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AS PONTES PARA O SHANGRI-LA. El Bolsón, Patagônia Argentina

AS PONTES PARA O SHANGRI-LA. El Bolsón, Patagônia Argentina

Trekking em 2012 por uma região maravilhosa dos andes patagônicos argentinos.

Mountaineering Trekking

"Shangri-la, da criação literária de 1925 do inglês James Hilton, Lost Horizon (Horizonte Perdido), é descrito como um lugar paradisíaco situado nas montanhas do Himalaia, sede de panoramas maravilhosos e onde o tempo parece deter-se em ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre pessoas das mais diversas procedências. Shangri-la será sentido pelos visitantes ou como a promessa de um Shangri-la, mundo novo possível, no qual alguns escolhem morar, ou como um lugar assustador e opressivo, do qual outros resolvem fugir. O romance inspira duas versões cinematográficas nas décadas seguintes.

No mundo ocidental, Shangri-la é entendido como um paraíso terrestre oculto".

Fonte: Wikipédia.

Este é outro relato que foi originalmente publicado no Mochileiros. Trata-se de uma trip que fiz em 2012, onde fiquei 3-4 semanas na Patagônia Argentina, a maior parte do tempo nas trilhas e acampando. Republico aqui para divulgar esta região de extraordinária beleza.

RELATO

Fernando e Luciano, argentinos que conheci em Esquel (publico em breve o relato), me disseram que El Bolsón era lindo, quando comentei que era minha próxima parada na viagem. De fato fiquei surpreendido com a beleza do lugar. Uma série de refúgios nas montanhas, vários deles conectados por trilhas de modo que não seria necessário baixar para o vale, onde estava a cidade, para ir para outro refúgio. Montanhas, vales e rios de água cristalina belíssimos.

01/03/2012

Levantei cedo no camping em Esquel e depois do café fiz minha mochila. Dez a quinze minutos andando e já estava na estação de ônibus onde havia um busão da Via Bariloche já parado. Consegui pegá-lo. AR$ 60 (R$ 24) , um pouco caro para 2 horas de viagem, mas o conforto, o DVD e o café servido a bordo compensam.

Notei outra vez o resultado de um incêndio nas encostas, num trecho da rodovia. Houve um incêndio recente, neste verão ainda, que causou estragos. Sorte que a chuva chegou antes que atingisse as principais áreas de preservação.

Em lago Puelo ficamos parados meia hora porque o ônibus, numa ré desajeitada, atingiu um carro e teve que aguardar a lavratura da ocorrência. Mas assistindo filme o tempo passa rápido.

Cheguei por volta de 12 horas em El Bolsón. Cidade que fica já na província de Rio Negro, a poucos metros da divisa com a província de Chubut. Justamente o paralelo 42° Sul divide as províncias e passa quase dentro da cidade. Portanto ainda estava dentro dos 40 rugidores (roaring forties). El Bolsón é conhecida por seu clima mais cálido, provavelmente porque fica numa baixada (442 m), em relação a Esquel (790 m.) e Bariloche (770 m.). O lúpulo plantado no vale é famoso por sua qualidade, sendo que a cidade tem várias cervejas artesanais. Cervejas excelentes, onde notamos o gosto pronunciado do lúpulo (na cerveja comercial brasileira quase não se sente o gosto do lúpulo). Tem uma feira artesanal famosa.

Fui logo para o Centro de Informações Turísticas na praça principal da cidade. Me chamou a atenção que estava cheia de turistas mochileiros. Tinha 4 ou 5 atendentes e diante de cada um uma fila de espera.

O atendente disse que um brasileiro gostou tanto do lugar que ano passado passou o inverno inteiro como refugieiro num dos vários refúgios de montanha da região.

Ele foi muito eficiente. Me deu um mapinha da região e após dizer o que desejava, sugeriu um roteiro, informou o preço dos refúgios e deu a previsão de tempo (sempre peça aqui na Patagônia!). Consegui ainda comprar o mapa topográfico da travessia Colonia Suiza – Pampa Linda, que faria em Bariloche (relato já publicado aqui no Aventure Box). Algo também muito importante é o horário dos ônibus que voltam para El Bolsón, para não ter que paletar muito na volta.

Saí para fazer o supermercado, para ressuprimento, no La Anonima, na entrada da cidade, cuja propaganda é “Diversidad, calidad y frescura”. Ressalto que só estava interessado nos dois primeiros.

Em seguida, já urrando de fome, fui atrás de um cordero patagônico, desejo reprimido desde Esquel. Como estava com poucos pesos e teria que pagar para acampar nos refúgios, queria poupar os pesos e pagar com o cartão de crédito, mas cadê que aceitavam? Isto é uma dificuldade no Sul da Argentina. Até que me decidi por um restaurante que aceitava dólares com uma boa taxa de câmbio. Matei minha fome de lobo com cordeiro...

Depois peguei a pesada mochila e fui para o centro e dali dobrei para a esquerda na calle Azcuénaga rumo a ponte sobre o rio Quemquemtreu (nomes Mapuches engraçados), aonde sairia da cidade. Pega-se uma estrada de terra para a esquerda e após poucos minutos se inicia a subida do Lomo do Meio, um morro baixo cumprido, bem no meio do vale, como se cortasse ele na metade em sentido longitudinal. Na subida uma bela vista do Cerro Piltriquitron (2.260 m), do outro lado do vale, cartão postal de El Bolsón. É um cerro cumprido imponente, cujo pico é alcançado por trilha. Tem agulhas interessantes ao longo da crista no seu lado Sul. Dava para notar um refúgio lá em cima (1.400 m), que quase pode ser alcançado de carro.

Placas mostravam o caminho para o camping Los Alerces, meu destino para pernoite. Ficaria muito puxado subir mil metros para o refúgio Hielo Blanco naquele mesmo dia, embora fosse possível. No caminho uma criança de 3 -4 anos, andando no meio da estrada, sozinha. Apressei o passo pois podia estar perdida e um carro podia não visualizá-la. Quando cheguei perto vi que os pais na verdade estavam lá, escondidos entre os arbustos a beira da estrada, catando amoras. Relaxei, conversei rapidamente com o pai e ao saber que eram amoras (dezenas de pés ao longo da estrada) comecei a comer. Uma hora e meia depois que saí de El Bolsón cheguei ao camping los Alerces com as mãos roxas de tanto colher e comer amoras. Teve uma hora que decidi arrancar a amora direto do pé com os dentes para não sujar mais as mãos já que elas facilmente esmagavam entre os dedos na hora de pegá-las. E depois poderia sujar as roupas tocando-as com as mãos.

O Camping Los Alerces fica a margem do belo Rio Azul. O camping sugerido pelo Lonely Planet, Trekking em the Patagonian Andes, o Hue Nain, estaria fechado segundo o Centro de Informações Turísticas (daí ser importante checar as info antes de partir). Tem uma proveeduria onde podemos comprar o básico, inclusive beber e comer.

Pessoal simpático, camping legal, com um gramado bom a beira do rio, churrasqueiras e postes de luz que podíamos acender na hora que desejássemos. Com banho quente ficava, pelo que recordo, AR$ 35,00.

Ao ver que tinha interesse em conhecer um Alerce, Juan, funcionário do camping deu um passeio mostrando as diversas árvores e mostrou 2 alerces pequenos. Eu não estava sabendo diferenciá-lo de um cipreste da cordilheira. Depois que aprendemos fica fácil. Mostrou Maitenes, Pitares, Espiño Negro, Rosa Mosqueta. Contou que, como no ano passado ocorreu a morte maciça de caña colihue, e proliferação de ratos (são interligados), houve 3 casos de morte por hantavirus na região. Parece que apenas um roedor é responsável pela propagação do vírus, o rato de cola grande (a cauda e bem maior que o corpo). A maioria dos refúgios tem um gato ou gatos para manter os ratos longe. Muito cuidado ao se abrigar em construções abandonadas. Prefiro ficar numa tenda por mais frio e chuvoso que esteja do que ficar numa casa abandonada!

02/03/2012

Dia seguinte parti cerca de 09 horas para Hielo Blanco. Tive de andar mais uma hora e meia por uma trilha as margens do Rio Azul, subindo-o. A caminhada é muito bonita, cenário maravilhoso. Passamos pelo fundo de algumas fazendas. Normalmente bem sinalizado o caminho. Cheguei no camping Hue Nain, que estava de fato fechado. Pena, pois é um camping mais bonito que aquele onde fiquei, num local idílico. A proveeduria fica mais no alto, com um deck onde se pudia tomar uma cerveja com vista para o rio.

Logo em seguida a ponte pênsil sobre o Rio Azul, a primeira das pontes para o Shangri-la. Não inspirava muita confiança, mas o negócio é seguir devagar, sem movimentos bruscos. Umas tábuas quebradas indicavam que você não deveria confiar todo o seu peso (ambos os pés) numa única tábua.

Do outro lado descemos um pouco pela margem do rio e logo começa a subida que não dá descanso nos mil metros de desnível (saímos de 400 m para 1.400 m no refúgio). No início acompanhamos o zig-zag de uma estrada até um pasto e um pequeno curral. Muita rosa mosqueta no caminho, com os frutos quase maduros.

O tempo estava bonito e agradável. Ganhava altura num ritmo bom, cerca de 400 metros por hora, considerando a mochila pesada. Passei pelo Mallin de los Palos (brejo).

Subindo a montanha. Após passar o Mallín de los Palos, vista para trás, para Oeste. A crista serrilhada do Cerro Piltriquitron está ao fundo a direita.

Pouco depois atingi o mirador de Rachel. Bom lugar para fotos e lanchar. Lá havia um casal de trekkers almoçando. Cumprimentei-os e fui para um ponto mais na beirada, para sacar fotos.

Vista do mirador de Rachel.

Depois de meia-hora parti. O casal pouco depois me alcançou. Acabamos chegando juntos ao refúgio Hielo Blanco. Em El Bolsón não se permite camping selvagem. Ou você acampa nos refúgios ou se hospeda no refúgio. O camping fica entre 15 a 25 pesos. O banho quente varia de 7 a 20 pesos. Depende do refúgio.

Este era legal. Tinha uma casa separada para os campistas onde podíamos cozinhar, com uma grande mesa e uma lareira que deveríamos acender com a lenha seca disponível.

Para espanto dos refugieros e de Iain (escocês) e Hélène (francesa), o casal que encontrei no mirador de Rachel, entrei no arroyo Teno de calção e tomei um rápido banho, ao invés de optar pela ducha quente. Se vocês recordam, tinha poucos pesos argentinos. Assim preferi economizar no banho para consumir na cerveja artesanal do refúgio (AR$ 30). A água tava gelada pois descia de um glaciar. O que não se faz por uma cerveja artesanal...

O refúgio tinha do lado de fora uma casinha de brinquedo feito de madeira, para crianças. O permissionário do refúgio tinha filhos de 3 e 7 anos. O de 7 já subia a pé até o refúgio. O de 3 era levado numa mochila baby-carrier. Mas as crianças não estavam lá.

Acabei ficando amigo do casal e conversamos bastante enquanto fazíamos fogo e preparávamos a janta. Já estavam percorrendo a Patagônia a algum tempo e demos risadas quando comentamos certos trechos difíceis de trilhas em Ushuaia que ambos já havíamos feito (eles mais recentemente). E trocamos ideias sobre trekkings que um ou outro ainda não fez. Sugeri a eles a Travessia do Villarica. Eles, por sua vez, falaram muito bem do Cerro Castillo (Chile), trilha que vim a fazer em 2015.

Estávamos bem acomodados quando houve uma invasão israelita. Um turma de 10 ou 12 jovens chegou e iria dormir no 2º piso de onde estávamos. Se sentaram e ocuparam todo o redor da lareira que acabáramos de acender.

Decidimos ir para o refúgio para deixá-los mais a vontade e ficamos conversando com os refugieros, muito simpáticos. Luz da lareira e de velas, música de alta qualidade (Astor Piazzola, jazz,...) com cerveja artesanal. Dia seguinte iria para Cajón del Azul. Antes porém subiria para o glaciar Barda Negra, side trip de hora e meia do refúgio, com o Iain e Hélène.

03/03/2012

Deixamos as mochilas já prontas no refúgio e partimos os três para o Glaciar. Sem dificuldades, apenas um pouco cansativo, com trechos de terra e pedras soltas. Para subir é chato, para descer, divertido. Alcançamos a morena frontal após uma hora e pouco e avistamos a laguna glaciar do outro lado, embaixo, e baixamos mais 10 minutos para atingir sua margem, onde tiramos mais fotos. O vento sempre presente, daí o nome ventisqueiro para estes glaciares.

Vista desde a morena do glaciar Barda Negra para o vale do El Bolsón.

Iain e Hélène a beira do glaciar.

Euzinho.

Ao regressar comemos uns sanduíches e saímos quase as 12 horas do refúgio, para Cajón del Azul. Baixamos para a margem do arroyo Teno, o cruzamos num tronco e, logo, uma subida bem íngreme. Cerca de 45' depois estávamos no refúgio Natación, a 1.450 m. Casinha bem simples. O grupo de israelenses, que havia partido na frente, estava lá, comendo e cantando ao redor da mesa, muito unido, numa cerimônia religiosa.

O refúgio fica ao lado do lago Natación. Soube pelo refugiero que tem este nome porque no verão o pessoal consegue nadar nele!

Visitamos o anfiteatro, a 5 minutos de caminhada, donde se sobe para o pico da montanha Hielo Azul. Iain e Hélène planejavam subir, mas o tempo, nublado e ventoso, alteraram o plano deles. Iriam comigo para Cajón del Azul.

Voltamos um pouco atrás, pois o desvio para Cajón del Azul é um pouco antes do refúgio. De lá seguimos por um platô. A nossa esquerda excelentes locais para acampar (infelizmente não permitido): gramados em meio a um bosque de lengas baixas.

A descida, suave até então, começa a ficar acentuada, até que chegamos na beirada do vale, onde ela fica íngreme, forçando bem os joelhos. Observei um teto de placas de zinco que brilhava refletindo o sol, lá embaixo no vale, direção Oeste. Seria o refúgio ou uma casa de fazenda? Na verdade era ambos, saberia depois.

A descida foi demorada, cerca de uma hora. Grande desnível. Lá embaixo chegamos numa estrada de terra e placas indicando a direção e seguimos vale acima. O caminho margeia a margem direita verdadeira do rio Azul. Num trecho subimos numa pedra com vista bonita para o rio Azul (na verdade o rio deveria ser chamado de Azul Turquesa). Podíamos ver o fundo a 3-4 metros de profundidade, a água cristalina permitia ver as trutas nadando! Elas nadando contra a corrente ficavam paradas, como se estivessem esperando algo. Um pescador de mosca saberia exatamente onde jogar a linha. Iain ficou olhando as trutas com cobiça, pois tinha uma vara desmontável na mochila mas não tinha o permiso de pesca.

Quando começamos a entrar no canion, escadas de madeira ajudavam a avançar em alguns trechos. E placas colocadas pelos refugieros diziam “Falta poco”, para estimular os caminhantes. Logo antes do refúgio cruzamos o rio num lugar espetacular. Uma curta ponte de madeira, de 3 metros de extensão, ligando as paredes rochosas, no ponto onde o canion é mais estreito. O rio passa afunilado 20 metros abaixo.

Tiramos fotos e mais fotos. Seguimos e chegamos numa porteira e depois um bonito pasto e árvores frutíferas. Uma ameixeira e uma cerejeira carregadas. Com ajuda do bastão de trekking derrubamos ameixas e cerejas e nos fartamos. Bom comer frutas frescas depois de dias só na base de alimentos desidratados e cozidos.

Seguimos para o refúgio. Na entrada um canteiro de lavandas. O simpático proprietário nos recebeu como manda a tradição: com chá ou mate, oferta da casa. Pedi um mate que sorvi com vontade através da bombilla até acabar a água da garrafa térmica (tô virando gaúcho!). Iain e Hélène me observavam com curiosidade.

O refúgio/camping é também uma fazenda de criação de ovelhas com horta. Muito caprichada.

Depois montamos as barracas num gramado, um dos campings mais bonitos onde já acampei. Um abrigo com teto de zinco. Era aquele teto que avistamos ao iniciar a descida. Tinha uma mesa grande e uma lareira (um tonel cortado e invertido). Cozinhamos ali. Buscamos musgo, gravetos e lenha na floresta para acender o fogo. Uma chuvinha volta e meia caia. Mas estávamos bem abrigados. Compramos cervejas artesanais e ficamos conversando e lendo ao lado da lareira.

Lugar lindo!

Aqui os refúgios preferem fazer a própria cerveja, pois trazer os vasilhames cheios da cidade, vale abaixo, é muito mais trabalhoso. Neste caso eles só precisam trazer extrato de malte e lúpulo. Água de excelente qualidade eles tem de sobra. As garrafas de vidro são reutilizáveis, após lavadas. Fiquei impressionado com a simplicidade do equipamento para fazer a cerveja. E que cerveja... A partir daí já chegávamos nos refúgios dizendo que éramos de uma comissão julgadora que deveria escolher a melhor cerveja dentre os refúgios de El Bolsón!

Eu estou lendo “Sete anos no Tibet” de Heinrich Harrer. Já havia visto o filme, mas o livro é muito bom ler quando você gosta do filme. O melhor lugar para lê-lo são as montanhas! E é uma história verdadeira. Infelizmente também verdadeiro o final do livro.

04/03/2012

No dia seguinte prosseguimos para o Refúgio Los Laguitos, mais para o fundo do vale, a Noroeste. Saímos tarde porque Iain e Hélène queriam descansar um pouco mais.

Cortei um pouco de lavanda para botar no meio dos sacos das roupas e das meias, para cheirar melhor. Sempre que podia lavava as meias, cuecas, calça e camisa. Nem que fosse apenas deixar algum tempo na água, sem sabão.

Partimos. Cerca de 45 minutos depois uma bifurcação para o refúgio El Retamal, que dizem ser também bonito. Tomamos o caminho da direita, rumo a Los Laguitos. Tínhamos a opção de ir por uma estrada ou por uma trilha paralela. Escolhíamos um ou outro, dependendo donde havia menos lama. As vezes ficava difícil de decidir – tava sobrando lama!

Em certo ponto o vale se divide em dois. Tomamos o vale da direita, por onde segue a trilha. Passamos por algumas porteiras. Embora seja área protegida, as terras são privadas. Havia algum gado, mas pouco.

Começou a chover mais grosso no final da tarde. Botei o abrigo de Goretex. Mas não coloquei a 2ª camada e no final da jornada já estava com frio pois a pele estava molhada e fria. Não sei se o molhado era suor ou água que penetrou no casaco. O correto teria sido vestir a camada quente (um agasalho de Polartec).

Chegamos debaixo de chuva pesada, após cerca de 6 a 7 horas caminhando. O refugiero deu-nos a boa-vinda do lado de fora apertando as mãos. Fiquei desanimado para armar a barraca na chuva, imaginando como seria fria a noite. Decidi pagar os AR$ 60 para dormir no refúgio. Tô ficando mole. Em outros tempos teria me recusado a ficar no refúgio, para criar endurance. Mas como é confortável dormir no quentinho de um colchão, mesmo que largado no chão (sem cama)!

Refúgio Los laguitos.

Vista para o lago.

Bebemos cerveja e cozinhamos. Conheci um casal simpático de montanhistas argentinos, o Diego e a Carina. No dia seguinte iriam para Encanto Blanco, no outro vale, ao Norte. Resolvi ir com eles pois ainda tinha tempo antes de ir para Bariloche.

05/03/2012

Partimos por volta de 08 horas. A caminhada seria longa. Baixamos juntos o vale eu, Diogo, Carina, Iain e Hélène. No caminho, o mesmo do dia anterior, mas em direção oposta, passamos ao lado de alerces milenários. Tirei fotos. Eles se distinguem dos demais pela grande altura e espessura de seu troco. A cortiça é macia, dá para furar com a ponta do bastão de trekking e a cor, muitas vezes, é avermelhada. Alguns necessitariam de 5 pessoas para abraçar o tronco. Sabe-se que são milenários, pois só crescem 1 milimetro por ano

Alerce milenar.

Descemos até que saímos numa área a céu aberto, sem árvores. Pouco depois a bifurcação na trilha que iria para Encanto Blanco. Paramos para almoçar uns sandubas. Ali me despedi de Iain e Hélene, grandes companheiros de trekking. Eles baixariam para pernoitar no refúgio El Retamal ou no Cajón Azul.

A subida prometia. Trilha bem mais estreita, escorregadia e íngreme. Era necessário as vezes o uso das mãos. Me antecipei e guardei os bastões presos à mochila. O Diogo tinha um ritmo interessante: era lento, mas ao mesmo tempo firme e eu não me cansava seguindo-o. Ele me perguntava se não queria ir na frente, mas sempre que o fazia, eu adiantava bem, porém, em determinado momento, estava esbaforido. Assim resolvi ir atrás deles, no ritmo deles. Incrível, mesmo com o abrigo de Goretex (usava devido a vegetação fechada muito molhada) eu não suei. Estava num ritmo que o tecido respirável dava conta do recado. O Goretex não aguenta uma grande taxa de transpiração.

No caminho uma pinguela com cabos para se segurar, num paredão. Nada do outro mundo. Uns 6 a 8 metros de travessia, e uma queda de 10 metros ou menos. O livro que li em Cajón del Azul alertava que esta trilha só deveria ser feita por baqueanos ou montanhistas experientes devido a esta passarela. Será que era esta ou mudaram o traçado da trilha? Achei fácil atravessá-la ou então estou perdendo o medo de altura.

Pinguela de troncos. Carina (montanhista valente) e Diogo na frente.

Chegamos ao topo para descansar e fazer um lanche. Subi num pequeno mirante e tirei fotos.

No passo da montanha. Vista para o vale do Cajón del Azul, de onde subimos.

Começamos a descida. Muita lama e cruze de pequenos riachos. Finalmente o vale lateral sai num vale maior, o Encanto Blanco. E tome descida, agora mais suave, por bosques de coihue e ñirres. Havia também o retamal, usado por muitos como cerca de casa, em Bariloche.

O vale do Encanto Blanco.

Depois de umas 6 horas caminhando, uma placa avisando que faltavam mais duas horas. Sentamos num tronco, desanimados, para lanchar. Comi batom, pirulito e jujubas que sempre carrego das festas de aniversário que o meu filho frequenta. Carina deu risada quando expliquei a origem daqueles doces de criança.

Finalmente chegamos na beira do rio Blanco. Na maioria do trajeto costeamos as encostas, provavelmente para evitar brejos. Com mais um pouco chegamos numa casa pequena de madeira. Lá estavam Julieta e Nacho, o casal de refugieiros e nos receberam com um bom mate.

Escolhi um lugar bem abrigado para a tenda, na beirada de um bosque, para ficar protegido dos ventos. O banho quente custava apenas 7 pesos. Fizemos a janta no refúgio. O pessoal provou e aprovou minha sopinha de missoshiro. Depois a massa. Eles, Carina e Diogo, fizeram um interessante arroz de paella, da Knor. Como jurado, claro que também tinha de experimentar a cerveja do último refúgio em El Bolsón, antes de partir para Bariloche.

Vista da minha tenda.

Ouvi e participei da conversa dos dois casais argentinos. Julieta e Nacho procuram viver uma vida alternativa, com os recursos do refúgio ou da venda de livros de poesia e diários de viagem em El Bolsón. Bem bicho grilo. Mas como o refúgio é pouco conhecido, eles as vezes passavam dificuldade$. Gostam de viajar. Passearam duas semanas pelo interior de Cuba, viajando de bicicleta. Os cubanos não acreditavam que duas pessoas pudessem viajar independentemente dos tours oficiais pelo interior da ilha de Fidel. E conhecem boa parte da América Latina espanhola. O dono das terras permitiu que explorassem o refúgio Encanto Blanco gratuitamente (não arrendou). Melhor que deixá-lo abandonado. Casal muito legal!

Julieta foi para fora tocar violão, cantando para uma lua cheia esplendorosa. Céu sem nuvens e o maior frio que senti em toda a viagem. Devia estar algo em torno de 0° C.

Me despedi de todos e fui para a barraca onde tive de botar toda a roupa que tinha. Mesmo assim senti um pouco da friaca.

06/03/2012

Dia seguinte, a despedida. Diogo e Carina ficariam mais um dia no Encanto Blanco. Fotos e troca de e-mails. Os refugieiros Nacho e Julieta foram os mais simpáticos de toda a jornada.

Desci correndo pois tinha acordado tarde e por rádio eles souberam que provavelmente não haveria o ônibus de 14:30, porque era um ônibus escolar e havia uma greve de professores. Teria que alcançar o ônibus de 12:50. Saí correndo as 10:50. Nacho me disse que em duas horas dava para baixar, se fosse correndo.

Apesar do cenário maravilhoso não pude ir num ritmo que permitisse contemplar a paisagem. Eu corria sempre que a trilha era boa. Só me dei ao luxo de parar para fotografar a ponte pênsil sobre o rio Blanco.

Cheguei na sede da fazenda da família Tijera, onde a estrada passa em frente e é ponto final do ônibus. Quando já estava perto da porteira ouvi o ronco do busão. No que ele chegou foi logo dando meia-volta. Só foi o tempo de embarcar e ele partiu. Se tivesse chegado um minuto depois já era! Possivelmente outro só no dia seguinte! Que sorte!

Mais adiante o ônibus parou em outro ponto, onde espera quem desce do refúgio Cajón del Azul, El Retamal e Los Laguitos (vale do Cajón del Azul). Iain e Hélène estavam lá e foi aquela alegria no reencontro. Eles acabaram ficando de novo no refúgio Cajón del Azul, preferindo-o, ao invés do El Retamal enquanto eu pernoitei no Encanto Blanco. Também alcançaram o ônibus por pouco. Um trekker que estava com eles, muito cansado, ficou para atrás porque precisava descansar um pouco e perdeu o busão.

Disse que ao chegar no refúgio Cajón del Azul ontem, novamente catou mais frutas com o bastão. O dono viu e ficou aborrecido!

Com 40' chegamos em El Bolsón onde me despedi dos amigos (ficariam num camping da cidade) e fui para a parada de ônibus (não tem rodoviária) para ir para Bariloche, última etapa da jornada.

El Bolsón foi uma agradável surpresa. Não esperava tanta beleza. A comparação com o Shangri-la é inevitável. Um paraíso no meio das montanhas, com muita gente boa e simples, sem aquelas ambições idiotas e desejos fúteis que observamos nas cidades grandes. Boa parte do pessoal que vive em el Bolsón procura uma vida alternativa e mais saudável.

OBSERVAÇÕES.

Alerto que os preços são de março de 2012.

Sempre ir primeiro no centro de informações turísticas na praça principal da cidade para atualização sobre refúgios, preços e ônibus.

Gosto do começo de março na Patagônia. Não está frio ainda e, as vezes, continua com tempo bom. E tem muito menos turistas e trekkers.

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 12/21/2018 10:44

Performed from 03/01/2012 to 03/06/2012

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Peter Tofte

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Salvador, Bahia

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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