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Jornada até o Farol do Albardão

Jornada até o Farol do Albardão

Caminhada de 143Km até o farol habitado mais solitário do Brasil.

Camping Long Distance Trekking

Tudo começou com o relato que a minha namorada fez da aventura dela no Albardão no ano anterior, quando ainda não éramos namorados. Ela já conhecia bem os meandros desta travessia que é mágica, espiritual e psicológica.

Bom...primeiro correr atrás da grana pra poder empreender a aventura. Dinheiro na mão, material e mochilão...Vamos embora para a travessia de parte da maior faixa litorânea sem reentrâncias do mundo!

Eu conheço esta praia a 47 anos, já que nasci aqui no Rio Grande e, mesmo morando fora, pois meu pai era da Marinha, sempre passei meus verões no Cassino. Muitas vezes escutava os relatos da minha família que contavam as inúmeras vezes que foram ao Chui pela praia, porque na época deles não tinha estrada para lá, ou estava em má condição de uso(meu tio-avô uma vez "perdeu" meu avô da garupa da Java 500 que ele tinha na estrada), e isso mexia cada vez mais com a minha vontade de ir para o sul. Mas existia uma coisa que hoje parece bobagem, mas que para aquela época era uma coisa muito séria, a distância. Não que hoje também não se deva levar em consideração a distância, mas para exemplificar o que digo: na praia do Cassino existe um navio que é praticamente um marco da praia e fica a apenas 17Km, mas na década de 1980 era como se estivesse a dias de viajem. Quando mais jovem, só vi o navio uma única vez! Então pensem no psicológico de quem acha 17Km longe, o que pensar de 235Km(até o Chui, o que não foi o meu caso ainda)?!?!?

Bom, mas o dia chegou, e com uma pressão, porque a jornada começou no dia 11 de novembro de 2017, e dia 15 de novembro eu tinha que estar em casa para o aniversário do meu pai. Cedo parti, nem havia nascido o sol ainda. O primeiro dia foi bem tranquilo, o vento estava ajudando, e no Cassino é o vento que manda, mais adiante vocês vão entender, passei pelo navio rapidamente.
E segui adiante, tão rápido que me esqueci do hotel abandonado que existe a três quilômetros deste navio. Me lembrei quando já era tarde para voltar. Eu tinha que chegar ao farol Sarita ainda neste dia, mesmo sabendo que seria difícil, pois teria que ser uma puxada de 56Km. Óbvio que não consegui, mas onde fiquei podia ver a luz do farol. Tirei meu equipamento fotográfico para fazer fotos noturnas, e o meu tripé quebrou a cabeça, fazendo com que eu carregasse um peso morto na mochila pelo resto da aventura(tenho ele guardado até hoje!). no dia seguinte, mais um dia bonito e sem vento, a puxada seria até o farol Verga(aproximadamente 41Km de distância), na verdade eu iria mais adiante, mas o clima me obrigou a parar no Verga.(na foto o Sarita, o Verga não teve como fotografar)
Parei em uma plantação de pinheiros passando o Verga poucos quilômetros. A maré começou a subir e tive que montar acampamento atrás das dunas no meio de pinheiros muito a contra gosto. Primeiro porque havia um grande quantidade de pinheiros caidos e galhos grandes e, segundo, porque árvores são para raios naturais, e o temporal que estava passando no oceano era dos grandes. Mais uma vez amaldiçoei o tripé quebrado pelas magníficas fotos de raios que perdi a noite!

Durante a noite chegou a chover, mas foi pouco. Levantei e subi na duna que foi meu abrigo do oceâno e vi a maré alta ainda. Iria ter que esperar, não havia o que fazer. Quando foi por volta das 9 da manhã começou a baixar a maré e resolvi tomar o rumo ao Albardão novamente e desta vez o farol seria o meu ponto de parada. Não tinha bolhas nem dores musculares, isso falicitou muito. Material recolhido, Albardão era o destino. Seria a pior parte da caminhada, porque é ali que fica o chamado Deserto do Albardão, é muita areia para todos os lados. Do Verga até o Albardão são mais ou menos 29Km de caminhada. O tempo estava feio, mas sem vento, coisa rara no litoral gaúcho!

O mar estava agitado, ainda sob o efeito do temporal que havia passado durante a noite. Segui meu caminho. Meu refúgio era a música. Muitos gostam dos sons da natureza, mas eu já conheço este som a muitos anos, por isso eu ignorava o cansasso com a música, muito rock'n'roll das antigas pra viajar no tempo! Eis que me aparece o tão esperado Albardão!!!!

Chego e sou recebido pelo Sargento Moreno e pelo Cabo Sérgio, duas pessoas muito solícitas e simpáticas a minha presença. Me oferecem um belo bife, arroz e batata frita, um manjar para quem só vinha comendo miojo e linguicinha fininha! Ahhhh....e a maior de todas, Coca-Cola!!! Finalmente iria tomar algo que não fosse água de arroio com clorin! Só se tem energia elétrica a noite, quando são ligados os geradores a disel do farol e que alimenta as casas, mas dá pra fazer ligações, mas com duas condições, operadora Vivo e subir 243 degraus! Lá fui eu, subi, liguei primeiro para minha namorada, depois para os meus pais, e pedi para que um deles tirasse a minha foto que ilustra o relato com a bandeira dos Escoteiros do Mar no alto do farol. A visão de lá de cima é fantástica!
Passei a noite na casa onde ficam os civis, pouco antes de entrar para tomar banho e descansar, aproveitei e subi novamente o farol, onde fiz uma das mais belas fotos do meu acervo, o por do sol visto pelo Albardão!
Os geradores foram ligados, pude tomar um banho com água quente e sem areia, comi alguma coisa e me joguei numa cama. Simplesmente apaguei e só acordei no dia seguinte a tempo de pegar uma foto do nascer do sol no Oceâno Atlântico.
Meu amigo Dunes estava para chegar e me levar de volta para casa. Tomei meu café, falei com o Sargento Moreno, ele estava indo a Santa Vitória do Palmar comprar um celular novo para ele, e o tempo já tinha virado durante a noite. Outro temporal passou ao largo, e a rabeta dele estava sobre o litoral, ventos de até 70Kh varriam o Albardão. O Dunes chegou com um pessoal ligados a um grupo de fotografia. Tiraram algumas fotos do farol e começamos nossa volta para Rio Grande, quando a 9,5Km do farol o carro estragou, ficou com tração só em duas rodas, o que não dá para andar na praia, além disso, a peça que estragou fazia uma fumaceira com um cheiro horrível. O Dunes parou o carro próximo as dunas, caso a maré subisse, e, enquanto pensávamos no que fazer, chegam dois motociclistas que cometeram um erro gravíssimo no Cassino. Pedimos ajuda para nos levar até o farol para pedirmos ajuda, e eles se negaram. O Dunes resolveu ir a pé. Perguntei quantos quilômetros era, e ele respondeu 9Km. Falei pra ele que ia junto, que na esteira eu caminhava a 9Kh, então seria mais ou menos isso que levaríamos na caminhada. Substimei a praia, cometi um erro e não levei em consideração o vento de 70Kh que soprava. Levei apenas um cantil pra mim e para o Dunes. A água terminou a 1Km do farol, nossos rostos pegavam fogo por causa do sol(começamos nossa caminhada as 11:45 da manhã), e a minha previsão de 1 hora, se tornou 3 horas!
Mais uma vez fomos recebidos pelo Cabo Sérgio, que indicou um rapaz, o Edmar Viana, que mora próximo ao farol e que tinha um trator para rebocar o carro, nos deram comida(para mim pela segunda vez) e o Dunes ligou primeiro para Santa Vitória do Palmar pra falar com um amigo mecânico que se deslocou até o farol, e depois foi falar com o Edmar. Resgataram o carro e em poucas horas estávamos voltando para Rio Grande e a tempo do aniversário do meu pai!
Sempre Alerta!

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Luiz Carlos Piccinin
Luiz Carlos Piccinin 10/15/2019 13:08

Parabéns pela aventura.. esse lugar é show.. já fui 4 vezes e ainda quero voltar.. impressionante como o navio se degrada a cada ano..

Ronaldo Morgado Segundo
Ronaldo Morgado Segundo 10/15/2019 14:08

Obrigado Luiz! Infelizmente o Altair está com os dias contados. A ferrugem está devorando ele muito rápido nos últimos 5 anos! É um marco da praia do Cassino que vai desaparecer.

Alberto Farber
Alberto Farber 10/17/2019 09:47

a foto do por dol sol no farol é realmente belíssima !!

Ronaldo Morgado Segundo
Ronaldo Morgado Segundo 10/17/2019 15:56

Obrigado Alberto!!!!

Marcelo Santiago
Marcelo Santiago 10/31/2019 16:09

Excelente relato!, Faz imaginar-se na aventura

Ronaldo Morgado Segundo
Ronaldo Morgado Segundo 10/31/2019 16:39

Obrigado Marcelo!

Ronaldo Morgado Segundo

Ronaldo Morgado Segundo

Rio Grande

Rox
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Formado em eletrônica, informática e história, escoteiro desde 1979, grande entusiasta de aventuras e fotógrafo.

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