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A caverna das profundezas

A caverna das profundezas

Mergulho profundo na beirada da plataforma continental para filmar uma caverna. E baleias jubarte na superfície. Com László Mocsári.

Diving

"Tempo fora d'água é tempo desperdiçado." Honor Frost

Belo sábado de sol. Saímos da Baía de Todos os Santos (BTS) e pegamos o mar ligeiramente agitado (ondas de 1,5 metros). Pouco depois de deixarmos a baía avistamos borrifos de baleias jubarte e alteramos ligeiramente a rota para filmá-las. É um espetáculo imperdível. Elas estavam saltando fora d’água ou giravam o corpo, batendo as enormes nadadeiras peitorais na água. Sem pandemia elas podem visitar a Bahia tranquilamente.

Nosso objetivo hoje era uma caverna a cerca de 142 metros de profundidade na borda da plataforma continental, que Bruno Fagundes e László descobriram 6 anos atrás.

Após hora e meia de navegação chegamos no ponto, László, no comando da lancha, observava na sonda o local correto para jogarmos a âncora. Neste tipo de mergulho, na beirada da plataforma continental, o lançamento do ferro tem que ser preciso, deve ficar perto da borda e não pode cair no abismo (não haveria sequer corrente/cabo suficiente para a âncora chegar no fundo!).

Ao sinal do László atirei a fateixa ao mar e observamos dezenas de metros de corrente e cabo deixando o barco até finalmente parar. Jorginho, o mestre, amarrou a corda no cunho e voltei para a popa para me equipar.

Batimetria indicada pela sonda.

Com o barco balançando acabei por me debruçar na borda e vomitar. O Vonau não segurou. Mas sempre que vomitei o mergulho acaba por ser excelente! Acho que mantenho esta superstição para me conformar… Mas até hoje funcionou!

Check list feito, equipado, cai na água. Sem correnteza, excelente! Jorginho me passou os cilindros de bail out (cilindros de emergência com gases se o equipamento principal, o rebreather falhar). Prendi quatro cilindros ao corpo e fui até o cabo da âncora, esperar o László nos 5 metros de profundidade. Ao chegar, fizemos o bubble check (verificação de vazamentos). Tudo OK, polegares para baixo, iniciamos a rápida descida.

Aos trinta metros paramos para amarrar um dos cilindros de bail out, para resgatá-lo na subida. Menos um cilindro para arrastar.

Aos 90 metros avistei o fundo, já quase sem luz. Impressionante a mira do László. Jogou a fateixa a dez metros da borda. Perfeito!

Notei que estava bem mais lúcido que no mergulho anterior, dois anos atrás. Me lembro que aos 123 metros estava eufórico devido a narcose (vide relato "A atração do abismo"). Na ocasião havia muita correnteza e o esforço físico aumentou a retenção de Dióxido de Carbono (CO2) que potencializa a narcose.

Rapidamente prendi o cabo da carretilha e chegamos na borda para cair no abismo.

Este local é cheio de “coral afogado”, coral que cerca de 10 mil anos atrás, na última era glacial, com o mar bem mais baixo que atualmente, recebia luz solar e tinha condições para sobreviver. Com o fim desta era, os mares voltaram a subir aproximadamente 100 metros e os corais morreram. A Baia de Todos os Santos naquela época era na maior parte terreno seco.

Começamos a descer e na cota de -145 metros (imagine um prédio de 53 andares) achamos a boca da caverna.

László, com a câmera de filmagem principal, entrou na frente. Me parece que esta gruta foi criada pela erosão do mar ou pelos corais. Entramos cerca de 25 metros.

Boca da caverna, vista de dentro para fora.

Embora houvesse condutos ainda a direita e a esquerda não pareciam se prolongar muito. Em todo caso já estávamos a 15 minutos no fundo e os computadores de mergulho já indicavam uma descompressão superior a 120 minutos.

Tomadas as imagens e seguindo rigidamente o planejado demos meia volta e iniciamos a rápida subida.

Ao alcançar o platô superior desamarrei a carretilha do cabo e ascendemos aceleradamente para os 60 metros, primeira parada descompressiva. A partir dali teríamos paradas a cada 3 metros, perfazendo cerca de 3 horas de descompressão.

Estas paradas, em geral muito tediosas, foram bem interessantes, porque László avistou de relance o que parecia ser a cauda de uma baleia Minke. Noutro momento ele puxou minha nadadeira e apontou para cima. Um golfinho branco nadava em nossa direção seguindo o cabo da âncora e passou junto a nós. Ficamos tão surpresos que não houve tempo hábil para filmá-lo. Mais abaixo o golfinho se roçou no cabo da âncora, como se desejasse coçar ou tirar algum parasita da pele.

Durante toda a deco a cantoria das baleias jubarte.

Resgatamos o cilindro que estava amarrado no cabo e continuamos a lenta subida, rigorosamente seguindo o ordenamento do computador. Com cerca de hora e meia de mergulho o Jorginho baixou-nos um cilindro de oxigênio, deslizando através de um mosquetão preso ao cabo da âncora.

Num dos cilindros tinha preso um Camelback de onde tomei uma bebida isotônica para manter a hidratação, importante no meu caso já que vomitei na superfície.

Sem correnteza, notamos que o mar se acalmou, ficou mais flat na superfície e com poucos solavancos no cabo da âncora.

László curtindo a deco!

As duas da tarde pisávamos de novo no convés da lancha Blue, depois de 220 minutos debaixo dágua. Excelente mergulho, sem incidentes, conforme o planejado. E a marca de -145 metros no meu bolso. Para László este mergulho ainda estava longe do recorde dele.

Na volta ainda fomos agraciados outra vez pelo show das jubartes.

Desci e acabei cochilando um pouco na cabine. Impressionante como estes mergulhos longos são extremamente cansativos. Acordei já dentro da BTS.

Equipamentos usados a bordo: o GPS e a ecosonda são fundamentais para achar o ponto correto. O SPOT X é usado para dar segurança a operação em uma emergência já que distantes da costa o sinal de celular não pega.

Relato dedicado ao László Mocsári, responsável pela maior parte das imagens do vídeo anexo. Impressionante como vai numa profundidade destas com a tranquilidade de quem está passeando num parque!

Depois da publicação do vídeo feito pelo Laszlo fiquei surpreendido pela repercussão do mergulho.

https://www.brasilmergulho.com/brasileiros-encontram-caverna-aos-145m-de-profundidade-no-mar-da-bahia/

https://www.marbahia.com.br/post/mergulhador-anuncia-nova-descoberta-no-mar-da-bahia

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 09/28/2020 22:41

Performed on 09/26/2020

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1164

4
Fabio Fliess
Fabio Fliess 09/29/2020 12:07

Show de relato. Como sempre! Parabéns Peter!

Peter Tofte
Peter Tofte 09/29/2020 12:32

Obrigado Fliess! E ainda vou usar seus relatos para planejar trilhas aí na sua região!

Fabio Fliess
Fabio Fliess 09/29/2020 12:41

Show meu amigo. Precisando de algo, só falar. E aparecendo, avisa. Quem sabe temos a honra de fazer uma pernada juntos.

Peter Tofte
Peter Tofte 09/29/2020 14:13

Que bom!

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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