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Yerba Loca - Um Passeio na Neve.

Yerba Loca - Um Passeio na Neve.

Trekking de 2 dias no PN Yerba Loca, nas montanhas a 60 km de Santiago/Chile.

Mountaineering Trekking

Esta não foi uma viagem para trekking, mas férias em família. Entretanto aproveitei dois dias em Santiago/Chile, para conhecer Yerba Loca, a cerca de 60 km do centro da cidade. O excelente relato de Ramon Quevedo no Mochileiros me chamou a atenção. Ele fez este roteiro a cerca de um ou dois anos atrás.

O nome do parque é devido a uma espécie vegetal, uma das poucas que permanecem verdes na neve. Os arrieiros notaram que os animais, mulas e cavalos, ao comerem a planta, ficavam intoxicados, se atirando de precipícios, daí o nome Yerba Loca.

Consegui um Uber para o parque, a partir do Centro, após ver no aplicativo várias cancelamentos por parte dos motoristas. Após meia hora finalmente consegui um. O parque fica no caminho para a estação de ski de Farallones e levei cerca de uma hora até lá. A estrada é bastante sinuosa na subida. Dá até para ver a placa traseira do carro olhando pelo retrovisor lateral. A depender de onde caiu a neve os Carabineros podem exigir que os motoristas coloquem correntes nas rodas (para os centros de ski mais acima eles exigem).

Fiz o registro na Portaria e o guarda-parque Rodrigo me informou as condições de tempo (previsão e neve). Falei que o meu objetivo era acampar em Piedra Carvajal e baixar no dia seguinte. Ele avisou que tinha nevado na noite anterior e a depender da quantidade de neve não conseguiria alcançar o local. Havia previsão de mais neve neste dia, a partir dos 2.800 m. Ninguém havia subido ainda. No dia anterior baixou um grupo que estava praticando escalada em cascata de gelo. Ele me recomendou acampar neste ponto, antes da subida final para Piedra Carvajal.

Comecei a caminhar às 10 horas e levei cerca de uma hora para Vila Paulina, bonito local de acampamento organizado, WCs, mesas/bancos para picnic e locais para fogueira. Apesar de estar a quase 2.000 m, debaixo dos pinheiros não havia neve.

Neste trajeto todo, um viralata magricela cismou de me acompanhar desde a portaria.

Tirei fotos de Vila Paulina e prossegui, meu objetivo estava bem mais acima.

A partir de 2.100 metros a neve começou a dominar. Tudo recoberto. As pegadas de descida do grupo que voltou no dia anterior desapareceram cobertas pela neve da noite passada.

Apenas divisava um rastro de raposa subindo.

Tive que enxotar o viralata. Andar na neve seria ruim para ele e não teria como abriga-lo de noite na minha pequena barraca, lá em cima, onde a temperatura seria "bajo zero".

O estero (rio) Yerba Loca corria mais abaixo, à esquerda, durante todo o trajeto de subida. Não se pode beber de sua água, pois contém um teor de minerais elevadíssimo que provoca desarranjo. Mas uma série de mananciais nasce nas montanhas à direita e desce ao encontro do rio com água boa.

A medida que subia, sem raquetas de neve nos pés, minha bota começava a afundar progressivamente na neve. Notava que estava afundado mais e mais enquanto ganhava altitude. Primeiro na altura da bota, depois na altura da canela. Lógico, quanto mais alto na montanha, mais neva.

A caminhada ficou muito cansativa com as pernas afundando na neve. A progressão estava lenta. Sempre que podia eu pisava sobre pedras, onde elas ainda estavam visíveis, seguindo o exemplo da raposa, cujas pegadas pareciam seguir a trilha (estavam no rumo certo). Quando via que até as pegadas dela estavam fundas na neve pensava, “aí ferrou”. Um bicho esperto destes está atolando na neve, imagina eu.

Parei duas vezes para lanchar, com fome e me sentido fraco. Havia comido muito pescado, mariscos e ceviche no sul do Chile, proteína maravilhosa, mas agora notava a falta que me faziam os carboidratos tão relegados nos últimos dias.

As 15:30, com pouco mais de duas horas de sol pela frente fiz uma regra de três simples e vi que naquele ritmo não chegaria sequer a La Lata (ponto de acampamento intermediário). Com mais um pouco a neve alcançaria o joelho. Escureceria e teria de acampar no meio do nada e da neve.

Onde a vista alcançava, apenas neve e algumas rochas e arbustos não recobertos. Cenário lindo, a brancura gelada tomando conta de tudo. Só o marrom ou cinza das pedras e das montanhas contrastavam. Ainda fazia sol entre as nuvens, mas podia observar no alto, em direção ao fundo do vale, uma névoa baixa, provavelmente estava nevando mais acima.

Decidi voltar. Fiquei frustrado, mas depois de 14 anos de trilha, em boa parte solo, eu aprendi que sempre há novas oportunidades para tentar novamente. Dei azar por ter nevado bastante na noite anterior.

Meio p... por ter decidido voltar.

Na descida avistei umas pegadas, garras de uma ave grande, condor ou águia. Fiquei impressionado com o tamanho comparado com a marca da bota.

Sol prestes a se esconder atrás da montanha.

Cheguei de volta a Vila Paulina cerca de 16:30, onde montei a barraca na área de acampamento em meio as árvores, com a mordomia de ter ao lado uma mesa e banco.

Solo ruim, cheio de pedras, difícil de enfiar espeques. Havia trazido espeques mais apropriados para a neve. O viralata reapareceu (pensei que tinha baixado para a portaria dos guarda-parques). Teria companhia para jantar.

Fiz uma paella pré-cozida e caminhei comendo pelo bonito local. Sorte que o cachorro me ajudou a dar cabo daquela gororoba terrível, mas notei que ele hesitou em comer a paella, quando despejei o que sobrou em cima de uma pedra, isto apesar da magreza dele (costelas aparecendo).

Há coisas impagáveis na solidão, uma delas é estar sentado no WC e deixar a porta aberta para meditar vendo a paisagem das montanhas...

Fui dormir lá pelas sete da noite. Não é que o cachorro resolveu se deitar ao lado da barraca! Eu havia mostrado para ele um WC no qual escorrei a porta com uma pedra para deixa-lo aberto de modo que o cão pudesse se abrigar nele. Não sei se foi fidelidade ou burrice canina, mas ele preferiu ficar ali ao lado da tenda. Se fosse um gato, com certeza vinha pedir comida e depois se mandava para um lugar menos frio.

Durante a noite ele me acordou diversas vezes, primeiro rosnando e depois latindo. Provavelmente raposas ou ratos estavam rondando o acampamento na esperança de achar comida. Isto é típico de áreas de camping muito freqüentadas. Agora no inverno, sem gente e frio, a pressão da fome é maior.

Só dormi direito depois que coloquei um plug tapa ouvidos.

Despertei apenas às oito horas. Antes disso é muito escuro e frio. Ao desarmar a tenda entrei nela para uma última olhada, para verificar se não havia esquecido nada dentro. Aí percebi um rasgo no tecido do chão, no fundo da tenda. Lamentei, uma excelente tenda quatro estações que me acompanha já há oito anos, especialmente pela Patagônia.

Comecei a baixar para a Portaria. Pensei até em fazer um roteiro alternativo (um side trip) para o Refúgio Alemão. Mas o tempo estava ameaçando piorar (já chuviscava um pouco) e teria ainda que conseguir uma carona de volta para o centro de Santiago.

Na portaria, por volta de 11:00 horas, registrei minha saída. O guarda-parque Rodrigo então me disse que o seu plantão de cinco dias corridos terminaria meio-dia, e me perguntou se não queria carona. Aceitei na mesma hora. Assim cheguei ao hotel às 15 horas. Ao Rodrigo passei o meu Face e o convidei para vir conhecer na minha companhia o PN Chapada Diamantina, o meu quintal.

Já em casa, em Salvador, limpando os equipamentos, descobri que a bolsa de comida também estava rasgada. Daí caiu a ficha. Não estavam rasgadas, mas, sim, roídas. Um camundongo ou pequeno rato roeu o fundo da barraca e a bolsa de comida, que estava ao lado do meu saco de dormir. Com o sono pesado e o tapa ouvidos não escutei nada. Não senti falta de comida. Provavelmente ele se assustou e fugiu antes de alcançar algo (ou pegou algo que não dei por falta). Já vi raposa atacando meu saco de lixo pendurado em uma árvore em Ushuaia, Argentina, mas rato atacando a barraca, era a primeira vez. Fica a lição: jamais deixar a comida dentro da barraca em locais de camping. Habituado a camping selvagem, onde normalmente não há este problema, baixei a guarda.

Fica reiterada a dica do Ramon Quevedo e Paula Yamamura: o Yerba Loca é excelente opção para que dispõem de 2 ou 3 dias em Santiago. Pertinho e bem legal!

INFOS:

No site da permissionária do Yerba Loca há informação se o parque está aberto ou não.

Não há transporte público para o parque. O Uber X cobra cerca de 17.000 pesos chilenos desde o centro da cidade (La Moneda). A volta tem que ser na base da carona mesmo.

Entrada para estrangeiros: 4.000 pesos chilenos

Faça reserva no site do PN Yerba Loca se deseja acampar no verão, ele lota especialmente nos finais de semana. O pessoal da permissionária que administra o parque é simpático e solícito.

Cuidado com os ratos/camundongos! Pendure a comida nas árvores.

Se for no inverno, veja a previsão de neve. Se nevou bem nos dias anteriores, o ideal é levar raquetas de neve ou então partir bem cedo, com muito preparo físico.

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 07/10/2017 20:33

Performed from 06/21/2017 to 06/22/2017

Views

2010

7
Ramon
Ramon 07/12/2017 13:19

Ratos roem até GPS! Perdi um no parque Patagonia. Tentei chegar no mirador do glaciar La paloma... Mas tbm não cheguei. Yerba Loca... Uma trilha "fácil" colecionando derrotas....

Peter Tofte
Peter Tofte 07/12/2017 13:33

Nossa! Até GPS! Mas no Yerba loca ao menos vc foi para Piedra Carvajal! Vai começar seu sabático por onde, na Patagônia?

Fabio Fliess
Fabio Fliess 07/12/2017 18:37

Muito bom Peter!!! Curti muito o relato.

Ramon
Ramon 07/19/2017 14:09

Peter vou começar em Santiago mesmo. Vou fazer um curso de andinismo e vou descendo.....

Peter Tofte
Peter Tofte 07/19/2017 14:33

Boa sorte Ramon! Acho que vocês vão tentar o Great Patagonian Trail...

Paula @mochilaosabatico
Paula @mochilaosabatico 09/12/2017 09:29

Peter, vamos tentar o Yerba Loco de novo! 👣 Indo pra Santiago hje.

Peter Tofte
Peter Tofte 09/14/2017 12:38

Que bom! Nesta época deve ter menos neve. Vcs vão poder subir mais!

Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

Rox
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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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