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Itaetê - O Lado B da Chapada Diamantina

Itaetê - O Lado B da Chapada Diamantina

Trekking de 3 dias numa região pouquíssimo conhecida da Chapada Diamantina, com cânions e cachoeiras espetaculares.

Waterfall

Everybody needs beauty...places to play in and pray in where nature may heal and cheer and give strength to the body and soul alike.

John Muir, 1838-1914

Cânions, cachoeiras espetaculares e muita vida selvagem. O lado Leste da metade Sul do Parque Nacional da Chapada Diamantina, dentro do município de Itaetê, é o menos visitado devido ao acesso difícil e a pouca infraestrutura turística. Alguns dizem que é o lado B da Chapada. Nas suas belas trilhas encontramos rastros e outros sinais recentes de veados, onças, jaguatiricas e outros animais.

A mídia tem mostrado este ponto como a “novidade da Chapada” (Folha, 2013 e Globo Repórter, 2015). O turismo de massa da região de Lençóis ainda está longe de chegar a esta região (assim espero!).

Lancei no zapzap do Grupo Bushcraft Bahia a proposta de fazer um trekking na região de Itaetê, idéia que vinha ruminando a cerca de três anos. Ligia Leal e Miguel Moraes atenderam ao chamado. Passamos três dias neste local belíssimo.

Foi muito em cima a decisão de ir. Mas as melhores viagens as vezes acontecem sem muito planejamento. Agradeço ao Eduardo Borges (Duda), grande conhecedor da região, por ter disponibilizado informações, o contato com o guia Orlando e o GPS.

Farei três relatos, cada qual para um dia/uma cachoeira. Voltamos com uma alegria e energia incríveis desta região.

1º dia – 28/10/2016

Fomos acordados cedo, por volta de 6 horas, pelo som alto de uma canção de Alceu Valença, colocada propositalmente pelo guia Osvaldo, em cuja casa dormimos. Estávamos ainda sonolentos, porque chegamos quase meia-noite no povoado de Baixão, no município de Itaetê, vindos de Salvador. Miguel veio de Lençóis e encontrou-se conosco em Andaraí.

Café tradicional da roça muito bom. Saí para rua e observei, a Oeste, as paredes da Chapada Leste, para onde nós iríamos. No Baixão, um povoado seco e pobre (acho que o único carro era o nosso, o restante, motos) predominava um barro vermelho e fino num solo seco, com vegetação típica de caatinga.

Partimos de carro para a cachoeira da Encantada seguindo o Orlando, que dirigia sua moto. Atravessamos o rio Una numa ponte precária. Duas estacas impedem que um carro maior (mais largo) passe. Para a própria segurança do veículo, já que a ponte não suporta muito peso. Logo depois estacionamos num descampado. Dali ao rio e a boca do cânion, levamos cerca de 20 minutos andando.

Cruzamos o rio Timbozinho (assim que os nativos o chamam). É o rio do cânion e da cachoeira. Dali uma breve subida num morro pela margem esquerda verdadeira, para evitar nadar na piscina do cânion da Encantada (neste trecho é impossível passar andando, devido ao desfiladeiro estreito). Nossa natação nesta piscina ficaria para outra ocasião.

Eu, Ligia e Miguel no começo do cânion.

Descemos de volta ao leito do rio e retiramos a bota, vadeando por um breve trecho. Até o final do cânion não houve mais necessidade de tirar o calçado.

Passamos por uma sucessão de cenários lindos com lajeados e piscinas, árvores frondosas nas margens, com direito a pinturas rupestres num paredão rochoso.

Fazia calor e a vontade era mergulhar em cada piscina que aparecia pela frente. Orlando nos indicava as opções de acampamento, inclusive o local mais seguro no caso de uma tromba d’água, por ter uma das únicas rotas de fuga (a fenda) para sair do cânion, cercado de íngremes e altos desfiladeiros. Pesados troncos largados em cima das pedras, vários metros acima do rio, indicavam uma violenta tromba d’água passada.

Chegamos no fundo do cânion após cerca de 2 horas de caminhada. O cenário nos deixou boquiabertos. Apareceu a Encantada, até então escondida numa curva à esquerda.

É a terceira mais alta cachoeira do Parque e, na minha opinião (13 aninhos de Chapada), a mais bela, pelo seu entorno. Miguel também ficou impressionado, apesar dos 30 anos percorrendo a Chapada. As fotos que ilustram este relato, tomadas por um smart phone, não conseguem captar a grandiosidade e beleza do local. É necessária uma lente grande angular. Ela merece seu nome!


Tomamos um banho frio. O poção da Encantada deve pegar sol apenas quando ele está a pino, por volta do meio-dia. Não caia muita água (muitos dias sem chuva). As correntes de ar faziam a queda de água dançar. O ponto de impacto no chão mudava. Parecia a queda d’água de um chuveiro muito forte. Ficamos no lajeado perseguindo o ponto onde a água iria cair. Uma forte chicotada no corpo mostrava o efeito da aceleração da gravidade nos 230 metros de queda. Andorinhas faziam acrobacias no céu acima da cachoeira.

Lanchamos. Orlando nos mostrou pedras que cairiam recentemente do paredão e que matariam tranqüilamente um azarado que estivesse no local errado, na hora errada. Algumas paredes do cânion eram negativas. Falou que encontrou certa vez o corpo disforme de um veado e, noutra ocasião, de um grande teiú. Ambos despencaram da borda 230 metros acima. Do que fugiam, para correrem desesperados e caírem no abismo? A resposta é óbvia.

Voltamos para um ponto onde Orlando sugeriu acampar. Ele avisou que uma tromba d’água poderia eventualmente deixar-nos presos por cinco dias naquele local. Era fácil perceber que ele não exagerava. Ele então nos deixou e voltou para sua moto e seu rancho no Baixão.

Minha toca.

Tivemos uma das mais deliciosas noites que passamos ao ar livre. Temperatura agradável num lajeado onde fizemos uma pequena fogueira, preparamos a janta e conversamos muito. Miguel com seus causos e Ligia com sugestões culinárias/veganas. Tomamos banho a noite na pequena cachoeirinha em frente ao lajeado em que estávamos. Só faltava uma lua cheia!

2º dia – 29/10/2016

Dia seguinte acordei primeiro, antes das 6 horas, porque estava bivacando debaixo de um bloco de pedra e os demais em suas barracas. Tratei de adiantar o meu café. Ligia apareceu e ficou algum tempo contemplando a cachoeira. Nenhum hotel 5 estrelas tem aquela vista!

Saímos do acampamento as 8:20 porque o rendez vous combinado com Orlando seria no estacionamento do carro, às 10 horas. Chegamos na verdade por volta de 11 horas, porque tomamos um ultimo banho no rio, logo a saída do cânion.

Pouco depois partíamos para a cachoeira do Herculano, outra jóia preciosa desta região (2º relato).

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 11/03/2016 10:07

Performed from 10/28/2016 to 10/30/2016

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7
Alberto
Alberto 11/03/2016 10:20

Bom demais! Não tive a oportunidade de pernoitar neste local. Espero fazer isso algum dia :D

Peter Tofte
Peter Tofte 11/03/2016 10:35

Você fez falta Alberto!

Fabio Fliess
Fabio Fliess 11/03/2016 16:31

Sensacional Peter!!! Seu relato mostra o quanto de belezas escondidas (e esperamos que preservadas) ainda existem no nosso Brasil. Parabéns!

Peter Tofte
Peter Tofte 11/03/2016 17:42

Valeu Fabio! Mas as vezes me pergunto se deveria divulgar ou não. Muitas vezes a melhor garantia de preservação é que permaneça escondida.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 11/03/2016 20:36

Entendo Peter! Eu sempre quero acreditar no "conhecer para preservar", mas isso depende quase exclusivamente da educação de quem visita!

Ernani
Ernani 11/04/2016 19:30

Massa Peter! Só pude ler hoje o relato e bateu um arrependimento enorme, por não ter ido com vocês.

Peter Tofte
Peter Tofte 11/04/2016 20:23

Ernani, desconte em Morro do Chapéu!! Senti falta dos seus causos. Seu conhecimento mateiro ia ser muito bom, principalmente no 3º dia.

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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