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Alta Via (Höhenweg) 4 - Dolomitas

Alta Via (Höhenweg) 4 - Dolomitas

Trekking maravilhoso de seis dias pelas Dolomiti, com Fabio Dal Gallo, Cristina Macedo e Alberto Alpire.

Mountaineering Trekking

"Que terra é esta! Meu Deus, se você estivesse aqui!"

Franz Kafka, em carta a namorada.

Vales alpinos de cartão postal, montanhas majestosas, trilhas suspensas no abismo, cenários deslumbrantes, histórias dramáticas da 1ª guerra mundial e refúgios acolhedores com bom vinho, cerveja e comida fazem da Alta Via 4 ou Höhenweg 4 (trilha de alta altitude) nas Dolomitas uma das mais belas e emocionantes trilhas do mundo. Com justiça a UNESCO considerou as Dolomiti como Patrimônio Natural da Humanidade. Em 15 anos de trilha considero esta uma das mais encantadoras e surpreendentes que já fiz.

A Alta Via 4 é muito puxada, pelo terreno e distâncias percorridas. A vantagem é que há uma rede de refúgios que permite andar com mochila pequena, de 30-40 lts, só com roupas, agasalhos e comida de trilha. É proibido acampar. Assim é necessário dormir nos refúgios.

Fábio Dal Gallo e Cristina Macedo me convidaram para fazer este sentiero enquanto estavam na Itália a estudo. Convite irrecusável. Alberto Alpire, fundador do Bushcraft Bahia, agora morando e trabalhando na Alemanha, pegou um vôo de Colônia para Padova e juntou-se a nós. O quarteto fantástico estava agora reunido. O homem e a mulher tocha com certeza já tínhamos porque Fábio e Cris são especialistas em malabares de fogo.

A logística providenciada pelo casal de amigos foi excelente. Fizeram o planejamento, as reservas nos refúgios, a inscrição no famoso CAI (Club Alpino Italiano), que dá direto a desconto nos refúgios e resgate gratuito em caso de emergência. Não bastasse isto, arranjaram o transporte para o início/final da trilha e obtiveram emprestado kits de ferrata e capacetes de alpinismo para mim e para o Beto. Nada como ter amizades italianas!

20 de junho

Deixamos a casa dos pais de Fábio, na bela área rural de Moriago della Battaglia (referência a uma batalha que ocorreu ali entre austríacos e italianos na 1ª guerra mundial), onde começa a pré-cordilheira das Dolomiti. Área linda de vinhedos (região do Prosecco) e bosques. Mais um dia lá e eu não conseguiria passar pela porta da casa, de tanto comer e beber.

Com o carro de Fábio fomos para a cidade de Pieve de Cadore onde deixamos o veículo no estacionamento do hospital e um táxi já estava nos esperando para levar-nos ao início oficial da Alta Via.

Passamos por vales estreitos cercados de montanhas imponentes, altíssimas, numa manhã nublada. Uma grande diferença de altura, o vale a 1.000 metros e as montanhas acima dos 2.000 metros. Me senti um pouco claustrofóbico e oprimido e me perguntava se teríamos que subir aquelas montanhas enormes.

Os campanarios das igrejas nas cidadezinhas pareciam querer disputar em altura com as montanhas.

Uma hora e meia depois chegamos na bela San Candido, que no seu passado austríaco se chamava Innichen. Todas as cidades e montanhas desta região são grafados com 2 nomes, um italiano e o original, alemão (austríaco). Mas a atmosfera, culinária e arquitetura são tipicamente austríacas, do Sud Tirol. A Áustria perdeu este território no final da 1ª guerra, após ser derrotada.

Fizemos um lanche numa delicatessen e saímos da vila, começando a usar um App da Tabbaco, com excelentes mapas topográficos, que Fábio adquiriu. Beto usava seu GPS.

Subida íngreme e consistente por bosques alpinos. Parte do caminho foi por uma estrada de lenhadores. Lá eles tem uma extração racional de pinheiros, sem devastar a floresta.

Chegamos a uma pequena capela bem antiga, ao lado das ruínas de uma estação de águas, o Bagni di San Candido, com três diferentes fontes, cada uma prometia cura para determinadas doenças. Nos homens preferimos a que curava doenças hepáticas, estomacais e do coração. A Cris escolheu a que tratava de problemas típicos de mulheres. Impressionante como convergia para aquele pequeno platô três córregos com águas de características e gostos totalmente diferentes (uma delas com gosto sulfuroso).

Capelinha. Na baixada, logo atrás dela, as ruínas da estação de águas e as fontes curativas.


Seguimos e após mais uma hora chegamos ao chão do vale Campo de Dentro (Innerfeld Tal), onde havia uma área de estacionamento. Seguimos agora ao lado de uma estrada, em zigzag, por onde transitava um ônibus para turistas que parava em outra área de estacionamento, 40 minutos a pé de nosso destino, o refúgio Tre Scarperi (Dreischusterhütte).

O refúgio fica num platô no fundo do vale. Lindo local, cartão postal. Montanhas o cercam por três lados, de onde partem diversas trilhas. Mal chegamos, sentamos no deck, pedimos cervejas Weiss e ficamos admirando a paisagem. A forte garçonete loura estava com um vestido tirolês tradicional.

Chegando no refúgio


Jantamos típicos pratos das montanhas do Tirol. Podíamos escolher entre duas opções tanto no primo piatto como no secondo piatto. E ainda havia sobremesa. Optamos pela mezza pensione, que inclui jantar, dormida (quarto coletivo) e café da manhã. Como éramos sócios CAI pagamos em média 45 Euros cada um. O banho quente é pago a parte.

Beto dormiu antes do escurecer. Uma italiana, que era nossa única companheira de quarto, gemia enquanto dormia e perturbou o sono dele. Demos risada quando ele nos contou isto no dia seguinte, especulando sobre o motivo dos gemidos e se ele ficou tenso por causa disto...

21 de junho

Café da manhã farto e bom, típico alemão.

Saímos por volta de 9 horas indo para o fundo do vale, a esquerda, onde começava a subida. Trilha bem feita, bem sinalizada, o que é regra nas Dolomiti.

Saindo do vale, que está ao fundo.

Cris, Beto e Fabio. Ao fundo, a Torre Tobliner

Depois de duas horas chegamos num passo, onde, no alto, encontramos manchas de neve e trincheiras austríacas da 1ª guerra. Havia ainda restos de cercas de arame farpado. A luta ali foi feroz, em condições muito difíceis, especialmente no inverno. Ainda hoje encontram corpos de soldados que foram "enterrados" as pressas nas gretas de glaciares. O atual degelo do aquecimento global revela os cadáveres, até então conservados no gelo.

Exploramos a trincheira. Túneis cavados na montanha serviam como casamata (bunkers). Janelas esculpidas na rocha, em pontos estratégicos, eram utilizadas para disparar metralhadoras ou canhões. Imaginamos como viviam os soldados naqueles túneis e trincheiras, úmidos e frios, sujeitos a disparos de snipers e canhões. Muitos jovens encontraram a morte num local tão bonito.

A vista era soberba. Na nossa frente os Tre Cime de Lavaredo (Drei Zinnen), um dos cartões postais da Itália e o ponto mais conhecido das Dolomiti. Iríamos contorna-los pela direita para chegarmos ao nosso destino do dia, o refúgio Auronzo.

Ao centro, os Tre Cime.

Paramos antes no refúgio Locatelli (Drei Zinnen Hütte), ainda fechado. A estação estava começando agora e os refúgios começaram a reabrir somente nos últimos cinco dias. Este refúgio tem uma vista espetacular para os Tre Cime.

Após uma descida e longa subida no sopé dos Drei Zinnen passamos num pequeno refúgio que estava aberto, oferecendo refeições. Não resistimos e paramos para reabastecer com umas Weiss.

Fábio contou que três dias antes ocorreu uma tragédia no Grosse Zinnen. Um escalador caiu 100 metros e outros dois ficaram pendurados na parede até o socorro chegar. Parece que pegaram uma via errada e houve um problema na ancoragem. Todo verão morrem algumas pessoas nestas montanhas.

Recomeçamos a andar justo com a mudança do tempo. Relâmpagos caíram anunciando uma chuva que obrigou-nos a colocar as capas. Chegamos ao Refúgio Auronzo debaixo de chuva fria e torrencial.

Lado Sul dos Drei Zinnen, junto ao refúgio Auronzo. Ainda estava bem nublado no final do dia.

Auronzo é um grande refúgio porque se pode acessá-lo de carro. Muitos turistas o visitam para passar apenas o dia, contornando os Drei Zinnen e voltando para a casa. As janelas envidraçadas do bar/restaurante tem uma vista espetacular para o maciço do Cadin (Gruppo de Cadin) e para a crista ligando o Monte Campedelle ao Cadin, olhando para o Sul. iríamos percorrer parte desta crista amanhã (sentiero Bona Cossa).

22 de junho

Neste dia o tempo ainda estava instável durante nosso café da manhã. Soprava um vento frio, forte e cortante. Esperamos melhorar. Teríamos pela frente um pequeno trecho de via ferrata. As vias ferratas da Dolomiti foram feitas na sua maioria durante a 1ª guerra, para que os soldados pudessem se deslocar pelas montanhas com mais segurança, em trechos com alta exposição e poucas agarras na rocha. O CAI hoje faz um excelente trabalho de manutenção destas vias.

Beto contou que na noite anterior havia sonhado que uma grande pedra caia do Grosse Zinnen (logo atrás do refúgio Auronzo) e arrasava a construção. Eu, Fabio e Cris nos entreolhamos e começamos a rir. Uma noite era uma italiana gemendo, outra era um desastre.

Quando o sol firmou e o vento diminuiu a força, partimos e percorremos a crista. Magnífica e dramática vista para as agulhas do Gruppo de Cadin.

Ao iniciarmos a descida, encontramos a via ferrata. Nos equipamos e iniciamos a progressão com tranqüilidade, chegando ao fundo do vale Campedelle, onde atravessamos uma língua de neve endurecida e subimos de novo, para chegar no refugio Fonda Savio. Um trecho em que demoramos cerca de duas a três horas para percorrer. Observamos que recentes avalanches de rochas alteravam volta e meia a trilha original, obrigando a criar desvios.

Equipado para a ferrata.

No Fonda Savio, o Fábio descobriu que devíamos ter tomado uma variante a esquerda, não precisando subir ao refúgio. As linhas de nível no mapa antes do refúgio eram tão próximas (subida íngreme) que induziram ao erro.

Fonda Savio


Dentre as opções de trilha, escolhemos o sentiero Durissini, mais duro, porém livre de gelo e neve. Iríamos contornar o maciço (gruppo) de Cadin pela esquerda, rumo Sul.

Ao fim de cada subida íngreme apenas descobríamos no passo que logo após a forte descida seguinte havia outra subida empinada, para outro passo de montanha. Estávamos cruzando várias vertentes que desciam do maciço. Este sentiero é bem cansativo.

Vista de um passo para o passo seguinte. Notar a trilha em zigzag, subindo.


Chegamos finalmente ao passo (forcella) Cristina, onde Cris tirou fotos. Um passo de montanha para ela chamar de seu! De lá avistamos ao longe o refúgio Cittá de Carpi. A maior parte do caminho seria agora descida.

Chegamos por volta de 5 horas. Sol ainda alto, mas o vento frio fez-nos beber a cerveja no interior do abrigo e não no deck com linda vista. Um casal simpático com o filho tinha a concessão deste refúgio há 27 anos.

Notamos que os refúgios menores, menos movimentados, eram os melhores. Tratamento mais caloroso, quase familiar. Neste havia grapas aromatizadas com várias ervas. Provamos todas. Gostei particularmente de uma condimentada com cominho, que lembra muito o acquavit escandinavo. Fomos dormir meio altos.

Olhando para trás ao chegar no refúgio Citá de Carpi, Gruppo de Cadin, lado Sul. Atravessamos todo este maciço.

O refúgio

Entardecer com vista para o Sul, Gruppo Delle Marmarolle. O próximo maciço a atravessar.

23 de junho

Este dia seria fácil. Descer para o comprido e amplo vale do rio Ansiei e subir para o refúgio Vandelli (Sorapishütte), do outro lado. Do ponto onde partimos dava para avistar ao longe este outro refúgio, perto do lago Sorapis.

Descida agradável por um bosque alpino. Tomamos um atalho porque o caminho proposto faria um grande desvio sem sentido, apenas para passar pela vila e pelo lago Misurina.

Cruzamos uma estrada (a mesma que passamos de táxi indo para San Candido) na altura do Refúgio Cristallo (fechado) e começamos a subir para a encosta do outro lado do vale, avistando com uma hora de caminhada a cascata de Pis (xixi). Acima dela, num circo, ficava a laguna de Sorapis - “acima do xixi”, bem didática esta denominação italiana. Esta trilha fica fechada no inverno e início da primavera devido ao risco de avalanches. Vimos pedras e árvores arrancadas que alertavam que o risco era real.

Sorapis, ao centro da foto.

Chegamos ao refúgio Vandelli (Sorapishütte) passando por um bosque bonito na subida. Descobrirmos que estava lotado de turistas. Era sábado e uma via alternativa permite que os carros cheguem num ponto a apenas uma hora de caminhada do refúgio. Idosos, crianças e jovens se divertiam as margens do lago azul turqueza, porém pouquíssimos tinham coragem de mergulhar nele. Iam passar apenas algumas horas no local.

Só pudemos subir para os alojamentos as 16 horas, porque os funcionários estavam muito ocupados no bar/restaurante.

Com o avançar da tarde o refúgio esvaziou. Creio que apenas cerca de uma dúzia de pessoas ficou ali, para dormir. Ao menos oito iriam seguir pela Alta Via 4. Um casal de poloneses, um casal formado por uma americana e um rapaz de Borneo e o quarteto fantástico. Conversamos um bocado. A americana nos disse que um dia de trilha na Itália custa o mesmo que uma semana no Nepal (Opa! Próximo destino!)

Tentamos descobrir por onde seguia a via ferrata Vandelli, no paredão da montanha a nossa esquerda, nosso caminho amanhã logo cedo.

Aquele paredão me deu calafrios.

Aproveitei o banho pago e de água contada para lavar minhas roupas (só tinha duas peças de cada tipo de vestuário: cueca, calça, camisa e meias). Estava com tão pouca gente que coloquei minha cueca pendurada para secar numa cadeira do deck, onde ainda batia o sol, o que provocou risadas entre os companheiros e o jovem casal.

Novamente dormimos antes do escurecer. Diariamente procuramos despertar cedo para estarmos prontos no momento em que começavam a servir o café, normalmente entre 7 e 7:30 da manhã. Terminada a prima colazione já podíamos partir. Motivo: as tempestades de verão nas Dolomiti costumam ocorrer do meio para o final da tarde. É bom chegar no refúgio de destino antes. Outra razão: o gelo derrete com o calor no avançar do dia, podendo desprender pedras lá de cima.

24 de junho

Café da manhã parco. Os italianos costumam comer pouco no início do dia. Café, torradas e geléia e creme de chocolate e amêndoas. Beto reforçou o café dele tentando dissolver este creme dentro da xícara. Saudades dos refúgios de tradição austríaca - alemã.

Saímos os oito juntos. Após 40 minutos estávamos diante da base da parede onde escadas de aço indicavam o início da ferrata. Clipamos os mosquetões no cabo de aço e começamos a ascensão. Alguns trechos tinham exposição considerável. Após alguma subida tínhamos um abismo de 150 a 200 metros abaixo de nos. Nunca senti um carinho tão grande pelas rochas. Apalpar, agarrar e abraçá-las e não mais soltar! Passei a adorar a Mãe-Terra. Evitava olhar para o vazio. Fabio ficou para trás, ajudando o casal de poloneses. Ele e Cris tinham a melhor desenvoltura. Haviam treinado antes com um amigo instrutor de montanhismo, inclusive praticando numa ferrata de nível dificílimo.

Em determinado momento apareceu uma língua de neve endurecida, cobrindo a passagem da ferrata num diedro. Fabio atravessou na frente pisando na neve dura, assegurado por Cris e fez uma amarração com o cabo, no outro lado, de modo a cliparmos nele, para não cairmos no abismo acaso escorregássemos na neve. O cabo de aço da ferrata que deveríamos utilizar estava soterrado pela neve. Passagem com emoção. Não tínhamos piolet nem crampons.

Não sabia o que era pior, a ferrata (trechos expostos) ou quando não havia o cabo de aço da ferrata. Os trechos com menor exposição (trilhas elevadas e estreitas, com um metro de largura ou pouco mais) não tinham cabos de aço. Mesmo neste lugares, um vacilo, um tropeço, podiam fazer facilmente um descuidado cair no abismo. Assim andava vagarosamente, concentrado em cada passo. O fato de ter medo de altura também não ajudava.

Esta foto dá uma ligeira idéia da exposição. Beto na parede.

A ferrata subia em diagonal, com trechos verticais, e não terminava nunca. Quando chegamos perto da crista no topo, a todo momento eu pensava que subiríamos, aproveitando uma brecha, para cruzar para o outro lado da montanha. Nada. Ela continuava em frente, subindo gradualmente em diagonal, rumo Nordeste. Até que, após 3 horas, finalmente chegamos ao topo, com belas vistas para o lago Sorapis, a Sudoeste e para o Val d'Ansiei, ao Norte.

Ficamos muito alegres. Para mim e para o Beto foi a primeira ferrata séria de nossas vidas. Parecia que fizemos cume. Tiramos fotos e fizemos um rápido lanche, porque ainda teríamos muito o que andar.

Descendo cerca de uma hora chegamos no bivaco Comici, uma estrutura tubular de aço que poderia abrigar 4 a 6 pessoas em beliches. Foi trazida de helicóptero anos atrás. Eles chamam de bivaco estes diminutos refúgios sem muita estrutura e serviços. A vantagem é que não pagamos pelo seu uso. Eles são mais utilizados em emergências.

No vale embaixo está o refúgio Comici. Reparem na trilha subindo ao fundo (um risco branco na encosta). Uma sucessão destas diariamente!

Após algumas fotografias, subimos ao passo seguinte (foto logo acima) onde almoçamos e fomos alcançados pelos dois casais, que vinham pouco mais atrás. Após o lanche começamos a descida para o vale de San Vito. Lá embaixo corria um rio e avistamos uma bela cachoeira despencando dezenas de metros de um afluente, na parede oposta, vindo de um vale vizinho. A trilha, embora muito alta, era ladeada por pequenos pinheiros, o pino mugo, conhecido pela grande resistência e flexibilidade de seus galhos, inclusive considerado seguro para amarração de rapel. Se alguém tropeçasse e caísse poderia ter a queda interrompida pelos pinheiros. Poderia... Alguns trechos expostos tinham a segurança da via ferrata.

Cris e Beto iam na frente conversando tranqüilamente enquanto andavam. Não sei como, porque eu era só atenção na trilha. Não conseguiria manter uma conversa. Nosso quarteto adiantou o lado em relação aos dois casais, porque eles estavam com um ritmo mais lento. A polonesa tinha o joelho inchado e doía. Mas vinha corajosa e determinada. Nos quatro iríamos mais longe. Nosso plano era chegar ao refúgio Galassi, enquanto eles ficariam no Refúgio San Marco, uma hora e meia antes. Assim tínhamos que adiantar.

Percorríamos a encosta oeste do Tre Sorelle, ao fundo o belo Valle di San Vito. Ao longe, para onde seguíamos, um pilar rochoso magnífico, a Torre dei Sabbioni, com 2.524 metros. Um dos trechos mais bonitos da jornada. O vale não tinha presença humana exceto a nossa. Avistamos cabras selvagens.

Valle de San Vito lá embaixo. Ao fundo, a Torre dei Sabbioni.

Após passarmos pela forcella Grande, um grande descenso e chegamos no refúgio San Marco por volta de seis horas da tarde, depois de quase 10 horas na trilha. Não era nosso destino planejado para o dia. Teríamos que andar mais uma hora e meia para o refúgio Galassi. Desistimos de prosseguir. Eu e Beto estávamos exaustos. Cris e Fabio conseguiriam continuar, mas abdicaram em função do nosso cansaço. E este antigo refúgio era uma coisa bonita de se ver, no meio de um bosque e de um jardim gramado. Ao entrar eu presenciei uma Mamma gritando e perseguindo uma criança na cozinha, com uma colher de pau na mão. Ali tive a certeza de que estava na Itália. Me emocionei, pois vi a coisa mais típica italiana de toda a viagem!

O pessoal do refúgio foi muito simpático. E uma grande turma de eslovenos estava há três dias hospedado no local. Após a janta cantaram músicas numa sonora língua eslava, incompreensível porém bonita, ao som do violão.

25 de junho

Nosso último dia. O objetivo era chegar a Pieve de Cadore, ao final da tarde, onde deixamos o carro.

De noite nevou acima dos 2.300 metros. Amanheceu com um véu esbranquiçado cobrindo a parte superior do Antelao, a segunda maior montanha das Dolomiti, com 3.264 m., a Sudeste. A responsável pelo refúgio nos disse que o inverno nas Dolomiti vai até junho!

Antelao, uma das maiores montanhas das Dolomiti (3.263 m)

Após o café partimos pegando a encosta rumo Sudeste. Os outros dois casais não partiram conosco (acho que desejaram tirar o dia para descanso). Abaixo era visível uma estação de esqui com seu teleférico.

Saindo do San Marco. Ao fundo, aparecendo em meio a nuvens, o Pelmo.

Fomos para o passo dei Camosci e, uma hora e meia após a partida, chegamos no refúgio Galassi. Paramos para um lanche e perguntamos pela condição da trilha pois passaríamos abaixo do glaciar do Antelao. Havia neve e gelo ainda (nevou bem no inverno).

Caminho pela encosta entre o San Marco e o passo dei Camosci.

Partimos e, após uma hora, avistamos o glaciar e pisamos na neve. Após Fábio ter cruzado um trecho de gelo e neve endurecida, assegurado por Cris, ele prosseguiu por terreno rochoso e descobriu adiante várias outras línguas de neve e gelo que desciam do glaciar e que teríamos de cruzar. Era um caminho arriscado. Aquelas línguas de neve estavam sobre gelo vivo inclinado, que podia fraturar e descer com tudo vale abaixo. E, relembrando, não tínhamos crampons e piolet. Após alguma confabulação, decidimos dar meia volta. Não sei o que falou mais alto, o risco ou o cansaço ou ambos, após 6 dias na montanha. Mas não queríamos nos expor desnecessariamente só para dizer que fizemos a Alta Via 4 completa. Não deixamos de ficar aborrecidos. Depois do passo de montanha e de uma ferrata ao lado do glaciar do Antelao não teríamos mais nenhuma dificuldade, estimando cerca de 4 a 6 horas até Pieve de Cadore, onde termina oficialmente a Alta Via 4. Algo como fazer o Caminho de Santiago e desistir a 10 km de Santiago de Compostela.

Paciência. Realmente nevou muito este ano. Nesta data, quase final de junho, não deveria ter ainda tanta neve e gelo. Mas a montanha continuará lá.

Retornamos ao Galassi de onde seguimos imediatamente para o passo Camosci e baixamos para o rifugio Scoter, ponto mais alto do teleférico dos esquiadores. Para nossa sorte, e azar da nossa fome, o encontramos aberto. Comemoramos ali o final da nossa jornada com uma bela vista para o valle d'Ampezo, bebendo e comendo. Fico deliciado com os pratos de montanha: são simples, substanciosos e generosos.

Descemos alegres pelas pistas de esqui, agora cobertas de gramado. Beto ainda conjecturou conosco o quão perigoso deveria ser um esquiador sair numa curva e bater num pinheiro, no bosque ao lado da pista. Outra vez a imaginação dramática do nosso amigo!

Em San Vito de Cadore pegamos um ônibus que seguiu até Pieve de Cadore. O dia ensolarado deixava a paisagem esplendorosa, meu humor estava bem o inverso em relação ao dia de nossa chegada. Talvez o fato de ter passado seis dias nestas montanhas lindas é que tenham me deixado relaxado e feliz.

Percorremos 66 km, com 4.110 m. de subida, 4.250 m de descida, altitude mínima 1.085 m. e máxima, 2.422 m. (dados do GPS do Beto).

Este relato é dedicado a Fábio Dal Gallo, Cristina Macedo e aos pais de Fabio - Mario e Fiorella (que nos receberam com uma hospitalidade ímpar), nossos maravilhosos anfitriões na Itália!

Fabio, Cris e a laguna Sorapis na foto.

RECOMENDAÇÕES

Comprem os mapas da Tabacco, do trecho que pretendem percorrer. Os melhores são na escala 1:25.000. Porém terão de levar 3 mapas para o percurso completo da Alta Via 4. Há um na escala 1:50.000 não tão detalhado. Melhor ainda é baixar o App da Tabacco (gratuito) e, em seguida, baixar o mapa topográfico que necessita (pago). A vantagem é que assinala onde vc está no mapa (sem necessidade de sinal de celular).

Reservar os refúgios. A Alta Via 4 é muito concorrida. O casal jovem que trilhou conosco conseguiu lugar sem reserva porque estávamos bem no início da temporada.

Não é permitido acampar. A multa é pesadíssima para quem for pego acampando: 500 Euros.

Sugiro se associar ao Club Alpino Italiano. Além dos descontos nos refúgios, o resgate em caso de acidente é gratuito.

O período no qual fomos é excelente. Só havia mais dois casais fazendo a Alta Via 4 nas datas que estivemos lá. Porém é arriscado ainda topar com neve, como de fato encontramos (isto depende de quanto nevou no inverno anterior).

O percurso em seis dias contínuos é exaustivo. Possivelmente é melhor tirar um dia de descanso a cada 3 ou 4 dias.

Existe um total de oito Altas Vias. Uma delas é o seu número!

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 07/26/2018 09:37

Performed from 06/20/2018 to 06/25/2018

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Eduardo Oliveira Borges D
Eduardo Oliveira Borges D 09/12/2018 12:24

Parabéns Peter pelo belíssimo relato!!!

Sérgio Melo
Sérgio Melo 09/12/2018 12:29

Excelente relato Peter, Obrigado por compartilhar essas aventuras fantásticas e por está aprendendo muito com vc. Forte Abraço.

Daniel Carnielli
Daniel Carnielli 09/12/2018 19:38

Fantástico Peter! Me deixou babando! Estou aqui do lado, mas não estou disponível para ficar tantos dias fora. Qual é o site ideal para eu ver as demais opções de trilhas, vc sabe? Há alguma que dê para fazer em 1 ou 2 dias?

Peter Tofte
Peter Tofte 09/14/2018 07:35

Obrigado Eduardo, Sergio e Daniel! Se gostaram peço o Rox de vcs pois o relato está concorrendo no Concurso de relatos. Daniel: não achei sites bons ou então estavam em italiano (que não domino). Acho melhor comprar um mapa ou baixar o app da Tabbaco. Lá podemos ver a grande rede de trilhas que existe na Dolomiti e dá para estimar quais são as que duram 1 ou 2 dias. Normalmente um refúgio está a um dia de distância ou menos de outro refúgio. Aí fica fácil escolher.

Alberto
Alberto 01/07/2019 21:55

Relendo seu relato, Peter, para refrescar a memoria. Nem acredito que estarei la de novo no final do mes. Sentiremos sua falta.

Peter Tofte
Peter Tofte 01/08/2019 08:23

E no inverno! Muito legal ver o contraste entre verão e inverno. Poste um relato aqui! Saudades de vocês.

Eduardo Oliveira Borges D
Eduardo Oliveira Borges D 04/22/2019 12:30

Show!!! Fantástica aventura e belíssimo relato!!!

Natália Gomes Knob
Natália Gomes Knob 08/13/2020 21:11

Parabéns Peter. Baita relato. Já fiz metade da Alta via 2 e esse ano, após o Covid fiz a Alta via 1. Levamos todos os equipos de ferrata mas não foram muitas que conseguimos incluir sem sair da trilha original. Conhecendo Tre Cime di Lavaredo me deu muita vontade de fazer a 4. Se algum dia tiver a oportunidade de fazer a 2, recomendo. Abração e boas aventuras. Mais uma vez, obrigada pelo relato!

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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