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Pico dos Marins - Solo

Pico dos Marins - Solo

Finalmente consegui ter esta experiência: curtir todos os passos de subir uma montanha sozinho.

Mountaineering Hiking

Até alguns anos atrás, eu ainda era, pode se dizer, cético quanto á fazer qualquer trilha sozinho. Cético apenas e fortemente na questão de segurança, onde muitas pessoas tem este pensamento e com razão, pois pode acontecer algum problema que tornaria muito dificil um resgate ou um final não trágico, como lesões, se perder, mal subito, entre várias outras.

Porém, há um certo tempo, mudei este meu pensamento. De cético e de opinião formada sobre não fazer trilhas sozinho, para o total contrário disso.

A mudança de opinião

Estar em um ambiente não controlado exige requisitos mínimos do praticante. Estar neste mesmo cenário sozinho e pela primeira vez, a situação se torna muito mais desafiadora.

Existe um velho ditado que sempre penso: "Existem duas formas de se aprender: errando e aprendendo com os erros dos outros". o segundo talvez seja mais difícil, pois as circunstâncias e variáveis que acontecem em uma aventura para uma outra pessoa, talvez você mesmo não possa identificar, com isto deixando apenas as partes mais óbvias ou mais sobressalentes como aprendizagem.

Logo, a melhor forma de se aprender é praticando.

Seguindo esta linha de raciocínio, o aprendizado e conhecimento de aventuras anteriores e experiências mesmo que sejam teóricos antes de uma aventura principalmente sozinho, se torna parte importantíssima do planejamento desta aventura.

É aí que entra uma conversa em um grupo que mudou meu modo de ver esta opinião. Na grande maioria das vezes se lê e se prega que o ideal (as vezes dizem até a palavra "correto") é nunca se aventurar sozinho. Era o que eu também tinha em mente como opinião formada. Nesta conversa, dois grandes integrantes com experiência enorme quando se fala em montanhismo, trilhas, natureza e tudo que compõe uma aventura por estes ambientes, decorriam sobre o assunto onde eu dava pitacos sobre a questão da segurança e perigo de se fazer uma aventura sozinho.

Até que li a seguinte frase de um destes dois integrantes (H. Boney) onde o outro concordou no mesmo instante (Danilo, do grupo Trilhas&Passeios): "Montanhismo é um esporte individual que PODE ser praticado em grupo". Até então eu pensava exatamente o contrário! Mas o compartilhamento destas experiências, mente aberta para novas ideias/ideais e não ter a concepção de que sua opinião é a única que está certa, é o que nos fazem mudar para melhor.

Claro que a frase acima foi coberta de outros complementos que discutimos muito por lá, como a importância do planejamento. Se inclui num planejamento diversos temas, como navegação do local, tempo de deslocamento entre um ponto e outro, peso, clima e muitos outros fatores.

A partir de então, fiquei pensando muito sobre isto por uns dias. E foi aí que mudei minha opinião quanto ao fato de se aventurar sozinho. Se abriu um leque de pensamentos e vontades de ter esta experiência, principalmente pelo fato de eu ser uma pessoa mais reservada, que gosta de ficar sozinho, de ficar quieto e apreciar o silêncio.

O dia chegou!

Planejar, ter tempo e finalmente bater o martelo no dia que vou para a montanha, já é parte da aventura.

Aprendi (e ainda estou aprendendo) quais são meus "pontos de quebra" e então me preparar para eles. No meu caso o frio é um destes pontos. Então sei que preciso pensar no que levar para que isto não me afete e meu psicológico abale. Não se engane, um psicológico abalado na montanha é um grande problema.

Mochila pronta sendo metade dela equipamentos para o frio. Mesmo sabendo pela previsão que não iria fazer uma temperatura negativa. Mas por experiências anteriores e como citei acima, é um ponto em que meu psicológico fica um tanto abalado. Estas experiências anteriores foram sempre em grupo e sempre não muito grande, com no máximo 4 pessoas, onde no caso de passar por algum "perrengue", outras pessoas estão lá para dividir com você, o que torna isto, talvez, o principal benefício de estar em um grupo.

Pra mim, a ansiedade boa de se aproximar o dia de ir para a montanha já começa minha aventura. Nestes dias tudo se torna mais fácil de se levar: o trabalho estressante fica mais leve; a atenção ás pessoas que eu amo se torna maior; diversos problemas que passo me sinto muito mais positivo na resolução. Enfim, me torno uma pessoa muito melhor só pelo fato de saber que vou para a montanha! Quando chega o grande dia, este parece mágico. Até o fato chato, terrível e todos adjetivos ruins de se acordar cedo (risos) se torna prazeroso e incrível. Pegar a estrada sozinho dentro do carro, ouvir as músicas prediletas, passar por locais bonitos, começar a estrada que leva até a base da montanha, são coisas incríveis... tudo isto se difere completamente da rotina normal do dia a dia.

O fato de estar sozinho é a maior mudança neste dia. Sei que preciso pôr em prática o que aprendi. Ser mais cuidadoso, ter mais atenção.

Chego no acampamento base Marins após paisagens incríveis pelo caminho, com os sentidos mais acurados. Os cheiros, os sons, o reflexo, as percepções... tudo ficam mais sensíveis. Estou na montanha!

Coloco a mochila nas costas com um peso maior que nas vezes anteriores com um sorriso enorme e alma extremamente feliz. O clima está ótimo, mas, penso eu na hora: mesmo se estivesse pior, de qualquer forma estaria perfeito. Afinal estou ali naquele lugar onde me sinto feliz.

Quando já estava pronto para iniciar a caminhada, chega um casal e fica se preparando para a subida. Depois lá no pico, fico sabendo que o rapaz é o Samuel Oscar, o drone da montanha! O mais incrível desta história é que no dia anterior eu assisti um recente vídeo feito e editado por ele mesmo pelo Youtube, onde eu fiz até um comentário e na mesma hora pensei sozinho: "Já pensou se eu encontro com esse cara lá no Marins amanhã?". Foi uma enorme coincidência, depois falei com ele sobre isso e rimos. O cara é muito gente boa, gente da montanha mesmo.

Começo a caminhada no meu ritmo. Um ritmo bem forte. São exatamente 10:00 horas e quero estar no pico em umas 4 horas de caminhada, para montar tudo, comer tranquilo e curtir o pôr do sol. Sem pressa de nada.

Mesmo com bastante nuvens, um pôr do sol sempre é lindo.

No caminho até o pico passei por um grupo onde estava uma criança, uma menina lourinha linda, seu pai e dois tios que estavam levando ela para acampar no pico. Depois já no pico, conversando com o pai dela, me falou que ela tinha 7 anos! Só me fez mais ansioso pra levar meu filho quando atingir uma boa idade para subir as montanhas!

Passei por outro casal ainda. Na base do pico, passei também por um grupo de uns 12 jovens todos homens, eles disseram que não iriam até o pico já estavam voltando o caminho.

Faltando uns 10 metros para chegar no cume, encontrei com um grupo grande, todos homens também, uma galera bem gente boa, porém barulhenta que faz lembrar aquela galera que vai pra praia grande bagunçar (risos). Fizeram barulho a noite, jogaram truco, churrasco..., mas eu não deixei tirar minha paz. Estava na montanha, nada iria tirar.

Cheguei no cume bem como imaginei, em 4 horas de caminhada, ás 14:00 horas, parando para descansar e tirar fotos algumas vezes mas num ritmo excelente pra qualquer caminhada na montanha, porém sem almoçar, aproveitei o ritmo bom e decidi almoçar só no pico. O lugar de montar a barraca que eu estava imaginando desde sempre estava lá, só me esperando! Montei a barraca que eu comprei dias atrás desta subida, justamente para a missão solo até o pico dos Marins.

Olhando para o lado de MG, chuva e raios caindo sobre Marmelópolis. Olhando para o lado de SP, tempo aberto! Pelas minhas pesquisas, o dia seguinte estaria limpo e lindo.

Chuva sobre MG. Tempo ótimo sobre SP.

Quanto ao frio, estava uma boa temperatura. Na minha primeira passagem por lá no ano passado, peguei -4ºC e sensação ainda maior por conta do vento forte que congelou todas as poças d'agua do pico, foi a menor temperatura que já peguei até hoje. É um dos motivos que estou mais tranquilo quanto ao frio na montanha. É impossível não comparar e pensar assim: "Se eu já aguentei temperaturas negativas, 0º pra mim é tranquilo!". E foi o que aconteceu, a temperatura desta vez chegou em 0º de madrugada.

Acordei ás 05:00 para dar tempo de fazer um café bem quente e esperar sentado na rocha gelada o nascer do sol, que aliás, é um espetáculo. Nesta época do ano o sol nasce mais a esquerda quando se olha para o horizonte, onde eu sempre fico hipnotizado com a silhueta da Serra Fina. Ah querida Serra Fina!

A inconfundível silhueta das montanhas da Serra Fina! Deste ângulo pode se ver a Pedra da Mina e Capim Amarelo.

Café quente e câmera prontos.

Fiquei ali curtindo por um bom tempo toda essa vibe da montanha.

Um outro grupo grande chegou bem no nascer, umas 06:10 da manhã. Este grupo fez a trilha a noite. Depois quando eu estava já descendo, encontrei duas mulheres que ficaram para trás pois uma se machucou e não podia mais continuar. Estava bem no meio do caminho sentido subida do pico, e disseram que o grupo seguiu sem elas. Elas estavam sem nenhum equipamento como barraca, isolante e roupas mais quentes para suportar o frio da madrugada bem no meio da trilha. Perguntei se precisavam de algo, mas elas disseram que estava tudo bem e realmente aparentavam estar, conversamos um pouco mais e segui a trilha. Enfim, opiniões a parte, acredito que elas aprenderam. Ali não se pode contar com sorte, deve ir preparado e ponto.

Caminho descendo do pico.

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Como conclusão do ponto deste texto/relato que é o fato de se aventurar sozinho em um ambiente não controlado, tiro que é sensacional. A todo momento eu curti muito mais a natureza, curti o silencio da montanha, me encontrei mais um pouco em minha vida.

O que eu digo quando me perguntam sobre isso? Resposta: Faça!

Mas: se prepare, adquira experiência e conhecimento, respeite, seja humilde. Não dá pra simplesmente não entender tudo isso e ir pra lá. É pedir para correr sério risco de vida, sendo uma pessoa inexperiente e/ou irresponsável. Já aconteceu algumas vezes casos assim, infelizmente nem todos terminaram bem.

Agora, a experiência e conhecimentos aumentaram a auto confiança e já estou planejando outros picos em modo solo. O bom é que tenho consciência de que esta auto confiança é controlada e é aumentada de modo natural e não significa de modo algum que por isso eu vou abusar e fazer algo que comprometa minha vida ou de qualquer outra pessoa.

Lucas Santana
Lucas Santana

Published on 08/08/2018 08:27

Performed from 05/26/2018 to 05/27/2018

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Tiago Borges
Tiago Borges 08/08/2018 08:57

Caminhar solo na montanha é uma experiencia incrível e muitas vezes um desafio, se auto motivar para continuar apesar das dificuldades é complexo. Já tive a oportunidade de acampar duas vezes sozinho no Marins, sim mais ninguém no cume, cara é impossível descrever a sensação :-)

Lucas Santana
Lucas Santana 08/08/2018 09:06

Exato. Mas o melhor de tudo é a resiliência que a gente adquire após isso. Um dos poucos desejos que não se concretizaram, foi este de estar sozinho no pico rs. Mas eu estava preparado pra essas variáveis, do jeito que fosse eu iria curtir o meu dia.

Antonio Gatti
Antonio Gatti 12/07/2018 10:14

Bom dia Lucas. Somente agora li seu relato. Muito legal e muita determinação sua, parabéns, eu iria curtir também fazer sozinho, apenas como um comparativo, fiz o Caminho da Fé da bike sozinho tb, foram 7 dias inesquecíveis e com vontade de voltar. Bem foi nessa subida ao Marins que conhecemos tb o Samuel e a Elaine, hj nossos amigos, realmente ele é um cara muito gente boa, que pode sentar e bater um.papo interminável. Infelizmente não me lembro de você, pois várias pessoas me abordam tanto na subida como na descida me parabenizando e fotografando, as vezes, por levar minha filha, fico orgulhoso mas ao mesmo tempo natural com a situação. Ela se chama Nicole, se preferir acompanhe pelo seu Instagram nicole_aventureira. Obrigado amigo é um abraço

Lucas Santana
Lucas Santana 12/07/2018 13:22

Opa seguindo! Sua filha me motivou ainda mais a levar meu filho também quando ele tiver uma boa idade. Este relato ficou o melhor e maior que já quis compartilhar, foi a primeira vez que fui sozinho pra montanha. Abraço!

Lucas Santana

Lucas Santana

Rox
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