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Lapinha Tabuleiro, a Travessia mais bonita do Brasil

Lapinha Tabuleiro, a Travessia mais bonita do Brasil

Lapinha x Tabuleiro, este trekking que se faz pelos campos de cerrado da Serra do Intendente é sem dúvida a mais bela travessia do país :)

Travessia Lapinha x Tabuleiro, a mais bonita do Brasil

Boas aventureiros, como vão? De carro, bike, a pé, trólebus, rsrsrsrs, já deram risadas né :p

Nesse relato vou falar da travessia mais bonita do Brasil, a qual eu já realizei 15 vezes, sendo 2 solo para exploração de todas as trilhas secundárias, 2 vezes com amigos, sendo que a primeira vez que fiz foi com minha namorada e um amigo que também é instrutor e guia de montanhas assim como eu, ops, come nada, kkkk.

Grupo da expedição 11, realizada em setembro de 2017

As outras 11 vezes foram conduzindo meus grupos, através da minha pequenina agência de realização de sonhos e aventuras, os Aventureiros Anônimos, "merchâ" feito. Agora vou falar sobre esse trekking maravilhoso!

Grupo da expedição 05 - Mineiros + Paulistas, realizada em abril de 2016

Situada no estado brasileiro conhecido como "Mar de Morros", vulgo Minas Gerais, que eu amo, diga-se de passagem, está que é uma das travessias que se estende pela Serra do Intendente começando no alagado de Lapinha da Serra, um pequeno distrito de Santana do Riacho, ao norte de BH. Logo ao chegar no vilarejo já se avista o paredão rochoso que abriga os Pico do Breu e Pico da Lapinha, os mais altos da região, em épocas secas (temporada de montanhismo), as águas do alagado ficam bem mirradas e algumas cachoeiras na região praticamente somem e outras ficam com vazão super reduzida, nas épocas chuvosas, dependendo do dia e da quantidade de chuva, não dá nem para atravessar o alagado e iniciar a pernada. Então é bom escolher bem o dia para ir realizar o trekking lá.

Alagado, ínicio da travessia, aqui com volume um pouco abaixo do normal, agora há uma pinguela (ponte) próxima a este local para atravessar sem molhar os pés

Alagado ao fundo, visto de um dos mirantes

Já fiz a travessia em todas as épocas do ano, sempre pegando tempo bom e ótimo, que renderam boas caminhadas, tanto no solo como em grupo que renderam bastantes histórias até o momento, umas de superação e outras engraçadas como a do "burrinho uber" em abril de 2016.

Vou relatar sobre a travessia em si de uma forma mais informal e, no final do relato passarei informações técnicas. Lembro da minha primeira vez que foi em abril de 2015, planos feitos e bora rodar 700km de SP até Lapinha, passando por Lagoa Santa onde nos encontraríamos como uma amiga, a Tata e seguir pra Lapinha, onde nosso objetivo era alcançar a casinha da Dona Ana Benta (falecida em 2016), no primeiro dia de caminhada. Tudo pronto, cargueira nas costas e lá vamos nós, eu, Lili e Daniel, no apoio logístico o Mostarda (nome dele é Heinz, como a marca de maionese, kkk), que ficou com meu carro e encarregado de nos pegar ao final da travessia que culmina no distrito de Tabuleiro, na cidade de Conceição do Mato Dentro, este já do outro lado da Serra do Cipó. Voltando a travessia, passamos o alagado onde estava com água pelos joelhos, seca os pezinhos, bota talquinho e vamos subir o paredão, essa é uma das partes mais difíceis do trajeto, mas nada que pessoas com condicionamento e experiencia em trilha não supere em menos de 2 horas, vencida a "montanha inicial", avista-se todo o vilarejo de Lapinha e o tamanho imenso do alagado, é uma vista de tirar o folego, a melhor época para ver o alagado em volume normal é no verão, nas épocas de pouca chuva o volume d'água diminui mas continua uma bela vista, de qualquer dos mirantes. Oposto ao alagado, vastos campos verdejantes de cerrado, mata predominante da região, estende-se até onde a vista alcança, nessa hora invoquei o olho de Thundera que dá a visão além do alcance, rsrs, e vi o final da travessia (zuera). Após a árdua subida inicial começamos uma descida suave entre muitas lages de pedra chegando ao centro desse primeiro vale, onde é uma área de charco, que mesmo em época seca pode ficar bem úmido e com barro que acaba sujando botas, tênis e as calças até o joelho, cuidado com os escorregões e ainda bem no meio do vale há a verdadeira Árvore Solitária que pende para um dos lados devido a constante ventania que sopra do alto dos morros de um dos lados do vale, nessa parte eu imaginei um cenário de Senhor dos Anéis, de onde desceria um exército humano e do outro lado os orcs, ogros e afins...

Olha lá, já já chegam os exércitos para a batalha

Sim, os cenários são dignos de filmes de aventuras medievais, mas essa não é a única beleza desse trekking. Alcançamos "a prainha" após alguns sobe e desce suaves, essa praia de pedras brancas (calcário) fica mais ou menos no km 11 do trajeto, cerca de 2km antes da casa da Ana Benta (que mesmo após seu falecimento, continua com o mesmo nome), esta e mais algumas casas de moradores do alto da serra são os chamados pontos de apoio da travessia, oferecendo acampamento, comida e bebidas aos viajantes. Na prainha paramos para fazer um papa, descansar um tiquim e nos banhar nas águas geladinhas do rio preto, estava muito calor, este mesmo rio que dá suas águas para a terceira maior cachoeira do país, que falarei mais a frente.

Hora do banho na prainha, águas geladinhas e com leve tom café

40 minutos depois atravessamos o rio, água no tornozelo, seca pezinho e passa talquinho, kkkkkk, mas que em cheias pode ficar com mais de 1 metro e 30 e impedir a passagem devido a força d'água, acabando com a travessia. Começa a subida em direção ao ponto de apoio Ana Benta, na placa que diz faltar 1km paramos e decidimos continuar a caminhada até o ponto de apoio mais famoso da travessia, a casa da Dona Maria e Seu José Olinto, que chamo de seu Zé mesmo, haja posta a quantidade de vezes que já jantei lá, comida mineira ótima. Seguimos em direção ao Seu Zé, passa porteira, que serão muitas, pois mais da metade dessa travessia é feita por propriedades particulares, então atenha-se a sempre manter as porteiras fechadas para que as vaquinhas não fujam ou se percam nos campos e claro, todo praticante de atividades como essa deve saber, não deixe nenhum lixo, recolha o que achar e não jogar nem casca de fruta na trilha, ok. Continuamos a subida após a placa e vamos a esquerda, nessa parte da trilha passamos por alguns leitos de riachos e pequenas subidas com muito cascalho ferroso solto, cuidado para não rolar junto com as pedrinhas e virar queijo ralado. Após esse trecho, chega-se a segunda subida mais exigente da travessia, mas bem menos que a primeira, sobe-se rápido a primeira parede e tem-se mais um mirante, aproveitamos para descansar e apreciar a incrível vista do Morro da Mão, esse morro e suas erosões lembram uma mão enfiada na terra até os dedos, só vendo para entender. Terminamos a subida em que se faz em "V", chegando finalmente a área do parque PNMT = Parque Natural Municipal do Tabuleiro, abre cerca fecha cerca, põe casaco tira casaco (a lá karate kid, kkk). Nessa cerca havia um posto de fiscalização do parque, uma estradinha de terra e areia que levam a outros pontos da serra, não continue nela, a trilha continua passando a cerca velha, desde abril de 2016 não vi mais o gazebo nem os banquinhos dos fiscais do parque. Nessa parte da trilha é onde ocorrem os casos de perdidos na trilha, devido a ser a parte mais elevada do terreno e mesmo em dias ensolarados, a neblina pode vir forte e repentinamente, dificultando muito a navegação, mesmo com GPS e aplicativos de celular, lá há muitas picadas usadas por moradores e animais de pasto, então errar é fácil, e eu já fiz alguns resgates em 2016 e 2017, totalizando 23 pessoas que se perderam lá, mais algumas que minha namorada achou, 8 no total.

Grupo da expedição 09, realizada em maio de 2017 - Neste dia estava sol até a prainha, em questão de 15/20 minutos a neblina veio muito forte. Aqui estavamos na subida em direção ao apoio Ana Benta. A neblina durou cerca de 2 horas nesse dia, voltando o sol após isso.

Após 19km chegamos ao ponto de apoio Dona Maria, armar acampamento e relaxar tomando uma cervejinha. Seu Zé e sua esposa, Maria, pessoas humildes de corações imensos que já receberam pessoas de mais de 30 nacionalidades em sua casinha de pau-a-pique, mas que nesse ano de 2017 construíram uma nova casa de alvenaria, e eu fico muito feliz de poder ter contribuído com isso, levando meus grupos e consumindo as refeições, banhos, cafés da manhã e usando seu camping. Já passei uma virada de ano lá, com amigos quando fizemos o Caminho dos Diamantes, história que contarei em outro momento.

Assim foi o nosso primeiro dia de travessia, muito calor, muitas subidas, paisagens de cinema, banhos em águas geladinhas e claro, muita alegria de estar lá.

Só para ilustrar, casa da Dona Maria e Seu Zé, nosso ponto de apoio, foto de Lili Del Valle

Nosso segundo dia inicia-se cedo, com o preparo de nosso café e depois só com mochilinha de ataque, vamos conhecer a mais bela cachoeira que eu já vi, e olha que já conheço mais de 600 pelo nosso país. Trilha curta de 3,5km até a entrada do cânion e mais uns 600 metros até o mirante do alto, onde estamos a 340 metros de altura e vemos quase que de frente os 273 metros da imponente cachoeira do Tabuleiro e seu imenso poço com cerca de 18 mil metros quadrados, considera-se ser o maior poço de cachoeira do país. Após fotos para registrar 10% do que é realmente essa beleza vista ao vivo, vamos para o cânion da Tabuleiro. Dentro do cânion há muitas duchas e poços pequenos e grandes para nadar, e indo em direção a queda, passa-se por todos e ao final, tem que atravessar a água, próximo da beirada, uns 5 metros separam você de uma queda de 273 metros, mas é seguro fazê-lo, mas somente em dia de vazão normal, com chuva ou após, o nível de água não permite que entre-se no cânion, é morte certa. E lá estamos, na beirada da terceira maior cachoeira do Brasil, algo que nenhuma palavra ou foto por mais profissional que seja, consegue transmitir tamanha beleza.

Nossa primeira chegada a beirada da Tabuleiro, eu e minha namorada que tinha medo de altura, em abril de 2015. Agora chego lá e sento na beira, rsrsrs, costume

Sentei a beira e contemplei por muito tempo como, onde e porque eu estava ali, qual era a finalidade de tamanho feito. Não vou descrever e nem saberia como fazer isso, pois é algo que só quem senta-se ali pode saber e claro que cada um terá sua experiencia pessoal. Conselho, VÁ, só indo e sentando ali você poderá dizer o que sente para si mesmo.

Passamos o dia todo nesse local que aumentou minha vontade de viajar, trilhar, conhecer cada vez mais nossas belezas naturais e que após minha primeira ida nesse paraíso, entendi mais um pouco do meu desejo de se manter em movimento e constante aprendizado das coisas puras e simples da Mãe Natureza. Meu amor por esse lugar é tanto que já fui 15 vezes lá e irei tantas mais eu possa ir, sou suspeito né, rsrsrs...

Voltamos para nosso ponto de apoio, finalizando o dia com a simples, mas deliciosa comida do seu Zé, ele que cozinha e muito bem. Tivemos nessa noite um céu iluminado e cheio de estrelas. Fomos dormir para concluir nossa aventura desse dia...

Dia 3, levantar acampamento, tomar café da manhã com leite direto da teta da vaquinha Mimosa, tirado pela serelepe Dona Maria que mesmo dos altos de seus 69 anos, é de uma agilidade e vigor físico muito bom, só para vocês terem uma ideia, ela galopa no lombo dos cavalos para ir até Lapinha (19km) e Tabuleiro (5km). Seu Zé idem. Espero eu ter essa disposição aos 60 e completar mais uma Serra Fina, kkkkkk. Feito os preparativos e desjejum tomado, despedidas feitas, começamos a descida até a entrada do parque municipal, o terreno é bem acidentado e com muita pedra solta, além da areia feita pelas intempéries naturais e do pisar das botas, então levar um rola é fácil demais, muita atenção até o final e chegamos só suados. Há bebedouro com água gelada, banheiro e chuveiro na sede do parque, tudo "digrátis". Conversamos com o pessoal da sede e deixamos nossas cargueiras lá, levando água, alegria, máquina fotográfica e lanchinhos. Já da sede ouve-se o som da cachoeira e avista-se ela em sua totalidade. Na vinda do seu Zé, passamos por 3 mirantes, onde tem-se ângulos diferentes da queda e em uma das paredes um "número 2" esculpido na rocha, naturalmente.

Mirante do "Coração", dependendo do ângulo que se olha, ve-se um coração na formação rochosa da cachoeira, na parte direita é onde está o "2", não vísivel, neste dia estava com vazão normal, mal da para ver a água devido a distância do mirante em relação a queda

Aí, a travessia em sim já terminou, na sede do parque, então fomos fazer o bônus, que é a trilha para a parte baixa (poço), da cachoeira do Tabuleiro, são 5km ida e volta, pouco em quilometragem, mas e a parte mais difícil do trajeto. Em 2017 foi fechado o acesso ao poço para obras de melhoria do acesso ao poço e que já foi reaberto a visitação. Fazemos os 2,5km em cerca de 1:10hs com muito pula pedra e trecho de mata, pelo leito do rio. A visão de baixo para cima é surpreendente, ver a altura de 273 metros da queda praticamente livre é sem igual, mas em seu volume normal de água, chega apenas um chuveiro no poço, mas venta muito e a água é muito gelada devido ao enorme volume do poço e por não pegar muito sol no meio dos paredões.

Após fotos e uns mergulhos nos cubos de gelo, ops, água, iniciamos a volta, feita em cerca de 1:20hs, devido ao cansaço acumulado dos dias anteriores, mas que valeu cada passo dado. Com certeza certa, a mais bonita das travessias do Brasil, a que mais me marcou em tudo menos esforço físico, suas belezas, seus cenários, a comida, céu estrelado e até as picadas de insetos, rsrsrs, me marcaram para sempre...

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E aí, leu até o final? Gostou? Quer ir realizar este trekking?

Nosso próximo grupo será no feriadão do dia do trabalho, data: 28/04 a 01/05 de 2018

Abaixo deixo os links do evento e da minha página, entrem e curtam ;)

Evento:
https://www.facebook.com/events/1664090156969686/

Página:

https://www.facebook.com/aventureirosanonimos/

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Ward de Sá
Ward de Sá

Published on 12/24/2017 16:59

Performed from 04/30/2015 to 05/03/2015

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Ward de Sá

Ward de Sá

Guararema - SP

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Aventureiro e sempre alegre. Instrutor e guia de montanhismo. Proprietário da agência Aventureiros Anônimos Trekking e Viagens, a que mais cresce no ramo.

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