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Peter Tofte 24/08/2023 14:08
    SALKANTAY

    SALKANTAY

    Trekking de 4 dias, passando ao lado de picos nevados e florestas tropicais de altitude. Bela maneira de chegar a Machu Picchu.

    Trekking Montanhismo

    "Estoy en las entrañas de la Ciudad Sagrada y rozo el cimiento de la perfección de la piedra"

    Eloy Jauregui - Crema carnal


    Esta trilha foi feita com uma agência de trekking de Cusco. Além de não ser caro, ainda temos algumas mordomias e facilidade para comprar ingresso para Machu Picchu com antecedência. Amigos que foram por conta própria não conseguiram ingresso de última hora.

    Dá para fazer independente, tomando o devido cuidado com a aclimatação.

    Eu e Lúcia chegamos em Lima 25/07 e voamos para Cusco 26/07. Paulo, amigo de Salvador, chegou na capital também em 25/07 e tomou um ônibus para Cusco no mesmo dia. Tivemos 4 dias para aclimatar na cidade (3.300 metros). Mesmo a altitude de Cusco pode acarretar Mal de Montanha. O soroche é comum. A câmera hiperbárica da cidade é muito usada. Há casos de pessoas idosas que faleceram.

    Fizemos duas excursões de um dia cada, para ajudar neste processo: 1. Moray (laboratório agronômico inca) com Salineras (extração de sal desde a época pré-hispânica).

    Moray - laboratório inca.

    e 2. Waqrapucara, fortaleza inca a 4.600 m de altitude (foto acima). Esta última foi bem cansativa pois durou o dia todo (de 04:30 até 19:30 hr) e haja estrada de terra serpenteando entre as montanhas. Custou 100 soles (135 reais!!! Vc não paga isto no Brasil!). A fortaleza e o visual do cânion são impressionantes. Este atrativo foi aberto há apenas 2 anos.

    No dia de Salkantay a van nos pegou no hostal as 6:30 e fomos para Mollepata. Na estrada já dava para ver o belíssimo nevado Salkantay. No vilarejo pagamos o ingresso e tomamos nosso café.

    Mais uma hora e meia de estrada de terra e saltamos em Challacancha (3.600 m). Colocamos nossas mochilas e subimos em zig zag uma elevação de 100 metros até atingirmos um canal d'água de irrigação, cujo traçado original foi feito pelos incas. Subi arfando apesar de não ser ladeira acentuada.

    No começo só avistamos o nevado Huamantay. Salkantay fica escondida a direita, num vale adiante.

    Seguindo o bonito canal chegamos em Soraypampa por volta de 13 horas onde fomos acomodados em chalés. Eles tinham teto e parede envidraçados. Deitados na cama avistavamos o Salkantay de frente, lugar privilegiado.

    Almoçamos no salón comedor e eu e Paulo Henrique subimos para a laguna Huamantay (4.200 m) junto com os outros membros do grupo (um casal francês e quatro mexicanos). Lucia e uma francesa preferiram descansar nos chalés.

    Subida lenta, sofrida. Paulo ficou para trás, acompanhado pelo guia. Ele sofreu muito na trilha inca a 5 anos atrás. À época, o guia deu os parabéns ao final pois achava que ele não conseguiria completar o trajeto. Aclimatação é um grande mistério. Paulo, com 36 anos, é bastante forte (malha diariamente em academia e faz exercícios aeróbicos) enquanto eu, com 60 anos, faço apenas pilates. Assim a preparação física não representa fator muito significativo para a aclimatação. Alguns organismos se adaptam melhor e mais rapidamente. O porquê ainda não sabemos. Todos os três tomamos Diamox (acetalozamida) para ajudar neste processo.

    A laguna é muito bonita e valeu a visita.

    Avistei uma senhora nos seus 75 anos e uma mãe com bebê no colo, todos nativos da região, também descendo da laguna. Não precisava humilhar, pensei! Pessoal aclimatado a altitude é outro nível.

    Eu e Paulo baixamos juntos.

    No acampamento, já dentro do chalé, banho com baby wipes. Depois, jantar no salão. Frio de 5 a 7° C. Mexicanos alegres, 2 rapazes e 2 moças, cantavam e brincavam muito.

    A noite estava deslumbrante, a lua cheia fazendo a neve no Salkantay brilhar bonita. Tiramos fotos.

    Salkantay, parecendo uma noiva toda de branco. O passo fica logo antes do nevado, a esquerda. Os chalés aparecem em 1º plano.

    Muito feliz com a visão da montanha!

    Dia seguinte, ainda escuro, fomos acordados com batidas na porta e canecos de mate de coca. Seria nosso modo de despertar em todos os acampamentos, não só aqui como em Ausangate.

    Após o desayuno partimos para o passo Salkantay, 7 km de subida, para chegar aos 4.630 m. Depois teríamos mais 15 km de descida até nossa próximo local de dormida.

    Lucia e Paulo fretaram cavalos. Foi a melhor decisão pois não estavam bem para enfrentar a altitude a pé. Eu fui caminhando. Na rabeira do grupo, mas fui.

    Subidinha...

    Paulo estava com desinteria. Não sei se pela altitude, pela comida ou ambos. O sangue fica mais espesso devido a criação de mais hemácias para transportar o oxigênio que falta (adaptação do organismo para aclimatar). A desidratação pela desinteria torna ainda mais espesso o fluido sanguíneo, dificultando o processo.

    Pequena parada em Salkantaypampa (4.100 m) onde tiramos fotos pulando.

    Outra em Soirococha a 4.400 m, após uma subida mais íngreme. Nesta parada, ao lado de uma pequena laguna, lanchamos.

    Observei um grupo de alemães com mochilas carregadas, fazendo de forma independente. O guia me disse que alemães, franceses e noruegueses são os mais rápidos e preparados nestas trilhas. Montanhistas que tem os Alpes e as montanhas da Noruega a disposição.

    De lá, mais 230 metros, e estavamos no passe, o Abra Salkantay. Cheguei antes das duas mexicanas. Lucia e Paulo chegaram logo em seguida, embora mais rápidos, partiram depois com os cavalos. Muitas pessoas bem jovens também usavam cavalos. Provavelmente não tiveram tempo para aclimatar.

    Alegria e muitas fotos. Nosso grupo era muito legal. O guia Guilhermo fez uma preleção sobre a trilogia inca (condor-céu, puma-terra e serpente-subterrâneo) e em seguida pediu para fazermos uma oferenda de folhas de coca ao Apu Salkantay.

    Por sinal, ontem e hoje, botei folhas de coca providenciadas por ele na boca. Ajuda! Não devemos mascar. A saliva deve desintegrar as folhas na boca. Também aspiramos um perfume que ele brincando diz ser urina de condor, para abrir os pulmões. Também achei ter um efeito positivo, mas momentâneo.

    O Paulo trouxe na mochila um pouco de oxigênio que comprou em Cusco.

    Eu, Lúcia e Paulo iniciamos primeiro a descida para o outro lado. Os dois tem problemas no joelho e o descenso é mais lento. Quinze km baixando!

    Vista para o outro lado do passo, por onde desceriamos.

    Guilhermo ficou conosco um bom tempo avisando aos demais, mais rápidos, onde seria nosso almoço e onde eles deveriam esperar. No caminho, mostrou um ponto onde uma grande avalanche desceu o Salkantay e percorreu vale abaixo, arrasando casas e matando 20 camponeses. Isto em fevereiro de 2020. O trabalho de resgate dos corpos foi interrompido pela pandemia, que iniciou em março de 2020. Até hoje estão sepultados debaixo do amontoado de terra e pedras. Se vê claramente o rastro da destruição, como se fosse um leito de rio seco, apenas pedras e terra.

    Atrás de nós, na foto, o vale da tragédia.

    As áreas montanhosas tem um histórico de desastres naturais. O maior deles foi em Yungay (região de Huaraz) , no terremoto de 1970, onde uma cidade inteira desapareceu, soterrada.

    Descemos até um pampa onde Lúcia e Paulo puderam usar um banheiro público (leve sempre o papel higiênico e tenha moedas de 1 sol).

    Mais adiante encontramos o grupo em Rayannioc, num restaurante simples, onde eles tinham acabado de almoçar. Eu, Paulo e Lúcia, fizemos o 2° turno da comida.

    Compramos água mineral e continuamos a baixar.

    A vegetação no vale ficava cada vez mais luxuriante. Árvores com musgos, barba-de-velho e orquídeas. Era uma mata tropical de altitude. A nossa direita, bem abaixo, o rio.

    Em alguns trechos o rio escavou o barranco na época das chuvas (verão) carregando a trilha e obrigando o povo a reconstruí-la. Dava para perceber a erosão nos barrancos.

    Linda paisagem, lindo vale.

    Ao contrário de Paulo, eu estava com prisão de ventre. Mas, pelo sim, pelo não, quando ia ao baño inca (na mata ou atrás de pedras) me agachava para urinar a moda feminina. Vai que....kkkkk.

    Lucia estava lenta e escureceu antes de chegarmos ao destino. Usamos as lanternas de cabeça. Emprestei uma para Guilhermo, sempre gentil e prestativo, nos acompanhando.

    Chegamos a Chawllay (2.900 m) por volta de 19 horas. Foi o tempo de largarmos as coisas no quarto (era uma pousada, com quartos sem banheiro privativo) para ir jantar.

    A comida era ótima. O padrão aqui é uma sopa seguida de prato principal e, as vezes, sobremesa. Adorava quando o suco era chicha morada (feito de milho com cor de uva). Sempre havia mate de coca a disposição.

    Ainda consegui tomar um banho quente com a água que restava no aquecedor a gás, que pouco antes foi desligado. Lúcia, em seguida, tomou banho frio. Coragem!

    Acordamos outra vez no escuro depois de uma noite bem dormida. Após o café descemos para o encontro dos rios (cujo vale seguimos no dia anterior). No caminho Guilhermo mostrou as plantas que eram usadas pelos xamãs para fazer o ayahuasca.

    Lucia decidiu descer de carro junto com os cozinheiros, até onde iríamos almoçar. Eu, Paulo e os demais continuamos a pé.

    Logo após cruzarmos o rio havia uma subida bem acentuada. No topo, paramos para descanso e Guilhermo pegou uma frutinha e pintou nossas faces com uma cor avermelhada. No meu rosto um símbolo inca de grande cacique. Demos muita risada.

    Chawllay ao amanhecer.

    Prosseguimos descendo o vale, com vegetação cada vez mais rica. O rio formava belas praias de água gelada lá embaixo, Torres de alta tensão mostravam que não estávamos longe da hidroelétrica.

    Cascatas vindo de quebradas laterais.

    Belas paisagens.

    Os mexicanos foram na frente, instruídos a parar e esperar no primeiro povoado adiante. Os três franceses sairam cedíssimo de taxi para tentar chegar em Águas Calientes o mais rápido possível para tentar comprar os ingressos de Machu Picchu (não tinham comprado com a agência). Esta época é altíssima estação pelo feriado da independência do Peru coincidindo com férias escolares. Assistimos na TV as longas e demoradas filas de espera para comprar ingressos.

    No começo da tarde chegamos ao ponto de cruzamento do rio, precária ponte de madeira.

    Na outra margem uma van nos esperava e nos deixou no local de almoço onde reencontrei Lúcia. Ótima refeição num lugar agradável, que incluia ceviche de truta. Optamos por escolher o roteiro de 4 dias convencidos pelo dono da agência. De fato, teríamos que percorrer um trecho de estrada de terra poeirenta e subir 700 m por uma floresta com plantações de café e bananas até LLactapata, a 2.700 m (acampamento). Nada que não conhecessemos na Bahia. Os amigos Paula Yamamura e Ramon Quevedo (Mochilão Sabático) que foram independentes, 2 ou 3 dias após, disseram que o lugar de acampada é lindo. Mas não queríamos andar aquilo com calor e poeira.

    A van passou pela cidade de Santa Tereza e dobrou para a hidroelétrica onde saltamos e percorremos o trecho final as margens da ferrovia, 2 a 3 horas de caminhada até nosso hotel em Águas Calientes. Nas mochilas roupas para a noite e o dia seguinte em Machu Picchu. O restante da bagagem, que estava com os arrieros, seguiu para Cusco. Mesmo o trecho ao longo dos trilhos é muito bonito, com uma floresta margeando e o rio Urubamba a nossa direita.

    Chegando em Águas Calientes (também conhecida como Machu Picchu Pueblo) vi o expresso Hiram Bingham parado numa estação. Vagões de luxo com o nome do descobridor científico do complexo arqueológico. Apenas 800 dólares por pessoa para uma viagem de 3 horas...

    Águas Calientes é uma cidade que depende totalmente do turismo. Um labirinto de hotéis e restaurantes.

    Após acomodação no hotel e um merecido banho, o grupo jantou num bom restaurante reservado pela agência (última refeição proporcionada por eles). Dia seguinte acordamos 5:30 pois deveríamos estar no ponto de ônibus para subir e ingressar em Machu Picchu entre 6 e 7 da manhã. O ônibus é US$ 12 por pessoa. Como alternativa, subir uma escadaria de 1.800 degraus. Três mexicanos foram a pé, porém tiveram que começar a subida ainda no escuro, as 4:40. O guia disse que o nascer do sol é especial na cidadela, daí o horário tão cedo.

    Lá em cima aguardamos um pouco na portaria até os 3 mexicanos chegarem. Visitei este sítio arqueológico 24 anos atrás, em 1999. Agora, tombado pela UNESCO e considerada a 7ª maravilha do mundo, o fluxo de turistas é imenso. Porém estão bem mais organizados para fazer frente ao movimento.

    Lindas e majestosas ruínas num lugar muito especial, de grande energia. Algo imperdível na américa latina. Abaixo algumas fotos.

    Dá para chegar também pela trilha inca, em 5 dias. Porém é mais cara e cansativa (muita escadaria). O guia disse que hoje prefere Salkantay, até mesmo porque é menos penoso para os porters.

    Após a visitação, descemos. Eu, Paulo e 3 mexicanos pela escadaria (não queríamos pagar outros 12 dólares), Lucia e uma mexicana de ônibus (ambas com o joelho avariado). Esta descida de 1.800 degraus acabou também deixando meu joelho esquerdo baqueado.

    Pegamos o que deixamos no hotel, almoçamos e fomos para a estação de trem. O comboio saiu pontualmente no horário e chegamos em Ollantaytambo por volta das 17 horas onde uma van nos aguardava para levar até Cusco, onde chegamos no início da noite.

    Para Lúcia foi o primeiro trekking de alta montanha.

    COMENTÁRIOS

    Salkantay é trilha muito transitada, muito comercial. Dá para fazer sozinho, trilha batida, estando aclimatado. Pode ser feita em 4 ou 5 dias. Cinco dias tem um trecho de estrada poeirenta que preferimos fazer de van (reduzindo assim para 4).

    Salkantay é uma opção para ajudar na aclimatação, pois em seguida iríamos fazer o circuito Ausangate, bem mais alto (2 passos acima de 5.000 m) e acampamentos acima de 4.500 m.

    O mais bonito deste roteiro é o contraste entre alta montanha e a floresta tropical de altitude, terminando com chave de ouro em Machu Picchu.

    Atenção para conseguir ingressos antecipadamente para Machu Picchu.

    Recomendo a agência Okidoki, muito profissional. Tel. (+51) 984 657 022 e (+51) 969 249 344. Calle Nueva Alta #644, oficina 01 Cusco – Peru www.okidokitravelperu.com

    Relato dedicado ao Guilhermo, excelente guia, orgulhoso da tradição inca, grande conhecedor da região, sempre gentil, bem humorado e paciente! Se forem pela Okidoki peçam ele como guia!

    Peter Tofte
    Peter Tofte

    Publicado em 24/08/2023 14:08

    Realizada de 31/07/2023 até 03/08/2023

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    2 Comentários
    Duda Borges 26/08/2023 10:01

    Rapaz, não sei nem por onde começar!!! Parabéns pela aventura e obrigado pelas fotos fantásticas!!! Recuperado o fôlego aqui, que fotaçooo foi aquela a noite com a montanha nevada ao fundo? Showww

    1
    Débora Aroche 15/01/2024 23:21

    Ótimo relato!! Estou querendo fazer este trekking daqui há alguns anos. Me preocupa um pouco a questão da altitude.

    1
    Peter Tofte

    Peter Tofte

    Salvador, Bahia

    Rox
    4337

    Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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