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Sem trilha mas com perrengues!

Trekking difícil de 5 dias, boa parte sem trilha (off trail) entre Ibicoara e Mucugê na Chapada Diamantina. Com Orlandinho Barros.

Trekking Mountaineering Camping

Orlandinho Barros, um cara bom de trilha, convidou membros do Bushcraft BA para fazer a travessia Ibicoara - Lençois, 150 km, atravessando no sentido Sul - Norte todo o PARNA da Chapada Diamantina.

Eu só poderia participar do trecho Ibicoara-Mucugê, pois só dispunha de 4 dias. O principal atrativo para mim era justamente o trecho de Ibicoara até a Fumacinha, o único que não conhecia. Alias, possivelmente ninguém conhece, pois é off trail (não há trilha). Talvez fossemos os primeiros a fazê-lo.

Chegamos 18/01 pela manhã em Ibicoara. O ônibus nos deixou pertinho de uma padaria, onde tomamos nosso café. Partimos por uma estrada rumo a Serra do Sincorá entre vários sítios com cafezais.

Cafezal. Ao fundo a Serra do Sincorá. Iriamos pelos gerais no lado leste (lado oposto ao da foto).

 Ponte na estrada.

Subindo o Sincorá, com vista para Ibicoara. Celular com zoom, daí a má imagem.

Num ponto a estrada vira trilha, onde observamos pelo calçamento de pedras que era um antigo caminho de tropeiros.

 Topo da serra, começamos a descer rumo ao Campo Redondo, onde Orlandinho queria passar na casa de Paulinho Roubada, guia local, cuja alcunha indica que só leva turista para lugar fácil. Ele desejava trocar algumas ideias com o guia sobre o trecho sem trilha que faríamos em seguida.

Vista do alto do passo, para o Campo Redondo. Seguiríamos pelo selado ao fundo, centro da foto.

 Não o encontramos em casa e seguimos, subindo para os gerais, onde pegamos a estradinha de terra para a Ecovila, um empreendimento imobiliário falido, no meio do nada. De lá começou nossa caminhada off trail. Ficamos contentes ao perceber que apesar de não haver trilha a vegetação dos gerais era de campo sujo, ou seja, gramíneas com muitos arbustos e pedras, não uma mata intransponível. Era vara mato mas sem esforço excessivo, sem uso de facão.

Quando as nuvens da manhã se dissiparam o sol bateu em cheio e esquentou muito.

O Orlandinho fez um bom trabalho traçando um caminho no Wikiloc e criando uma trilha virtual evitando os maiores obstáculos (muita vegetação, cânions profundos…). Seguíamos este tracklog.

Mas havia um cânion de 80 metros no nosso caminho que não dava para evitar. Descemos por uma vereda e fizemos uma desescalaminhada por uma grota até alcançarmos o rio onde descansamos, tomamos um banho e almoçamos. Descobri aí que na descida pressionei o bolso da minha calça contra uma rocha. Ali estava meu celular, que teve a tela rachada. Vacilo. Mas ainda funcionava. Sorte que aceitei fazer o seguro dele após muita insistência da vendedora. Será a segunda vez que aciono o seguro, devido as trilhas na Chapada.

No fundo do cânion, o córrego, bendita água!

 Se a descida foi chata (não se via em alguns pontos o que estava abaixo) a subida foi árdua, por outra encosta ingrime, com capim que fazia escorregar. Eu estava com 12 kg na mochila e o Orlandinho com 20 kg.

Notei a quantidade de tombos que Orlandinho levava. O peso na sua mochila alterava o centro de gravidade e fazia ele perder o equilíbrio muito mais facilmente. Isto me convenceu mais uma vez da necessidade de adotarmos o trekking light ou ultralight. Ele iria fazer 9 dias de trilha e eu apenas 4 dias mas acho que ele podia ressuprir mais em Mucugê e no Capão, sem necessidade de carregar tanta comida. Alegou que não encontraria macarrão integral, açucar mascavo e outras coisas mais nestas cidades/vilas.

Ao invés de barraca eu levava uma tarp. No lugar do saco de dormir, tinha um saco de bivaque e um liner (junto com o casaco dava proteção térmica suficiente para o verão da Chapada). Carregava tudo numa mochila de 45 litros e 680 gramas. Estes arranjos mais minimalistas permitem reduzir bem o peso.

No final da tarde chegamos a um córrego sem nome, Km 17 de nossa jornada, onde havíamos planejado nosso pernoite. Armamos a barraca e a tarp no lajedo do córrego.

 Dia seguinte, após uma noite agradável, acordamos cedo pois o dia seria de mais off trail até o cânion da cachoeira Véu de Noiva onde tentaríamos baixar do paredão, por um ponto que Orlandinho acreditava ter uma descida viável. Continuamos rumando por gerais, rumo verdadeiro aproximado 330º. Em determinado momento cruzamos por uma trilha clara, que já havíamos visualizado no Google Maps. Uma trilha que parecia fazer ligação entre Ibicoara e o Campo Limpo.

Mas esta trilha não nos servia, rumávamos para o rio que cairia no cânion onde se encontra a cachu Véu de Noiva.

Avistamos o cânion, porém achamos que o Google Maps errou, pois ele mostrava nossa travessia do rio da Véu de Noiva em área relativamente plana, nos gerais e, por erro nosso de navegação, pensamos que o local da travessia do rio seria dentro do cânion.

Orlandinho queria descer o cânion por uma cachoeira seca, mas uma pequena queda vertical não permitiu ele prosseguir até o fundo.

Tivemos uma discussão. Se ele sabia que havia uma cachoeira intransponível dentro do cânion, por que teríamos que descer para dentro dele? O plano original não era seguirmos pela borda esquerda do cânion até o ponto que achávamos ter uma descida viável, depois da cachoeira intransponível?

Examinando o tracklog ele descobriu que o Google Maps estava correto, a travessia do rio da Véu de Noiva ocorria antes da queda do rio para dentro do cânion (cometemos um erro de navegação). Fomos para este ponto, onde a travessia era fácil e descansamos. Lugar bonito. Havia um poção superior ótimo para banho.

Poção. Na beirada a queda para o cânion da Véu de Noiva.

Decidimos não investir na descida do cânion no mesmo dia e sim explorar as bordas deste para ver se encontrávamos a descida para dentro dele (após a cachoeira Véu de Noiva). Então, no começo da tarde, seguimos pela borda abrindo caminho com facão. Descobrimos que havia um platô inferior e descemos para ele. Mas a vegetação estava fechada e exasperante. O facão cantou.

Depois de algum avanço resolvemos parar. Primeiro porque chegou a hora limite para voltar com luz do dia para a área onde decidimos acampar (no local que o rio do Véu da Noiva caia para dentro do cânion); segundo porque estava muito cansativo abrir caminho naqueles arbustos densos e; terceiro, não enxergávamos um ponto viável de descida. O paredão vertical de 40 metros antes do rio não permitia ver. A visão deveria ser de baixo para cima e não de cima para baixo.

Voltamos para o acampamento (Coordenadas -13.300399, -41.268869) exaustos, sabendo que a ideia original (descer por uma grota florestada pouco após a cachu Véu de Noiva) não seria possível.

No acampamento, já jantando, o Orlandinho propôs adotarmos o Plano B que eu havia sugerido durante o planejamento da trilha, diante do computador, vendo as imagens de satélite. Nós continuaríamos bordeando o alto do cânion da Véu de Noiva até o seu final, onde ele encontra o cânion do rio Una (forma um “T”). Neste local desceríamos diagonalmente para o rio Una, pois o Google Maps mostrava um declive mais suave e não um paredão rochoso.

Eu disse que na manhã seguinte decidiria, dependendo da minha disposição (estava muito cansado).

O Orlandinho dormiu numa pequena fenda nas rochas e eu um pouco acima, no único trecho plano que encontrei, no meio do leito seco do rio. As margens do rio eram absurdamente irregulares e pedregosas. Onde escolhi,  de um lado e de outro corria água. Se o rio subisse 10 cm molharia meu bivaque (isto é que é ter fé na previsão do tempo). Orlandinho me animou dizendo que se acaso ocorresse uma tromba d’água ele seria avisado pela visão do meu corpo sendo arrastado pelas águas diante dele rumo a cachoeira. Por minha vez disse que a fenda dele parecia uma gaveta de cemitério.

Mas o tempo estava firme. Ambos já conhecíamos os sinais de virada de tempo na Chapada.

Na segunda-feira acordei bem melhor, após uma noite de sono reparadora.

Desmontando acampamento e arrumando a mochila. Notar que estou num lajeado seco no meio do córrego.

Partimos então para o desafio de descer para o Rio Una (Plano B). O início do caminho foi fácil, pois no dia anterior já tínhamos feito parte dele com o facão. Continuamos bordejando a beirada do cânion rumo norte até que chegamos no seu final, o encontro com o cânion do Rio Una. Ali confiaríamos no perfil topográfico fornecido pelo Google Maps, que mostrava uma descida mais suave. Teríamos que descer em diagonal rumo Oeste. Orlandinho consultou o Wikiloc e viu o ponto onde as curvas de nível eram mais afastadas (menor declive). Era um ato de fé porque em vários trechos não víamos o que estava adiante, se um precipício ou uma ladeira. Eram 200 metros de desnível até o leito do rio.

Imaginávamos se um abismo impediria alcançarmos o leito do rio, obrigando-nos a subir de volta toda aquela pirambeira.

Felizmente foi tranquilo. A mata ciliar a beira do Una é que aborreceu um pouco. Grande e fechada, gastamos meia hora no facão até chegar ao rio. Grande comemoração. Apenas tirei a bota e as meias e entrei no rio. A roupa e o corpo precisavam ser molhados para tirar o suor.

Lanchamos, tiramos fotos e descansamos por uma hora. Depois descemos pelo leito do rio até o encontro com o cânion do da Véu de Noiva (foz deste rio). Ali tinha uma trilha que parecia uma auto-estrada de tão batida (a Véu de Noiva é um atrativo turístico da região).

Um guia e um casal de turistas desciam no momento esta trilha. A moça precisou da ajuda do namorado e do guia para transpor um degrau de pedra um pouco mais alto. Cansado de tanto terreno acidentado eu olhei aquilo com sincera admiração.

Seguimos rápido até o encontro com o rio da Fumacinha (outro cânion, só que vindo da esquerda). Atravessamos o rio Una pelas pedras e começamos a subir o cânion da Fumacinha por uma trilha excelente e muito batida, mas com constante sobe e desce. Teríamos de subir a fenda da Fumacinha e acampar na Toca do Vaqueiro ainda hoje.

Quase duas horas depois chegamos na nova subida para a Fumacinha por cima. Ano passado havia visitado a Fumacinha com amigos, subindo e descendo pela Fenda da Fumacinha, caminho tradicional. Mas os guias informaram que estava interditado devido aos constantes ataques de abelhas. Estranhei porque na ocasião o guia informou que bastava andar em silêncio e com cuidado perto da colmeia delas e não tivemos problemas. Provavelmente as abelhas ficaram menos amistosas de lá para cá.

Os mesmos guias disseram que a nova subida era mais fácil e segura, e menos cansativa que a Fenda da Fumacinha. MENTIRA. Começamos por um terreno de barro fofo com inclinação de 60 graus, sem agarras. Em alguns pontos uma corda com alguns nós ajudava na subida. Péssimo. O uso e as chuvas provocarão uma erosão feia no local (não ecológico). Num ponto havia uma corda dinâmica, inapropriada. Dá um susto quando agarramos a corda pois ela expande com o peso (é elástica). Em vários trechos há escalaminhada com retirada da mochila. Um passava e recebia as mochilas para então o outro passar.

Demorado e sofrido. Mas o pior estava por vir. Chegamos no pé de um paredão de pedra vertical. Viramos a direita e logo descobrimos que não era por ali. Voltamos pela esquerda e chegamos numa plataforma estreita de 70 cm de largura com alta exposição. Em alguns momentos a parede no lado direito fazia uma negativa obrigando a andar de quatro para a mochila não bater contra a parede.

Num ponto de grande exposição tivemos que tirar as mochilas e subir numa pedra para então o outro passar uma a uma. Este local botava o Cavalinho da Peterê no chinelo. Eu evitava olhar para o abismo, para não recordar que tenho medo de altura.

Com mais uns passos nesta beirada chegamos finalmente num ponto onde deixamos aquela exposição medonha, e com mais alguns minutos de subida finalmente alcançamos a beirada superior do cânion, já nos Gerais do Machambongo. Que alívio. Acho um absurdo levarem turistas por aquele caminho. Eu e Orlandinho, que somos trekkers experientes, achamos a subida perigosa, imagina o turista desavisado. Para quem escala é tranquilo. Mas não podem vender para turistas esta passagem.

A demora cobrou seu preço. Chegamos no topo da Fumacinha as 17:30 onde rapidamente tiramos fotos e lanchamos. Ao seguirmos para a Toca do Vaqueiro tínhamos apenas 40 minutos de luz do dia.

Queda principal da Fumacinha. As paredes formam uma negativa daí a escuridão mais abaixo.

 Pegamos uma via direta para a toca mostrada no Wikiloc. Escureceu e ligamos as headlamp. Depois de quase duas horas de andada entramos num matorral onde a trilha se perdia. Péssimo este tracklog que escolhemos seguir no Wikiloc. Provavelmente o autor marcou os pontos apenas a cada 5 minutos. Isto é muito quando se entra no mato.

Passamos a varar mato, cansados, até que chegamos numa laje de pedra e Orlandinho, cansadíssimo (carregava a esta altura uns 18 kg), jogou a toalha e disse que passaríamos a noite ali. Não havia água no local. O que tínhamos era para beber ou para cozinhar. Preferimos não cozinhar.

Orlandinho armou a barraca dele e eu a minha tarp. Comemos lanche frio e fomos dormir. Detesto dormir sujo. Esta foi a única ocasião até hoje que dormi sem banho na Chapada. Mas exausto caí logo no sono, sem importar com isto.

Pela manhã, cedo, com a luz, pudemos nos orientar melhor. Propus o rumo NW porque sabia que reencontraríamos a vegetação dos gerais mais rapidamente, saindo daquela matinha. Assim fomos e logo estávamos andando no capim caraterístico dos gerais. Nas trilhas gravadas no Wikiloc achei uma trilha para a Toca dos Vaqueiros feita pelo FAEL (do Bushcraft BA) esta sim, de confiança. Seguimos e com duas horas estavamos na Toca dos Vaqueiros. Diante dela o rio da Fumacinha, onde fizemos nosso café da manhã.

No preparo do café. Ao fundo, a porta verde, é a Toca do Vaqueiro, velha conhecida.

Me despedi do Orlandinho porque pretendia dormir pela noite em Mucugê. De lá, quarta de madrugada, regressaria para Salvador. Eu estava com ritmo mais rápido (mochila bem mais leve) e tinha 26 km pela frente até a cidade. Orlandinho pretendia dormir na Toca do Maluquete, perto da Cachoeira da Matinha. A princípio achávamos que dali em diante seria moleza.

O caminho pelos Gerais do Machambongo é fácil, um capinzal baixo a perder de vista. E basta ir na direção da Tesoura da Serra, um selado que indica o caminho, bem visível no horizonte, ao Norte. O tempo nublado ajudava a manter um bom ritmo.

A Tesoura da Serra é o selado ao fundo. Observem o aspecto dos gerais e que o tempo começa a mudar.

 Antes de meio dia cheguei ao selado (que é também um divisor de águas) e baixei para o vale do rio Mucugê. Aí precisei usar o Wikiloc porque a trilha estava apagada. Foi bom porque me indicou o exato ponto para cruzar facilmente o rio Mucugê, caso contrário teria de fazê-lo a nado.

Na outra margem a trilha desapareceu completamente, ficando totalmente dependente do aplicativo. Em dado momento ele me jogou para cima de um brejo. Após uma hora e meia cheguei numa elevação e, ali, por um vale paralelo ao vale do Mucugê, seguia uma trilha muito boa, provavelmente feita por garimpeiros.

Trilha boa de pedras (meio escondida ao centro). Uma das poucas neste trecho.

 Mais adiante a trilha esvaneceu de novo. Fui consultar o Wikiloc e sem querer deletei a trilha Ibicoara - Lençois criada por Orlandinho. Ferrou! A direção a seguir é óbvia, o problema é o vara mato se perdemos a trilha. Não teve jeito, varei mato, coisa cansativa, até que cheguei numa área de mato muito denso. Decidi subir mais a encosta porque a vegetação é menor nestes locais. Ali topei com a trilha novamente.

Uma tempestade começou a armar no horizonte, vindo da direção Norte, de Mucugê para o Sul. Prossegui o mais rápido que podia. Mas a trilha era ruim, tênue e fazia muito zig zag em terreno misto de rocha e areia. Volta e meia, sem tracklog, saia de trilha e tinha de voltar até reencontrá-la. Lá, pelo meio da tarde, desabou um temporal com raios. Como os raios estavam longe eu decidi prosseguir. O Orlandinho, posteriormente, me falou que o tracklog não batia com a trilha naquele trecho e ele ficou no centro da tempestade tendo que se abrigar debaixo de uma lapa de rochas.

Perdi a trilha uma última vez. Debaixo de chuva forte não a encontrei de novo. Optei pelo vara mato porque sabia a direção a seguir.

Frio, cansado, debaixo de chuva, sem trilha, na base do vara mato, decidi rumar para as margens do rio Mucugê a minha esquerda, que era a melhor referência. Lá chegando, por volta das 16 horas, decidi acampar num banco de areia um metro acima do rio. A chuva tinha amainado e o céu clareado. O pior já passara e, a julgar pela altura do rio até o banco de areia, mesmo depois daquele toró, não haveria água suficiente para atingir meu pouso.

Depois de armar a tarp e jantar me aparece o Orlandinho. Ele olhou o local e não gostou. Achou que ainda estava sujeito a tromba d’água e, após trocar algumas palavras comigo, seguiu em frente. Resolvi ficar lá porque já estava com o acampamento montado e confiava na minha intuição de que outra tempestade igual aquela não viria a noite, pois o céu clareava do lado Norte e apenas chuviscava um pouco. O rio ainda estava bem abaixo de mim. Nos encontraríamos no dia seguinte.

Tomei meu banho de rio. Limpo e aquecido consultei outro aplicativo debaixo da tarpa e vi que o MAPS.ME mostrava a trilha Capão do Correia – Mucugê um pouco adiante. Nada como estar relaxado, limpo, nutrido e quente dentro de um abrigo para raciocinar melhor e tomar a decisão certa. Se tivesse forçado a barra, prosseguindo, provavelmente não teria lembrado do App e dormido num lugar bem pior sem alcançar Mucugê. E não dava para consultar o smartphone andando debaixo de chuva.

A noite foi tranquila. Mas sempre que chovia eu acordava e observava a intensidade e duração da chuva. Nada preocupante. E voltava a dormir. A nascente do rio Mucugê não estava longe. Impossível cair uma tempestade lá e só cair um chuvisco na minha tarp. Pela manhã notei que o rio tinha aumentado de nível apenas 10 a 15 cm durante a noite.

Atrasei um dia minha chegada a Mucugê. Assim faltaria um dia no meu trabalho. Já me imaginava explicando: “Chefe, fui pego por uma tempestade com raios e perdi a trilha no mato, por isso faltei um dia”.

Na manhã seguinte desarmei o acampamento bem tranquilo. Teve vara mato chato (mata ciliar) e travessia de uns meandros do rio Mucugê e de um tributário deste. Mas logo cheguei numa margem empedrada sem mato e pude avançar rápido. Lá, no ponto indicado pelo MAPS.ME, havia um pé de mucugê com fitas plásticas, que indicava a travessia do rio. Ali estava a trilha Capão do Correia – Mucugê, bem batida. Finalmente uma trilha decente depois de tanto vara mato!! Quem nunca fez este tipo de descoberta não sabe o que é felicidade.

Nota para evitar confusão: mucugê é o nome de uma planta frutífera. Ela deu nome ao rio e a cidade.

Prossegui, volta e meia apitando, para avisar ao Orlandinho que estava indo na direção dele (só sabia que havia acampado rio abaixo em relação a mim). Fiquei um pouco preocupado porque não havia rastro dele na trilha batida. Mesmo após uma noite de chuva os bastões de trekking deixam marcas profundas que não são apagadas pela água.

Daqui a pouco ouço os gritos dele me chamando, vindos da esquerda, das margens do Mucugê, 300 metros abaixo. Gritei em resposta mas só ouvi ele chamando meu nome. Gritei para ele subir ou me encontrar na cachoeira da Matinha, mais adiante. Mas ele continuou apenas gritando meu nome.

Depois de certo tempo cansei de gritar sem ouvir resposta e fui para a Matinha para esperá-lo. Percebi, a caminho, que a cachoeira estava longe, ele não conseguiria ir para lá andando pelas margens do rio. Resolvi então voltar, pois supus que ele viria para a trilha onde havia me visto. De fato encontrei com ele no caminho. Ele atravessou os 300 metros do rio atá a trilha na base do vara mato. Disse que me viu e gritou, mas que não respondi. Como? Gritei tanto! Provavelmente o vento levava o som dos gritos dele até mim mas impedia que ele me ouvisse. Anotei mentalmente a importância de ter um par de walk-talkies.

Orlandinho dormiu numa pedra elevada bem acima do rio. Não havia visto a trilha Capão do Correia – Mucugê em que estávamos.

Seguíamos agora juntos.

Auto estrada. Finalmente uma trilha decente!

Depois de meia hora quebramos a esquerda para visitar a cachoeira da Matinha. Lá Orlandinho subiu um pouco mais o rio. Queria conhecer a toca do Maluquete mas acabou não a encontrando. Eu o aguardei na cachoeira.

Cachoeira da Matinha vista da trilha.

 Antes de partir para a cidade de Mucugê ele foi beber água e tirar uma foto num degrau da cachoeira e escorregou. Ao usar a mão que segurava o celular para impedir bater de cara com a rocha acabou chocando a tela contra a pedra. Deu para ver até os circuitos do aparelho. Perda total.

Seguimos por uma trilha fácil que, após meia hora, virou estrada (a estrada para acessar a cachoeira do Cardoso). Isto debaixo de uma chuva torrencial. Tinha que caminhar para não passar frio. Umas aranhas pretas faziam umas teias coletivas atravessando a estrada de lado a lado e dei de cara com uma destas. As aranhas desceram pela minha face, assustadas, rumo ao chão.

Antes de uma hora da tarde chegamos finalmente em Mucugê catando um restaurante. Lobos esfomeados não buscariam alimento com mais ferocidade.

Depois do almoço achamos uma pousada onde colocamos as coisas para secar e tomamos o primeiro banho quente em cinco dias. Orlandinho foi fazer o ressuprimento. Eu fui comprar a passagem para Salvador, no busão que saia 04:30 da manhã seguinte.

Comemos de noite uma pizza excelente e tomei uma cerveja artesanal com mucugê. Nunca comi o fruto e agora bebia uma cerveja com ele! Mucugê é uma cidadezinha bonita. Já mencionei isto em outros relatos aqui no Aventure Box.

Cerveja boa!

Trilha difícil mas foi uma experiência legal, para testar os limites. Percorremos cerca de 60 KM por terreno difícil, variado, com toda categoria de perrengues. Orlandinho me disse que a maioria que faz trekking com ele ou chora ou deixa de falar com ele ao final da trilha ou ambos. Não tenho porque duvidar!

Orlandinho continuou sozinho para Lençois, mais 90 KM. Posteriormente me contou que teve que improvisar uma jangada para a mochila. Devido as chuvas o rio Paraguaçu, pouco ao Norte de Mucugê, ficou muito caudaloso e  perigoso. Atravessou a nado num remanso, com ajuda da jangada.

Cheguei em Salvador as 13 horas de quinta, exausto mais feliz. Engraçado, mas é nestas atribulações que a gente se sente mais vivo.

RECOMENDAÇõES

Para Ibicoara, Viação Cidade Sol. Há apenas um horário noturno, as sextas feiras. Chega sábado 6 horas da manhã na cidade.

Pousada Santo Antonio, no centro de Mucugê. Limpa, arrumada. R$ 60,00 quarto individual sem café da manhã. R$ 80,00 com café.

O roteiro é muito difícil. Deve ser planejado cuidadosamente e, apesar disto, não nos livra dos perrengues.

Não há trilha entre Campo Redondo e o Rio Una. Depois da Tesoura da Serra, salvo em alguns poucos trechos, a trilha é muito tênue, até o momento que encontramos a trilha ótima do Capão do Correia até Mucugê.

Não usem a subida nova da Fumacinha. Subam em silêncio a Fenda da Fumacinha, tentando não irritar as abelhas. Vale bem mais este risco (a não ser que tenham alergia a picada de abelhas, aí não vale a pena).

Tentem ir o mais leves possível. Off trail, há buracos, pedras e depressões escondidas pela vegetação. Perde-se o equilíbrio muito mais fácil quando se está pesado. Apesar de estar com 6 a 7 kg de peso base não senti falta de nada (a não ser do esparadrapo que esqueci e que Orlandinho me arranjou, para os meus calos).

Para o caso de não serem vegetarianos e não terem restrições alimentares Mucugê e Capão tem o suficiente para ressuprimento.

Relato dedicado ao parça Orlandinho Barros, cara bom de trilha!

 

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 04/16/2020 08:50

Performed from 01/18/2020 to 01/22/2020

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Alexandra Rodrigues
Alexandra Rodrigues 04/16/2020 14:11

Incrível! Por diversas vezes, durante a leitura do texto, pude sentira emoção dessa Trilha! Muito bom!

Peter Tofte
Peter Tofte 04/16/2020 14:35

Valeu Xanda!

Fael Fepi
Fael Fepi 04/17/2020 15:25

Muito legal Peter. Aí é um roteiro bem peculiar. Parabéns !!

Peter Tofte
Peter Tofte 04/17/2020 19:34

Valeu FAEL! Vc leu que utilizamos seu Wikiloc preciso?

Fael Fepi
Fael Fepi 04/20/2020 20:18

Vi sim ! Fico grato pela confiança dos arquivos postados lá no site

Marcelo Avila
Marcelo Avila 05/11/2020 02:09

Relato emocionante! Grato por compartilhar

Alisson Barbosa
Alisson Barbosa 05/26/2020 19:21

Relato impressionante, uma verdadeira aula de trekking. Bom saber que há ônibus direto de Salvador para Ibicoara, pensei que não havia.

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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Peter Tofte Leveza na trilha

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