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Travessia do Cassino

Travessia do Cassino

Uma tentativa frustada de atravessar a Praia do Cassino de forma independente e solitária.

Trekking Long Distance Camping

Caro amigo aventureiro, este não é um relato comum de uma aventura qualquer, com historias de "perrengues", de "a vista compensa", de "vale qualquer esforço" e muito menos uma historia com um final feliz ou de superação. Não !!

Quem tiver a paciência e a curiosidade em ler os proximos parágrafos vai se deparar com sentimentos sinceros, angustias e batalhas, sofrimentos e alegrias, reportados no meu diário de viagem nos dias que antecederam a travessia do cassino e os dias seguintes de caminhada.

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  • 01/03/2019 - Sexta Feira

Sexta feira, último dia de trabalho antes de partir para as sonhadas férias. Seria realmente um dia de trabalho se a ansiedade não tomasse conta e eu tivesse ficado distraído a tarde toda. As horas não passavam, o momento de ir para casa não chegava nunca, foi uma espera eterna até as 17:30h.
Em casa, reviso mentalmente aquela que seria minha casa pelos próximos 30 dias, minha mochila. Uma coisa que adoro fazer é organizar meus equipamentos de aventura e no final das contas ver que sempre esqueci algo. Espero que dessa vez isso não aconteça, não há espaço para erros bobos nos dias que estão por vir.

Eu e Tânia saimos para tomar um café. Tânia está linda com um vestido azul de verão. Pedimos um salgado, um bolo doce, um café gelado, uma recompensa antecipada pelos próximos dias. São 18:30 h, banho tomado, roupa separada, ansiedade vestida, não há tv, celular ou outra coisa que prenda minha atenção neste momento, estou certo que isso passará no momento em que entrar no ônibus para Rio Grande-RS. E assim foi, o calor passou, o suor secou, as pernas descansaram e a mente viaja, mas o coração, a o coração, esse apertou, e com ele cresceu um nó na garganta e as lágrimas de despedida secaram antes mesmo de cair. Um amor para voltar é sempre a mais vivaz das motivações.

Minha mente e meus pensamentos correm tentando antecipar as situações, ações, reações e sentimentos, correm muito mais que o ônibus que viaja sem pressa. A única coisa que anda rápido neste ônibus e se espalha feito rastilho de pólvora é o fedor de urina, que no segundo em que me sentei na poltrona marcou o meu nariz e me fez arrepender do assento escolhido.

  • 02/03/2019 - Sábado

Pessoas para todos os lados, pernas apressadas, um caos muito desorganizado, mas bah tchê ! cheguei em Porto Alegre. Quero minha bagagem e preciso dela rápido! Mas a minha pressa certamente não é a mesma do motorista que esvazia o bagageiro.
Preciso pensar rápido, segundos podem me custar horas de espera e horas de atraso. No guichê de passagem, tento mostrar de maneira frustrada para a atendente minha investida de comprar uma passagem pelo celular na parada do ônibus na madrugada passada. Em vão tento fazer o mesmo para outra atendente, e no final das contas, acabo ligando para o 0-800 da empresa sem esperanças. A supresa foi a eficiência do serviço, a decepção foi que não existia passagem no meu nome. Volto correndo para o bloco intermunicipal para não perder um dia inteiro em POA, olho pela última vez o site e :
" o que é isso? moça! moça! você tem esse ônibus nesse horário? "
"sim"
"me da uma passagem por favor".

Deus estava como sempre guiando meu caminho, e para esse novo caminho o ônibus partia as 9:00h e não mais as 12:00h.
As 9:00h dentro do busão, Gomes - o motorista, da a partida, 50 metros depois Gomes - o motorista, começa a suar frio porque o busão empacou na rampa trancando todo o fluxo. Calma ai Deus, alegria de pobre pode durar um pouquinho mais vai! Vamos para a garagem trocar de ônibus e viagem que segue.
O Rio Grande amado é muito grande mesmo, Gomes acelera essa porra!!!..... mas ai eu penso " vou caminhar por 8 dias seguidos", algumas horas a mais não vão me matar.

Cidade de Rio Grande, Hostel Casa do Bolaxa, Cheguei. Carla - a proprietária, está super empenhada em me ajudar e me oferece uma carona para os molhes na manhã seguinte. A noite, no hostel, pego meu diário para escrever o que se passou nas últimas 24 horas e encontro um bilhete da Tânia, sorte a minha ter tanto carinho e apoio.

  • 03/03/2019 - Domingo

São 3:45h da manha, o pessoal que divide o quarto do hostel comigo ainda está na festa de carnaval, viro para o lado e tento voltar a dormir, ainda tenho algumas horas para descansar.
As 4:50h desperta o alarme, já estava acordado, podia pular da cama mas coloco na soneca por mais 10 minutos. As 5:00h levanto, apenas um rapaz havia voltado da festa de carnaval, vou ao banheiro, lavo o rosto, faço o que tenho que fazer e volto para trocar de roupa. Já na cozinha, tomo café e depois saio porta afora torcendo para a Carla acordar para minha carona, não demora muito e ela aparece. Graças a Deus, teria sido muito ruim ter que caminhar 7km só para chegar até os molhes do Cassino.
Nos despedimos, ela deseja boa sorte e eu digo "Ámem". Como é bom encontrar pessoas legais assim.

Pego meu celular, ligo para Tânia, que como quem estava esperando por noticias há algum tempo atende a chamada de pronto. Não sei o que falar, é uma mistura de emoção e medo. Prometo dar noticias em alguns dias e assim vou cumprir. "Como eu sinto a sua falta! Como eu amo você !! "

Mochila nas costas, sinto o peso da responsabilidade, sinto medo, sinto felicidade, não consigo nem gravar um video no início da caminhada, quase choro, é o começo de todo o planejamento de 3 mêses.


O sol começa a brilhar, alguns carros passam por mim na areia, normal, já sabia que esse início seria assim, mais adiante alguns carros com som alto, bebidas, maconha, baixo a cabeça e sigo pensando no tamanho do desperdício de tempo, mas principalmente saúde. O caminho se prolonga desta maneira pelos primeiros 10km, nos próximos 5km também e começo a pensar que todo esse movimento de carro já deveria ter acabado. Não encontro espaço para os meus pensamentos, que se dividem entre " quando vou ficar realmente sozinho ? " e " que mochila pesada! ".


As 10:00h da manhã, com 4:00h de caminhada e 22k depois chego ao naufrágio do Navio Altair, é preciso cruzar um córrego e para isso tiro as botas, coloco os pés na areia e imediatamente sinto as dores na carne. Sento para comer o lanche de trilha de frente para o navio, quando olho para a esquerda o trio elétrico estava chegando, uns 10 carros com pessoas na carroceria animadas com o "Altair". Termino o lanche, vou pegar água no córrego, fecho a mochila, "minha vez de tirar uma selfie" e sigo a caminhada na esperança de finalmente ter paz e sossego. Toda vez que pensava em ficar sozinho um carro passava ao meu lado, um deles me irrita bastante, um Audi prata, que desacelera ao meu lado e tira uma foto minha sem nem falar nada, fico muito bravo e xingo os dois mentalmente, até me imagino brigando com o cara.


Não encontro ! Não encontro de jeito nenhum o que me foi "prometido", cade a paz, tranquilidade? cade a solidão que me foi anunciada ?

Quilometro 25, 30, 35, faço então uma pausa e penso em caminhar somente até o km 40, arrumar acampamento e descansar. Conto os minutos que insistem em não passar, assim como a distância. Sinto dores nas costas, ombros, pés, lombar, quadril. Começo a pensar em desistir, o mesmo sentimento que tem me assombrado nas últimas corridas quando a coisa fica difícil. Tento um mantra " a dor é minha amiga, ela me abraça", não funciona ! tento outro " um passo de cada vez, um passo de cada vez" e melhora um pouquinho, por fim tento o que mais uso "1234, 1234, 1234". Seguindo o ritmo das passadas, no km 39,5 começo a seguir em direção as dunas para encontrar um local protegido para acampar. Tento arrumar a barraca sem jogar muita areia para dentro, em vão, ela vai ser minha companheira.

De cueca vou para o mar, lembro do pedido da Tânia " não vá facilitar na água". Entro devagar, medindo a força e a altura " realmente aqui não da pra facilitar". Tomo banho e volto para barraca, nessa altura são quase 15:00h. Esvazio a mochila, deito e sinto as dores, o calor é forte, mas mesmo assim apago de cansaço. Quando tento sentar, já com o corpo frio, sinto outras dores musculares que ainda não haviam dado a cara. Estouro algumas bolhas, como umas castanhas e deito novamente. Quando chega 18:30h me levanto para fora da barraca para ver o por do sol, fez um dia lindo, arrumo a câmera, algumas fotos e lá se foi o sol. Pela primeira vez me vem uma sensação de felicidade, de alegria em ver esse momento. Como eu queria que a Tânia estivesse aqui agora, como eu queria ter contado para minha familia o que estava fazendo, e que eles entendessem e me apoiassem sem julgamentos.


Sol baixo, hora de arrumar a janta e a mochila para amanhã. Depois de jantar saio da barraca uma última vez e o céu tem uma constelação como nunca vi antes, tento tirar uma foto mas fica muito ruim, não faz mal, está guardado na memória.
Hora de dormir, uso pela primeira vez o lençol para saco de dormir, uma excelente aquisição. Capoto por 1h e na outra fico acordado, preocupado com o vento "desse jeito vai ser dificil desmontar o acampamento amanha". De repente começa entrar areia por tudo que é lado, o vento arrancou 2 specs da barraca e quando percebo já está tudo tomado de areia.

  • 04/03/2019 - Segunda Feira

O vento da uma trégua as 4:30h e começo a fechar a mochila. Arrumo tudo e enterro a comida que sobrou da janta, lavo tudo, arrumo a barraca de uma maneira diferente na mochila e as 5:45h começo a caminhar.
Começo animado, a dor passou um pouco, a mochila ficou melhor, até me animo para gravar alguns vídeos. O sol começa aparecer, passo por um navio pesqueiro atolado, virado de um lado e cheio de areia. Tiro algumas fotos e sigo adiante. A mudança de roupa também ajudou bastante. Caminho as primeiras 2h praticamente sem parar com um ótimo rítmo.


Alguns carros passam por mim, só um parou e me deu uma banana, andou mais um pouco, parou, desceu do carro e me deu uma barra de proteina. Fiquei comovido com o gesto e agradeci. Não aguento mais comer as castanhas que trouxe, e só de pensar que tem quase 4kg delas me da arrepios.
As 10h da manha, com 4h de caminhada, atravesso um corrego e é hora de descansar. Sento, tiro as botas e as meias " JESUS !!! nunca vi bolhas desse tamanho e nessa quantidade!!!! ". Deixo os pés de molho, paro uns minutos e tudo parece o paraiso. Depois de 10 minutos, quando visto as meias, tudo parece um inferno novamente.

Caminho mais um tanto e avisto o Farol Sarita, me animo, mas levo umas 3 ou 4 horas para chegar até ele, o que acontece exatamente ao meio dia, com 27,5km. Mal consigo tirar uma foto, estou arrebentado e a caminhada não rende mais. Crio forças para completar o objetivo do dia - 40km . Caminho por mais 3 horas, com dor, com pressa, pensando no banho de mar. Chega, se fechou os 40km fechou, vou parar. A distância marcava 39,5km.

Encontro um local mais firme para arrumar a barraca, monto tudo tentando tirar um pouco da areia da noite anterior, não fica uma maravilha mas bem melhor do que estava. Coloco o chinelo e vou tomar um banho de mar, as bolhas e as dores musculares são massacrantes. Entro no mar até a altura dos joelhos, as ondas me derrubam, não tenho forças para ficar em pé alí. Saio e entro em um riozinho formado por um banco de areia, maravilha!!. Meus pés ardem pela salmoura nos calos. Olho para um lado e nada, para o outro nada também, algumas gaivotas voando, um momento de felicidade temperado com a salmoura dos calos. Tento sair do riozinho e quase caio. Finalmente chego no acampamento. Se inicia outra operação, trocar de roupa e entrar na barraca sem arrastar muita areia.
Quando deito, tudo dói, de frente, de bruços, de lado, não tem posição confortável, malditos calos !!. Pego o kit de 1° socorros, estouro os calos e tento limpar, passo pomada e rezo para melhorar.
Termino de jantar, hoje foi yakissoba liofilizado, essas comidas são boas, lavo a louça, escovo os dentes e deito para domir.

  • 05/03/2019 - Terça Feira

Por volta das 4:00h da manha vejo uns clarões, olho para fora da barraca e são relâmpagos lá longe. A previsão que eu havia visto estava se confirmando. Acordo as 4:30h e tudo igual, resolvo adiar a saída. As 5:00h da na mesma, o sono está tão bom. As 6:00h com o dia clareando resolvo pular, caso contrario teria que caminhar o dia inteiro para conseguir fazer os 40km planejados.

Hoje foi mais dificil organizar a mochila, quando finalmente começo a caminhar são 7:00h, com previsão de terminar as 16:00h.

Os 10km iniciais vêm relativamente fácil, depois começa a pesar. Fico preocupado com a água, a última reserva de água da torneira acabaria logo, ficaria apenas com a água coletada dos córregos, que diminuiram bastante. Perto do meio dia a sede aperta, paro num riacho e bebo quase 1 litro ou mais de água de uma só vez. O meu estômago não aceitou muito bem. Não consigo nem pensar nas castanhas, chocolates e barras de proteina que trouxe, que enjoô dessas coisas. Passo o dia imaginando uma água com gás estupidamente gelada com limão, que sede!!!

O tempo aqui passa diferente, as horas não passam, o minutos duram eternidades, os km's também. Sento para descansar por 5 minutos para então seguir caminhando o último trecho do dia e completar os 40km. Lá longe apontam 3 veículos, resolvo esperar para começar a caminhar, vou pedir água. Quando o quadriciclo para e se aproxima, a primeira coisa que vejo é um litrão de água congelada!!!! Tento mas não consigo disfarçar, troco 2 palavras e peço água. Ele completa minha garrafa, 700ml que descem maravilhosamente bem. Saboreio cada gota, na esperança que ele vai me dar mais água. Respondo algumas curiosidades, peço mais água, ele disse que vai precisar também, errei o pulo. Eles tiram algumas fotos e seguem.

Reuno as últimas forças para andar os 1,5km finais. Ergo a tonelada que pesa nesse momento a mochila. A mente não ajuda mais.
Quando penso que encontrei um bom lugar para acampar, quando a barraca está quase montada, começo a ser devorado por pernilongos, sem repelente a saída é seguir alguns metros para frente. Ando uns 100m, eles não desistem, penso que é o suor da roupa que está atraindo. Arrumo a barraca e sigo de roupa e tudo para o mar. A agua está perfeita, me lavo, enxáguo a roupa, levo um tombo, a onda me derruba, pareço um bêbado tentando sair do mar, mas a água está deliciosa.

Volto para a barraca, o calor está forte, deito mas não descanso, as pernas doem de mais.

Choro bastante, como um bebê, parece que uma carrada de coisas estava me sufocando, não lembro a última vez que chorei assim. Lembro do assalto que passamos no ano anterior, do acidente de bicicleta e aí a coisa desanda, mas foi um alívio. Levado pela emoção, gravo alguns depoimentos para minha família e para a Tânia. Esse talvez tenha sido o momento mais marcante de toda a viagem, um momento de descoberta, nunca tive uma visão tão clara dos meus sentimentos como naquele momento. Eu estava perto dos meus limites, mas havia uma determinação, uma gana de chegar até o final que, apesar de eu pensar a todo o momento em desistir, não conseguia aceitar essa decisão, haveria de lutar mais um pouco.

  • 06/03/2019 - Quarta Feira

A janta e o sono da noite anterior foram um desastre, a comida não desceu e o corpo não descansou. As 5:00h começo a caminhar aos trancos e barrancos. A experiência de caminhar no breu da noite não é a melhor, não há senso de direção com uma faixa de areia tão grande como essa e a preocupação com achar água é grande.

O ritmo de caminhada não é o esperado, com 2 horas de jornada completo apenas 10,5km. O corpo sente o cansaço. Por volta das 9:00h avisto o farol Albardão. Nesse momento já pensei em desistir da caminhada várias vezes, pedir carona para o 1° carro que passar em direção ao Chuy. Esse pensamento vem e vai na próxima 1:30h, parece que encontrei o meu limite. Quando estou chegando no farol, uns metros adiante enconsta uma camionete. Era a minha chance de fugir desta praia.

Estou na entrada do farol, resolvo colocar nas mãos de Deus, que já havia me dado vários sinais nesse dia. Decido conhecer o farol, se a camionete ainda estiver lá quando eu sair, ai sim pego carona. No farol bato palmas e saem 2 oficiais da casa da marinha. Perguntam gentilmente o que podem fazer para me ajudar, já sabiam que eu estava chegando. Peço água e frutas. Um dos oficiais aparece com um pedaço de melancia gelado, como essa melancia com sangue nos olhos e guardo as 3 maças para depois. Os oficiais comentam que o carro de apoio do grupo que eu estou no rastro está logo a frente. Tiro uma foto rápida, agradeço e saio rápido para tentar alcança-los para pedir uma carona e caminhar com o grupo, pelo menos para ter companhia e um pouco de motivação para seguir.

Encontro o carro de apoio e explico a situação, ele me ajudam e conheço algumas pessoas do grupo que não sairam para caminhar no dia. O responsável pelo suporte diz que vai me deixar para caminhar junto com os últimos do grupo.
Depois de 12km de carro alcançamos os últimos e conheço o Eric, lider do grupo, começamos a caminhar juntos e pergunto se teria problema eu seguir caminhando com eles. Ele diz que tudo bem se o restante do grupo concordar. Aos poucos durante a caminhada vou alcançando os outros. Como é bom caminhar sem o peso da mochila.
Aos poucos vou conhecendo o restante do grupo e tracamos conversa, da maneira que me olham devem estar pensando que sou louco, pensando bem, onde eu estava com a cabeça para fazer isso?

O dia estava longe de terminar, para eles seria um dia de 28-30km de caminhada, eu já estava com quase isso quando cheguei no Albardão. Para mim acabou sendo um dia de 57,5km, dos quais descontando a carona, caminhei 45km. Chego no acampamento, arrumo a barraca e vou mancando para o mar, levo uma eternidade para chegar, entro na água aos trancos e barrancos, mal consigo parar em pé com a força das ondas, tenho que me arrastar para sair.

Quando consigo me deitar na barraca, minhas pernas ficam latejando de dor, mal consigo estica-las. Acabo dormindo por alguns instantes. Acordo as 20:00h com fome. Perto das 21:00h como quem não quer nada me aproximo da barraca refeitório, acho que estou com cara de cachorro quando cai da mudança e eles me oferem a janta. Como devagar e quando termino quase todo mundo já se foi deitar, aproveito e volto correndo para minha barraca.

  • 08/03/2019 - Quinta Feira

Acordo as 6:00h e começo a arrumando o meu pé, todas as bolhas do calcanhar ganham um remendo, as da parte da frente do pé (as piores) ficariam para depois, fico com medo de mexer e piorar a situação. Troco de roupa, guardo as coisas, visto minhas meias, CÉUS COMO FEDEM !!, todo o liquido que vazou das bolhas junto com o suor impregnam o tecido e as botas também. Fecho minha mochila, coloco no reboque e vou para a barraca refeitório. Como as 3 maças que ganhei no dia anterior, um pedaço de melancia do pessoal e quando todos saem como o último pão que sobrou no pacote. Para mim, mais do que suficiente.

Começo a caminhada com o grupo, mas logo sou ultrapassado, minhas pernas doem de mais e as bolhas estão na carne. Não consigo pegar no tranco como das outras vezes. Toda inchada minhas panturrilhas não respondem, com toda certeza estão inflamadas.

Sigo brigando, lutando, me rastejando pela areia. Na primeira hora de caminhada não ando 4km, na segunda hora totalizava 7km, nos outros dias já estaria com 10km.

Brigo, choro, " o que minha familia vai pensar de mim? que fracacei? que sou burro? que arrisquei minha vida? e a Tânia que me apoiou e eu decepcionei? ". Penso nas minhas ferias que estão apenas no inicio, continuar esse atentado com meu corpo pode comprometer tudo, e pior, pode virar algo ainda mais grave e eu precisar de socorro médico.

Faço as pazes comigo mesmo, aceito os termos, a praia me derrotou !!, subestimei meu preparo físico e mental e encontrei o meu limite, 196,5km, mais da metade, faltando 1 dia e meio de caminhada. Sento para esperar o resgate que ficou desmontando o acampamento, depois de 1 horas eles chegam. Já era, subo no carro e me despeço da praia, triste mas em paz. Sigo conversando com Emilia e Renato, que junto com o Zé formam a equipe de apoio contratada pelo grupo.

Emilia e Renato são um caso a parte nessa história. Ambos gostam de cozinhar, conversamos sobre diversos assuntos. Penso que Emilia ficou comovida comigo. Na parada do lanche de almoço Emilia enche uma garrafinha de conchas e me da de presente, parece que leu meus pensamentos.

Chegamos no acampamento. Arrumo minha barraca, fico trocando conversa com o Renato e Emilia. Troco de roupa em entro na "jacuzzi", um poço escavado por um pescador que acabou formando um ótimo lugar para tomar banho. Após, volto para a barraca e vou averiguar o estado dos meus pés, destruidos, os calos chegaram na carne, tento fazer um curativo, saio parecendo uma múmia com tanto curativo. No final da noite me junto ao grupo no refeitório para jantar, me sinto mais confortável para interagir com o grupo, principalmente com o Renato a Emilia e o Zé. Enquanto o grupo janta, nós ficamos tomando uma cerveja que o Zé comprou em Hermenegildo quando foi buscar mais mantimentos.

O clima está estranho, uma tempestade se aproxima. Por volta das 2:00h da manha começa um vendaval, escuto o pessoal reclamando preocupados com suas barracas que estavam prestes a levantar voô. Como havia montado minha barraca para escapar do sol atrás de alguns arbustos, fiquei bem protegido e não tive problemas.

  • 08/03/2019 - Sexta Feira

Desperto as 7:00h com o Eric me chamando, perguntando se estava tudo bem. Arrumo minhas coisas e me junto aos demais, estavam todos em um galpão que alguem achou durante o vendaval e todos correram se abrigar. Todos tomam café e saem caminhar, eu espero e tomo café com o apoio, me sinto muito mais parte do grupo deles do que dos outros. Simplismente me acolheram sem me julgar, diferente do sentimento que tenho dos outros caminhantes. Certo ? Errado ?

Como não consigo caminhar, aguardo eles organizarem tudo e saimos por volta das 11:30h, encontramos o grupo em Hermenegildo, no Bar do Seu Zé (outro Zé). Aqui divido algumas cervejas com o Renato. Logo todo o grupo chega, comemora, lancha e se prepara para o trecho final.

Vamos para a pousada da Jane, cunhada do Zé, para descarregar as coisas. A pousada é super simples, como não havia reservado nada estou no lucro. As 16:30h vamos para a praia recepcionar o grupo que a esta altura já deve estar chegando nos molhes. Esperamos alguns minutos e os 1°s caminhantes começam a chegar, super felizes e orgulhosos, com toda razão. Fico triste por alguns instantes, por ter abandonado a travessia, mas acho um pouco de egoísmo para com os que estão tão felizes por chegar ao fim da jornada.
Parabenizo os que consigo, tiro algumas fotos com Emilia e Renato e entro no carro para voltar, meus pés não pensam em outra coisa a não ser deitar.

Emilia e Renato.

Mais tarde tomo banho e troco de roupa, deito e falo com a Tânia, Ê SAUDADE!!! fico um pouco na internet e mais tarde me junto ao grupo na pizzaria ao lado da pousada. Chego, me sento e faço meu pedido, sou o ultimo, todos já haviam ordenado. O clima é de comemoração. Consigo conversar e interagir com todos. A pizza é otima, a cerveja é gelada e a conversa é legal. Depois de comer fico mais um pouco e sou obrigado a voltar para a pousada para deitar, meus pés doem e estão super inchados.

  • 09/03/2019 - Sabado

São 7:00h da manhã, todos acordam e se preparam para viajar. Nesse meio tempo várias pessoas vem ver como eu estou, uma dessas pessoas é o Carrasqueira, que fica preocupado e vai buscar a Sueli, uma enfermeira aposentada. Ele pediu para ela ver o que podia fazer pelos meus pés. Sueli passa uma pomada e faz um curativo, essa pomada me salvou pelos próximos dias. Nos dias anteriores quando conversei com ela, já havia sentido uma sensação de paz, mas ela é uma fortaleza, muito atenciosa. Agradeço e logo o grupo todo sai para viajar. Depois foi a vez do Zé da tchau. Depois veio Emilia, incrível a ligação fraternal que construímos nesses 3 dias, lembrarei com muito carinho para sempre, nos abraçamos, agradeço mais uma vez, me emociono e ela também. Para encurtar a dor da despedida ela sai rápido, em seguida Renato também aparece.

Fico sozinho, de molho, triste, praticamente todo o dia. Por volta das 15:00h vou ao mercadinho da Jane e compro comida para fazer. Preparo um macarrão com carne, sentado numa cadeira na frente do fogão. Como, arrumo a luça e vou deitar erguer os pés. Mais tarde preparo um escalda pés, tomo banho e passo pomada e faço massagem nas panturrilhas para ver se desincha.

Converso com a Tânia, não sei quanto tempo vou ter que ficar de molho aqui, mas sem recuperar bem não vai ter outro jeito de sair.

  • 10 -11 -12 -13 / 03/2019

Os dias seguintes são de completo tédio, assisto todos os filmes atrasados da netflix e alguns seriados também, tenho um ritual de acordar, passar pomada, fazer massagem nas pernas e deitar novamente, levantar perto do meio dia e fazer comida, passar o resto da tarde deitado assistindo tv e a noite cozinhar mais alguma coisa. Isso acontece por 3 dias inteiros. Nesse meio tempo vou até o posto de saúde da comunidade para conversar com a médica e pegar uma receita de anti-inflamatório, para ver se minhas pernas desincham e aliviam da dor. Acabo pedindo uma injeção para as 2 coisas e por sorte encontro na mini farmácia que tem na barra do chuí.
No dia 13, já conseguindo caminhar decentemente, resolve seguir viagem e entrar no Uruguai, o destino é Punta Del Diablo, posso ficar de molho por lá também se precisar, pelo menos vou ter com quem conversar e ver um pouco de movimento, e assim o faço. As 12:00h atravesso a fronteira para o Uruguai, encerrando esse capítulo da viagem, mas com um sentimento de que ficou faltando alguma coisa, e de fato ficou, 85km de praia para percorrer, voltarei, quando eu não sei, mas sim eu voltarei.

  • Reflexões

PLANEJAMENTO - Uns 2 anos atrás já havio lido relatos de quem fez essa travessia e sempre achei ela casca grossa. Quando decidi faze-la, tive 3-4 meses para me preparar, com equipamentos e com leitura de tudo que podia achar. O que faltou foi conversar com alguma agência local, por exemplo a do Zé, para pegar os detalhes, os macetes, os melhores pontos de parada, os melhores pontos de água e etc. Sim, isso foi uma falha. Não tive problemas com água e nem com acampamento, nunca fiquei com menos de 2 litros na mochila, mas o fato de estar em uma praia deserta sempre preocupa.

EQUIPAMENTOS - Até o momento acreditava que minha mochila cargueira era ótima, uma Curtlo Montaineer 75+15, mas para carregar mais de 20kg ela se mostrou ineficiente. Principalmente no ajuste da barrigueira, a cada 15 minutos precisava ficar reapertando, a alça do costado também. A transferencia de carga pela barriguei foi tão ineficiente que acabou me machucando o quadril, fiquei com dores por 1 mês depois que terminei a viagem, acredite, eu tentei regular essa mochila de todas as formas possíveis, mas não teve jeito.

Os restante dos equipamentos que levei se mostraram todos úteis e bons, claro, se eu tivesse versões mais leves para diminuir o peso da mochila seria muito melhor. Pela época que fui, o que menos usei foi o saco de dormir, só o lençol (nature hike) seria suficiente e é super confortável.

COMIDA - Aqui tive um problema sério, planejei fazer apenas 1 refeição com comida de verdade no dia, que seria a janta, para isso comprei comida liofilizada, pelo peso e praticidade de preparar. Comprei vários tipos, risotos, yakisoba, pures, carne, frango e etc. As comidas são "boas" e as porções são satisfatórias. Para o café da manha e para o lanche de trilha eu levei barras de proteina, sneakers, castanhas, frutas secas e frutas cristalizadas. Só o lanche de trilha pesou uns 4kg, e o problema foi que, no 2° dia eu já levei um enjoão disso e não conseguia mais nem sentir o cheiro, mesmo forçando comer em alguns momentos, não descia, mas fiquei com dó e com medo de jogar fora. Ao longo da trilha me acostumei a comer pouco, mas talvez tenha ficado com falta de energia e isso fez com que eu cansasse mais. Um bom e velho miojo fez falta, para quebrar o gosto da comida liofilizada.

VESTUÁRIO - Para essa travessia planejei usar uma calça de trekking. Logo no primeiro dia ela me assou entre as pernas e nos dias seguintes precisei usar só um calção de corrida. Acredito que uma legging seria o ideal, tanto no inverno como no verão.
O calçado, eu levei uma bota Salomon, de ótima qualidade, levei também meias de trekking, mesmo assim logo no primeiro dia já fiz várias bolhas. Como eu não tinha outro calçado para usar, as bolhas foram aumentando e até que chegaram na carne, horrível. Todos que caminharam com botas tiveram problemas. As pessoas que usaram tenis, de forma larga e amaciados não sofreram tanto e algumas nem bolha fizeram.

PREPARO FÍSICO - Me considero bem condicionado, pratico corrida, natação etc..... a caminhada é bastante exigente, cometi o erro de ir sempre pela beirada da praia, pelo fato de a areia ser mais dura e facilitar o deslocamento. Mas fazendo isso, você acaba caminhando sempre com um inclinação, sobrecarregando mais um lado do corpo do que o outro, com o passar dos kilometros o corpo sente. Como é um linha reta também, a mesma musculatura é exigida, as dores certamente vão aparecer, mais cedo ou mais tarde, mas vão aparecer. Tentei imprimir um ritmo muito forte desde o ínicio, nos 4 primeiros dias caminhei cerca de 40 kilometros, com uma mochila super pesada nas costas, o corpo arregou. Recomendo fazer um dia mais leve, seguindo de um mais pesado, talvez até um dia de descanso no meio do caminho....

PSICOLÓGICO - Rapaz, aqui o bicho pegou, eu queria ter a experiência de passar alguns dias isolado, sem comunicação, nem fone de ouvido eu levei, para realmente viver a experiência dessa praia. Conheci os meus limites para dor, como a minha cabeça funciona nessas situações, o ímpeto de não querer desistir, de não querer assumir que fracassei, de aceitar quando é preciso jogar a toalha, o medo de não decepcionar as pessoas (mesmo que elas não saibam o que estou fazendo), o medo de ser julgado por não ter completado a tarefa, a minha relação com minha familia, com minha companheira, apreciar os momentos de solidão, a natureza, trabalhar a cabeça para distrair os pensamentos ruins, ser humilde para pedir arrego, aceitar ajuda das pessoas, baixar a guarda, criar vínculos como nunca antes em apenas 3 dias, tudo isso eu vivi de maneira muito intensa nesses 7 dias nessa praia. O tempo ali passa diferente, segundo podem levar horas, inexplicavel e maravilhoso ao mesmo tempo.

Mesmo com as dificuldades e problemas que tive, eu me diverti, senti felicidade por estar naquele lugar naquele momento, vi paisagens que estão marcadas na minha memória, conheci pessoas maravilhosas, fiz amizades novas e tive um auto-conhecimento gigantesco. Se alguem me perguntar se eu faria isso de novo, a resposta é claro seria SIM, com muito aprendizado faria várias coisas diferentes, mas SIM, tenho negócios inacabados com a praia do Cassino, em algum momento faremos nosso acerto de contas.

Alberto Farber
Alberto Farber

Published on 06/03/2019 22:08

Performed from 03/01/2019 to 03/08/2019

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Renan Cavichi
Renan Cavichi 06/09/2019 23:11

Viajei contigo hoje lendo o relato Alberto! Que emocionante cara! Um desafio e uma experiência bem diferente das que temos nas montanhas, sem dúvida um grande aprendizado em todos os sentidos! Obrigado por compartilhar!

Alberto Farber
Alberto Farber 06/10/2019 16:34

Vlw Renan, Que bom que gostou! abraço

Bruna Fávaro
Bruna Fávaro 06/11/2019 12:44

Caraca, Alberto! Que baita experiência! A praia do Cassino é bicho bravo e com certeza escancara nossos limites. Fique grato por ter estado diante dos seus ;) No mais, parabéns pelo relato, pela travessia e pela coragem!

Ronaldo Morgado Segundo
Ronaldo Morgado Segundo 10/13/2019 21:03

Ponderações sobre o teu feito: Nunca, em hipótese alguma, subestime o Cassino/Hermenegildo, esta é uma das praias mais inóspitas do mundo, e os ventos são constantes, além de temporais que chegam do nada sem aviso; Se pretendes realizar a proeza novamente, vá em outubro ou início de novembro. Março é o pior momento para fazer; Nunca entre no mar, pelo perigo e o sal que fica no teu corpo; Não vá sozinho, já visse como esta praia acaba com o teu psicológico! Prepare-se por pelo menos 1 ano. Esta jornada é Punk! Parabéns pelo teu esforço um abraço e Sempre Alerta!

Fábio Brum
Fábio Brum 10/15/2019 23:30

Olá Alberto, parabéns pelo relato! Independente de metas, cada dia no Cassino é um aprendizado. Voltei ontem de lá, Iniciei a caminhada no Sábado (12/10), acampei no segundo Parque Eólico (35km) e peguei uma tempestade intensa durante a noite. No domingo choveu forte o dia todo, não andei. No terceiro dia a chuva fraca persistiu e decidi voltar, percebi então que os arroios estavam todos cheios em função da chuva, o meu acampamento estava inacessível inclusive para 4x4. Enfim, foram 10 travessias de arroio com os pés "ensacados". Eu sabia da previsão de tempo ruim, mas preferi tentar. Valeu pela experiência. Abraço!!

Leuterio Luiz de Lara
Leuterio Luiz de Lara 04/14/2020 12:43

Prezado Alberto, parabéns pelo relato, apesar de não teres conseguido atingir o seu objetivo. Está sendo de muito valia, pois estou me preparando física e psicologicamente para a travessia no próximo ano (2021). Pretendo fazê-la, a pé e sozinho. No ano passado (2019) fiz a travessia Rio Grande/Chuí, em dois dias, com um grupo de amigos, em caminhonetas 4X4. Neste ano (2020) pretendo fazê-la de bike e sozinho. Já tenho, praticamente, todo o material para a travessia de bike e a pé também. A minha travessia será de introspecção e sei que o preparo psicológico é extremamente importante. Parece-me que faltou este preparo psicológico para você, além do exagero em fazer mais de 30 Km/dia. Estou certo? O que você sugere àqueles que, como eu, pretendem fazer a travessia do Abismo Horizontal?

Alberto Farber
Alberto Farber 04/16/2020 16:27

Caro Leuterio No meu caso, o principal impeditivo para conseguir finalizar a travessia foi o desgaste físico, meus pés estavam em carne viva, haviam deixado de ser bolhas/calos fazia bastante tempo, mesmo assim tentei caminhar no 5° dia, quando vi que em 1 hora havia conseguido caminhar apenas 3km praticamente me arrastando decidi parar. Do ponto de vista psicológico eu estava preparado, estava disposto a enfrentar o desconhecido e assim o fiz, obvio que teve momentos mais fáceis e outros bem mais difíceis, mas não foi esse o fator que me fez não completar a travessia. Como dica, escolha meticulosamente os seus equipamentos, principalmente se for realizar a travessia de forma independente. Escolha muito bem a mochila. Converse com alguém experiente local antes de você partir, para saber como estão as condições (nível de água dos arroios).

Leuterio Luiz de Lara
Leuterio Luiz de Lara 04/17/2020 13:09

Prezado, obrigado pelas dicas. Tenho um reboque de bike. Este ano, pretendo fazer a travessia pedalando e rebocando o trailer. Em 2021 farei a travessia a pé, empurrando o trailer, removendo o cambão.

Alberto Farber

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