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Infravermelho

Infravermelho

“Olhe para cima, seu objetivo é atingir o cume, não tem que olhar para baixo”. Última aventura de 2016, fechando com chave de ouro!

Climb Mountaineering

A primeira escalada a gente nunca esquece eu acho. Já havia me metido em uma parede anos atrás quando estava iniciando no mundo das trilhas. Foi um dos meus primeiros posts no meu blog pessoal. Depois fiz um Top Hope de 7m no campo-escola de Itacoatiara em 2015 e nem sabia o que era isso.

Até que comecei a conversar com o amigo Anderson Pontes sobre escalada. Na verdade ele me convidou para escalar e ao me lembrar dessas duas experiências fiquei muito em dúvida. Além da minha relação tensa com a rocha. Mas Anderson conseguiu acender em mim o bichinho motivador para tentar. Eu tinha sapatilha (que ele chamou de “sapata”, quanta intimidade!rs) e ele os demais equipamentos necessários.

Ele era um rapaz bem-recomendado. Então decidi tentar. Mas nas conversas eu enfatizava o tempo todo: “não tenho muito preparo físico, tenho medo de altura, minha relação com a pedra não é muito amigável, tenha paciência comigo”. E ele assegurando que seria uma via tranquila, nada muito alto imagina, uma pouco mais de 50m de altura hahaha . Eu mesma havia sugerido o paredão dos Coloridos no meu adorado MoNa Pão de Açúcar por amigos terem falado que ali era para iniciantes. Vendo lá da pista Cláudio Coutinho realmente parecia relativamente fácil. Anderson não teve objeção alguma. No Coloridos, faríamos a via Infravermelho.

Ele confirmou nossa aventura na véspera, no final da tarde. E marcamos às 7:00am na entrada da Pista Cláudio Coutinho. Chegamos juntos, ambos atrasados 5 minutos eu tinha brincado com ele quando tinha dito que 7 da manhã era bem cedo e acabei me atrasando também. Não perdemos tempo, rumamos para a base do Coloridos e colocamos os equipamentos. Mas subimos sem corda até determinado trecho até chegar à base da escalada. Subi igual a um orangotango toda desengonçada, e Anderson filmando!

Anderson me explicou como era a montagem da escalada. Como montar o aparelho, o que eram as costuras e assim por diante. Ele subiria até determinado trecho montando a escalada e depois desceria para eu fazer um top hope. Eu faria a segurança dele, quanta responsabilidade, pois se ele caísse eu o seguraria aplicando a técnica correta. E assim se deu. Ele começou a subir e eu literalmente fui dando corda. Não deu pra tirar foto, pois a segurança dele estava nas minhas mãos, de fato!

Ele desceu e chegou minha vez. Olhando de baixo pra cima parecia muito fácil até aos meus olhos. Mas quando fui para a pedra, onde estavam aqueles apoios maravilhosos que vi para minhas mãos e pés? Sumiram!

“Escalada é calma, muita atenção. Avaliar as possibilidades. Estudar. Você precisa perceber onde tem apoios para colocar a próxima mão, o próximo pé. Não pode ter pressa. Mas ao encontrar e agarra perfeita, vai com tudo.” Anderson me explicou e repetiu isso várias vezes comigo em ação. Ouvir suas orientações e o seu “muito bem, Vivi” a cada avanço foi muito importante para ter mais tranquilidade. As agarras “maravilhosas” que ele dizia ter para mim eram linhas finíssimas onde eu tinha que depositar minha energia e o peso do meu corpo. Era desesperador em certos momentos. Mas eu consegui! Top hope realizado com sucesso! E depois fiz a descida vertical conhecida como rapel.

Anderson subiu novamente e eu fiz a segurança dele outra vez. E a seguir eu iria encontrar com ele no meio da via. Ele feria a segurança lá de cima para mim. Só que eu tinha a responsabilidade de ir limpando a via retirando as costuras dos grampos. Não preciso dizer que consegui retirar e prender tudo na alça do rack no baudrier (cadeirinha) com muita falta de habilidade, mas muito consciente de que não poderia deixar cair. Anderson orientou a forma correta: primeiro deve-se tirar o mosquetão do grampo e prender na alça, só depois tira-se da corda, para não cair no vácuo da montanha. Perder equipamento na montanha é inadmissível, pois sua vida depende dele.

O tempo estava abençoado na última quinta-feira do ano. Sem sol. Mas eu senti muita sede e meu camelbak estava com Anderson, pois estava fazendo muito peso na mochila. Mas o nervosismo estava me dando uma sede danada. Quando o alcancei ele me abriu um sorriso e me deu parabéns. Eu tinha conseguido e ele disse que eu havia me saído muito bem. Ofegante e bebendo muita água, consegui gravar um vídeo mais uma vez, devidamente ancorada, claro.

Descansei e aí recomeçamos a “brincadeira”. Ele foi na frente e eu fui atrás, com a tarefa de recolher as costuras novamente. Parecia um trecho mais fácil, mas não foi. Como na primeira parte da subida eu “roubei” duas vezes colocando a mão no grampo, nessa também coloquei mais uma vez (isso não pode, é roubar, escalada é mão e pé na pedra o tempo todo). Que vergonha!

No trecho final, muito curtinho, estava sem forças e pedi para ser “rebocada”. Subi pela corda, mesmo, sob o olhar super compreensivo do Anderson. Havia pontos em que realmente devia ser apenas na aderência, chapar mãos e pés na pedra e erguer o corpo. Mas a sede e falta de preparo físico me impediram de fazê-lo e meu guia teve a sensibilidade de entender isso.

Na Caverninha, no cume, primeiro procedimento foi fazer minha ancoragem. “na escalada tudo fica preso, nós e os equipamentos, o tempo todo”, reforçou ele. E ao me passar o camelbak o prendeu também.

Conversamos sobre meu desempenho, apreciamos a paisagem e extremamente feliz e agradecida, eu disse: “Deus lhe pague” e Anderson recitou uma poesia com esse título. Isso que é tirar onda: apreciando a paisagem do alto da montanha, superando seus limites, encarando o medo e ainda ter seu guia recitando uma poesia. Dia perfeito!

Descemos de rapel. Ele me ensinou a montar um. A corda tinha 70m e como já estava marcada, passamos ela pelo grampo deixando exatamente no meio, fazendo 35m duplos. Passei a corda pelo freio ATC e prendi no mosquetão ‘mãe’ acho que o termo é esse, já esqueci hahaha . Ele colocou também o cordelete para aumentar a segurança. Após as muitas instruções dele, comecei a descida. Ele pediu para eu me ancorar num grampo cuja posição me deixava muito na vertical, ou seja, com o corpo inteiramente projetado para trás, para o abismo. Minha razão sabia que a ancoragem com a fita no grampo não me deixaria cair, mas meu desconforto incentivado pelo senhor medo não me deixou desprender do aparelho. Empaquei. Então ele montou o “resgate” e me alcançou. E aí eu desci até o ponto em que me senti mais confiante.

Retomei a descida. Tive que “desenrolar” a corda que tinha caído rente às bromélias. Depois me ancorei e desmontei meu rapel para que Anderson viesse ao meu encontro. Demorei falta de prática e intimidade com o equipamento mas fiz direitinho. E então ele me fez montar o rapel de novo para eu voltar a descer. E consegui também.

Concluímos com sucesso nossa descida. Minha sapatilha ou sapata para os íntimos foi comprada errada fui mal orientada na época e descer o trecho sem corda foi muito sofrido. Mas no todo foi um dia incrível! Quando eu estava escalando lembrei das palavras de uma amiga que já passou dos 50 anos, que é fera em escalada, quando eu disse que escalada não era pra mim e que eu tinha pavor de altura: “olhe para cima, seu objetivo é atingir o cume, não tem que olhar para baixo”. Eu fiz exatamente o que ela disse. Claro que quando tinha que ver onde colocar os pés minha visão periférica funcionava super bem em mostrar que eu estava super no alto hahaha mas olhar gratuitamente jamais!

Foi uma experiência sensacional. Anderson disse que eu o surpreendi pois tinha falado que tinha pavor, muito medo... e ele estava esperando alguém mais medrosa. Na verdade tive muito medo, sim. Para outros pode não ser uma via desafiadora, mas para mim foi um desafio muito forte. Mas sei que, além da minha determinação em enfrentar meu medo, eu consegui muito pelo incentivo e pela habilidade técnica do guia. Sobretudo, sua capacidade de empatia e seu alto astral contagiante contribuíram para a minha motivação. Fechei o ano com chave de ouro!

Será que encaro a escalada outra vez? Talvez, sim, mas reconheço que preciso me condicionar melhor fisicamente. Ainda sinto dores nos músculos dos braços bem fortes. Mas não posso descartar a possibilidade de voltar às paredes. Aos 40 anos estou vivendo experiências jamais imaginadas. E sempre em contato com a natureza. Isso é viver sem filtro, sem frescura! Muito afim.

Viviane Rosa
Viviane Rosa

Published on 12/31/2016 17:00

Performed on 12/31/2016

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Eduardo Chaves
Eduardo Chaves 01/02/2017 12:38

Irado!

Viviane Rosa
Viviane Rosa 01/04/2017 20:53

Foi minha primeira vez, Eduardo Chaves... mas to pensando na segunda, já rs