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Chapada Norte

Chapada Norte

Trekking de 3 dias saindo de Conceição dos Gatos até Lençois, passando por rios, matas, morros e por uma bonita caverna.

Trekking Camping

Fábio Dal Gallo e Cristina Macedo convidaram amigos para participar de um trekking na Chapada. Eu sugeri o circuito norte, pela facilidade de locomoção até os pontos inicial e final e apoio. Iríamos com John, filho de Cris, que há anos não ia para a Chapada fazer trilha.

Jair também se juntou a nos, seria sua segunda trilha (Vide relato "Barbado" aqui no Aventure Box).

Chegamos em Palmeiras onde pegamos uma van caindo aos pedaços para Conceição dos Gatos. Lá começamos o trekking vadeando o rio, que subiu de nível devido as chuvas. Ao final da travessia Fábio tirou cuidadosamente algo da mochila e nos ofereceu: ovos cozidos. Provavelmente porque, com exceção de Cris, molhamos os nossos durante a travessia com água quase na cintura :-))

Pegamos uma ladeira numa estradinha de terra e no topo da subida viramos numa trilha que subia a serra do lado direito. Pegamos a direção errada numa bifurcação e perdemos 15 minutos até voltarmos para a correta. Chegando no topo avistamos o lado oeste do Morrão (ou Monte Tabor). Este lado é por onde se sobe ao cume deste cartão postal.

Pretendíamos subir até o topo, mas seria algo como uma hora e meia de ascenção (que envolve escalaminhada) e outra hora e meia para descer. Juntando o fato de que as pedras estariam molhadas e que estávamos cansados por uma noite mal dormida no ônibus, bateu uma preguiça unânime. O dia ainda estava nublado e volta e meia nuvens envolviam o topo. Não valia a pena subir sem ter a certeza da recompensa de uma vista 360º.

Após lanchar, resolvemos seguir e trocar o Morrão pelo Morro do Pai Inácio, onde chegaríamos mais para o final da tarde, quando o tempo costuma firmar.

Cerca de onze da manhã cruzamos o riacho das Águas Claras sem molhar as botas.

Agora rumo ao Pai Inácio com o Morrão ficando para trás.

As 13 horas vadeamos outro rio, no meio de uma mata, desta vez com água pela cintura e muito mosquito.

Agua cor de Coca-Cola. A incidência de luz neste momento deu uma coloração avermelhada.

Jair se lembrou de um filme onde seres alienígenas decidiram não atacar os humanos porque eles eram criados pelos mosquitos para servir de alimento. Os ET's consideravam os mosquitos a espécie dominante na Terra.

Mais um pouco de andada e avistamos o Pai Inácio.

Vista do Pai Inácio ao centro.

Ainda cruzamos o rio outra vez antes de chegar na Pousada e Restaurante Pai Inácio, onde lanchamos e deixamos as mochilas, para subir o morro sem peso nas costas.

A taxa de visitação subiu para R$ 12,00. Tiramos fotos do vale do Cercado (direção N-NE) e dos Três Irmãos enfileirados (direção S), as vistas mais bonitas. Cris tirou fotos de um mocó contemplando a paisagem lá de cima, sem ligar para os humanos, a apenas 2-3 metros de distância. Apenas quando Cris pisou num galho seco ao tentar se aproximar é que o roedor se mandou.

Bela foto da Cris. O mocó contemplativo.

Vista Norte para o vale do Cercado. Iríamos acampar lá embaixo, um pouco mais adiante, na cachoeira Pai Inácio.

Vista Sul. Observar o Morrão isolado aparecendo a direita ao fundo, meio escondido pelo morro em 1º plano.

Chamou a atenção o nº de turistas que chegou numa sexta, sem feriado. A maior parte dos coitados resfolegava no trecho final antes do topo do Pai Inácio (carros e ônibus conseguem percorrer 2/3 da subida).

Descemos por volta de 16:30, pegamos as mochilas e seguimos para a Cachoeira do Pai Inácio onde chegamos após meia hora. O local é um dos mais bonitos para acampar na região. A cachoeirinha, apesar de pequena, é uma das mais fotogênicas da Chapada.

Antes de escurecer armamos as tendas e meu toldo (tarp) no chão cimentado, num local onde existia outrora um bar (só o chão cimentado mostrava que havia uma construção ali). Após o jantar eu e Jair descemos até o poção da cachoeira para um banho frio. Para animar o Jair contei a história de uma sucuri que puxou um cão labrador de um amigo para o fundo do rio, enquanto ele nadava, no Oeste da Bahia.

Durante a noite usei um saco de bivaque que um amigo me emprestou para que eu o testasse. O Helium Bivy da OR (Outdoor Research). Muito leve, gostei. Já vem com um mosquiteiro incorporado (quem quiser me manda os produtos que eu testo :-)).

Noite muito tranqüila, com apenas uns chuviscos passageiros. Os mosquitos estavam presentes para lembrar que não existe o paraíso terreno.

Acordamos 6:30 da manhã. Após o café descemos para fotografar a cachoeirinha. Ontem estava escuro para fotos. Todos concordaram comigo que o local é lindo.

Saímos por volta de 8:30 percorrendo a estrada de terra sombreada por árvores do vale do Cercado. Volta e meia passava uma moto, dos poucos moradores da região. Eu notei, em relação a 15 anos atrás (ultima vez que passei pela estradinha), como aquela área de APA estava agora cheia de entradas para pequenos sítios, sinal que a especulação imobiliária chegou a este local encantador.

O morro do Pai Inácio ficava cada vez mais para trás e agora sobressaia o bonito Morro do Camelo. Na verdade deveria se chamar Morro do Dromedário pois tem apenas uma corcova.

Morro do Camelo. Deste angulo não é possível perceber o formato que deu nome ao morro.

Por volta de 11:30 chegamos no Poço Verde, um trecho onde o rio Santo Antonio alarga. Para minha surpresa uma grande cerca numa área privada fechava a área com uma portaria. Não havia ninguém, mas um portão aberto permitia acesso a uma entrada lateral que descia para o rio. Um tracklog do Wikiloc gravado pelo Fael (dos Pobres Mochileiros) mostrava que ele havia percorrido o mesmo caminho. Tudo mudou nesta área em relação a 15 anos atrás e fiquei um pouco desorientado.

A área cercada era um empreendimento grande com cerca de arame, algo que criava um fechamento ostensivo daquela zona. Ficamos aborrecidos com aquilo. A cerca tipo alambrado ia até o chão, o que impedia o acesso de pequenos mamíferos ao rio. Não deveria ser permitido isto numa área de APA.

Rio Santo Antonio. Uma silibrina caia neste momento.

Uma pequena ponte ligava a outra margem.

Rio Santo Antonio logo acima do Poço Verde.

A partir do Poço Verde, o tracklog permitiu achar a trilha que subia a Serra da Licurioba rumo ao rio Mucugezinho a beira da BR242. Neste momento passamos a andar na direção Sul para Lençois.

A subida foi a princípio puxada, por dentro da mata. Logo depois um campo sujo tomou o lugar das árvores.

Chegamos 13:30 na Barraca do Louro, a beira do rio Mucugezinho, pouco acima do Poço do Diabo. Comemos comida a quilo, neste local ruim, com atendentes mal acostumados pela clientela fácil que chega aos borbotões, no turismo massivo da Chapada, sem maior preocupação com a qualidade da comida e dos serviços. Enfim, um lugar para turistão.

Cerca de 14:30 partimos seguindo o acostamento da BR242. Decidimos voltar para Lençois pela trilha que passava pela cachoeira da Muriçoca e pelo rio Mandassaia por baixo. Foram cerca de 25 minutos andando. Chegando na referência do início da trilha, cadê ela? O mato fechou. O mapa do Sapucaia (Trilhas e Caminhos) deve ser usado com muita ressalva. Faz anos que o autor não percorre as trilhas para checar se continuam abertas.

Assim voltamos subindo pela BR242 até quase de volta a Barraca do Louro para pegar uma trilha alternativa, que usei em 2004. Com ajuda do track log do Fael no Wikiloc localizamos seu início. A trilha não era muito batida. Mato alto e apenas marcas de um cavalo ferrado no caminho. Tomamos cuidado com a unha-de-gato, mato que rasga até pensamento.

Percorremos o sendero até o rio Toalhas, onde acampamos num lajeado, em torno de 16:30. Lugar legal. Ao longe, numa elevação, sentido NO, avistamos o casarão que deveria ter sido a sede de uma antiga fazenda, antes da criação do Parque Nacional.

Meu bivaque com toldo. Mesmo em chão de laje é possível montar. Ouço tanta balela de "especialistas" de que na Chapada a tenda tem que ser auto-portante!

Tomamos um banho no riacho e jantamos tranqüilamente. Um pouco de bourbon e whisky ajudaram a relaxar.

Dia seguinte acordamos e após o café e arrumação da mochila continuamos rumo Sul com ajuda de um App excelente do Fábio, que tinha a rota. A trilha, meio apagada, com brejos e lajeados, era difícil de ser seguida. Eu não lembrava de mais nada após quinze anos.

No caminho quase piso numa jibóia de metro e meio. Ela se encolheu debaixo de uma moita em posição defensiva. Tiramos fotos. Como o padrão de cores dela camufla bem em meio a folhagem!

Outro contratempo: seguindo na frente devo ter esbarrado num ninho de mandassaias (abelhas sem ferrão) e elas caíram em cima dos demais que vinham atrás. Corremos. Elas ficaram mordendo os cabelos e o vestuário. A calça preta do Jair estava cheia de mandassaias agarradas. Parece que tinham uma predileção pela cor negra e pelo bumbum do Jair.

Chegamos ao rio Mandassaia (muito provável que as abelhas deram nome ao rio) num ponto que não conhecia. Isto fez perdermos uma hora procurando o lugar da travessia que eu recordava de uma trilha anterior.

Decidimos seguir exatamente o tracklog e logo a questão estava resolvida. Teimosia achar que o ponto marcado não era o local da travessia do rio. O rio estava bem cheio, por isso pensamos que deveria ser em outro lugar.

Seguimos agora pela estrada do Barro Branco onde, em determinado ponto, dobramos a esquerda. Pegamos um caminho ladeado por antigas mangueiras, passando por um casarão em ruínas do auge do garimpo, até um local onde achamos o começo da trilha para a gruta do Lapão, indicada no tracklog.

Esta mansão provavelmente pertenceu a um barão do garimpo.

Cris e Fabio gostam de espeleologia e fizeram cursos no Norte da Itália. Queriam visitar esta caverna de quartzito, que fica a apenas 5 km de Lençois.

Chegamos na boca da gruta (55 metros de altura) descendo por uma fenda. As grandes pedras indicam que é uma gruta formada por desmoronamento.

Entramos cerca de 400 a 500 metros na caverna, breu total, até um ponto que baixamos do salão principal para um lateral a esquerda onde avistamos um rio subterrâneo (o rio Lapão). Descemos até sua margem e observamos o sumidouro onde a água desaparecia.

Sumidouro:

Não podíamos ir rio acima porque estava cheio e não havia margens. Teríamos que ir a nado. Combinamos voltar numa época de seca, para percorrer toda a extensão desta gruta extraordinária.

Felizes voltamos para o topo da gruta, onde deixamos as mochilas, pela mesma fenda e descemos para Lençois, caminhada de 40 minutos.

Um trekking por cenários diversos e belos ao Norte de Lençois.

Tiramos uma foto na entrada do antigo cemitério de Lençois onde se lê no pórtico: "Ontem éramos o que tu es. Amanhã serás o que nos somos". Portanto aproveitemos a vida enquanto podemos, enquanto temos saúde. Carpe diem!

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 04/25/2019 09:44

Performed from 04/12/2019 to 04/14/2019

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Fael Fepi
Fael Fepi 04/25/2019 14:26

Massa !! Peter. Parabéns pelo relato. Lembrei de quando fiz o caminho. No ultimo dia na trilha da margem da BR-242, cheguei até o casarão e acabei desistindo, sendo socorrido por uma carona no escuro. Pretendo voltar a fazer esse percurso inverso, começando pela Mandassaia e finalizando no Capão.

Peter Tofte
Peter Tofte 04/25/2019 15:29

Comentei com o Alex, que estava com vc. Quando vi o track log acabar no casarão achei que ou a bateria do GPS/celular havia acabado ou que erraram a trilha. Há uma bifurcação quase imperceptível antes do casarão. Se não fosse o tracklog teria parado também no casarão!

Peter Tofte
Peter Tofte 04/25/2019 15:34

Valeu Fael, seu tracklog no Wikiloc foi muito útil para achar a subida da Licurioba. Aquela área mudou muito em 15 anos. Toda cercada!

Paula @mochilaosabatico
Paula @mochilaosabatico 04/25/2019 19:32

Me lembrou de nossas andanças na Chapada! Mais uma foto com amigos na cachoeira do Pai Inácio.

Peter Tofte
Peter Tofte 04/26/2019 09:25

Verdade Paulinha. Desta vez fizemos um roteiro mais demorado. Na ocasião que trilhamos pretendia fazer o mesmo roteiro com vocês (subir a Serra da Licurioba) mas eu não tinha o tracklog e teríamos alguma dificuldade para achar a trilha (15 anos sem fazê-la).

Suelen Nishimuta
Suelen Nishimuta 04/28/2019 01:21

Uma excelente expedição pela Chapada Diamantina. Quis fazer algo parecido, mas ainda não rolou. Mas seu relato vai ajudar, com certeza Peter. Só espero não encontrar a Sucuri tão perto.rs😅

Peter Tofte
Peter Tofte 04/29/2019 17:12

Valeu Suelen! Não vai faltar oportunidade para fazer! Não é muito comum bater com cobras na Chapada, ainda mais sucuris!

Ana Caroline Silva Machad
Ana Caroline Silva Machad 08/12/2019 14:42

Ah Chapada... Amo! Fiz uma trilha Lençóis-Vale do Capão maravilhosa!

Peter Tofte

Peter Tofte

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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