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A tromba d'água

A tromba d'água

Uma tromba d'água marinha quase nos deixava a deriva por duas vezes nos Galeões N.S. do Rosário e Utrecht. Com László Mocsári e Jaime Arias.

Diving

Saímos cedo da Bahia Marina. O objetivo era mergulhar nos Galeões N. Sra. do Rosário e no Utrecht, que afundaram em 25 de setembro de 1648, numa batalha naval durante a invasão holandesa. Queríamos mostra-los ao médico anestesista Jaime Arias, companheiro de trabalho do László Mocsári. Ele esta se iniciando no mergulho. Estes naufrágios, a cerca de 20 metros de profundidade, são muito interessantes.

Saída.

Após a partida arrumei os equipamentos no barco e fui deitar na cabine. Tinha dormido pouco na noite anterior. Eis que o Mestre Jorginho me chama para subir ao fly deck para observar algo. László e Jaime apontaram para o horizonte ao sul, entre Salvador e Morro de São Paulo: uma massa de água em espiral subindo aos céus debaixo de uma nuvem negra. Uma tromba d'água! Jamais havíamos visto uma. O Jaime com seu smartphone conseguiu uma imagem razoável considerando a distância.

Observe o centro da foto na altura da nuvem negra. A tromba vai até o mar, pouco visível na foto devido a falta de contraste e a distância.

É o encontro de Iemanjá com São Pedro, imaginei.

Como a tromba d'água estava ainda bem mais ao sul e o mar mantinha-se calmo continuamos tranquilos rumando para nosso primeiro ponto de mergulho.

Poucos minutos depois chegamos em cima do N. Sra do Rosário, galeão português cujo capitão, ao se ver abordado por dois galeões holandeses, um em cada bordo, ateou fogo na Santa Bárbara (o paiol de pólvora) explodindo sua embarcação. Na explosão o Utrecht ficou muito danificado e afundou quase imediatamente. O outro galeão holandês (o Huys Van Nassau) ficou tão avariado que encalhou em Itaparica e foi capturado pelos portugueses.

Sobre o N. Sra. do Rosário:

https://www.brasilmergulho.com/galeao-nossa-senhora-do-rosario/

A âncora da lancha Blue caiu praticamente ao lado da pilha de pedras de lastro que marcam o sítio arqueológico. Passeamos e avistamos os 3 canhões que estavam sobre as pedras. Os demais foram atirados mais longe devido a explosão.

Minha carretilha com o cabo guia estava ligado a âncora da lancha. Eu a pousei sobre as pedras porque não vi necessidade de carregá-la, pois estavamos muito proximos da âncora e a visibilidade era boa.

Cerca de 25 minutos depois, de repente, ouço chamados. László e Jaime gesticulando e nadando rapidamente numa direção. László fez o gesto de âncora arrancada. A âncora desgarrou e estava percorrendo o fundo marinho como se fosse um arado! Ainda bem que levantava uma nuvem de areia e assim sabíamos em que direção seguir.

Tivemos que correr, digo, nadar rapidamente, para alcançar a âncora e o seu cabo. Se a perdéssemos de vista iríamos subir longe do barco e ficaríamos a deriva em mar aberto.

Ao alcançarmos a âncora seguramos no cabo e começamos a ascender, antes fazendo uma parada de segurança. O mar na superfície estava agitadíssimo e a lancha focinhava. A plataforma de popa parecia uma gangorra subindo e descendo. Ao subir a bordo entendemos a situação. A tromba dágua criou uma área de ventos e ondas fortes que bateram e empurraram o barco com força e a âncora não aguentou começando a "garrar" (jargão náutico: "garrar" é arranhar o fundo marinho. Quando ela fica bem firme, ela "unha").

Enquanto estávamos debaixo d'água não tinhamos como saber que o pau estava comendo na superfície. E a previsão de ondas do CPTEC/INPE indicava ondas abaixo de 1,5 m e ventos fracos para este dia.

O fundo marinho nesta área é um lajeado coberto com uma pequena camada de areia. Assim a âncora tipo fateixa não conseguiu unhar bem e começou a garrar.

Minha carretilha ficou no galeão, pois a linha que o ligava a âncora arrebentou. Lászlo avisou que iríamos recuperá-la em seguida a partir do Utrecht.

Seguimos com a lancha Blue para o naufrágio holandês que fica apenas a 200 metros do Rosário.

Caímos na água eu e László. Jaime ficaria mais uma hora a bordo fazendo o intervalo de superfície já que ele caiu com circuito aberto e nós estavamos com rebreather (circuito fechado). A primeira coisa que fizemos ao chegar no fundo foi checar se desta vez a âncora estava bem unhada. OK, bem presa a pedras de lastro do Utrecht. Não iria soltar...

Sobre o Utrecht:

http://www.observabaia.ufba.br/wp-content/uploads/Utrecht-1648_Report-2016.pdf

Nadamos então no rumo 63º, na direção do Rosário em relação ao naufrágio batavo onde estávamos. Seguimos, seguimos e nada dele aparecer. Avistamos alguns canhões isolados do N.S. do Rosário mas cadê ele? Pior, a carretilha que usávamos presa a uma das âncoras do Utrecht acabou a linha (a linha é para voltar em segurança de onde saímos). A minha carretilha que poderia emendar nesta era justamente o que queríamos recuperar. Tivemos que pegar dois spools (tipo de "carretilha", porém bem menores) e emendar nela para continuar avançando. Fizemos um leque de busca e nada. Até que László me pediu para eu ficar segurando o último spool que ele seguiria um pouco adiante. A visibilidade não estava boa. Enxergávamos apenas 10 metros adiante, com sorte. Esperei o retorno dele, imaginando se agora ele não iria se perder (facinho, facinho...). Após alguns minutos ele surge triunfante com minha carretilha na mão. O naufrágio estava cerca de 30 metros adiante mas não era possível enxergá-lo da ponta da linha.

Perguntei depois, a bordo, como ele havia adivinhado a posição dos destroços e ele me disse que viu peixes assustados nadando numa direção (eles procuram abrigo quando acham que estão em perigo). Ele foi na mesma direção e bingo! Achou o naufrágio.

Voltamos, eu bem contente, porque uma carretilha perdida é um bom prejuízo.

Lá chegando, fiquei no fundo e ele subiu para o barco para chamar o Jaime pois já havia se passado pouco mais de uma hora.

Percorri os destroços para passar o tempo enquanto eles não desciam e topei com um polvo de 1,5 kg em sua toca. Ele mudou de cor assustado mas permaneceu entocado.

Fiquei deitado no fundo observando-o e estendi minha mão até pertinho da toca. Começei a dedilhar, a movimentar os dedos, para atrair a atenção dele. Ficou me observando até que estendeu um dos seus tentáculos e tocou um dos meus dedos. Após sentir a textura de minha pele recolheu rapidamente o tentáculo. Ficamos juntos pelo menos por 10 minutos.

O octopus resolveu sair da toca e andar vagarosamente. Eu segui-o lentamente. Até que László e Jaime chegaram. László tentou filmá-lo mas sua GoPro 7 travou (esta câmera vive dando este problema!). Apenas conseguiu tirar uma foto do Dr. Polvo.

Recomendo muito que assistam o documentário "Professor polvo" na Netflix, mostrando como estes seres são admiráveis e inteligentes. Já teve filme de ficção científica retratando alienígenas como sendo polvos.

Após mais meia hora fazendo um tour submarino pelo Utrecht decidimos subir. Neste mergulho, depois de duas horas e 10 minutos a 20 metros de profundidade eu tinha cerca de seis minutos de descompressão.

Âncora do Utrecht.

Na parada de 6 metros László descobriu que o cabo da âncora estava arrebentado! A lancha só não foi embora por pura sorte! Um cabo auxiliar estava preso ao cabo da âncora e ao barco, abaixo do ponto onde o cabo da âncora rompeu. Este cabo emendado acabou por segurar a lancha a âncora.

Subimos a bordo com o mar agora um pouco mais calmo. Por duas vezes quase ficamos a deriva por conta das condições de mar geradas pela tromba d'água. Agora sabemos que este fenômeno metereológico, mesmo estando longe, requer muita atenção!

O Jaime Arias, ainda novato no mergulho já começou bem, com emoção. Mas manteve uma tranquilidade de médico em sala de cirurgia. Assim ele já vai se acostumando com o mergulho técnico!

Fotos subaquáticas do László Mocsári, tomadas no Utrecht pouco antes da GoPro travar.

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 07/16/2021 14:15

Performed on 03/13/2021

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Rodrigo Oliveira
Rodrigo Oliveira 07/16/2021 16:46

Pensei que era a tromba, mas "o cara" do relato foi o polvo. Animais incríveis!

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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