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Caminhando entre as nuvens - Tronador e Paso de las Nubes

Caminhando entre as nuvens - Tronador e Paso de las Nubes

Trekking realizado em 2012 na bela região de Bariloche, finalizando 20 dias de trilhas na Patagônia argentina.

Trekking Mountaineering

Relato publicado originalmente no Mochileiros, em março de 2012. Trekking bonito. Poucas fotos neste relato pois havia perdido minha câmera poucos dias antes na travessia Colonia Suiza - Pampa Linda (conhecida também como travessia dos 5 lagos) ao deixa-la cair numa laguna. Desconsiderem os valores em pesos argentinos porque a inflação acumulada na Argentina desde então foi altíssima.

12/03/2012 Refúgio Otto Meilling

Depois de um dia mais descansado em Pampa Linda, após a travessia Colônia Suiza-Pampa Linda, parti rumo ao refúgio Otto Meilling nas encostas do Tronador, um side trip altamente recomendado. O nome do refúgio é uma homenagem a um dos pioneiros do andinismo na região, segundo homem a subir no Tronador (3.478 m) e um dos que tinham mais ascensões nesta montanha. A última ele fez com mais de 70 anos.

Logo ao sair dois argentinos chegaram de carro e me perguntaram pelo início da trilha. Após dar a informação segui. Depois de cerca de 40 minutos percorrendo uma estrada de terra cheguei as margens do rio Castaño Overo, onde uma ponte de aço conduzia ao outro lado do rio e lá iniciava a subida por uma estrada em zig-zag. Aproveitei para guardar algo na mochila e os dois argentinos me alcançaram e seguiram na frente. A estrada obviamente era para veículos com tração 4X4. Algumas trilhas fazendo o atalho entre as curvas da estrada estavam fechadas pelos guardaparques para regeneração da trilha (elas provocam erosão). Algumas já tinham inclusive troncos caídos atravessados na trilha, o que impedia o uso do atalho.

Confesso que para ganhar tempo não respeitei alguns destes avisos de trilha fechada, pois o longo zig-zag da estrada fazia perder algum tempo. Nisto acabei ultrapassando os argentinos que me viram e gritaram “Así no vale!” Os dois eram muito brincalhões e simpáticos. Acabei me juntando a eles e subimos conversando. Gustavo (de Bariloche) estava guiando Gerardo (de BsAs), amigo e colega de trabalho, para visitar o refúgio. Ambos eram fotógrafos amadores e queriam tirar boas fotos lá em cima.

Caminho bonito entre altos coihues. Com pouco tempo de subida via-se uma bifurcação a direita com a placa “Paso de Las Nubes”. Teria de descer para este ponto no dia seguinte. Mais adiante uma bifurcação a esquerda com a indicação “Glaciar Castaño Overo”. A trilha subia a encosta do Tronador pelo vale do rio. Provavelmente este vale foi escavado a 10 mil anos atrás na última era do gelo pelo agora reduzido glaciar Castaño Overo.

Depois de cerca de 2 horas chegamos num ponto que marcava o fim das altas lengas e começava a lenga arbustiva. Iríamos agora para um trecho mais exposto aos ventos na crista de um contraforte do Tronador, que ficava entre os vales dos rios Castaño Overo e do Alerce. Fizemos uma pausa para um sanduíche e para colocar os abrigos, pois sem as árvores a chuva fina e o vento fariam um estrago se tivéssemos desabrigados. O dia continuava como ontem, nublado e chuvoso (na maior parte do tempo caia uma llovizna).

Seguimos. Havia mais adiante um platô descampado onde os burros de carga chegavam com os suprimentos do refúgio e ali descarregavam. Dali para cima os refugieiros tinham que levar nas mochilas. Havia locais com excelente vista para o vale e o glaciar Castaño Overo.

Mais uma hora estávamos acima da linha das árvores, não tinha sequer arbustos, num mundo de rocha negra. O solo era diferente de tudo que vira antes. Claramente lava petrificada. Totens e marcas de pintura branca nas pedras indicavam o caminho. Mas em dado momento as nuvens baixaram (ou nós subimos até elas) e a visibilidade caiu para apenas 20 metros adiante. Fiquei com receio de ficar perdido. O Gustavo me tranquilizou. Já estivera ali antes e disse-me que seria fácil chegar no refúgio. De fato, volta e meia, surgia um clarão nas nuvens e dava para ver o próximo marco. Mesmo que novamente baixasse a cerração já teríamos a direção geral a seguir. Gerardo fechava a fila pois estava sentindo a perna. Eles estavam com a mochila bem menor e mais leve pois dormiriam no refúgio e não levavam tenda e comida para mais 3 dias como era o meu caso.

Com aproximadamente uma hora e meia neste terreno lunar, tenebroso e ao mesmo tempo mágico e fascinante surgiu de repente uma construção a nossa frente. Parecia uma igreja com um campanário bem no centro do telhado. Num acometimento religioso quase me ajoelhava e rezava dando graças por ter chegado, pondo fim aquela subida cansativa, fria e molhada.

Descobrimos que esta primeira construção não era um refúgio mas apenas um depósito deste. Vislumbramos outra construção fantasmagórica mais acima. Seguimos para lá e vimos que se tratava também de um depósito. Avistamos mais acima outra construção. Desta vez o refúgio. A construção mais velha de todas. As outras pareciam bem recentes. Realmente da crista que descia do cerro Punta Negra, dois dias antes, tinha avistado com o monóculo o que pareciam ser 3 construções no Tronador . Então era isto que estava ali.

Entramos no refúgio. No salão (uma cozinha americana e mesas de restaurante), a madeira ardia dentro de um calefador, onde fomos logo nos encostando junto ao fogo. Tivemos de deixar as mochilas no hall de entrada. Cheio de regras este refúgio mas, a bem da verdade, era o mais limpo e organizado de toda a Patagônia, que até agora tinha visitado nesta estação (pouco mais de 10). Havia até uma adega onde descobri, lendo a carta de vinhos, que tinha vinho de mais de AR$$$$ 500. Negócio chique. Tanto que o refúgio custava AR$ 75, mais caro que os demais onde estive (cerca de AR$ 60). A obrigação de só subir sem botas e sem mochila para o sótão (quarto coletivo) também davam um aspecto limpíssimo ao dormitório, também o mais limpo até agora.

Fiquei na dúvida se dormia dentro ou montava minha barraca lá fora, economizando os 75 pesos. O problema é que não tinha muitos pesos e não queria trocar dólares num câmbio ruim. E tinha que reservar AR$ 250 para pagar a travessia de barco da laguna Frías – lago Nahuel Huapi, após cruzar o Paso de las Nubes (caso contrário teria de voltar tudo a pé para Pampa Linda).

Mas o vento, o frio e a chuva me fizeram optar por dormir no refúgio. Contei o dinheiro e descobri que depois de pago o refúgio me sobraria ainda AR$ 257! Em Bariloche trocaria mais dinheiro num banco.

Deitei numa espécie de divã de psicanalista ao lado do calefator, com as meias dos pés encostando na parede dele. Lia com prazer o “Sete anos no Tibete”, de Heinrich Harrer, imaginando estar no Himalaia.

Minhas coisas molhadas estavam penduradas num varal acima do calefador (todo refúgio que se preze tem isto). Pedi para pendurar minha tenda túnel que ainda estava úmida, para ela não passar outra noite molhada na mochila. O refugieiro logo se interessou pela minha Ligthwave T0 Trek, dizendo que era isto que procurava, algo que fosse 4 estações e leve. Perguntou se queria vender. Observei que é prática entre muitos refugieiros comprar equipamentos e vestimentas outdoor usados dos estrangeiros que ficam hospedados. Assim teriam boas coisas a bom preço. Expliquei-lhe que ainda faria o Paso de las Nubes e que, portanto iria precisar ainda da barraca.

Me chamou a atenção que a lenha e o gás são transportados para o refúgio uma vez por ano, de helicóptero. A eletricidade era de um gerador eólico. O rádio na verdade era um telefone celular com uma antena potente, fixa no refúgio. Assim podemos ligar para lá e reservar lugar.

Visitei o local de acampamento. Sólidas muretas de pedra em semicírculo ficavam a poucos metros do refúgio, na direção Oeste. Tinham que ser assim porque a força dos ventos no Tronador é famosa. Estávamos a quase 1.900 metros de altura. Uma placa de bronze numa rocha homenageava soldados do batalhão de Montanha do Exército Argentino, sediado em Bariloche, que morreram após atingir o cume do Tronador. A placa era de 2001.

Voltei para o quentinho do refúgio após curtir um pouco a neblina e o frio (assim é bão!).

Mais tarde saí novamente com Gustavo e Gerardo quando as nuvens deram um tempo. No glaciar Castaño Overo tiraram fotos, inclusive comigo, pois comentei que tinha deixado minha câmera cair na água. Foram muito legais e me enviaram depois as fotos por e-mail, que estão abaixo.

Fotos do Gustavo. Glaciar Castaño Overo

Quando voltamos para o refúgio, ele estava cheio. Um monte de mountain bikes largadas na frente. Uma equipe americana estava rodando um vídeo. Soubemos depois que o ministério do turismo tinha contratado esta equipe para fazerem um vídeo promocional do turismo na Argentina. Vieram pedalando. Apenas no último trecho (hora e meia) tiveram que carregar as bikes, no campo de lava muito acidentado. Uma galera barulhenta, tomando uma cerveja para comemorar a subida. Os guias argentinos do grupo disseram que eram uma equipe de elite dos Estados Unidos (de alta gama, como dizem na língua espanhola).

Havia também chegado uma equipe de alpinistas que iria subir o Tronador nos dois dias seguintes. Montaram a barraca (uma TNF Mountain 25 versão nova) num dos cercados de pedra. Já estava perto do fim da estação de escalada da montanha (até meados de março).

Fiz meu jantar do lado de fora (não pode ter fogareiro dentro, ao contrário de outros refúgios). O refugieiro fez um assado no forno com batatas que estava com um cheiro maravilhoso, de babar. Um ambiente muito agradável a luz de velas e música. Gustavo e Gerardo jantaram a comida do refúgio e ofereceram uma taça de vinho para mim, que estava contando os pesos.

Sono bom e agradabilíssimo, quente, sem necessidade de dormir encasacado.

13/03/2012 - Rumo a Paso de las Nubes

Dia seguinte acordei por volta de 07 horas. Parte da galera do mountain bike já estava de pé fazendo tomadas. Eles eram filmados enquanto andavam num trecho do campo de lava com a bike. Mas aí vemos como estes documentários de aventura são meio que armação. Não há uma continuidade. São pequenos trechos de cenas filmadas que depois são montados e editados, dando ideia de uma ação contínua e alucinante, o que não é verdade. Em todo caso é muito bom vir para um lugar como este, com tudo pago!

O dia nasceu lindo. Já do salão dava para ver pela janela a espetacular vista dos dois picos do Tronador, envoltos em neve.

Arrumei a mochila, paguei a conta e me despedi de Gustavo e Gerardo que iriam aproveitar o belo dia para mais fotos e depois retornariam para Pampa Linda. Tinha que descer logo e rápido pois teria uma jornada longa. Cerca de quatro horas descendo e mais 4 a 5 horas para o campamento Frías, do outro lado do Paso de las Nubes. A descida é muito agradável no meio de coihues gigantescos.

Cheguei na bifurcação para o Paso em 3h:40 minutos. Pouco antes uns turistas a cavalo passaram por mim subindo. Deveriam estar indo para o glaciar Castanõ Overo. Havia um guia a cavalo. Duas bonitas moças em elegantes trajes de equitação. O pai, num gordo e deselegante casaco de plumas, vinha mais atrás. Eu, na pobre infantaria, descia a pé. Alugam cavalos em Pampa Linda.

Entrei no vale do rio Alerce, que é muito bonito (aqui na Patagônia seria muito menos trabalhoso se eu fizesse um relato que só descrevesse o que é feio!). A trilha vai costeando o rio na sua margem verdadeira esquerda. O caminho é encantador. Mas as vezes lama surgia na trilha obrigando a alguns desvios.

Cheguei na origem do rio cerca de uma hora depois. O rio nasce no glaciar Alerce (que fica no lado oposto do Glaciar Castaño Overo, em relação ao refúgio Otto Meiling) e desce por um canion estreito. Uma cascata cai e é visível do local de acampamento. Mas o meu local de pernoite ainda estava longe. Tirei as botas e cruzei o rio porque a trilha seguia do outro lado. Bem mais fácil de atravessar neste ponto em relação ao mesmo rio mais abaixo, quando cheguei de Colonia Suiza. Lá o rio era bem maior pois outros afluentes desaguam nele.

Neste ponto o rio Alerce se junta a outro que vem de mais longe, do fundo do vale, provavelmente do Paso. Enquanto o rio Alerce tinha origem no glaciar e por isto tinha suspensão na água (cor meio cinzenta), o outro tinha águas cristalinas, indicando que não vinha de um glaciar.

Na margem oposta parei para comer uns sanduíches (o pão comprei em Pampa Linda). Segui depois de meia hora. A trilha começa a subir para a esquerda, para se desviar de uma região alagada, o mallín do Alerce. Volta e meia surge lama no caminho. Percebe-se então que a trilha começa a subir pelas encostas do vale em meio a um bosque, em zig-zag, já rumando para o Paso. Em dado momento parece que você está prestes a chegar mas não, é apenas um contraforte do Tronador. A trilha faz tanto zig-zag que numa bifurcação quase volto para o mesmo vale, pois dava impressão que era a continuação do caminho. Após consultar a bússola e olhar para trás a direita descobri a verdadeira continuação. E tome mais uma hora fraldeando pela encosta do Tronador, rumo Norte, por umas lomas entre as quais desciam córregos da montanha.

De repente uma miragem. Uma casa justo onde possivelmente era o Paso de las Nubes. Não era possível. Meu mapa e o guia Lonely Planet não indicavam nada neste local, um refúgio por exemplo. A casa aparecia e desaparecia a medida em que eu subia e descia as ondulações. Achava que chegaria em breve mas quando reaparecia, aparentava estar a mesma distância ou mais longe. “Oxente, uma casa fantasma!”, pensava...

Finalmente depois de uma andada cansativa cheguei numa área de pasto alagado e a casa se avistava em cima de um promontório rochoso. Segui pela trilha e repentinamente ela passou a descer para o vale do rio Frías. Havia cruzado o Paso. Ia descer e não vi a entrada da casa, que estranho !?! Tomado pela curiosidade larguei a mochila e voltei subindo. Vi uma discreta trilha rumo a casa e subi. Lá chegando descobri que estava em construção, daí não constar dos mapas e do guia. Seria um novo baita refúgio, muito moderno. Tinha alicerces e vigas de metal (parecia uma liga de alumínio) e as paredes eram feitas de chapas de madeira prensada reciclada e revestidas de um material isolante. As paredes seriam duplas para isolar do frio. Aquilo tudo só poderia ter subido ali de helicóptero. Era impossível material daquelas dimensões e peso ter subido no lombo de burros.

A vista era espetacular: a laguna Frías se descortinava em frente, no fundo do vale. A esquerda, meio ainda escondido pela encosta, o grande glaciar Frías. Tinha certeza que aquilo seria um refúgio porque as mesas e cadeiras estavam lá empilhadas, no que seria o salão principal. Mas não havia operários na obra. Fiquei até tentado a passar a noite ali, sem a necessidade de armar a barraca. Estava bem cansado.

Mas e se chegasse gente? Além de tudo agora era só descida até o campamento Frías e resolvi prosseguir. A descida era por um extenso zig-zag. Num ponto, perto do fundo do vale, uma ponte feita de 2 ou 3 troncos de árvore, pouco grossos, cruzava um arroyo, mas sem corrimão. Passei por ela mas, sinceramente, achei que teria sido muito mais seguro vadear pelo rio. Um tombo daquela ponte estreita poderia causar graves ferimentos. Se o riacho não estiver caudaloso é melhor vadear. Os guardaparques deveriam ou botar um corrimão ou tirar a ponte para o bem da segurança.

A trilha continua descendo e com mais meia hora chega numa pedreira, que torna a descida lenta. O espetacular circo do glaciar colgante Frías está agora todo visível a sua esquerda e é uma visão que impressiona. O acampamento está logo abaixo, percebido porque uma placa já é visível. O rio Frias no seu início, corre cinzento, ondulando de um lado para outro do vale.

Uma ponte construída e mantida pelo CAB (tem uma bandeira do clube içada nela) ajuda a travessar um arroyo lateral e chegamos numa área com algumas tendas grandes já montadas. São do tipo daquelas tendas de festas de aniversário e eventos. Não são as típicas de camping. Ninguém a vista. É um Campamento Experimental Móvil (CEM) do clube andino que oferece bebidas, comidas e provisão. Tem banheiro e pia. Mas o aspecto não era bom, parecia bagunçado. Provavelmente também cobra para acampar. Sorte que não havia ninguém.

Escolhi o local para armar a barraca e fui fazer logo uma sopa para reanimar. Em seguida abri as tendas. Numa delas, a proveeduria, havia mesas e cadeiras de plástico e um fogão. Um aviso dizia que estava fechado e que se alguém quisesse comprar a passagem da travessia dos lagos Frías e Nahuel Huapi poderia fazê-lo em Puerto Frías. Um pote de conserva estava cheio de moedas e notas. Deveria ter algo como AR$ 100 pelo menos. Era a caixinha de propina (gorjeta) da proveeduria. Estranho que deixaram o acampamento abandonado com aquilo cheio. Esqueceram? Mas do jeito que as coisas são aqui na Patagônia, no próximo verão provavelmente o dinheiro ainda estaria lá, quando regressassem.

Peguei uma cadeira desmontável e umas revistas, para sentar e ler enquanto cozinhava. Peguei também mais um isolante térmico para melhorar o isolamento em relação ao chão. Amanhã cedo devolveria tudo.

Não tomei banho porque cheguei no momento em que o sol já estava escondido atrás das montanhas. E a água do glaciar não estava convidativa. Apenas lavei a cabeça.

Comi a janta num banquinho ao lado do rio, posicionado de frente para o ventisqueiro Frías. Muito bonito este glaciar. Fica pendurado no topo de um circo alto e estreito, de onde caem cascatas do gelo derretido. O glaciar Frías é um dos 8 que estão na encosta do Tronador. Vale a viagem para o Paso de las Nubes.

Li até mais tarde com a luz da lanterna de cabeça.

Foram 8 horas de caminhada hoje. Muito cansativa. Ou então eu já estava bem cansado de quase 15 dias de caminhadas, carregando a casa nas costas através de montanhas e vales. Amanhã seria meu último dia de trekking e dormiria numa cama em Bariloche. Depois do pessoal a cavalo, no meio da manhã, não avistei mais ninguém ao longo deste dia.

14/03/2012 – UFA! Último dia de trekking – Volta para Bariloche

Acordei cedo. Não estava sabendo ao certo o horário ou horários dos barcos que fazem a travessia do lago Frías. Assim era bom chegar cedo em Puerto Frías.

Depois de rápido café devolvi as coisas emprestadas do acampamento e arrumei a mochila. Notei que esqueci as luvas de Polartec no refúgio Otto Meiling. O problema é que temos que deixar a mochila no hall de entrada, não podendo levar para o dormitório. O hall é apertado e com muita mochila junta fica difícil manuseá-la e arrumar as coisas. Provavelmente o par caiu entre as mochilas e não percebi na arrumação final antes de partir. Paciência. Não ia voltar para lá para buscá-lo. Brinde para o refugiero.

O caminho segue pela encosta direita (Leste) do vale, descendo rumo a laguna Frías, para evitar o brejo que ocupa o vale. Apesar de fraldear a encosta, o solo é ainda muito molhado devido a floresta valdiviana, uma floresta muito úmida. Altos coihues criam uma sombra quase eterna.

O resultado é uma trilha bem lamacenta. Talvez a mais chata destes 15 dias. Alguns grandes troncos não estão serrados o que obriga a se agachar para passar por baixo. Como sou alto e tenho uma mochila cargueira alta, tenho de me curvar ainda mais obrigando as vezes a botar a mão no chão para apoio, chão este que está enlameado. Volta e meia o topo da mochila roçava no tronco acima, na hora de passar. Me arrependi de não ter calçado as polainas (gaiters) muito úteis quando há lama.

Ao lado de um brejo vi uns alerces de porte mediano. Não dava para saber ao certo que distância havia percorrido devido as árvores. Numa brecha entre as copas vi o que parecia ser o cerro Rigi (1.650 m) na encosta Oeste do vale, imediatamente do outro lado. Assim deveria ter caminhado mais ou menos 2/3 do trajeto. Havia partido a cerca de 3 horas.

Uma das árvores caídas atravessadas sobre a trilha tinha o tronco tão grosso que o CAB usou uma motoserra para fazer uma porta no tronco, pela qual passei tendo que baixar apenas um pouco a cabeça. E mais da metade do tronco ainda estava acima da porta, sem serrar! Aquele tronco deveria ter 2 a 3 metros de diâmetro.

Depois de mais uma hora a trilha finalmente baixa da encosta e desce para um mallín onde troncos pequenos atravessados ajudam a cruzar o brejo até que chegamos as margens do rio Frias, um rio respeitável. Segui pela trilha na margem direita verdadeira do rio até que aparece uma ponte improvisada. Um tronco grosso atravessado, com estruturas de aço parafusadas nele que criam uma passarela por cima. Os corrimões são cabos de aço. Cautela e vagar na travessia, mas é tranquila.

Atravessado o rio continuamos por uma alta floresta de coihues. Passei por um pequeno monumento que homenageia dois oficiais da gendarmeria argentina que ali morreram em um acidente de avião em 1953. Mais um pouco, finalmente cheguei a Puerto Frías, nada mais que 3 ou 4 casas onde funciona a Aduana argentina, a Gendarmeria e uma pequena proveeduria. Ninguém mora ali. Aquilo era apenas um pequeno posto fronteiriço.

Cheguei mais ou menos 12:30 e para minha surpresa o pessoal me informou que 12:45 chegaria um barco. De fato um barco já apontava na direção do pequeno pier, vindo do outro lado da laguna. Só deu tempo para prender os bastões de trekking na mochila e pegar água num córrego.

Um grupo de turistas, a maioria brasileiros, saiu da Aduana e se aproximou do barco. Um caminhão trouxe as malas. Faziam parte de uma excursão que partira do Chile, o “Cruce dos Siete Lagos”. A fronteira com o Chile estava a poucos quilômetros dali, no Paso de Perez Rosales. Só descobriram que eu era brasileiro quando me ofereci para tirar as fotos deles, evitando que tirassem fotos com o braço esticado.

A travessia da laguna foi rápida, cerca de 20-25 minutos. Do outro lado uma van já esperava para levar ao Puerto Blest, no lago Nahuel Huapi, de onde partiria um barco maior para Bariloche. A van levou apenas 10 minutos para chegar lá. O guia de turismo, um argentino, sabia pelo meu aspecto sujo que eu tinha vindo do Paso de las Nubes e começou a falar pelo microfone aos turistas da van que eu era um boy scout que gostava de desafios, já que a trilha é de dois dias e é difícil. Ele mesmo só iria para o Paso de las Nubes de helicóptero ou no dia que houvesse estrada. Quando me perguntou da onde era e respondi que era baiano (de criação) a galera brasileira aplaudiu, não perdendo a chance de brincar com um compatriota baiano. Fiquei encabulado.

Em Puerto Blest soubemos que o barco para Puerto Panuelo só saia as 16 horas. Assim quem quisesse poderia almoçar na única hosteria local (caríssima, uma armadilha para turistas). Preferi lanchar o que ainda sobrava.

O final do Brazo Puerto Blest, do lago Nahuel Huapi, é belíssimo. Fiz um passeio até a laguna los Cántaros, cerca de 40 a 60 minutos - ida, passando pela cascata los Cántaros. Trilha bem marcada, com uma escadaria de madeira que leva até a laguna. Pelo mapa, de lá sai uma trilha que vai ainda mais para Noroeste, até o lago Ortiz Basualdo.

Meu mapa também indicava que há uma trilha de Puerto Frías até Puerto Blest. Creio que 2 a 3 horas de caminhada. Possivelmente a passagem de barco ficaria mais barata.

Na volta de los Cántaros tomei um banho de lago e me sequei ao sol. Tirar um pouco da inhaca antes de embarcar. Estava a dois dias sem banho.

Finalmente embarcamos. Embora cara (AR$ 250 (R$ 100) para estrangeiros, AR$ 150 para argentinos), ainda vale mais que voltar tudo aquilo para Pampa Linda. Em Pampa Linda há um ônibus saindo para Bariloche as 17 horas por AR$ 60. De Puerto Blest até Puerto Pañuelo é uma hora de viagem.

O cenário é bonito. Sentei em cima para curtir a paisagem. Vários passageiros davam pão e biscoitos para as habilidosas gaivotas que arrancavam voando o alimento das mãos. Algumas pousavam no mastro do barco. Pareciam posar para as fotos.

No caminho o guia indicou uma pequena ilhota, onde havia uma bandeira argentina hasteada e o túmulo do Perito Moreno, um homem de história grandiosa, cuja vida dava um filme de aventura, a quem se deve a criação do Parque Nacional

Várias pessoas estavam tomando banho nas praias da península Llao Llao e acenavam na passagem do barco. O dia tava realmente lindo para uma praia (de água gelada...)

Chegando a Puerto Pañuelo, vi que a entrada do famoso e luxuoso hotel Llao Llao ficava em frente.

Tive que andar um pouco para ir numa tienda e comprar um boleto de 6 pesos para a passagem de ônibus porque ainda estávamos a uma hora do centro de Bariloche. O transporte de van para lá me cobraria mais 50 pesos. O próprio pessoal o barco disse que mais valia pegar o ônibus.

Consegui ir sentado na volta. Mais adiante, ao longo da av. Bustillo, o ônibus lotou. Muito turista mochileiro, especialmente israelenses. Impressionante como os jovens israelenses gostam da Patagônia.

Saltei perto do hospedaje Victoria. Quando cheguei e o dono me viu, após passar 8 dias no mato, não sabia se ele estava impressionado com meu aspecto devido a sujeira ou a magreza (5 kilos mais magro).

Um banho quente e um assado de cordeiro com cervejas me ajudaram na recuperação.

Mais dois dias e estaria em BsAs e, em seguida, na minha querida e tropical Salvador/Bahia, junto a família.

Assim encerrei os 20 dias de Patagônia, sendo 16 na trilha, conhecendo muita gente legal e mais um pouquinho deste pedaço maravilhoso da Terra.

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 05/17/2019 14:07

Performed from 03/12/2012 to 03/14/2012

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Peter Tofte

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Salvador, Bahia

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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