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Da Casa dos Espíritos até Puesco - Travessia P.N. Vilarrica

Da Casa dos Espíritos até Puesco - Travessia P.N. Vilarrica

Trekking solo de 5 dias atravessando o belíssimo P.N. Vilarrica, perto de Pucón, Sul do Chile, com terremoto na volta para Santiago.

Mountaineering Trekking

Estou migrando aos poucos meus relatos para o Aventurebox. Tem foco em aventuras e a plataforma é mais fácil de trabalhar!

Publico aqui uma das viagens de trekking que mais me impressionou e também uma das mais aventurosas, pelos perrengues (vendaval e terremoto).

Logo antes do grande terremoto do Chile em 2010 fiz a travessia do Villarica, também conhecido entre os Mapuches como Rucapillán ou casa dos espíritos. É um trekking maravilhoso de 5 ou 6 dias, 81 km, que atravessa todo o P.N. Villarica. Ele não é tão famoso como TDP ou El Chaltén por dois motivos:

1.não tem refúgios, temos que levar tudo;
2.boa parte dele é acima da linha das árvores, em terreno exposto a intempéries.

Por isso o Lonely Planet no roteiro desta trilha tem uma advertência, o que não ocorre quando ele descreve TDP ou Chaltén. Mas também diz que ele é incrivelmente cênico. Eu diria que é tão bonito quanto TDP ou El Chaltén, mas de uma beleza diferente. Enquanto TDP tem a grandiosidade e El Chaltén tem a arquitetura linda das montanhas, esta travessia tem os vulcões. Avistamos 6-7 ou mais vulcões na travessia, um deles ativo e passamos ao lado de crateras extintas. Adicionalmente entramos em florestas de araucárias e de coigües que parecem de conto de fadas, atravessamos paisagens lunares, campos de lava (escoriais), lagunas alpinas e cruzamos manchões de neve nos passos altos (mesmo no final de fevereiro!).

Dia 18/02/2010 - Santiago

Cheguei no aeroporto de Santiago as 21:30 horas. Rapidamente peguei o transfer da Tur Bus para o Terminal Alameda onde comprei passagem para Pucón as 23:30. O salón cama é muito confortável. São notáveis a eficiência e a falta de burocracia do Chile.

Dia 19/02/2010 - Pucón

Com o dia raiando entrei em Temuco. Mais uma hora em Villarrica e depois de mais meia hora em Pucón. Não tinha lugar certo para ficar na cidade. Mas logo em frente ao terminal da Tur Bus um hostal com a bandeira do Brasil na janela. Opa, um bom sinal! Se brasileiros deixaram a bandeira foi porque gostaram. Na verdade a simpática dona é brasileira, de Campinas/SP. Vive numa ponte aérea Campinas – Pucón. A pousada Pucón Sur é boa e recomendo (22.000 pesos alta estação - preços e câmbio de 2010). Saí para comprar os mantimentos, gás e para conseguir o transporte até a estação de ski do Villarrica, junto a uma das empresas que fazem a subida do vulcão. Consegui junto a Tranco, por 5000 pesos (~US$10 = R$20). A Politur não podia dar certeza se haveria lugar antes das 17 horas pois a prioridade de assentos era para quem queria escalar. Não poderia esperar até esta hora para ter uma definição, daí preferi a Tranco.

Dia 20/02/2010 Pucón – Estero Ñilfe

Acordei 05:30 pois a van estava prometida para 06:00. Chegou as 06:30. Foi depois até a agência e pegou os escaladores. A van saiu lotada com o guia de pé (quem já pegou van no Rio sabe como é...). A Politur ao menos foi mais honesta dizendo que não poderia vender o lugar se ela estivesse lotada.

Um casal de brasileiros sentou logo atrás, Pedro e a namorada. Iam subir o Villarrica. Perguntaram o que ia fazer, respondi. Depois os comentários de praxe: se não era perigoso ir sozinho, etc...

Tive de saltar da van na Guarderia da CONAF do PN Villarica para pagar meu ingresso (7000 pesos=28 R$) para um nº de dias ilimitado no parque. Lá recebemos um mapa com o parque e a trilha. Escala não muito boa 1:110.000.

Mais ou menos 30 a 40 minutos chegamos a estação de ski. Me despedi dos simpáticos brasileiros e me afastei da galera (10 a 20 vans - acho que 100 pessoas deviam estar subindo o vulcão naquela manhã), fui até uma curva longo antes da estação, com uma placa indicando o início da trilha (“à Challupén”). Estava ainda frio no cone formado pela sombra da montanha.

Cargueira de 80 litros pronta para partir. Uma veterana Bora 80 da Arc'teryx.


Sombra do Villarrica.



A subida do Villarrica é um arremedo de alpinismo? Pode ser, mas é muito interessante: temos uma experiência do que seria uma escalada na neve e a oportunidade de ver a cratera de um vulcão ativo, por isso a maioria dos turistas em Pucón tenta fazer isto (35.000 pesos chilenos). Pensei até em fazê-lo e apenas na descida iniciar a trilha do Villarrica. É possível,mas é bem cansativo. Quem sabe na volta, pois se ocorresse tudo como planejado teria um dia sobrando em Pucón.

O começo da trilha é feita por um terreno pedregoso, com pouca vegetação, acima da linha das árvores. Um constante sobe e desce pelas encostas do vulcão. Apenas 9:15 tirei o casaco de fleece pois só então o sol bateu em mim. Mas ou menos nesta hora entrei nos pequenos bosques de coigües e, mais tarde, com araucárias. Estas árvores são lindas. Algumas bem grandes. Parecem árvores pré-históricas. O terreno é ondulado. Os maiores acidentes são os zanjónes, por onde desce a água das chuvas ou no degelo. Alguns deles tem um riacho perene.


A trilha é bem visível e é demarcada por estacas de aço (um perfil em L) com marcas amarelas e numeração indicando a travessia. As estacas são altas (para evitar que a neve as cubra) e bem enterradas (para evitar que o vento as derrubem).

Apenas em três pontos podemos fazer uma confusão: logo ao atravessar o Zanjón Pino Huacho tive a impressão que a trilha seguiria a direta. Na verdade sobe a esquerda (não errei porque o guia do Lonely Planet avisava).

No caminho algumas derivações. Esta por exemplo levava para um glaciar na encosta do vulcão.


No Zanjón Challupén desci e demorei para perceber onde é que saia dele, subindo. Devemos seguir em diagonal, para cima até avistarmos uma placa. Me confundi pensando que a saída era um ponto sinalizado por um morão branco, um pouco antes.

Logo em seguida, no bosque, errei e fui em direção as lagunitas Challupén (mais parecem brejos rasos). Perdi 40 a 60 minutos nesta história. O GPS me permitiu concluir qual o caminho certo. Basta também suspeitar quando passamos algum tempo (20 min) sem ver as estacas sinalizadoras (tem algo errado!).

Entre dois bosques encontrei um chileno que vinha na direção contrária. Jovem, pareceu-me um pouco inexperiente no trekking. Tinha duas mochilas, uma atrás e outra na frente ao invés de uma só de maior capacidade (as duas deviam ser muito desconfortáveis - novato sofre). Estava tirando um casaco camuflado pesado. Tinha uma faca grande presa na coxa. Não aguentei e perguntei se era para enfrentar os pumas. Estava fazendo apenas o trajeto Chinay- estação de ski.

Cheguei as 15:30 mais ou menos no Estero Ñilfe. Lugar lindo para acampar. Parece que os chilenos preferem ir mais adiante (aqui escurece a partir das 21 horas), mas como o lugar era lindo preferi ficar.


Achei um lugar privilegiado para armar a barraca no meio de umas lengas baixas. Tomei um banho de panela (quando tem sol podemos se dar a este luxo, mesmo com água gelada). Depois do choque inicial da água gelada fica uma delícia: passamos a absorver calor do ar a nossa volta.


O local é lindo, pois é um pequeno prado com arbustos e uma vista muito bonita para SE. Atrás o vulcão Villarica. Um campo de lava negra ficava logo atrás da barraca.

Pela primeira vez fiz um jantar com comida liofilizada. Eu apanhei. O negócio não saiu bom. A fome ajudou a descer.

Um pôr-do-sol lindíssimo acima de um tapete de nuvens.



Dia 21/02/2010 Estero Ñilfe - Rio Pichillancahue

Comecei o dia preguiçoso. Sai 09:50. Levei apenas 1 litro de água mas me arrependi pois a primeira metade do trajeto é seca e não tinha certeza se no fundo dos esteros iria encontrar água. Um terreno lunar, com muito
s campos de lava (terreno poroso que não deixa água na superfície).

Cruza-se um grande campo de lava, o Escorial de Catricheo. Os tábanos volta e meia lhe enchem o saco (tábanos são mutucas grandes, turbinadas).

Trecho do Escorial de Catricheo (lava solidificada) e o vulcão Lanin ao fundo.



A SE se avista os cones duplos dos vulcões Mocho e Choshuenco durante quase todo o trajeto.

Lanchei as margens do Estero Aihue.

Caminha-se acima da linha das árvores até pouco antes de iniciar a descida para o Rio Pichillancahue, onde penetrei numa floresta basicamente de araucárias (linda). A descida para o rio é acentuada e acabei pegando uma cana quila para aliviar os joelhos, já que não estava com bastões de trekking.


Ao chegar no rio, um alívio: o CONAF colocou uma ponte de troncos com guarda-corpo para auxiliar a travessia. Não que fosse difícil atravessá-lo. Mas a água é gelada, vai nos joelhos e a cor branca não permite ver o fundo. Assim teria de cruzá-lo de botas e elas não secariam até o dia seguinte.



Achei um local bonito para acampar na margem esquerda (verdadeira) do rio, pouco depois da ponte, como sugerido pelo Lonely Planet. A barraca ficou abaixo de uma araucária, perto do rio. Circulo de pedra indicava o local onde campistas faziam a fogueira. Antes de anoitecer uma neblina, na verdade nuvens, começaram a subir pelo vale do rio. Pensei até que o tempo ia mudar. Apenas nuvens. Mas dava uma impressão maravilhosa de uma floresta mística. Uma linda floresta de coigües.


Tomei outro banho de panela com água de glaciar. A janta saiu um pouquinho melhor (aprendendo!). A noite uma temperatura em torno dos 7-10º C dentro da barraca, mais o menos o mesmo que ontem.

Uma noite de verão na Patagônia pode ser bem mais fria que a pior noite de inverno na serra gaúcha!


Dia 22/02/2010 – Rio Pichillancahue – Estero Mocho Superior

Não vi ninguém no caminho, neste dia.

Hoje é o dia mais puxado com bastante subida (1.150 m) e aproximadas 7 horas de trekking. Por isto saí mais cedo, por volta de 08:40.

Pequena caminhada, 10 min para chegar num morrete. Passado o morro, mais 20 min para chegar numa estrada de terra (só para 4X4). A estrada sobe em direção a Chinay. Tudo isto dentro de um bosque de altas árvores. Em 40 min. se atinge um passo (logo depois de uma derivação a esquerda com um sendero para o Glaciar Pichillancahue) e começa a descida pela estrada até a Guarderia Chinay da CONAF. Após 1-1,5 h. de estrada cheguei na Guarderia, mas estava fechada. Nenhum guarda parque.


Poucos metros após, a direita, começa a trilha para o estero Mocho. Cruza-se um pequeno riacho e começa a mais cansativa subida da jornada. Cerca de 2 horas e pouco por uma trilha mais fechada, cheia de carrapichos. A floresta de araucárias, mais em cima, é muito bonita, algumas árvores estão repletas de barba-de-velho.

Tive a impressão que me dirigia para um colo, que nada. A trilha vai para a esquerda subindo pela crista. Só depois de um descampado originado num incêndio, onde lanchei, se entra num pequeno trecho de mata para finalmente emergir do outro lado da crista, num bonito prado, acima da linha das árvores com vista para SW, para o vale do rio Elevado.

Anda-se um pouco neste prado para em seguida subir a esquerda para um colo. Neste ponto, cuidado. Dá impressão que devemos ir em frente, descendo, inclusive há pegadas descendo. Porém a trilha segue a direita subindo pelas cristas. E assim continuará. Apenas não sobe o cerro mais alto, o Los Pinos, com 1.774 metros. A trilha segue pela encosta esquerda deste cerro para novamente seguir por cristas mais baixas adiante, desta vez já com vegetação. Aproveitei para parar e fazer um lanche, com vista para o Norte, para o vale do Rio Palguín.


Retomada a caminhada, sempre descendo. Quando saí das cristas a vegetação cresce e entramos numa floresta que desce para um colo. No meio deste colo uma trilha à esquerda que desce para o vale do Rio Palguín, que no mapa da CONAF aparece como “Sendero Estero Mocho”. Uma rota alternativa em caso de emergência.

Logo após a bifurcação a trilha começa a subir a encosta florestada do vulcão Quetrupillán. Com mais 20 minutos chega-se num bonito local onde a floresta acaba e há um pequeno riacho correndo entre lajes de pedra, o Estero Mocho Superior. Local privilegiado: a NW a vista do Villarica esfumaçando. A Leste o vulcão Quetrupillán. Montei a tenda bem abrigada entre os arbustos.


Encontrei só um casal de franceses acampados. Ela bem simpática, falava espanhol. Vinham em sentido contrário. Tomei meu banho de panela, aproveitei o sol para secar e fiz a janta tranquilo. A tardinha o tempo pareceu que ia mudar, mas foi só ameaça.

Passeei pelo local. Muitos pontos perfeitos para acampar. Porém parece que na alta estação é muito frequentado. Muita gente descuidada, com muito papel higiênico visível perto demais do rio. Aquela imagem me fez ferver a água de beber, coisa que não fiz em acampamentos anteriores.

Logo depois destes pontos abrigados, termina a linha de árvores e começa um bonito prado que segue até o vulcão Quetrupillán.

Dormi com um pouco de frio a noite. Meu saco de dormir de pluma não é muito bom.

Dia 23/02/2010 – Estero Mocho Superior – Laguna Blanca

Saí relativamente cedo. Dia bonito. Três minutos de caminhada e entrei num prado, onde termina a linha de árvores. Uma subida não acentuada rumo SE. Passei por umas vacas e um touro preguiçoso a beira do caminho. Me senti desconfortável por estar usando uma camisa vermelha. Colonos mais abaixo do vale largam seu gado aqui no verão, dentro do parque nacional (já vi esta história antes no Brasil...).


O caminho segue para a esquerda e encontra a nascente do rio Llancahue. Logo antes aparecem os primeiros manchões de neve. Cruzado o riacho começa uma subida acentuada, rumo a um colo de montanha. A vista do vulcão Quetrupillán começa a ficar para trás, à esquerda.

Subo esbaforido. No colo segui mais ou menos nivelado com a encosta da montanha à esquerda. Tive que cruzar alguns manchões de neve. Sempre que possível, evitá-los. Fiquei com preguiça de subir uns poucos metros (como muita gente fazia, pelo rastro visível) e, ao invés de contornar o manchão por cima, decidi seguir em frente. Algumas pegadas na neve mostravam que nem todo mundo contornava o manchão. Após andar uns metros na neve dura é que caiu a ficha: escorregando, mesmo a inclinação sendo pequena, se não conseguisse fazer self arrest (com o que?) eu iria parar 15 a 20 metros abaixo, de encontro a alguns boulders, à direita. Não matava mas provavelmente quebrava alguma coisa. Cruzei o manchão vagarosa e cuidadosamente.


A Laguna Azul (ou Los Patos) surge maravilhosa, lá embaixo, a SW, com uma cor azul profunda. Subi um pequeno colo à esquerda, o ponto mais alto da travessia segundo meu GPS (1.950 metros) e o meu altímetro (diferença de apenas 15 metros entre um e outro). Dali começa a descida para a laguna. Um manchão de neve extenso e cada vez mais inclinado à medida que descia obriga as pessoas sem crampons a fazer skybunda nos metros finais. Outro manchão de neve, desta vez horizontal, e a partir daí um tranqüilo zig-zag até o extremo S-SE da Laguna. Ao chegar na praia do lago uma enorme espinha de peixe. Nossa! Que tamanho de trutas devem viver neste lago! Um bosque de lengas é usado por muita gente para acampar. Mas havia papel higiênico por todo canto. Por perto há um refúgio arruinado mas não o vi.



Fiz um lanche, tirei fotos. Não fiquei mais que 15 minutos no local. Embora bonito, meu destino era a Laguna Blanca, 2 horas adiante. Aqui terminou o tramo Los Venados e começa o tramo Avutardas da travessia do Villarica (3º e último trecho).

Seguido rumo E verdadeiro entrei num campo de lava e após subir um morro encontramos outro escorial, a altitude maior. Chamou-me a atenção alguns manchões de neve em baixadas neste escorial. A rocha basáltica (?) é negra e absorve calor do sol, então não sei porque a neve não derrete toda neste campo de lava.

Passados os dois campos desci para um extenso platô, um mundo de rocha e areia, com rara vegetação rasteira, findo o qual subi uma encosta num pequeno vale até uma passagem que permite ver a Laguna Blanca a NE. Ao descer devemos virar a esquerda saindo da trilha principal, e andar 10 minutos, se queremos acampar as margens do lago.

A laguna tem este nome devido a sua água leitosa. Lembra a cor de uma poça num canteiro de obras. O cenário no entorno é desolador. Pareceria uma paisagem marciana não fossem os pequenos tufos de vegetação. A NASA deveria testar seus veículos robotizados aqui, antes de enviá-los para Marte. Esta laguna é formada pela água do degelo da encosta sul do vulcão Quetrupillán.


Passeando as margens do lago descobri uma piscina de apenas um palmo de fundo na praia. Provavelmente a laguna ao baixar de nível deixou isolada esta pequena poça de água. Era límpida e morna. Não tive dúvida. Voltei ao acampamento e peguei minha panela e apetrechos de banho. Foi o banho mais quente destes dias!

A única distração é passear pelos arredores e matar os tábanos, que enchem o saco.Vc mata um e logo aparece outro. Eles foram minha única companhia neste dia desde que saí do Estero Mocho. Estava sozinho na laguna. Apenas vi um helicóptero que passou baixo a toda velocidade, sobrevoando o lago.

O Lonely Planet bem que avisa que a laguna tem locais pouco abrigados para acampar. Escolhi montar a tenda atrás de uma pedra que tinha em um lado e no outro uma extensão de muretas de pedra, formando um semicírculo, parecendo uma ferradura. Deixei a traseira da barraca justo para a abertura desta ferradura e o lado da porta, mais alto, defronte a pedra que oferecia mais proteção. A pedra e as muretas ofereciam boa proteção para um vento de SW ou S, justamente de onde acreditava virem os piores ventos. Pensei que se a mureta foi construída naquela orientação foi porque os ventos mais fortes vinham daquelas direções.

Antes do anoitecer o vento parou completamente e as águas da laguna refletiam as montanhas em torno da lagoa. Um pouco mais tarde entrou um vento SW que confirmou a expectativa de que seria este o vento preferencial e forte neste local. Tolinho...(como falava para mim uma ex-namorada).

Pouco antes da meia noite entrou um vento fortíssimo vindo de E – NE, por trás da barraca, justo na direção onde não havia mureta de pedras. O resto da noite foi um flap-flap ensurdecedor. Só consegui dormir com um protetor auricular. Porém nas rajadas a barraca se tremia toda e areia e pedrinhas eram atiradas nas laterais da mesma. Calculo que deveria ser algo como 60 km/h com rajadas de 80 km/h ou mais (quem anda de moto deve ter uma idéia melhor). As rajadas vinham a cada 1 a 3 minutos. O pior é que a barraca estava num ângulo de cerca de 45º com o vento quando o máximo recomendado é 35º. Por isto panejava muito. Na dúvida, procurei suportar a lateral que recebia o vento enviesado a noite toda. Tirei a mochila vazia do vestíbulo e coloquei-a de encontro a lateral e dormi de lado forçando as costas contra a mochila e a parede da barraca. Volta e meia a parede da barraca me empurrava. Noite de cão. Torcia pelo amanhecer, esperando que a luz do dia amainasse o vento. Se a barraca rasgasse, eu mifu...Uma noite tentando sobreviver escondido entre as pedras...

Olhei mais de uma vez o céu. Estreladíssimo, sem nuvens. Não era uma tempestade chegando. Só um vento muito forte.

Dia 24/02/2010 – Laguna Blanca – Laguna Avutardas

Ao amanhecer nada do vento parar. Decidi me vestir e sair da barraca para inspecioná-la. Estava bem, nenhum dano visível nas costuras. Fui urinar de costas para o vento. Incrível! O jato de urina antes de chegar ao chão explodia em gotas que rodopiavam como num redemoinho. Algumas atingiam minha calça impermeável. Nunca vi coisa igual.

Entrei na barraca e coloquei tudo na mochila (no lado de fora era arriscado o vento carregar algo). Tiradas as coisas da barraca iniciei a delicada manobra de desmontá-la. Para uma barraca túnel esta tarefa é menos delicada que numa geodésica. Consegui desarmá-la, nunca esquecendo de manter pelo menos um cordolete preso a minha mão.

Em resumo, a barraca resistiu muito bem apesar de não estar bem alinhada ao vento. Uma das explicações da sua resistência deve ser o formato das varetas, em abóbada. Talvez pudesse ter até relaxado mais e não precisasse escorá-la contra o vento durante a noite. Uma geodésica não teria tanto este problema de alinhamento. Numa próxima vez eu sairia da tenda para a alinhar melhor ao vento logo no início da ventania, o que não é uma operação assim tão delicada.

Dois dias depois, já de volta a Pucón, soube que a ventania derrubou pequenas árvores. Tratava-se do viento Puelche (na lingua Mapuche, significa “gente do leste”), um vento de leste que desce das altas montanhas dos Andes durante a noite, provavelmente um vento catabático, como o famoso Bora. Pode atingir tranqüilamente 100 km/hora (será que foi isto que atingiu?).

Sai muito cedo, sem café, fugindo da Laguna. Voltei ao ponto onde deixei a trilha principal no dia anterior. O vento continuava forte. Segui rumo SE e depois S, penetrando num pequeno vale e contornando uma encosta a esquerda. Contornada esta subi uma ladeira noutra encosta, rumo NE. No topo percebi que era a encosta de uma cratera secundária de um vulcão extinto. No interior dela manchões de neve. O rumo nivelado passa a E, tendo a frente o vulcão Lanin, imponente. Ocorre aí uma coisa curiosa: entramos em território argentino e a trilha continua com a marcação da CONAF chilena! Desci para uma pequena bacia para logo em seguida subir, onde entrei novamente no território chileno. O mapa distribuído pela CONAF não mostra a entrada da trilha em território argentino.

O impressionante é que durante o trajeto inteiro o vento frio e forte batia de frente, mesmo quando a trilha fazia uma curva, parecia perseguição. Não tirei uma vez o agasalho. Apenas abria os zipers da frente e o axilar quando começava uma subida.

Bem, chegado neste ponto, dentro do Chile outra vez, se descortina uma vista deslumbrante. À frente à esquerda o vulcão Quinquilil, também conhecido como Colmillo del Diablo e ao centro, não sei se ainda dentro do Chile, umas montanhas escarpadas com agulhas, conhecido como Las Peinetas (os pentes). Ao lado, à direita, o Lanin. Dali em diante praticamente, só descida até Puesco. Fiquei pouco tempo neste mirante privilegiado porque o vento estava muito frio e forte.

Ao centro e fundo, las Peinetas.


O Lanin é escalado normalmente pelo lado argentino, a partir de San Martin de Los Andes. Uma escalada de 3 dias. Exige mais cuidado e esforço que a subida do Villarica, pois além de ter 1.200 metros a mais (tem 3.747 metros), é a montanha mais alta num raio de muitos quilômetros e os ventos patagônicos chegam ali com fúria.

Avista-se também, lá embaixo, por onde a trilha vai passar, um convidativo prado alpino, com córregos e flores amarelas (madecos). Algo idílico depois de um dia e meio quase só de areia e rocha.

Este prado na verdade é um charco. Ao final uns arbustos de lenga e uma bonita cachoeira onde parei finalmente para lanchar.



Depois descida por uma encosta, através de trilha as vezes enlameada. Gado transita por este sendero, formando lamaçais (pisada de gado estraga muito a trilha). Surge de repente a visão da Laguna Avutardas lá embaixo, a SE. O vulcão Lanin ao fundo.


À medida que descia o bosque fica mais bonito, com árvores mais altas. Em alguns trechos o chão está atapetado com framboesas, infelizmente ainda não maduras.

Acabada a descida chega-se num prado encharcado com alguns córregos. Errei o lugar de atravessar e meti o pé n’água. Entramos num bosque e segui por uma encosta por 10 minutos com a laguna avistada a direita, por entre as árvores. Uma descida a direita e parei na praia Leste do lago, uma praia estreita de cascalho. Laguna bonita, mas achei a Azul mais bonita.

Uma pequena trilha entre os arbustos sai da praia e vai para gramados ótimos para armar a tenda. Procurei um lugar BEEEEMM abrigado entre as árvores e montei a barraca. Fui para a laguna, botei o calção e mergulhei.

Os tábanos enchiam a paciência. Eram 15 horas. Voltei para a barraca e tirei uma soneca de duas horas (dormi muito pouco na noite anterior).

Depois fiz a janta, voltei ao lago, onde encontrei agora duas barracas montadas a beira da água, cada qual com uma pessoa. Estavam em volta de uma fogueira. Acenei, acenaram de volta. Voltei para a barraca.

Todas as cinco pessoas que vi no caminho (incluindo estas) faziam o sentido Puesco-Pucón e não o inverso, como sugerido pelo Lonely Planet. Suspeitava da razão, que só iria saber amanhã ao chegar a Puesco.

Noite tranquila, Affff!

25/02/2010- Laguna Avutardas – Puesco

Acordei 7 horas, pois não sabia o horário e a freqüência dos ônibus de Puesco para Pucón. Às vezes é complicado pegar ônibus num passo fronteiriço, assim é melhor chegar cedo.



Antes das nove, pé na trilha. Outro dia bonito. A sensação de mochila leve é maravilhosa. Passei junto a antigos pastos e entrei numa outra bela floresta de conto de fadas. Grandes carpinteiros (pica-paus) negros fazem o único barulho do bosque. Começa a descida. De alguns trechos visualizamos bem o vale do rio Puesco, que adiante se juntará ao Trancura, onde o pessoal faz rafting. O Colmillo del Diablo e as Peinetas aparecem emoldurados entre as árvores.


Com cerca de 2 horas chego numa estrada de terra. Viro a direita. A esquerda sobe para uma Guarderia do CONAF, creio que no começo do sendero para o vulcão Quinquilil. Vinte minutos depois passa um carro da Conaf, subindo. Provavelmente o pessoal da portaria, indo trabalhar.

Seguindo por uma hora através desta estrada passei a ouvir o barulho de carros na Ruta 119. Com mais um pouquinho uma pequena casa e a estrada. Esta Ruta é de terra e agora está em obras. Brevemente estará asfaltada. Os carros não são muitos. Para não descer em zig-zag pela estrada, procurei atalhos, sugeridos pelo Lonely Planet. Achei uns três, o último bem extenso. Foi o único momento que precisei usar a habilidade de procurar trilha, porque não eram batidas e sinalizadas. Ao final do 3º atalho a trilha se perdeu numa clareira. Gastei 10 minutos procurando sua continuação, me prendendo e me arranhando em plantas espinhosas, parecendo roseiras brabas (rosa mosqueta?).

Cheguei numa ponte. Ao lado um galpão, uma guarita e a placa “pare”, onde parou uma pickup argentina. Havia uma pessoa de colete ao lado. Cheguei à aduana, pensei. Mas era apenas uma guarita de controle de tráfego. A placa de pare ou siga é porque havia uma extensão de pista única devido as obras e era preciso controlar o tráfego com ajuda de um rádio. O sinalizador me informou que a Aduana ficava mais acima, mais perto do Paso Mamuil Malal.

Disse-me também que só havia dois ônibus. Um 8:00 e outro 17:00. Olhei o relógio. Em torno de 13 horas. Iria esperar bem até as cinco. E ninguém gosta muito de dar carona a um mochileiro sujo num passo fronteiriço... Por isso todo mundo que encontrei fazia o trekking no sentido contrário, e não como sugeria o Lonely Planet (o que já suspeitava).

O sinalizador viu um dos ônibus saindo e foi falar com o condutor e me chamou. O motorista disse que ia para Curarrehue, cidade a alguns quilômetros adiante, as margens do Trancura, onde poderia conseguir transporte fácil para Pucón. Cobrou 2.000 pesos. Na verdade era o ônibus prestando serviço à construtora. Estava recolhendo os operários na estrada para levá-los para almoçar em Curarrehue. Aproveitou para ganhar uns trocados. Mas fiquei muito feliz, pois não teria de esperar tanto. Sorte! Alguns minutos mais e não teria sequer este ônibus: por isso é bom sair cedo!

Fiquei tão feliz que ajudei a trocar o pneu do ônibus, quando ele furou adiante. Estava doido para chegar no Hostal, tomar um banho e comer um churrasco.

Em Curarrehue peguei logo um micro, 700 pesos até Pucón. Encheu o micro. Os chilenos são educados. Ainda oferecem os lugares para os idosos e mulheres.

Quarenta a cinquenta minutos de viagem. Ao sul observava o contorno das montanhas que havia percorrido nos últimos 6 dias, identificando algumas. Em Pucón o micro parou na esquina do hostal. Andei mais 50 metros e estava nele. Após o banho fui para uma churrascaria e comi um enorme (parecia comida para dois!) e delicioso assado de tira, como eles chamam a costela de boi (gaúcho, que entende de carne, é que sabe: nada de picanha, o negócio é a costela: gordurosa e suculenta!). Acompanhando uma deliciosa cerveja Pale Ale Kunstmann. Recomendo o El Fogón!!

A trilha estava bem deserta, apenas avistei cinco pessoas no sendero, em 6 dias, 81 km. Talvez porque já estávamos perto do final da estação. Lindíssima, deixo aqui meu testemunho de uma trilha com cenários deslumbrantes e bem sinalizada. O Chile é muito mais que TDP!

Abaixo algumas fotos do terremoto. Estava dormindo no ônibus na Panamericana, rumo a Santiago, quando o tremor de terra atingiu o veículo. Acordei achando que era uma buraqueira na estrada, mas o ônibus se movimentava de maneira estranha, balançava indo para os lados e não de cima para baixo como seria se fossem buracos.

Impressionante como o povo Chile é forte e eficiente. Agiram com muita tranquilidade. Talvez já estejam acostumados...
Soube depois que Pucón não sofreu muito com os tremores (epicentro foi mais ao Norte). Voltei no mesmo ano para o Chile e observei como os sinais do terremoto já eram poucos.

Peter

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 11/18/2015 14:36

Performed from 02/20/2010 to 02/25/2010

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Peter Tofte

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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