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Peter Tofte 20/04/2026 21:29
    Entre fiordes na Patagônia chilena

    Entre fiordes na Patagônia chilena

    Viagem de ferry entre Quellón (ilha de Chiloé) e Porto Chacabuco, Aysén. 30 horas de navegação por paisagens lindas.

    Navegação

    Na Trip Chile 2025 voltamos de Aysén pegando um ferry de Puerto Cisnes para Quellón. Gostamos da experiência. Ficou a ideia de descermos para Aysén (sentido inverso) na Trip 2026 num deles. É mais confortável, rápido e barato que descer pela Carretera Austral de ônibus, desde Puerto Montt.

    Pela beleza desta navegação decidi fazer um relato a parte para contá-la.

    As estradas de ripio e os vários ferrys que os ônibus tem que tomar baixam a velocidade média do percurso na Carretera. Outra coisa, os ônibus ao final do dia param numa cidade e dia seguinte fazem o percurso de volta. Assim os passageiros que querem seguir rumo sul também tem que pernoitar na mesma cidade e dia seguinte pegar outro ônibus.

    Mesmo assim vale a pena para conhecer ao menos uma vez toda a extensão da belíssima Carretera Austral.

    Nossa ideia era descer de Santiago até Puerto Montt de ônibus e lá pegar outro busão até Quellón, Sul da isla de Chiloé. De lá saem as barcaças (ferry) rumo Sul, para os canais patagônicos.

    Entretanto uma queimada de pastagem a beira da Transamericana gerou uma fumaça e um mega engarrafamento, atrasando em horas nossa chegada em Puerto Montt.

    Ao chegarmos descobrimos que os ônibus para Quellón estavam lotados e só a partir de 14 horas havia lugar. Não daria para alcançar o ferry para Puerto Cisnes que saía às 17 horas.

    Decidimos ir porque havia outro ferry 3 da madrugada para lá. O problema é que este levava muito mais tempo (19 horas) porque fazia várias escalas. Mas não havia outra opção. O que lamentei na hora se tornou uma grata surpresa.

    Comprei as passagens na Naviera Austral de Quellón com desconto de mayor (60 + anos) que faz o preço ficar igual ao de um chileno comprando. No Chile muita coisa tem preço diferenciado entre chileno e estrangeiro. Muitas vezes o estrangeiro paga o dobro.

    Fomos almoçar tardiamente num bom restaurante que conhecemos ano passado. Os frutos do mar são obrigatórios nesta região!

    Por do Sol. Píer de atracação dos ferries. Horas mais tarde ali embarcaríamos.

    Fria madrugada, três da manhã estávamos numa fila ao longo da calçada, na entrada do píer. Embarcamos na nave Queulat. Conseguimos um bom lugar. Como o ferry tinha muito assento vazio pudemos dormir confortavelmente atravessados em várias poltronas.

    Lucia dentro do saco de dormir no seu "camarote".

    A primeira parada, cedo na manhã, foi em Melinka, pequena cidade no arquipélago de las Gaitecas. Vivem da pesca e da criação de $$almões.

    Após rápida parada com desembarque e embarque de passageiros e veículos o Queulat partir em direção ao continente, para o Puerto Raul Marin Balmaceda, a cerca de 2 - 3 horas de navegação. Fica numa enseada tranquila, com bela praia. Ao fundo as montanhas do Parque Nacional Corcovado. O cordão de montanhas é magnífico.

    Veleiro solitário ancorado num lugar privilegiado.

    Breve parada. Zarpamos novamente por canais entre belas montanhas.

    Os ferries tem banheiros limpos e uma cafeteria razoável embora com preços salgados. Familias inteiras usam este transporte. Como tem espaço de sobra colocam colchões infláveis no chão para as crianças dormirem. Matronas pegavam tupperwares cheios de guacamole e preparavam sanduíches para os familiares. Os chilenos adoram guacamole. E assim fugiam dos preços elevados da cafeteria. Era quase uma festa.

    A escala seguinte parecia coisa de cinema, Puerto Santo Domingo, na bahía Cubillos. O ferry entrou numa pequena enseada e se dirigiu para uma praia. Mas cadê o porto e a rampa de veículos? O ferry simplesmente encalhou numa praia de pedrinhas negras quase deserta. Três pessoas e um cachorro esperavam os dois passageiros que saltaram e se abraçaram. Não dava para avistar mais que duas casas meio escondidas entre as árvores. Depois, no Google Maps, visão de satélite, só enxerguei 3 casas.

    Abraços no reencontro neste lugar remoto.

    Um quadriciclo puxando uma carretinha entrou de ré a bordo. Ali descobri outra curiosidade. O caminhão vermelho a bordo era um hub de distribuição de carga. Descarregaram dele parte da carga destinada aquele local.

    Ali deu para perceber porque este transporte marítimo é altamente subsidiado pelo estado chileno. Jamais aquela escala entraria numa rota comercial se dependesse apenas da receita gerada pela carga e passageiros. Aysén tem estes subsídios já que é a região mais inóspita e menos habitada do Chile.

    Nos, como passageiros, usufruíamos deste subsídio. A viagem seria muito mais cara não fosse por ele.

    Rumo a próxima escala. Os canais profundos e estreitos permitiam passar junto a belas montanhas.

    No Google Maps visão de satélite é possivel ver como estes canais cheios de ilhas e costas acidentadas praticamente não tem habitantes. São densamente florestadas e montanhosas. Na maioria são áreas de preservação (parques nacionais).

    Aqui e acolá fazendas de salmão as margens dos canais e fiordes.

    A parada seguinte foi Melimoyu. Aqui havia uma rampa.

    O vulcão Melimoyu aparece, mas o cume está encoberto pelas nuvens.

    Desta vez entrou de ré um caminhão maltratado que parecia ser da época da 2ª guerra. Pegou a carga destinada a esta escala, transferida do caminhão hub.

    Nestas paradas eu sempre saltava para tirar fotos. Ali um casal de mochileiros chilenos saltou do ferry. Puxei conversa. Eles esperavam carona do caminhão para irem até a vila, que tinha até hostel. Me contaram que queriam fazer uma trilha até a base do vulcão Melimoyu. O Parque Nacional de mesmo nome não tem trilhas habilitadas. Mas também não tem guarda parques da CONAF para fiscalizar. Assim eles iriam desfrutar daquela paisagem bem selvagem. Deu vontade de chamar Lucia e também saltar ali para seguí-los.

    Perto do final da tarde chegamos noutra escala, Puerto Gala, o mais pitoresco de toda a jornada. Parecia que a maior parte dos passageiros saltaria ali.

    Perto de atracar na rampa um frenesi de barcos começou a rodear o Queulat.

    A rampa do ferry ficava numa ilhota e a vila de Puerto Gala numa ilhota vizinha separada por um estreito canal. Daí a necessidade dos barcos para fazer o transfer. Vieram buscar os passageiros e carga e passar para a barcaça pescado em caixas de isopor. Soubemos depois que o lugar era um famoso porto pesqueiro.

    A algazarra das famílias desembarcando tomou conta do atracadouro. Um sofá e outras cargas sairam pela lateral do ferry para as embarcações encostadas.

    A vila parecia uma mini Caleta Tortel, sem a fama daquele local. Outro lugar que deu vontade de saltar para passar uns dias.

    Notem o estreito canal entre uma ilhota e outra.

    Cachorros entravam desinibidos no ferry. Percebemos que os tripulantes tocavam eles para fora e os cães retornavam. Aí os marinheiros pegavam uma porção de ração canina que tinham a bordo (já separada para esta finalidade) e colocavam do lado de fora da embarcação para atrair a cachorrada. E assim podiam levantar a rampa e zarpar sem os novos passageiros de 4 patas.

    Eu e Lucia não cabíamos de contentes por descobrir um lugar tão diferente, alegre e bonito.

    Puerto Gala sumindo no horizonte.

    Mais canais, fiordes e ilhas/ilhotas. O próximo Porto seria nosso destino, Puerto Cisnes.

    Lucia me chamou e deu uma sábia sugestão. Iríamos chegar em Puerto Cisnes apenas 23 horas (uma hora de atraso) para ainda procuramos um hostel. Neste horário não haveria onibus para Coyhaique (nosso destino final) e mesmo que houvesse chegariamos na capital de Aysen no meio da madrugada para procurar hospedagem. Assim sugeriu: porque não saltarmos em Puerto Chacabuco, destino final do ferry, pagando a bordo a diferença da passagem? A previsão de chegada era 9 da manhã. Ali estariamos mais perto de Coyhaique. Apenas teríamos que passar mais uma noite a bordo.

    Achei excelente a ideia. Abordei um tripulante para perguntar como pagar a diferença. Ao lado dele estava o comandante que me explicou que simplesmente deveria procurar o oficial encarregado no escritório dele.

    Quando finalmente encontrei-o, expliquei a situação. Ele me pediu nome e poltrona e disse que mais tarde me procuraria. Até hoje estou esperando este oficial. Creio que, como é altamente subsidiado este transporte, não faz a mínima diferença para eles.

    E Lucia me avisou que o banheiro com duchas estava funcionado. Quando chegamos a bordo estava fechado, provavelmente para limpeza.

    Abri a mochila e rapidamente separei o kit banho e corri para a ducha. Limpinho, água quente, que maravilha. Lucia foi em seguida se banhar.

    Avistamos Puerto Cisnes no escuro. Boas lembranças de 2025.

    As escalas seguintes, de madrugada, Puerto Gaviota e Puerto Aguirre, não vimos. Estavamos dormindo.

    O dia amanheceu nublado e chuvoso. O fiorde onde fica Puerto Chacabuco é grande e largo.

    Dia nublado realçando a natureza selvagem destes fiordes.

    Cascatas despencavam das montanhas devido as chuvas.

    Ao chegarmos em Puerto Chacabuco o desembarque demorou um pouco pois primeiro devem sair os veículos.

    Na saída do porto um micro ônibus esperava os passageiros para Puerto Aisén. Pegamos ele porque não havia ônibus direto para Coyhaique. Na cidadezinha pegamos outro para nosso destino. Em Coyhaique nem saímos da rodoviária. Outro ônibus para Puerto Ibañez e ferry para Chile Chico onde nós esperavam os amigos Ramon Quevedo e Paula Yamamura (Mochilão Sabático) de onde partimos para fazer trilhas (ver relatos).

    Foi uma viagem de ferry inesquecível, muito legal, confortável e no precinho. Numa próxima vez penso em descer nos portinhos que mencionei. Me pergunto quantos brasileiros já fizeram trilhas nestes lugares.

    Dedicado a Lúcia que sempre está aberta a novas aventuras e é ótima conselheira nestas viagens!

    Peter Tofte
    Peter Tofte

    Publicado em 20/04/2026 21:29

    Realizada de 15/02/2026 até 16/02/2026

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    4 Comentários
    Paulo Lima 09/05/2026 16:47

    Boa tarde Peter. Voce faz parte da equipe de administradores do site?

    Peter Tofte 10/05/2026 16:45

    Oi Paulo. Não.

    Peter Tofte 10/05/2026 16:46

    Renan Cavichi e Fábio Fliess são administradores

    Paulo Lima 15/05/2026 19:18

    blz, obrigado

    Peter Tofte

    Peter Tofte

    Salvador, Bahia

    Rox
    4363

    Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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