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Novos naufrágios de Salvador.

Novos naufrágios de Salvador.

Explorando os novíssimos naufrágios artificiais de Salvador um dia depois de serem afundados! Com László Mócsari e o Cel. Lusquinhos.

Diving

I came to explore the wreck.
The words are purposes.
The words are maps.
I came to see the damage that was done
and the treasures that prevail.
I stroke the beam of my lamp
slowly along the flank
of something more permanent
than fish or weed

Diving into the wreck, Adrienne Rich

Dia 21 de novembro de 2020 foi um dia histórico para o mergulho baiano. Finalmente foram afundados o ferry boat Agenor Gordilho e o rebocador Vega, depois de anos para vencer uma grande burocracia. E assim repetir a experiência de sucesso de Pernambuco, que já conta com diversos naufrágios artificiais. Apesar do atraso a Bahia iniciou em grande estilo: o ferry é o maior naufrágio artificial do Brasil.

Estes navios foram rigorosamente limpos e todos os elementos poluentes foram retirados, sendo submetido a diversas inspeções, inclusive do órgão ambiental baiano. Além disto os pontos onde um mergulhador poderia ficar preso foram eliminados. Os naufrágios artificiais em poucas semanas se convertem em santuários da vida marinha e são fomentados como uma prática ecológica por diversos países, com suporte científico de biólogos marinhos. Ainda assim é impressionante a desinformação de uns poucos coitados que acham que isto é jogar lixo no mar.

Dia 22/11, dia seguinte pela manhã, eu, László e o Coronel Bombeiro Lusquinhos com uma equipe do grupamento marítimo dos bombeiros estávamos lá para conferir.

Preparando equipamentos antes de zarpar.

Decidimos cair primeiro no Vega deixando a primazia do Agenor Gordilho para a equipe da Shark Dive, responsável por estes belos naufrágios (ao final do relato estão os créditos). Eles estavam a bordo do belo catamaran da Shark Dive enquanto estávamos na lancha Blue do László.

Emparelhamos com a embarcação deles e trocamos cumprimentos. Igor Carneiro, Bruno, Marquinhos, Chango, todo o staff da Shark Dive estava presente, com convidados. Marquinhos (Marcos de Paula) da Shark não pode deixar de observar minha roupa de neoprene surrada e rasgada. Insinuei que precisava de um emprego na operadora deles kkkkk. Roupa novinha muita vez é sinônimo de mergulhador novato, bola da vez dos problemas em mergulhos mais técnicos. Assim fico com uma nadadeira atrás quando vejo alguém muito arrumadinho e tenho orgulho da minha roupa “veterana”.

Marquinhos, figura lendária do mergulho baiano, foi quem abriu as válvulas de fundo das embarcações, afundado os navios ontem. Estava desde o início trabalhando neste projeto. Por estes afundamentos acho que ele é mais perigoso que um submarino alemão na 2.ª guerra.

Eu, Lusquinhos e László, com rebreathers, tivemos a honra de sermos os primeiros a cair no Vega e a água estava sensacional, visibilidade de 30 metros, ele bem destacado no fundo de areia em posição de navegação. Vimos a grande cratera que o rebocador fez na areia do fundo, ponto de impacto, porque ele afundou de popa, com a proa ficando bem na vertical fora d’água antes de descer velozmente para o fundo, desaparecendo sob as ondas.

Começamos a percorrer este belo ex-rebocador da Petrobras, entrando por portas, subindo escadas a nado e descendo para o porão e sala de máquinas. Ele possui 3 conveses incluindo a ponte de comando e mais dois conveses abaixo do principal. Observamos o excelente trabalho de limpeza efetuado nele, sem pontos de enrosco para mergulhadores.

László entre os hélices e os lemes do Vega.

Identificação do rebocador na ponte de comando.

Popa, embaixo do casco.

Lateral do Vega, com hélice em primeiro plano.

Desenho do rebocador Vega.

A equipe dos bombeiros desceu em seguida e se encontrou conosco quando já tínhamos 25 minutos de fundo pois estavam com circuito aberto, o que dá uma autonomia bem menor. Quando subimos, após 47-50 minutos, eles estavam já no cabo de âncora fazendo descompressão.

Este grupamento dos bombeiros é o responsável pelo salvamento de pessoas em ambientes aquáticos e pelo resgate de cadáveres em acidentes marítimos, fluviais e lacustres. Precisam se acostumar a estes ambientes com teto. Espero que nunca precisem resgatar o corpo de um mergulhador nestes naufrágios (vide advertência abaixo).

Decidimos ir para o ferry quando notamos que o catamaran da Shark estava saindo de lá e rumando para o Vega, vindo em nossa direção. Trocamos mais palavras e era visível o sorriso de todos a bordo, sinal que o mergulho foi bom.

Bom nada, foi excelente!

Caímos no ferry, aquele bichão de 71 metros de comprimento, 20 metros de altura e quase 14 de largura, com 5 decks. Quando chegamos no fundo de areia vimos aquele “prédio” a 50 metros de distância. Por muitos anos transportou milhares de baianos e seus veículos entre Salvador e Itaparica até se tornar obsoleto. Viraria sucata, fim triste dos navios. O turismo subaquático traz muito mais retorno que a sucata. A maneira mais honrada de um navio terminar seus dias é no mar, afundado.

Um fim honrado. Proa do Agenor.

Percorremos durante uma hora os diversos compartimentos, inclusive entramos na escura sala de máquinas. Trabalho perfeito de limpeza e preparação. Reconheci o salão dos passageiros com o balcão da lanchonete e algumas mesas e cadeiras de aço, fixadas ao convés. No passado cheguei a viajar neste ferry algumas vezes.

Escadas e corredores.

Um dos hélices do Agenor Gordilho.

Muita coisa para percorrer. Aberturas foram feitas com solda para iluminar e permitir fácil passagem (e saida) de mergulhadores.

László passando entre a ponte de comando de popa e uma das chaminés.

O ferry é tão grande que necessita provavelmente 3 horas submerso em circuito fechado ou 10 mergulhos em circuito aberto para conhecê-lo por inteiro.

Como os navios foram afundado na véspera havia pouquíssimo silt (sedimento) no seu interior. Assim nadei sem maior preocupação com técnicas de natação para evitar suspensão (nado tipo frog por exemplo). Daqui a um mês provavelmente os mergulhadores terão que usar estas técnicas se não quiserem diminuir a visibilidade no interior dos navios (o que pode prejudicar a segurança deles pois podem não encontrar a saída).

Ao emergir, fizemos em torno de 10 minutos de descompressão, embandeirados, pois a corrente de maré de vazante estava forte nesta altura. Subimos a bordo da Blue pouco depois do meio-dia. O catamaran da Shark já havia saído do Vega e voltado para o Cenab, sua base.

Naufrágios lindos, dois mergulhos excelentes, e os primeiros de tantos que a comunidade de mergulho baiana e turistas farão nestes locais!

AGRADECIMENTO

Registro aqui todo o esforço, por cinco anos (isto mesmo, 5 anos!) que Igor Carneiro fez para conseguir concretizar estes 2 naufrágios artificiais em Salvador. Inúmeras audiências, viagens a Brasília, obtenção de licenças, autorização da Marinha, Inema, obtenção de patrocínios, além do processo árduo de limpeza e preparação dos naufrágios. A equipe da Shark Dive, da qual é sócio-proprietário, sempre ao seu lado, neste trabalho difícil. A Marquinhos, Bruno e Chango também meu reconhecimento.

Igor com o ferry adernando ao fundo.

Recomendo muito esta operadora, a Shark Dive, por seu profissionalismo e, especialmente, se desejarem mergulhar nestes naufrágios. Afinal eles são os que mais conhecem estas embarcações afundadas e fizeram a primeira operação comercial de mergulho nelas.

ADVERTÊNCIA

Mergulhos em ambiente com teto são técnicos e mais arriscados e devem ser feitos por mergulhadores treinados e/ou acompanhados por dive masters experientes e devidamente equipados. O grau de penetração nestes ambientes depende do nível de treinamento. Especialmente nos decks inferiores e na sala de máquinas onde a escuridão reina.

O bom é que o ferry é tão grande que a depender do nível e treinamento do mergulhador ele pode mergulhar em um ou mais decks e profundidades.

OBSERVAÇÕES

A grande vantagem destes naufrágios é que estão apenas no máximo a 20 minutos de navegação, em águas calmas (dentro da Baía de Todos os Santos, em frente ao Iate Clube). O turista não perde o dia inteiro na navegação e no mergulho. Os mergulhos devem ser feitos no estofo da maré, de preferência preamar e maré morta (lua em quarto crescente ou minguante).

As imagens do vídeo são do grande mestre László Mócsari.

Houve uma boa repercussão na mídia e parece que agora o pessoal se conscientizou da importância destes naufrágios provocados. O ferry Juraci Magalhães deve ser o próximo afundamento.

Odoya Iemanjá!

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 11/23/2020 17:40

Performed on 11/22/2020

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512

3
Paula @mochilaosabatico
Paula @mochilaosabatico 11/25/2020 09:16

Caramba! Vc não perdeu tempo!

Peter Tofte
Peter Tofte 11/25/2020 09:31

KKKKK. De férias!

Jose Antonio Seng
Jose Antonio Seng 12/17/2020 20:49

Excelente programa !

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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