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Elbrus 5642 - O teto da Europa

Elbrus 5642 - O teto da Europa

Relato de expedição ao Monte Elbrus, realizada em agosto de 2019.

Trekking Mountaineering High Mountaineering

Chegou a hora de compartilhar com vocês minha subia ao ponto mais alto da Europa. Esse é o quarto relato que divido aqui pela AventureBox no período de isolamento social. Lembrar dos momentos vividos em ambientes naturais tem me ajudado a enfrentar esse período de confinamento com mais tranquilidade. Ler os relatos compartilhados por vocês amplia também minha lista de locais a explorar quando isso tudo passar.


Relato publicado no Boletim do Centro Excursionista Brasileiro, edição Setembro/Dezembro de 2019. Disponível em www.ceb.org.br.

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Ainda durante a volta da bem-sucedida expedição ao Kilimanjaro, em setembro de 2018, já encarávamos nossa mente nos perturbando: “qual seria a próxima?”. Sim, esse é um pensamento bastante comum na cabeça de qualquer montanhista e não poderia ser diferente depois da nossa bela expedição ao teto do continente africano. A escolha pelo Monte Elbrus foi bastante natural dado a facilidade de acesso, grande taxa de sucesso nas ascensões e boa estrutura para um grupo grande e heterogêneo, com pouca experiência em alta montanha, fatores que fazem dessa montanha uma das mais acessíveis do projeto sete cumes.

O Monte Elbrus é o ponto mais alto do continente europeu (5642 metros de altitude) e está localizado no Cáucaso, região sul da Rússia, próximo à fronteira com a Geórgia. A montanha pertence à República da Cabárdia-Balcária, uma unidade federativa autônoma do país europeu oriental, situada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio.

Optamos pela face sul da montanha, que abriga a rota mais comercial, famosa pela existência da estrutura de abrigos, teleféricos e tratores de neve (snowcats). Mais adiante descobriríamos também que somente pela face sul é possível apreciar a estonteante vista da Cordilheira do Cáucaso durante a subida. Ainda assim, me adianto e assumo que ficou um gosto curioso, de repetir a montanha pela face norte, de forma mais autônoma, com acampamento móvel e sem o luxo dos teleféricos e snowcats. Mas nem por isso deixamos de ter nossos desafios para ascender ao teto do continente europeu. A maior parte dos participantes não tinha experiência em gelo, nem havia sequer utilizado um crampon anteriormente. Foi então uma boa oportunidade para a primeira experiência de alta montanha com neve e gelo, mas, ainda assim, com temperaturas bastante razoáveis.
O Alan Braga foi muito proativo desde as conversas pós África e colocou em prática grande parte do planejamento. Nos reunimos algumas vezes de fevereiro a julho para acertar todos os detalhes e fomos novamente guiados pela Cláudia Bessa, dessa vez com meu auxílio formal como monitor. O grupo era composto por 17 pessoas, dois de fora do Rio.

Como não existe ambiente de alta montanha para treinar no Brasil, além de fazer um trabalho de condicionamento físico específico, segui o recomendado e fiz algumas travessias longas, que em parte simulam o prolongado tempo de esforço físico em dias de ataque ao cume. Boa parte dos participantes da expedição seguiu essa recomendação e colheu bons frutos posteriormente.

Para aproveitar a viagem até a Rússia, destino não tão popular para nós brasileiros, optamos por chegar alguns dias antes e conhecer Moscou. No dia 6 de agosto já estávamos todos na capital moscovita e tivemos tempo para fazer alguns roteiros turísticos na cidade. Em nossas longas caminhadas, visitamos o Kremlin, a catedral de São Basílio, a Praça Vermelha, as principais estações de metrô, o Museu da Cosmonáutica e outros clássicos locais.

No dia 8 seguimos para Mineralnie Vody, cidade que abriga o aeroporto mais próximo do Elbrus e de onde tivemos o translado para pequena cidade de Terskol. Nesse percurso, passamos do Krai (território) de Stravopol para a República da Cabárdia-Balcária, transitando das paisagens planas, com áreas de cultivo de maçã, milho e girassol, para o vale do Rio Baksan, que recebe as águas do Rio Terskol, com suas encostas bem marcantes.

Nossa expedição teve início no dia 9 de agosto, quando saímos do hotel em Terskol em direção ao Cheget, destino frequente para aclimatação na região. Nesse dia, partimos a pé de 2100 até 3400 metros de altitude, abrindo mão do teleférico para a subida.

Exibindo a camiseta da expedição na primeira caminhada de aclimatação

O segundo dia de aclimatação foi já na encosta do Elbrus. Pegamos os três níveis de teleférico, saindo de Azau (2350 m) até Garabashi (3800 m) e fizemos uma caminhada de 1:30 h no gelo, chegando ao Refúgio Diesel (4100 m). Tivemos tempo para comer, descansar e fazer o primeiro samba em altitude. Nossa guia local ficou empolgada e quis aprender alguns passos do ritmo brasileiro. Descemos então ao hotel para nossa última noite em Terskol antes do ataque ao cume.

Mudamos nossa base para o refúgio Garabashi, localizado ao lado da estação final de teleférico, no terceiro dia. De lá subimos novamente até o Refúgio Diesel para seguir com a aclimatação e fazer exercícios de uso de crampon e piolet. Aprendemos a fazer o travamento de queda com o piolet, manobra importante para eventuais acidentes no gelo.

Bota dupla e crampon. Um aprendizado para todos (Foto: Bruno Alvarenga)


No quarto dia, caminhamos até o rochedo Pashtukov (4800 m), sendo essa a última caminhada de aclimatação. O ganho de mil metros de altitude, já no ritmo de ataque ao cume, foi de grande esforço para todos.

Fim do ciclo de aclimatação com uma bela visão dos Cáucasos

Aproveitamos o quinto dia descansando no refúgio, deixando o corpo aclimatar e guardando energias para o grande momento da expedição. Nesse último dia de preparativos, simulamos a ancoragem nas cordas fixas, procedimento necessário para um ataque ao cume mais seguro. Fizemos questão de fazer o exercício com atenção, pois soubemos de um acidente, infelizmente com óbito, ocorrido no trecho das cordas fixas dois dias antes do nosso ataque ao cume.

Para o atacar o cume o grupo se dividiu em dois. Quatro participantes optaram por iniciar a caminhada do abrigo, abrindo mão do snowcat. Essa opção torna a atividade mais desafiadora, considerando que o desnível vertical a ser vencido passa dos 1800 metros. O restante do grupo escolheu utilizar o trator de neve, veículo de uso tradicional pelos visitantes e expedições nessa face da montanha.

Nos encontramos todos a 5100 metros de altitude, pouco antes das 6 da manhã. De lá seguimos pela travessia (traverse) da base do cume leste em direção à sela. A caminhada até a sela durou cerca de três horas, período no qual passamos por grupos de diferentes nacionalidades, inclusive grupos de militares armados de diversos países, presentes na região para os Jogos Militares Internacionais da Rússia.

Vencendo a travessia ao amanhecer (Foto: Anatoliy Savejko)


Saindo da sela, iniciamos a subida ao cume oeste, vinte metros mais alto que o cume leste. O trajeto é bastante íngreme e totalmente no gelo. Nesse trecho nos deparamos com as cordas fixas que seguem por aproximadamente 300 metros. No final das cordas fixas a inclinação da encosta diminui bastante, seguindo por mais cerca de 300 metros até o cume. Demoramos duas horas da sela até nosso destino final.

Visão da sela, o trecho entre os dois cumes do Elbrus (Foto: Claudia Bessa)


Fazer cume de alta montanha é sempre emocionante e especial, uma experiência que todo montanhista deveria experimentar ao menos uma vez na vida. Poder realizar essa conquista com o grupo todo reunido é também motivo de comemoração. Neste ano festivo para o CEB, tivemos o prazer de levar nossa bandeira para o cume do Elbrus, sendo motivo de orgulho estendê-la no teto da Europa em pleno centenário do clube. A alegria foi tanta que rolou até pandeiro e samba a 5600 metros de altitude, com direito ao tão aguardado “Pagode Russo”, de Luiz Gonzaga. Ao recebermos os certificados, já de volta em Terskol, fomos surpreendidos com uma bonita homenagem aos cem anos do CEB.

Reunidos no teto da Europa!

Bugarin, Bruno e Alan no cume!

Bonita homenagem ao centenário do CEB

A escolha da data foi muito bem pensada para coincidir com a lua cheia, deixando além da iluminação natural à noite, maior possibilidade de tempo bom. Mas também contamos com a sorte nesse sentido. Os quatro dias que passamos nas encostas do Elbrus foram de tempo estável, pouco vento e temperaturas bastante agradáveis. A mínima registrada foi de aproximadamente -6ºC, já acima dos 5000 metros, condição muito razoável para ambientes de alta montanha. No dia seguinte do nosso ataque ao cume o tempo virou e as temperaturas na montanha baixaram, mostrando que realmente conseguimos uma janela perfeita.

Após o término da expedição, passamos alguns dias em São Petersburgo para também conhecer um pouco da capital do antigo império russo. Na cidade cosmopolita passamos pelas catedrais de São Isaac e do Sangue Derramado, Museu Hermitage, Peterhof e Jardins e Palácio da Catarina. Além de apreciar o estrogonofe em seu país de origem, também brindamos o sucesso da expedição com diferentes variações de vodca e cervejas locais, ouvimos e até dançamos (ao menos um dos amigos deu um show) música folclórica russa. Houve até os que arriscaram, com sucesso, um bate volta de trem para Helsinque, capital da Finlândia.

Muitos do grupo seguirão em busca de outras altas, talvez mais geladas e mais técnicas montanhas, mas cientes de que, do projeto sete cumes, a “moleza” já acabou. Spasibo Rússia! Do svidanyia!

Rafael Damiati
Rafael Damiati

Published on 04/13/2020 09:47

Performed from 08/09/2019 to 08/15/2019

1 Participant

Kleber Trabaquini

Views

719

4
Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 04/13/2020 09:55

Tomou vodka?

Fabio Fliess
Fabio Fliess 04/13/2020 10:25

Maneiro demais Rafael. Tive a oportunidade de assistir uma palestra da Claudinha no CEP sobre essas duas altas montanhas! Muita história para contar! Pergunta de um milhão (pós quarentena): qual a próxima alta montanha? Abraços.

Rafael Damiati
Rafael Damiati 04/13/2020 14:31

Antes e depois, Bruno! kkk

Rafael Damiati
Rafael Damiati 04/13/2020 14:35

Bacana Fabio! Lembro que ela comentou que faria a palestra no CEP. Olha, pergunta de um milhão mesmo! kkkk A próxima deve ser alguma aqui por perto né? Projetos maiores, provavelmente, só em 2021. Abraço!

Rafael Damiati

Rafael Damiati

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