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As paredes de Itapoã

As paredes de Itapoã

Mergulho profundo na beirada da plataforma continental, - 170 metros, com uma surpresa durante a deco. Com László Mocsári.

Diving

A condição do mar estava boa. Ondas de apenas 1 a 1,2 metros. Da última vez que tentamos, cerca de uma semana atrás, desistimos, após pegarmos um mar bravio de frente. Botei todo o café da manhã para fora na ocasião e tivemos que voltar para dentro da Baía de Todos os Santos, para um mergulho simples no quebra mar norte do Porto de Salvador. Mergulhos extremos exigem mar de almirante (ou quase).

Mas agora com condições favoráveis rumavamos para as paredes de Itapoã, para nova tentativa, na beirada da plataforma continental, um mergulho profundo.

No local, o László, no comando da lancha Blue, deu várias voltas para encontrar o melhor ponto, visualizando através da sonda o fundo marinho. Eu e Jorginho (mestre da lancha) ficamos na proa, prontos para jogar a âncora ao sinal do László. Um erro no lançamento do ferro implicava ter que iça-la (muito trabalhoso) e recomeçar tudo de novo.

Conseguimos na primeira tentativa.

Vista para terra, no ponto que ancoramos. As pequenas faixas brancas na linha do horizonte são as dunas de Itapoã.

Cumprida a tarefa, nos equipamos. Uma correnteza moderada dificultou clipar os cilindros de bail out dentro d’água. László encontrou-se comigo a 10 metros e fizemos o check de bolhas (bubble check). A 30 metros não havia mais correnteza. Descemos rumo a escuridão. Uma camada de plâncton filtrava a luz do sol.

Aos 90 metros avistamos o fundo aos 110 metros, a beirada da plataforma. Notamos que o cabo da âncora não caiu na beira mas continuava descendo para o abismo. Neste ponto a plataforma caia gradualmente, não na vertical, mas algo como 60 a 70 ⁰ de inclinação. Seguimos o cabo até chegarmos a âncora. Profundidade de 170 metros! Isto significa uma pressão de 18 atmosferas (18 vezes a pressão da superfície). Um pneu de carro, para efeito de comparação, tem 2 atmosferas de pressão.

A única luz era da minha lanterna e dos strobes da filmadora de László.

Começamos a subir a ladeira. Cada minuto nesta profundidade representava algo como 15 minutos de descompressão - deco (eliminação obrigatória do nitrogênio e do hélio inertes do organismo).

Subi mais rápido que László pensando na penalidade de tempo da deco. Ele ficou um pouco para trás fazendo algumas tomadas com a filmadora, com a tranquilidade de quem está passeando num parque! Um mergulho extremo destes é algo quase rotineiro para ele.

Eu nadava em direção a bonita luz azul acima, que delineava o contorno da beirada do abismo. Era o caminho para a superfície, para nossa segurança, nossa sobrevivência.

Meus dois computadores mostravam pouco mais de duas horas de descompressão, começando as paradas já aos 51 metros de profundidade.

László na deco a 6 metros. O fundo da lancha é visto atrás dele.

Na parada mais demorada, aos 6 metros, uma visão surpreendente. Uma raia jamanta ou diabo (Mobula birostris) nadando graciosamente em nossa direção. Apenas se desviou a poucos metros de nos, passando ao nosso lado. Deu para observar duas rêmoras coladas perto dos “chifres” dela.

Considero a raia o ser mais gracioso do oceano. Ela nada como se fosse uma ave, batendo as asas. Se fosse fazer uma tatuagem no meu corpo seria uma ao estilo polinésio de uma raia manta.

Abaixo da jamanta nadava um bijupirá. O peixe sabia que aquela raia estava grávida e esperava ela parir para devorar os filhotes.

A raia curiosa passou três vezes. A cada vez eu gritava (o rebreather permite alguma vocalização) para que László a filmasse. Numa ocasião a raia passou embaixo do László e ele não viu. Me disse depois que sua máscara de mergulho estava muito embaçada dificultando a visão.

Primeira vez que vejo um ser magnifico destes em águas brasileiras.

Voltamos felizes para a lancha Blue. Notamos que a correnteza estava bem mais forte na superfície do que quando entramos na água, dificultando desclipar os cilindros e entregar para Jorginho, na plataforma de popa da lancha. A plataforma subia e descia no ritmo das ondas, dando pancadas fortes na água. Aventura do começo ao fim!

Jorginho nos contou que uma embarcação de pesca de um médico amigo do Dr. László reconheceu a lancha Blue e perguntou por ele. O mestre respondeu que estávamos mergulhando. O cara olhou a profundidade na ecosonda e gritou “Mas este László é louco!”.

Marcel, tricampeão brasileiro de caça submarina estava levando clientes para pesca oceânica na sua lancha e também nos abordou, já estávamos no barco. Perguntou a que profundidade fomos. Ao ouvir a resposta deu uma risada e balançou a cabeça.

Depois enfrentamos a tarefa de içar a fateixa que estava a 170 metros de profundidade. Ficou presa, obrigando László a fazer manobras com a lancha para arrancá-la. Nosso mestre fez tanto esforço e se cansou tanto que disse que a noite ia dormir com a cara virada para a parede kkkkkk .

Devido a condição privilegiada de Salvador, a capital litorânea mais próxima da beirada da plataforma continental, eu e László conseguimos fazer mergulhos profundos com uma boa frequência.

Estes mergulhos extremos permitem vislumbrar um mundo que pouquíssima gente viu. Mas representam um grande esforço de preparação e planejamento.

Na volta, atrás da máscara um sorriso.

Relato dedicado ao László Mocsári, grande mestre das profundezas!

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 12/14/2020 21:58

Performed on 12/12/2020

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Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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