” (comentamos esse termo na trilha e ele disse ter achado engraçado quando ouviu pela primeira vez) e conhecia no olho o comportamento das montanhas, mesmo sendo tão jovem.

Decidimos que a trilha ia rolar nem que fosse apenas para o Cobiçado (montanha de Petrópolis com 1678m de altitude) que era onde tinha tempo bom. Como sou uma pessoa ansiosa não dormi àquela noite, como sempre, e o menino-guia também. Levantei às 4h30 e parti para a Rodoviária Novo Rio, conseguindo pegar o ônibus de 5h30 da manhã.

Na rodoviária do Bingen tomei um café com leite e pão para reforçar a carcaça (já meio debilitada por uma virose na semana anterior) e peguei um ônibus para a antiga rodoviária no centro de Petrópolis, onde esperei meu mais novo amigo montanhista por meia hora. Dali pegamos um ônibus perto da UCP cujo destino final era uma localidade conhecida como Três Pedras. Mas descemos próximo ao caminho do Cobiçado onde há a igreja do Caxambu.

Quando começamos a subida pela rua avisei que não sabia como seria meu desempenho porque estava me recuperando de uma virose forte. E para minha tristeza não estava 100% boa ainda. Na verdade, estava muito fraca e sem resistência aeróbica e muscular. Mas meu guia foi um verdadeiro doce comigo e só faltou me levar no colo. Fomos parando o tempo todo, mas tiramos muita foto e conversamos durante todo o caminho.

Depois que passamos pela placa indicativa da travessia encontramos uma bela serpente no meio da trilha tomando sol. Eu estava na frente e parei para tirar fotos, a uma distância segura. Quando meu amigo guia foi fotografar ela se cansou de ser objeto de admiração e foi embora para o mato. Então prosseguimos. E dali em diante a subida foi ficando mais forte. Caminho com aclive acentuado e bastante erodido. Eu quase morri, parando muito mais. Mas não parávamos também de conversar. Eu sabia que quanto menos eu falasse mais fôlego eu teria. Mas o meu querido guia não parava de falar (ele era igual a mim) e o papo era muito bom e divertido.

Entre belas paisagens e aproximação do cume bem devagarinho, fizemos o trajeto em 3 horas. Quando cheguei ao cume estava aliviada. E agradeci a paciência e bom-humor daquele rapaz maduro e consciente. Eu descansei um pouco, deitei mesmo na pedra ao sabor do vento, para depois começar a explorar o local.

Antes mesmo da chegada ao topo eu decidi que não iria fazer a travessia até o Ventania. Conseguíamos ver que o tempo lá pelo lado de Santa Izabel estava muito bom, mas eu não estava em condições físicas de continuar. Melhor reconhecer o próprio limite e não forçar. Meu amigo me elogiou bastante por isso.

Mas a chegada até o Cobiçado já era uma conquista e tanto. Na verdade fiz o pior trecho da travessia (o mais íngreme) e era muito bonito ver tudo ao redor. Eu estava na 37ª montanha mais alta de Petrópolis, onde nascia um dos afluentes do Rio Piabanha, com araucárias, orquídeas, samambaias e toda aquela vegetação típica das montanhas. Quando eu e meu amigo guia fomos fazer nossa “sessão” de fotos e explorar o cume foi bem engraçado porque ele percebeu que eu ficava atenta não apenas à ampla paisagem do local, mas também às coisas pequeninas de singela beleza, como insetos e pequenas flores. Filmei e fotografei um pequeno inseto que depois um amigo biólogo identificou como um hemíptera (percevejo) cuja forma e cores eram bem diferentes e bonitos.

Depois das muitas fotos sentamos de novo nas pedras e voltamos a observar a paisagem com vista panorâmica não somente da cidade de Petrópolis e Rio de Janeiro (com a baía de Guanabara ao longe) como também as montanhas que meu guia conhecia tão bem. Era incrível o conhecimento desse rapaz de toda aquela região. Ele lia manuais de montanha e procurava orientação sobre tudo, inclusive equipamentos. Era um cara muito humilde em personalidade mas que tinha um conhecimento e uma consciência sobre montanhismo gigantes. Muito mais pé no chão, centrado, que muito montanhista que já conheci. Além de ser divertido.

Ficamos três horas no cume só papeando. E o assunto foi rendendo tanto, tanta coisa engraçada que falávamos... era papo-cabeça, zoação, revelações... E contei pra ele a história impublicável do "picolé", uma história que conheci há mais de 10 anos, e que o deixou tão chocado quanto eu. Depois dessa história com certeza ele vai rir toda vez que ver alguém vendendo picolé.

Havíamos chegado ao cume às 11h30 e resolvemos descer às 14h40. Foi um dia de grande aprendizado com aquele menino. Apontou-me as várias montanhas que ele conhecia muito bem: Alcobaça, Maria Comprida, Seio de Vênus, Castelitos, e muitos outros. E falou do forte desejo de ir onde ele não conhecia ainda: Açu (conseguimos ver os Castelos do Açu de lá) e Pico do Glória. Era um conhecedor profundo da região, mas isso não fazia dele um ser arrogante, muito pelo contrário.

Descemos com a mesma intensidade das conversas e no final ele soltou uma pérola dizendo que pessoas que faziam oferendas religiosas na natureza talvez quisessem oferecer algo ao “orixá Everest”. E aí eu não resisti e perguntei se a oferenda ao Orixá Everest poderia ser o "picolé"... Não conseguimos conter a gargalhada!

Eu me queimei muito pois além de ter esquecido o chapéu e o protetor solar o vento não deixava perceber o quanto o sol estava queimando. Ele que notou que eu estava muito vermelha ainda no cume e tentei me proteger ao máximo depois. Mas no fim estava com o rosto, pescoço e braços bem ardidos. Foi um tremendo vacilo da minha parte.

Despedi-me do meu mais novo amigo das montanhas na rodoviária do centro de Petrópolis e parti rumo à cidade do Rio de Janeiro. Estava muito cansada mas extremamente feliz. A montanha une montanhistas! Mais um amigo pra lista. E foi a melhor terça-feira que pude ter nos últimos tempos. Pretendo voltar e fazer mais trilhas com ele se houver oportunidade. É um ótimo parceiro nas montanhas.

Montanhismo é isso: beleza, consciência, amizade, integração com a natureza, aproximação com pessoas de bem. Que não me falte forças para prosseguir nesse caminho, seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo!

Viviane Rosa
Viviane Rosa

Published on 12/07/2016 17:09

Performed on 12/06/2016

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Fabio Fliess
Fabio Fliess 12/08/2016 15:41

Legal Viviane! Cobiçado é uma montanha clássica aqui de Petrópolis. Nunca canso de fazer uma visita!!! Abraços.

Viviane Rosa
Viviane Rosa 12/08/2016 20:15

Eu adorei, e quero ver se consigo fazer a travessia antes da minha viagem. Essa região de Petrópolis é muito bonita. E o menino que me levou conhece quase todas as montanhas da região.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 12/09/2016 09:37

Bacana... Foi com o Mateus certo? Eu o conheço das redes sociais também!

Viviane Rosa
Viviane Rosa 12/14/2016 11:23

Foi com ele, sim, Fábio. Agora que nos conhecemos já estamos planejando mais caminhadas por Petrópolis. Se puder junte-se a nós!

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Carioca, 41 anos. Morando em Cork, Irlanda.

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