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Travessia do PN Serra do Cipó

Travessia do PN Serra do Cipó

Travessia de 3 dias de Alto Palácio a Serra dos Alves, que está se tornando um clássico para trilheiros no Brasil.

Trekking Canyon

Após ler alguns relatos da travessia Alto Palácio – Serra dos Alves aqui no Aventure Box eu e Sergio (grande amigo trilheiro de Salvador Bahia) decidimos também fazer o percurso. Fomos então para BH na quinta 19/09 para iniciarmos a trilha no dia seguinte.

Ambos adotamos o backpacking lightweight, ou seja, minimalista e com pouco peso, para ser fast and light. Por sinal, já sofri bullying aqui no Aventure Box por causa disto: me disseram que o bom mesmo é ser fat and slow, ou seja, comer muito e andar devagar na trilha, dá muito mais Rox KKKKKK.

BH deixou-nos uma triste impressão: calor, fumaça no céu, sujeira, pichação. Mas percorremos apenas o centrão, perto do Mercado Central. A fumaça era provocada por queimadas nas redondezas da cidade. A inversão térmica e o fato de BH ficar num vale não ajudam no quesito poluição. A excepcional cordialidade dos mineiros é que dava uma nota positiva a cidade.

Na manhã seguinte, após cerca de duas horas e meia de viagem de ônibus desde BH saltamos em Alto Palácio, portaria do ICM-Bio no PN Serra do Cipó, quase 9 horas. Durante a viagem reparamos como o céu também estava esfumaçado, devido as queimadas promovidas pelos fazendeiros para renovar o pasto.

Fomos muito bem recebidos por Serginho, que estava no plantão. Verificou o papel da reserva e deu umas dicas importantes, especialmente sobre água, já que setembro é um dos períodos mais secos.

Partimos cerca de 9:30, trilha bem sinalizada.

Parte do percurso inicial é ao lado de uma cerca que limita o parque. Percorremos cristas ventosas observando aquele mundo de rochas. Os afloramentos sempre se erguem na direção Oeste, ótimo para a navegação. O rumo durante a maior parte da jornada é Sul-Sudeste.

Canela de ema dobrada pelo vento dominante (Leste) e pedras apontadas para Oeste.

Após algum tempo pelas cristas começamos a descer e chegamos ao Travessão, ponto mais bonito da travessia, por volta de 11:30 h e após percorrer 10 km. Para Leste o cânion do rio do Peixe, magnífico, pertencente a bacia hidrográfica do rio Doce, e a Oeste o início de um vale onde descia um córrego que iria para a bacia do rio São Francisco. O local é o que os geógrafos chamam de divisor de águas.

Tiramos várias fotos e descemos para um poço estreito onde desaguava um córrego, onde paramos para banho e lanche. O calor estava opressivo.

Após uma hora, barriga cheia e descansados, subimos a serra no lado contrário a descida. Encontramos excelentes locais para acampar (vista e proximidade de água) mas que não poderiam ser utilizados porque o Parque permite o pernoite apenas em dois lugares oficiais (Casa de Tábuas e Casa dos Currais).

A subida foi cansativa devido ao calor. Sempre que cruzávamos um córrego trocávamos a água dos cantis por uma gelada e molhávamos a cabeça e o chapéu. Para fazer a travessia nesta época deve-se dar muita atenção ao suprimento de água e a hidratação.

No topo, após muita caminhada, chegamos numa bifurcação. A esquerda, para a Cabeça de Boi e a direita para a casa de Tábuas, nosso pernoite. Descemos para um bonito vale chegando 14:30 no destino, um pequeno casebre, onde entramos. O interior estava limpo e organizado. Um fogão a lenha num canto e beliches de tábuas na parede oposta.

Tomamos banho com ajuda de uma panela na torneira em frente a varanda da casa antes do pôr do sol. Decidimos dormir nos beliches em vez de bivacar porque a previsão era de frio pela madrugada.

Durante a noite o Sérgio levantou para urinar e na volta iluminou algo na parede: uma lacraia vermelha de um palmo de comprimento! Do meu beliche disse para ele matar o inseto. Sérgio seccionou a lacraia com uma faca. Ninguém dormiria tranquilo sabendo que um bichão daqueles poderia subir para o beliche e picar um de nos.

Sérgio contou que foi picado por uma lacraia quando criança e até hoje se recorda da dor aguda que sentiu por horas, devido a toxina do inseto. E era uma lacraia pequena. Imagina a dor que esta gigante provocaria. Ele não conseguiu dormir bem durante o resto da noite.

Para completar, um rato silvestre apareceu durante a madrugada e ficou remexendo as panelas ao lado do fogão, a intervalos regulares. A lanterna de cabeça apenas fazia ele se assustar por um momento e fugir. Bastava desligar a luz que pouco depois retornava. O Sérgio descobriu que alguém deixou um pacote de macarrão dentro de um invólucro plástico e o rato tentava roê-lo. Ele pendurou este alimento e o rato deixou de nos perturbar.

No início de noite, por experiência, sabendo da probabilidade destas visitas, havíamos pendurado toda a nossa comida e o saco de lixo, mas não notamos este alimento deixado por outros em meio as panelas.

Dormir em casas abandonadas ou semi-abandonadas sempre apresenta estes problemas.

Dia seguinte acordamos por volta de 6:30, preparamos o café e arrumamos as mochilas.

Vista do vale da Casa de Tábuas ao amanhecer, direção Norte. O amanhecer e o entardecer sempre tem a luz mais bonita.

Cerca de 8 horas partimos subindo um morro e saímos num planalto com matas onde nascia o pequeno córrego que passava ao lado da casa de tábuas.

Neste trecho, ao lado da trilha, enormes canelas-de-ema, parecendo ser centenárias. Em todas minhas andanças pela Chapada Diamantina jamais havia visto canela-de-ema tão grande e antiga.

Contornando um morro quase piso numa pequena cobra vermelha que estava imóvel na trilha. Pensei por um momento que era apenas uma raiz exposta. Sérgio mostrou a realidade ao cutucar a bichinha com os bastões de caminhada. Ela disparou para o mato.

Encontramos fezes com pelos e sementes em cima de pedras, parecendo cocô de cachorro. Pareceu ser coisa do lobo guará, que é um animal onívoro.

Mais adiante um trecho andando pela crista onde pudemos ter uma ideia de como a Serra do Cipó é alta em relação as redondezas. O ponto mais alto da trilha fica ali: 1.665 metros de altitude.

Descemos então para um grande platô onde estaria nosso destino do dia, a Casa dos Currais. O sol já fazia estrago

Esta sede de uma fazenda antiga, é a casa de apoio dos brigadistas que combatem incêndios no parque, que se revezam a cada 7 dias. Armamos nossos bivaques num local onde cavalos não acessam, porque Serginho avisou no Alto Palácio que carrapatos são um problema neste local, como viríamos a descobrir mais tarde.

Alguns brigadistas nos acompanharam para mostrar um ponto no rio que dava para tomar banho. Desistimos de ir para a cachoeira Braúnas porque seria uma caminhada de 3 horas ida e volta debaixo de calor. Resolvemos almoçar e nadar neste local a apenas 10 minutos da casa dos Currais.

No meio da tarde voltamos para a casa para encontrar uma tropa de mulas com os respectivos cavaleiros.

Era uma cavalgada organizada por uma empresa especializada. Bem organizada, traziam cerveja, carne para churrasco e outras amenidades para o pernoite dos cavaleiros. A maioria dos cavaleiros veio montada em mulas. Fiquei espantado ao saber que uma boa mula podia ser vendida por 60 mil reais ou mais. Estas cavalgadas são muito interessantes pois revivem o espírito tropeiro. A travessia que estávamos fazendo era um antigo caminho de tropeiros.

A noite foi contando causos, comendo feijoada no forno a lenha. Me lembrei de Guimaraes Rosa, que em suas cavalgadas com vaqueiros e tropeiros obteve o material para o Grande Sertão Veredas, a obra-prima da literatura brasileira.

Dia seguinte, domingo, acordamos 4:30 da manhã, ainda no escuro. Nossa preocupação era chegar o mais cedo possível em Serra dos Alves para arranjar o transporte para Itabira e dali ônibus para BH. Tínhamos voo pela noite para Salvador e não havíamos conseguido falar antecipadamente com o pessoal que faz frete em Serra dos Alves.

Partimos fustigados por um vento frio que em certos trechos fazia a névoa passar a toda velocidade. Nosso horizonte era limitado. Depois de uma hora e meia de caminhada avistamos a placa que sinalizava os limites do Parque Nacional e o começo da descida para a Serra dos Alves. Neste momento avistamos um animal correndo. Pensei de início tratar-se de um veado, mas rapidamente distinguimos o lobo guará. O porte dele é inconfundível. Ele tem patas desproporcionalmente altas para um canídeo e grandes orelhas. Ao correr parece um pouco com um cavalo trotando.

Estava a 100 metros ou mais. Não era possível fotografar com uma câmera de celular. Ele deu uma rápida parada para nos fitar e continuou sua fuga. Ficamos felizes com a visão. Primeira vez que avistávamos este bonito animal.

Iniciamos a descida e finalmente tiramos os casacos. No caminho passamos ao lado do pequeno e bonito cânion do rio Boca da Mata.

A descida foi lenda porque numa pisada o Sérgio sentiu uma fisgada no joelho e sentiu dor, passando a andar devagar para não piorar as coisas. O vale onde fica a Serra do Alves é bonito.

Antes da chegada a vila tivemos que cruzar uma ponte pênsil. A ponte está precisando de uma manutenção... Sergio na travessia.

Chegamos em Serra dos Alves as 11:40 h. onde procuramos o Chiquinho, que nos levou até o entroncamento da BR 381, passando por Ipoema. Ainda ganhamos café e um banho na sua pousada (Portal da Serra).

Ana, a simpática gerente da pousada, bateu o olho em nossas pernas e logo descobriu carrapatos. A casa dos Currais deixou suas marcas. Tratamos de tirá-los.

Na BR esperamos apenas 10 minutos para pegar um ônibus para BH.

RECOMENDAÇÕES/INFORMAÇÕES

É obrigatório fazer a reserva da travessia num site chamado Ecobooking. Imprima e leve o comprovante da reserva para apresentar na portaria.

A trilha é ótima para principiantes no trekking. Navegação fácil e esforço moderado. Não tem trechos técnicos.

A navegação é fácil pela boa marcação feita pelo ICM-Bio (estacas finas pintadas de amarelo e as bonitas pegadas pintadas em rocha, símbolo das trilhas de longo curso). A trilha normalmente é bem batida. Eventualmente, em alguns lugares, falta marcação e gera dúvida. Mas basta procurar um pouco que reencontra a trilha.

Notamos que em vários lugares o pessoal que gerencia a trilha mudou o trajeto para tornar mais seguro, ou mais cênico ou para preservar trechos de erosão.

O problema eventualmente pode ocorrer debaixo de forte chuva e cerração. Há relatos de grupos, mesmo com guia, que tiveram alguns momentos de dificuldade para reencontrar a trilha. Leve o Wikiloc. Consultamos de vez em quando. Baixei a Travessia Alto Palácio X Serra dos Alves (Bônus: Cachoeira Braúnas) da Valéria Carvalho. Meu agradecimento a ela.

Não fomos na melhor época, que considero do começo até o meio do inverno. Final do inverno é época muito seca. Precisa levar ao menos dois litros de água nos trechos Portaria-Travessão e Casa de Tábuas-Casa dos Currais. Quanto mais cedo partir de manhã menos sol a pino vai pegar.

Na época de chuvas, a partir de novembro, embora não vá ocorrer falta de água (vários córregos surgem) o problema é o excesso que dificulta a travessia de riachos.

Cuidado onde arma a tenda na Casa de Currais. Muito cavalo nos pastos e muito carrapato. Procure acampar perto da casa. Tive que tirar vários carrapatos. A coisa fica pior na época da seca (inverno).

Evite dormir no interior da Casa de Tábuas. Casas semi abandonadas sempre tem problema com insetos e roedores.

O ICM-Bio está de parabéns por mais esta trilha, que populariza o acesso aos Parques Nacionais, desperta a consciência ecológica e traz renda para a região, seguindo o modelo do Chile, Argentina, Estados Unidos e muitos outros países. Que este projeto continue com a abertura de mais trilhas neste e em outros parques nacionais brasileiros.

Recomendo o Chiquinho para o transporte da Serra dos Alves até a BR onde tem ônibus fácil. A pousada dele é legal, se alguém quiser pernoitar no bonito vilarejo antes de voltar para BH. Telefone 31 99645-2750 e 98682-0136 e contato@pousadaportaldaserra.com.

Idem, o Luiz Gadetto da Vara Mato (guia e translado) que conhece bem a região. Passou-nos por telefone informações importantes para nossa logística para voltar a BH.

Dedico este relato ao amigo Sérgio. Companhia agradabilíssima, grande contador de causos e parceiro bom de trilha.


Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 09/24/2019 11:08

Performed from 09/20/2019 to 09/22/2019

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Luiz Gadetto
Luiz Gadetto 09/27/2019 00:32

Que isso Fliess, o dia estava tão fresquinho ahahah! sqn

Peter Tofte
Peter Tofte 09/27/2019 12:59

Valeu Fabio! Gostei também bastante do Parque Nacional. Mas o ideal é ir no inverno para pegar um friozinho. Se setembro é seco, outubro é o final da temporada de seca e imagino o calor que vc pegou!

Peter Tofte
Peter Tofte 09/27/2019 13:02

Luiz Gadetto, agradeço as informações que passou para o Sergio. Editei o texto para incluir a recomendação a Vara Mato, que por lapso não citei no relato original.

Renan Cavichi
Renan Cavichi 09/28/2019 10:39

hahahah boa! Na verdade estou caminhando para o setup light and fast também! Deixar a parte fat para o pós trilha! :D Região linda, muito cotada na listinha infinita do "to do"!

Fabio Fliess
Fabio Fliess 09/28/2019 11:26

Verdade Peter. Vale retornar para conhecer a travessia até Cabeça de Boi, onde tem cachoeiras incríveis.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 09/28/2019 12:56

Pô Gadetto!!! A única coisa "fresquinha" naquela travessia foi a breja que você levou no resgate! Hahahahaha

Peter Tofte
Peter Tofte 09/29/2019 21:04

Valeu Fábio. Fiquei curioso em relação a Cabeça de Boi. Fica para uma próxima.

Peter Tofte
Peter Tofte 09/29/2019 21:06

Venha para o lado negro da força Renan kkķk. Mas o seu fat and a slow foi impagável kkķk.

Peter Tofte

Peter Tofte

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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