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Marcelo Lemos 10/06/2021 20:21
    Escalada da Agulha do Diabo

    Escalada da Agulha do Diabo

    Uma das escaladas clássicas da Serra dos Órgãos, que envolve longa caminhada de aproximação.

    Climb Trekking Mountaineering

    Há dois anos, quando retomei as escaladas, atividade interrompida no passado por duas vezes (em 1998 e 2014), nem imaginava que estaria diante deste enorme pináculo rochoso algum dia. Entretanto, a Agulha do Diabo era sempre admirada quando eu estava no Morro do Açu em Petrópolis. Dos Castelos do Açu não é possível vê-la, mas basta caminhar um pouco em direção ao Índio que se torna possível. Outro interessante ponto para visualizá-la a distância é nos Portais de Hércules.

    No fim de 2020, assim como ocorre em cada encerramento anual, faço um balanço das realizações e projeto possíveis roteiros a serem cumpridos e incluí a Agulha na minha lista de desejos.

    A Agulha do Diabo tem seu cume a 2.050 metros de altitude e está localizada no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, dentro do município de Guapimirim (RJ). O parque ainda abrange os municípios de Magé, Petrópolis e Teresópolis. Sua conquista foi finalizada em 1941 (após dois anos de preparação da via), há 80 anos portanto, pelos escaladores Giusepe Toseli, Roberto Menezes de Oliveira, Raul Fioratti, Gunther Buchheister e Almy Ulissea. Antes de sua conquista, era chamada de “Penhasco Fantasma”. Um ponto muito frequentado, permitindo belas fotos (se é que há alguma ruim), é no Mirante do Inferno, não muito afastado da famosa cota 2000 na subida para a Pedra do Sino.

    Como escrito, venho procurando treinar e escalar regularmente e, para isto, conto com o acompanhamento de uma grande e humilde alma de técnica apurada, Jeferson Costa (@jefclimbing), membro da Aguiperj (Associação de Guias, Instrutores e Profissionais de Escalada do Estado do Rio de Janeiro), filiada à CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada), que por sua vez é filiada a UIAA (União Internacional das Associações de Alpinismo, a maior entidade para o esporte). Isto significa que todas as diretrizes de segurança estabelecidas por estas entidades são integralmente seguidas nos cursos, treinos e guiadas realizadas por estes profissionais certificados. Vale a pena se informar sobre a certificação dos guias antes de confiar sua vida em uma cordada. Mas é importante se dedicar também, pois o guia confia em você na outra ponta da corda durante a escalada.

    A janela boa para escalada, que ocorre entre abril e setembro, já estava chegando ao seu fim. Eu havia feito em julho passado a via Maria Nebulosa na Maria Comprida (também guiado pelo Jeferson), a terceira mais longa via de escalada do Brasil com 1.040 metros de extensão (merece um relato à parte) e me senti mais confiante para voltar o pensamento à Agulha. E assim, sugeri esta escalada ao Jeferson dentro de um intervalo de férias que eu tinha em setembro. Aproveitamos um dia no meio da semana, terça-feira (28), a fim de evitar que outros grupos a estivessem escalando, ainda mais em um cenário em que não está sendo cobrado pelo acesso ao parque nacional em função do término do contrato com a empresa que o administrava.

    Esta situação transitória tem levado à abertura do parque às sete da manhã, sem possibilidade de entrar mais cedo, a partir das seis da manhã quando havia venda de ingressos. Saímos de Petrópolis às 05h 20min. Na verdade, a ansiedade que sempre me acompanha na véspera de uma jornada deste porte me fez acordar bem mais cedo e eu já estava ligado às três da manhã. Contei com pouco mais de quatro horas de sono na véspera.

    Chegamos na portaria às 07h 05min e acertamos o acesso. O Jeferson já havia feito o pedido da escalada com dois dias de antecedência. Às 07h 40 min estávamos dando os primeiros passos na trilha que leva à parte alta, normalmente conhecida como trilha para a Pedra do Sino, por ser a mais alta e mais visitada na cadeia de montanhas.

    Cerca de três horas depois deixávamos o caminho principal e tomamos uma variante que leva não só à base da Agulha, mas para algumas trilhas como a Travessia da Neblina, Mirante do Inferno e ao cume do São João.

    Passamos por locais irrigados pela nascente do Rio Paquequer e que suportam um acampamento. No momento do relato, não estava podendo acampar dentro do parque, mas para quem não se importa em subir mais carregado para o pernoite, a estratégia tem a vantagem de permitir mais tempo de dedicação à escalada propriamente dita. Sem acampamento, tudo fica muito mais corrido.

    Mais cinquenta minutos de caminhada depois de sair do caminho principal e chegamos ao Mirante do Inferno. Eu nunca tinha ido até o local, mas já havia visto inúmeras belas fotos. Quando eu estava próximo ao que aparentava ser o despenhadeiro, saquei meu celular e comecei a fazer um vídeo sobre a iminente visão. Eu vinha narrando os metros finais, mas quando dei de cara com a Agulha, soltei algumas interjeições inesperadas. Realmente, a visão é impressionante! A Agulha tem o poder de atrair os olhares e as demais montanhas do entorno se transformam em coadjuvantes.

    Agulha do Diabo, vista a partir do Mirante do Inferno. A posição é interessante, pois se encontra em altitude intermediária entre a base e o topo desta incrível formação.

    Eu e Jeferson (de mochila) no mirante. Momento de inspiração para a escalada.

    Ainda havia um trecho desgastante de caminhada a ser percorrido, uma longa descida em que se passa na bifurcação para o São João. Adiante e descendo forte, passamos por um desmoronamento recente em função do aspecto lascado e cortante das rochas trazidas. Percorrer aquele trecho durante uma tempestade de verão deve ser algo que nem consigo imaginar.

    A Agulha aparentava ser cada vez mais desafiadora à medida que descíamos. Seu silêncio soberano era quebrado somente por revoadas frenéticas de andorinhões, que estavam sempre cantarolando. As folhagens das árvores em primeiro plano emprestavam um tema bastante interessante para as fotos.

    Próximo ao fundo do vale, a Agulha do Diabo mostrava toda a sua grandeza.

    Chegar ao fundo de um vale sem estar na base da escalada significa subida. E assim começamos a subir forte. Ficamos neste movimento, passando inclusive pelo interior de blocos rochosos até finalmente alcançarmos a base da via.

    Agrupamos todos os pertences que levaríamos em uma única mochila, a minha, e deixamos o que não usaríamos na base da via para aliviar o peso. Paramentados pelos equipamentos, cross check feito, começamos a escalada e Jeferson assumiu a guiada.

    Lances de diedro, que exigiam entalamento parcial do ombro e braço esquerdos foram os destaques do primeiro esticão (ou enfiada) de corda. O segundo esticão é uma travessia, horizontal no início, com um salto intermediário para um platô em nível mais baixo e uma fácil subida no fim. Nada complicado, mas uma queda envolveria um desconfortável pêndulo na vegetação. Eu tenho verdadeira ojeriza a pêndulos. Outro diedro quase vertical, desta vez exigindo trabalho do lado direito corporal, foi o destaque do terceiro esticão. O alívio só veio quando se estava próximo ao seu final, quando apareceram agarras salientes. Mais uma travessia e o esticão foi finalizado.

    Após os três esticões iniciais foi possível diminuir a corda e avançarmos em caminhada conjunta por uma encosta até as proximidades do Diabinho, uma agulha secundária ao lado da agulha-mãe e voltada para o sul. Havia um cabo de aço que levava até seu ápice. Acredito que só caiba uma pessoa em seu cume. Mas não tentamos esta variante. O dia avançava e tínhamos ainda muito trabalho pela frente.

    Seguimos até atingirmos a primeira chaminé. Para o leitor não acostumado aos termos e movimentos da escalada, era hora de voltar aos tempos de criança, quando subíamos pela moldura das portas entalando o corpo. A idéia é a mesma quando se está no interior de uma fenda rochosa, mas a altura atingida é sempre bem maior.

    No interior da primeira chaminé. Eu aparentava estar assustado?

    Dentro desta chaminé, ainda caminhamos na sua base até a proximidade com um bloco rochoso entalado entre as duas paredes. Jeferson começou a subida, passando por fora do bloco, e subiu mais um pouco até a parada. Então foi minha vez, feita sem maiores dificuldades. Logo que me reuni à parada, Jeferson continuou a subida da chaminé. A saída apresentava um trecho úmido, cuja posição do sol pouco iluminava o local. Estava sem chover há três dias e o local ainda não havia secado. Felizmente, ele driblou o trecho a fim de não molhar a sapatilha e logo mais acima atingiu um platô que antecedia o próximo lance de escalada.

    Na minha vez, ao sair para concluir este lance, cheguei a molhar minha camisa na parte úmida, mas evitei que a sapatilha tivesse o mesmo infortúnio, o que seria bem pior. Este trecho foi um pouco mais exigente, mas ultrapassado sem maiores dificuldades.

    No platô, caminhamos mais algumas poucas dezenas de metros e atingimos um dos famosos pontos da escalada da Agulha: o lance do cavalinho. Agora a escalada ganhava contornos particulares!

    Vista no platô, voltada para oeste. O Garrafão ao centro, em plano intermediário. Em primeiro plano, um pouco disfarçado pela folhagem e a frente do Garrafão, está o Diabinho. No plano de fundo está o Vale da Morte com algumas montanhas que o circundam. É possível ver a Coroa do Frade, iluminada pelo sol em meio à sombra circunvizinha.

    Visão do platô, agora voltada para o sul. No sentido do afastamento, são vistos o Santo Antônio (na sombra), as Três Marias, o Dedo de Nossa Senhora e o Escalavrado (ainda é possível ver ao lado esquerdo do Dedo de Nossa Senhora o dedinho mais afastado do então oculto indicador do Dedo de Deus pelo Santo Antônio, com destaque para uma grande fenda). Prolongando a visão, observa-se a cidade de Guapimirim e no canto superior direito está Magé.

    Visão do platô, voltada para sudeste. Destaque para o São João. À esquerda e diminuta está a Verruga do Frade. A cidade de Teresópolis está atrás da Verruga.

    Se você conhece o lance do cavalinho da Travessia Petrópolis-Teresópolis, não há muita similaridade com o caso que estava diante de mim. O movimento de “montar no cavalo” se assemelha mais nesta Travessia. Mas na Agulha, você não monta, mas joga a perna e braço esquerdos para dentro da fenda, enquanto a cabeça e o restante do corpo ficam expostos no vazio e prossegue “minhocando”, procurando sempre manter o entalamento da perna e braço esquerdos. É possível passar “pagando barra”, ou seja, segurando na borda da fenda com as mãos, com o corpo na vertical projetado no vazio. É exigente, mas alguns fazem assim.

    Eu já havia procurado fotos e vídeos deste lance na internet e confesso que achava que ele era bem mais longo. Estimo que possua, no máximo, cinco metros de extensão. Começa praticamente na horizontal, mas à medida que se avança, a fenda ganha inclinação positiva e já termina na base da próxima chaminé, a famosa chaminé da unha.

    Minha atenção aos movimentos do Jeferson e a necessidade de dar segurança a ele, além de minha concentração, fizeram com que as fotos fossem deixadas de lado naquele momento. Quando eu estava preparando este relato, dei um zoom na primeira foto tirada no Mirante do Inferno. É possível ver um "risco na rocha" que aparenta ser o trecho final do cavalinho, e que segue mais nitidamente subindo, mostrando o início da chaminé da unha. A partir de um zoom e print, tracei o trecho descrito em linha vermelha. Infelizmente, a qualidade foi perdida com o zoom.

    Os traços vermelhos horizontal e vertical são uma tentativa de mostrar o trecho final do cavalinho e o início da chamine da unha, respectivamente. Esta última está mais perceptível à esquerda do traço (não o posicionei exatamente em cima da chaminé).

    O problema é que não se consegue chegar próximo ao início da fenda de maneira confortável, pois você está na beira do precipício! Se houvesse mais um metro de platô, a aproximação ficaria mais fácil. O trecho ausente parece ter existido no passado, mas aparentemente desmoronou. É fundamental montar a parada no grampo existente bem no início do cavalinho.

    Com o sistema montado, observei atentamente os movimentos que Jeferson fazia. Ele estudou o lance e entrou na fenda. Tão logo chegou ao fim, fez um movimento por cima da ponta rochosa no final da fenda e se deslocou para dentro da chaminé, saindo do meu campo visual, para iniciar a subida da unha na sequência. Havia muita corda a ser dada ainda. Quando ele alcançou a metade da altura da chaminé, montou a ancoragem e foi minha vez.

    Enquanto dava segurança ao Jeferson, eu estudava qual o melhor movimento para entrar no cavalinho. Se eu errasse e fosse projetado para fora, eu certamente faria um bizarro pêndulo e possivelmente eu teria que prussicar na corda devido à elongação que ela iria sofrer. Prussicar é subir na corda com dois nós de Prussik (um para cada mão), um nó blocante que envolve a corda e trava quando se aplica força (no caso, o peso), mas corre para cima junto à corda quando se alivia a força. Um par de prussiks e uma fita montada junto ao prussik de baixo para servir de estribo permitem a ascensão pela corda após uma queda desse tipo. Obviamente, esta operação consome tempo, é desgastante e era tudo o que eu queria evitar.

    Com o grito do Jeferson “veeeem”, eu não tinha como escapar. Era hora de me jogar na cova dos leões! Nem me lembro se gritei “escalandooooooooo”. Acredito que sim. De alguma maneira, me desliguei do abismo e pensei somente na entrada. Recolhi meu cabo extensor. A fenda era muito alta e aproveitei uma fita montada na parada para ser um estribo. A entrada foi em artificial.

    Uma vez igual a uma minhoca dentro da fenda, voltei meu rosto para este lado. Comecei a perceber que ao levantar o joelho esquerdo, eu conseguia tração com esta perna, enquanto o braço esquerdo ficava fazendo uma aderência, ambos impulsionando o corpo adiante. A mão direita ficava na borda da fenda e a perna direita era um objeto sendo transportado pelo corpo. Mas o pé direito também impulsionava a parede para trás a fim de contribuir na projeção do corpo para frente. Em nenhum momento arrisquei dar uma olhadinha para o abismo. O meu mundo estava dentro daquela fenda.

    Após uns cinco minutos de labuta, a inclinação da fenda começou a aumentar, o que tornou mais difícil o progresso. A parte de baixo da fenda termina em um bico rochoso para imediatamente encontrar o início da chaminé da unha à esquerda. À direita é o precipício. Ao esticar o braço direito, consegui alcançar o bico rochoso e forcei-o para que meu corpo avançasse mais. Só que eu não conseguia imaginar como sair por cima, como o Jeferson fez, a fim de finalizar o movimento para dentro da chaminé da unha. Fiquei olhando e visualizei um movimento acrobático por baixo do bico e que significaria projetar meu corpo no vazio do precipício e somente depois forçar meu corpo para dentro da chaminé.

    Doido para sair daquele mundo rastejante, o movimento para fora era o único que eu conseguia idealizar. Então, me preparei para fazer um movimento cinematográfico. Com meu braço esquerdo no bico (o direito já o segurava), abracei este bloco e executei o movimento para a terra do nunca, onde só os pássaros reinam. “Maravilha, deu certo!” Deu mesmo? Eu fiquei entalado, a passagem para retornar à chaminé era muito estreita. Fiquei ali agonizando, fazendo uma força lateral descomunal para arrastar meu corpo para dentro da chaminé. Fiquei imaginando se não ficaria a eternidade por ali, as pessoas vendo um esqueleto abraçado a uma ponta rochosa no fim do cavalinho. Para deixar tudo mais emocionante, o Jeferson não sabia o que estava se passando comigo, recolheu corda, retesando-a. Difícil narrar o movimento feito, mas ela passou pressionando meu bíceps direito contra a rocha exercendo uma pressão incrível, resultando em um beliscão na carne que cheguei a soltar um berro. Eu poderia ter gritado para o Jeferson dar corda, aliviando a compressão, mas não imaginava que isto iria acontecer e estava muito concentrado nos meus movimentos. Meu esqueleto ainda ficaria com a mandíbula aberta do berro, como seu eu estivesse sorrindo! Que triste cena!

    A situação só começou a melhorar quando eu procurei controlar minha respiração. Então, percebi que eu conseguia entalar minha perna direita em uma fenda e projetar meu corpo um pouco para cima. Consegui me elevar e, com muita penúria, entrar na famosa chaminé da unha. Passei a visualizar o Jeferson, ancorado em uma pequena plataforma no meio da chaminé. Ele me disse para caminhar na sua base até ficar alinhado verticalmente com a corda, além de ser uma parte de fenda mais larga e que facilitaria o trabalho de entalamento na subida.

    Após um breve descanso, apanhei a mochila (que até então era rebocada antecipadamente pelo Jeferson ao ser amarrada na corda antes da minha progressão) e amarrei a ponta de um cordelete de cinco metros que eu tinha no loop da minha cadeirinha e a outra ponta na mochila para ela ser rebocada conforme eu subia na chaminé. Impossível subir uma chaminé com mochila nas costas.

    A chaminé da unha tem esse nome porque é uma grande lasca de rocha que se afastou da porção superior da Agulha ao longo do tempo geológico, lembrando uma unha que foi deslocada do dedo.

    O início da chaminé estava complicado. O pé escorregava a todo o momento, exigindo maior pressão contra a fenda e mais gasto de energia. Não consegui progredir conforme a alternância recomendada entre pés e mãos para cada lado do corpo. Só comecei a progredir com ambos os pés na mesma parede. Mas o movimento era meio descoordenado.

    A chaminé da unha deve ter uns 20 metros de altura. Ao chegar na plataforma onde o Jeferson se encontrava, me ancorei e foi a vez dele completar a chaminé, ao que já emendou com a arrancada para o cume usando o auxílio de um cabo de aço que liga o final da unha até o cume. E de lá ele gritou: “Cumeeeeee”!

    Ao receber o grito para eu progredir, mentalizei que seria somente mais este esticão e alcançaria o cabo de aço para também me conduzir ao cume. Gritei “escalando”, recolhi a parada e segui. Esta segunda parte da unha estava mais fácil, a rocha estava mais áspera e o atrito facilitado. Nem percebia o peso da mochila, que vinha sendo rebocada pelo cordelete.

    A parede começa a ficar côncava no trecho final da unha, fazendo com que as costas acompanhem o arqueamento. Simultaneamente à subida, a largura da chaminé diminui e alcança-se o seu limite lateral direito, quando surge então uma boa agarra para a mão direita e uma oportunidade para descanso. Mas logo percebi que se ficasse dependendo da agarra, eu não chegaria ao cabo de aço. Então, tinha que subir um pouco mais me deslocando para o centro da chaminé. Progredi e parei para descansar. A alça do cabo de aço estava a uns míseros trinta centímetros de meu braço esquerdo esticado. Olhei para baixo e havia uma grotesca fenda vencida.

    A fim de sair daquele movimento e da incômoda posição, levantei-me na tentativa de alcançar a alça do cabo de aço, o que deixou o eixo principal do meu corpo muito inclinado em relação à parede em que apoiava os pés. Resultado: queda! Na verdade, foi um escorregão com um imediato reflexo de abertura dos braços para provocar o entalamento das mãos e tentar amenizar a descida, pois a corda se estende em uma situação dessas. Ah, sim, tudo acompanhado por um berro provocado pelo susto e Jeferson recebeu o tranco no seu ombro por estar dando a bendita segurança lá no cume. Caso contrário, acredito que eu não estaria escrevendo estas linhas.

    No aprendizado das escaladas, a lição do dia era uma só: ansiedade pode matar! O autocontrole da ansiedade é fundamental nestes momentos. Se eu tivesse progredido mais uns cinquenta centímetros na chaminé, não teria passado pelo susto. Mais tarde ainda comentaria com o Jeferson que este é um problema a ser trabalhado antes de uma futura possível guiada em alguma via (e após treinado para isso).

    Ajustei meu corpo novamente e reiniciei o movimento, cansado, mas desta vez de forma mais prudente, subi até que alcancei o cabo de aço com uma sensação de alívio. Agora restava o último trecho até o cume.

    Deixei a chaminé e agora as mãos estavam no cabo de aço. Iniciei a última arrancada. Mas a inclinação foi aumentando e o esforço no cabo também era grande. Sem luvas, as mãos eram muito exigidas a fim de manter o corpo em posição perpendicular à rocha. Eu progredia devagar para não esfolar a mão e aproveitava para controlar a respiração e dosar a força. A vontade de chegar era grande que nem me liguei de colocar o mosquetão do meu cabo extensor no cabo de aço para evitar de, caso eu soltasse as mãos por descuido, pendular pela corda, cuja segurança ainda era dada pelo Jeferson. Um pequeno trecho de um metro aproximadamente foi vencido quase na vertical e passei a avistá-lo sentado no cume.

    Com esta última dificuldade da forte inclinação vencida, agora bastava içar o corpo cansado de alma revigorada pelos metros finais. Quase me arrastando em reverência à montanha, alcancei a urna metálica que contém o livro de cume, ao que houve um grande cumprimento mútuo e celebração da vitória entre mim e o Jeferson.

    Aquela diminuta plataforma, suficiente para acomodar apenas umas cinco pessoas de forma desajeitada, rodeada por profundos desfiladeiros em torno de seus 360°, mais parecia um infinito plano divino, não sendo capaz de ser alcançado pelas forças do mal como sugere o nome da montanha.

    No cume da Agulha do Diabo. Ainda nos mantínhamos fixos à ancoragem.

    Não há muito espaço disponível.

    A visão do entorno é incrível!

    Último comentário: o retorno invariavelmente ocorreu à noite, quando a falta de dormida adequada na véspera cobrou seu preço, a julgar pelo meu estado de zumbi. Ver a silhueta da Agulha do Diabo contra o céu estrelado foi incrível. Uma pena não ter uma máquina fotográfica comigo para tentar exposição suficiente para capturar a cena. Quando cheguei em casa, já era madrugada do dia seguinte. Ao retirar a camisa para o banho, no meu bíceps direito estavam tatuadas algumas marcas roxas produzidas pela corda que comprimiu minha carne contra a rocha, além de duas pequenas bolhas de sangue no local. Normalmente, não há caminhos tranquilos para se realizar sonhos.

    No cume, visão voltada para o norte. Destaque para o domínio do São Pedro e seu paredão.

    Marcelo Lemos
    Marcelo Lemos

    Published on 10/06/2021 20:21

    Performed on 09/28/2021

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    16 Comments
    Marcelo Borges 10/06/2021 21:31

    Que desafio meu amigo. Parabéns pela conquista. Relato incrível. 👏👏

    1
    Marcelo Lemos 10/06/2021 22:54

    Obrigado, xará!!! Abraço.

    Juliana Marques 10/06/2021 22:13

    Que relato incrível! Parabéns pela conquista!

    1
    Marcelo Lemos 10/06/2021 22:57

    Muito obrigado, Juliana. São situações que inspiram. Felicidades!

    Aline de Castro Santos 10/07/2021 00:12

    Tão incrível foi este relato, que fiquei sem palavras . Parece até que eu estava assistindo um filme! Mas, tipo aqueles filmes que vc fica tão dentro do que vai acontecer, que qualquer barulho externo fora do contexto vc da um pulo e se assusta rsrsrs. Acho que foi o medo que sinto por altura que me deixou assim, meio assustada. Rsrs Parabéns mesmoooo!! Isso aí é só p os Fortes .

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    Marcelo Lemos 10/07/2021 08:56

    Aline... ah, Aline. Só você mesma para me dar essa moral! Muitíssimo obrigado! Rsrsrsrs. É uma evolução. Como escrevi, há dois anos, eu nem imaginava que seria capaz de fazer isso. Mas encontrei na escalada uma nova fronteira ultrapassada. Se você tem medo de altura, recomendo para superá-lo. Abração.

    Fabio Fliess 10/07/2021 08:38

    Sensacional o relato amigaço!!! Parabéns por mais essa conquista!!!

    1
    Marcelo Lemos 10/07/2021 08:56

    Amigaço.... muito obrigado. Era agora ou nunca (neste ano, rsrsrs). Abração.

    1
    Sofia Beviláqua 10/07/2021 23:51

    Excelente relato dessa experiência incrível. Parabéns pela conquista 👏👏

    1
    Marcelo Lemos 10/08/2021 08:45

    Muito obrigado Sofia. Foi um momento muito especial mesmo.

    Juliana Marques 06/12/2023 06:37

    Vim ler seu relato novamente. Principalmente atenta ao trecho do cavalinho. Me fortaleceu um pouco mais. Estou alternado satisfação por ter vencido uma longa trilha em bate volta, ter escalado trechos expostos mesmo com medo de altura com a insatisfação de ter falhado no esporte pela primeira vez. Mas seu relato deixou claro que ali não é um trecho fácil. Parabéns, Marcelo mais uma vez por está super conquista!

    1
    Marcelo Lemos 06/14/2023 22:49

    Oi Juliana, obrigado por voltar ao meu relato após sua jornada na Agulha. Estou escrevendo como pai, incluindo uma filha de onze anos (tenho um casal). Imagine minha felicidade em ver uma filha se dedicando a algo para resgatar minha memória... é uma felicidade infinita. E, conforme escrevi, seja onde ele estiver, o orgulho que ele sente por você é infinito. Durante algum tempo no final dos anos noventa e no ano 2000, me dediquei com afinco ao Kilimanjaro, maior montanha da África. Precisei vender carro, trabalhar em festas, vender rifa... Não deu certo, precisei fazer meia-volta a menos de quatrocentos metros verticais do cume. Vivi durante uma década sonhando com o retorno, até que ele foi possível em 2011. Você não imagina minha sensação ao pisar no cume... Isto virou meu livro. Mas isto é um capítulo a parte!

    1
    Marcelo Lemos 06/14/2023 22:49

    Você citou ter falhado no esporte pela primeira vez. Parabéns! Você é uma vitoriosa. Qual o esportista, de qualquer modalidade, não falhou alguma vez? Cite um exemplo. Se você ainda vislumbra a possibilidade de retorno, trabalhe com afinco, sempre tendo a serenidade e inteligência de dar a meia-volta. E é isto que te manterá vencedora. Se o destino, as demandas da vida impedirem, levante a cabeça e saiba que uma pessoa estará celebrando seus feitos de maneira muito orgulhosa. Palavra de pai! Um fortíssimo abraço, e vamos combinar uma montanha qualquer dia desses.

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    Juliana Marques 06/15/2023 05:34

    Ô Marcelo! Gratidão por suas palavras. Lendo o que me escreveu com lágrimas nos olhos. Eu saí daquela montanha decidida a nunca mais voltar. Durante essa semana ouvi uma palavra que mexeu com meu coração. E existe a possibilidade de voltar. Eu preciso trabalhar meu emocional para o cavalinho e retornar. Obrigada por você ser um incentivador, um sábio. Te admiro muito. Quando passar por Teresópolis, vamos tomar um café.

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    Marcelo Lemos 06/16/2023 20:06

    Oi Juliana. Eu também devo te agradecer por tantas palavras incríveis. A admiração é recíproca. Vejo o quão significativa foi a escalada e o quão presente a Agulha está em sua vida. Então, acredito ser natural este turbilhão de sentimentos no início. Depois você vai estabilizando. Vai chegar o momento de mais serenidade e frieza para tomar a decisão. Agora que você conhece o cavalinho, vai poder idealizar um treinamento específico no movimento deste lance. Quando você estiver lá dentro, transforme o cavalinho no seu mundo e esqueça o que está em volta. Acredito que na sexta-feira, dia 07/07, eu esteja em Terê à noite. Daí a gente marca o café!

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    Juliana Marques 06/20/2023 08:43

    Beleza, Marcelo!! Até! Um abraço.

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    Marcelo Lemos

    Marcelo Lemos

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