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Dientes de Navarino

Dientes de Navarino

Uma mochila. Quatro dias. E muita chuva.

Trekking Mountaineering Camping

Impulsionado por um relato lido lá no Mochileiros, na procura de um lugar pra passar as férias depois de um ano bem atribulado no trabalho, resolvi passear no final do mundo. Primeiro, ia fazer a trilha até Plaza de Mulas, no Aconcágua. Muito caro. Ushuaia. Pareceu urbano demais. Torres del Paine. Estava melhorando. Mas será que tem algo além disso? Tinha...

Preparação: Navarino, pra quem está acostumado a fazer trilhas ou travessias de alguns dias, não apresenta dificuldade técnica. Não há grandes relevos nem trechos de escalada. Há dificuldade de orientação em alguns momentos, mas meu pior inimigo foi o clima. Levei tudo dentro sacos estanques e tudo tem que estar em algum recipiente impermeável. Escolha bem sua roupa de chuva, porque você vai estar com ela o dia todo, leve um par de meias pra cada dia e um par extra (mantenha os pés secos!) e muda de roupas pra dormir. Tive problemas com a barraca, que vou explicar mais além.

Obs.: Todos os guias de viagem recomendam fazer em cinco dias. Acho que quatro são suficiente, podendo fazer até em três se gostar de andar bastante (emendando dias 1-2, 3-4 e o 5 sozinho). No verão você tem por volta de dezoito horas de luz diárias, se considerar uma média de 6-7 horas de caminhada por trecho, emendando dois trechos ainda sobra luz ao final do dia. Na verdade, não estava muito afim de chegar duas, três da tarde nos acampamentos e ficar oito horas fazendo vários nadas dentro da barraca, debaixo de chuva até a hora de dormir. Conheci no hostel um francês que fez a travessia em DOIS dias, mas acho meio insano e... sinceramente, depois do trabalho que deu pra chegar lá você quer fazer tudo correndo?

Orientação: Levei um Garmin eTrex 30x com mapa do Proyecto Mapear e track do wikiloc, procurei a mais detalhada. Até dá pra se virar sem ele se não tiver neve no caminho, mas alguns trechos são um pouco confusos. Também foi junto o Guia de Trilhas Trekking (Vol. 2) da ed. Kalapalo como backup, caso ficasse sem baterias. Acabei consultando os dois em algumas horas... Vale lembrar que só nevou no último dia.
Vi que muitos gringos usavam bastante o aplicativo MAPS.ME no celular. Usei o Strava pra registrar a caminhada, mas no final do terceiro dia fiquei sem bateria, mesmo com power bank. Acho que esqueci de carregar completamente antes de sair.

Comida: Liofilizado para 6 dias (sou meio paranóico com ficar perdido e achar que vou ficar isolado do mundo por dias até ser resgatado, então levo comida extra sempre) - usei aquela dica de fazer a refeição principal antes de sair, de manhã, e deu super bem. Fiz sempre o equivalente a duas porções/dia (1 refeição pra 2 pessoas ou misturava 2 porções individuais). Um sachê de capuccino pra cada manhã e um envelope de sopa de caneca pra cada noite. Além disso, comprei no mercadinho um pacote de frutas secas pra comer no caminho, meia dúzia de pão sírio pra comer com a sopa e um salame.

Água: o primeiro dia é meio escasso, então saí do hostel com 2l (1l na garrafa e 1l no reservatório). Do primeiro acampamento em diante a água é abundante e limpa, não precisa se preocupar em estocar muito. Pegue água dos córregos e degelos, evite das lagoas (pode haver cocô de animais, eles nadam, moram lá, etc). Levei pílulas de cloro mas não utilizei.

Algumas coisas que falaram pra levar porque ia ser importante e não usei:

Repelente: Falaram que tem insetos mil, era indispensável, leve litros, existem nuvens voadoras que fazem o céu ficar preto, aquele exagero todo. De fato tem bastante insetos próximo ao lago e nos bosques, mas eles não incomodaram nem fui picado.
Lanternas: nem de cabeça nem de barraca - como tive só 4 horas de escuridão lá e não escurece 100%, só ocupou espaço...
Protetor Solar: a radiação é terrível neste ponto do planeta, mas os dias estavam sempre nublados (quando não chovendo). Como estava coberto da cabeça aos pés com capa de chuva, só haveria necessidade de passar no rosto. Usei no primeiro dia e só.

Fora isso, kit de primeiros socorros, kit de costura e reparos, kit de higiene, kit banheiro. Usei pouco esses, felizmente. Ah, não esqueça da garrafa de gatorade pro pipi móvel...

Acesso: Existem três formas de chegar à Isla Navarino e Puerto Williams:

  • Via Ushuaia, marítimo: Existem agências que fazem a travessia do canal, se não me engano custa uns US$ 120 e eles te deixam em Puerto Navarino (cerca de 50km de Puerto Williams, leva umas duas horas de carro porque a estrada é péssima). Uma van vai passar lá pra levar vc até a cidade e tem que marcar depois o transfer pra volta. Não sei muitos detalhes, mas o brasileiro que encontrei no hostel me disse que a agência obrigou a fazer uma venda casada e comprar uns pacotes de passeios junto. Isso e mais além de ter que fazer duas vezes aquele trâmite de fronteira não muito amigável não me agradam. Além disso, ele disse que teve que sair atrás dos carabineros porque não tinha ninguém no atracadouro… enfim, preferiria por outros métodos.
  • Via Punta Arenas, aéreo: A DAP (https://dapairline.com/) possui voos regulares de Punta Arenas para Puerto Williams (Aeropuerto Guardia Marina Zañartu - WPU). A informação que tive à época da pesquisa (maio/16) foi:

Voos de segunda à sábado saindo de Punta Arenas às 10h e retorno às 11:30.
Ida e volta: CLP 143.000
Somente Punta Arenas - Puerto Williams: CLP 75.000
Somente Puerto Williams - Punta Arenas: CLP 68.000
Franquia de bagagem: 10kg

A desvantagem são: poucos assentos - normalmente é um Cessna bimotor ou, se não me engano, uma vez por mês vai um jato BAe que tem maior capacidade; e o limite de carga. Dá pra negociar o excesso de bagagem, mas como estava com 22kg de mochila e mais uma a tiracolo, não quis arriscar. Optei pelo próximo serviço, que é…

  • Via Punta Arenas, marítimo: Mais detalhes no post que fiz separado:

https://aventurebox.com/satoedu/de-punta-arenas-a-puerto-williams-30-horas-no-yaghan/report

Cidade: Puerto Williams é uma cidade minúscula (cerca de 2200 habitantes), que está em processo de modernização. Há várias obras de pavimentação e percebe-se que mais ao fundo da cidade as casas são novas. Boa parte dos moradores têm alguma relação com as forças armadas, visto que é um ponto estratégico de defesa chileno (frequentemente você vai encontrar algum navio da marinha patrulhando a região). Lá tem um de cada. Um banco, uma agência dos correios, uma agência de turismo, um hospital, alguns mercadinhos, alguns restaurantes… assim vai. A cidade parece ser movida a lenha, por onde você andar vai ver pilhas e pilhas estocadas para os aquecedores.

Hospedagem: os estabelecimentos são, em sua maioria, casas convertidas em pousada. São estabelecimentos simples e confortáveis. Fiquei hospedado no Pusaki, onde a Patty, uma senhora adorável que visitou várias vezes a Europa nas suas férias, entende um pouco de francês, enrola um italiano, mas não sabe nada de inglês. A pedido, ela faz um jantar com centolla fresca que parece sensacional (eu estava no modo econômico, então só fiquei vendo o pessoal deglutindo o crustáceo enquanto roía meu miojo trilheiro). Paguei CLP 15.000 pela cama em um quarto para seis pessoas e há opção por quarto duplo com banho separado (CLP 45.000). Café da manhã simples incluído, normalmente ela não faz almoço pros hóspedes. Jantar CLP 12.000, jantar com centolla CLP 15.000. P.S> Se souber arranhar um francês ou quiser trocar uma idéia sobre europa, vai ajudar a ganhar a simpatia dela.

Cheguei na virada de 30 para 31/12 à meia-noite. Fui direto ao hostel, dia seguinte fui me registrar nos carabineros, passei no mercadinho ao lado pra comprar pão, comprei uns postais pra escrever no caminho, voltei pro hostel pra revisar o equipamento, fechar a mochila e deixar no hostel as coisas que não ia usar. O tempo não deu muita trégua, nublado por volta de 5-10 graus e às vezes caía uma chuva fininha bem chata. Fiquei meio apreensivo de achar que ia pegar o tempo todo assim, mas paciência. Como era ano novo, rolou um jantar especial, churrasco e vinho. Fui dormir cedo porque amanhã começava a aventura.

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Dia 01: Puerto Williams - Laguna del Salto (12.8km; distância dada pelo GPS)

01/01. Feliz ano novo! Estava tudo pronto, então levantei, tomei meu último banho por uns dias (ou o primeiro do ano) e pé na estrada. Do hostel até o começo da trilha (cascada robalo), é uma caminhada de mais ou menos uma hora. A trilha até o Cerro Bandera é fácil e bem demarcada, tirando que eu fui pro lado errado, peguei a rota do lado esquerdo, que é mais longa. Mas depois da bandeira, você segue a trilha pelo lado direito da encosta. Encontrei alguns desmoronamentos pelo caminho, mas é só seguir com cuidado que não tem problema. A dica aqui é estar sempre acima da linha das árvores que não tem erro, ao final vc desce até a lagoa. Este é o trecho com menos oportunidades de água, então achei melhor sair com a garrafa cheia (1l) e mais 1l no reservatório.

Vista desde o Cerro Bandera:

Lengas. Eu odeio lengas:

Há duas possibilidades de acampamento: na beira do lago e outra depois, subindo o morro. A segunda opção é possível caso não tenha lugar no lago. É um terreno menos úmido, mas mais duro. E a vista não é tão legal ;)

Laguna del Salto:

Dia 02: Laguna del Salto - Laguna Escondida (9km)

O dia começou subindo ao lado da cascata, passando pelo Paso Primero, Paso Australia, Paso de Los Dientes, contornando a Laguna de los Dientes. Aos pés da laguna está o Cerro Gabriel, um monte rochoso triangular piramidal. É possível fazer um ataque ao cume, mas resolvi seguir reto. Atravessei o vale e cheguei até Laguna Escondida. É nesse trecho que se encontram as vistas mais bonitas viradas para o sul, onde é possível avistar o lago Windhond, Cerro Bettinelli e dizem que dá pra ver até o lendário Cabo de Hornos num dia bom.

Cerro Bettinelli (à esquerda):

Paso de Los Dientes - Laguna del Pinacho:

Cerro Gabriel:

Laguna Escondida. Encobertos, los Dientes:

Dia 03 - Laguna Escondida - Laguna Martillo - Laguna Los Guanacos (19.8km)

Esse foi o dia!

Aviso: Começa aqui a ~~~~~LONGA NARRATIVA DRAMÁTICA do dia 3, se você não tiver saco é só pular. Resumo: Fiquei todo molhado, tive hipotermia e cheguei na Laguna Los Guanacos debaixo de neve e ventando forte.

Então. Pra começar: saí de casa com a barraca errada. No meio desse planejamento da viagem, tinha esquecido da barraca, atualmente só tenho uma de quatro estações de parede única. E daí? Quatro estações deve aguentar primavera, verão, outono, inverno, certo? Errado. Não sei quem foi o energúmeno que inventou essa denominação, mas as quatro estações de uma barraca desse tipo são: frio, neve, vento e altitude (?). O pessoal mais experiente sabe que barracas de parede única, em tempo úmido (e chuvoso, vai), condensam por dentro por causa da diferença de temperatura. E descobri que o saco de dormir também condensa! E isolantes infláveis também condensam por entre as ranhuras! Enfim, quando percebi era tarde demais e acabei indo com ela mesmo. Já meio que sabia o risco que corria (crianças, não tentem repetir). A noite na Laguna del Salto foi tranquila, só teve um pouco de umidade. Na Laguna Escondida choveu bastante. Imaginem a minha alegria de acordar com a barraca toda empoçada, saco de dormir úmido (com recheio de pena, imaginem a merd* que ficou), tendo que empilhar e ajeitar as coisas pra não molhar mais ainda. Saí com o dia nublado e não tive como secar nada. Baseado nisso, resolvi tentar maximizar o tempo de trilha, tentando caminhar o máximo possível pra tentar cortar talvez um dia. Às vezes as nuvens davam uma brecha e mostravam um projeto de sol durante a manhã.

Castorera + chuva:

Saí no mesmo horário dos outros dois dias, por volta de 8:30. Depois de muito sobe e desce, chego à Laguna Martillo cedo, lá pelas 14h. Baseado na experiência dos outros dias, sabendo que tem luz praticamente até as 22h, resolvi seguir em frente. Ignorando a rota que manda passar pelo acampamento, segui costeando o lago. O caminho não é muito óbvio algumas horas. O dia foi inclemente. Começou nublado, abriu o sol, fechou, choveu, abriu, granizo, chuva, granizo e mais chuva até o começo do infame Paso Virginia. No último trecho antes de chegar lá, você faz uma escalaminhada no bosque entre raízes e poças de lama que vão te afundar até o joelho, se não enxergar onde está pisando. Tudo isso debaixo de chuva. Depois de tudo isso, começa a subida ao Cerro Virginia. E aí começou a bater um vento forte muito gelado e vem a neve pelas costas. A subida, a essa altura, é extenuante, ainda mais depois do último trecho no bosque. Depois de tanto chove e venta, ensopado e gelado, somado com uma noite ruim (ou duas), o cansaço começa a bater. Eu não estava mais raciocinando direito. As pontas dos pés e das mãos começaram a congelar, perdi a força pra segurar os bastões, a boca secou. "Hipotermia", pensei. Estava já sem água, apesar de estar ao lado de um córrego, proveniente do degelo de um campo de neve próximo. O cansaço não me deixava parar pra descer a mochila e alcançar a garrafa d’água, só pensava em chegar à laguna. Comecei a andar em linha reta, ignorando os totens que estão ora pra lá, ora pra cá. Vi um círculo de pedras onde provavelmente foi feito um acampamento de emergência. Paro pra respirar, sento numa pedra e penso. A neve caindo e o vento batendo. A essa hora já desisti da câmera, porque é todo aquele ritual de senta, encosta a mochila, tira a capa, abre a mochila, pega a câmera, fecha a mochila, fotografa, coloca de volta, fecha, bota a capa, apóia a mochila, sobe nas costas. Fico olhando pro círculo. Acampo aqui ou não? Não sei se falta pouco. Olho pro GPS. Deviam faltar uns dois quilômetros em linha reta, o que não queria dizer absolutamente nada. Olho pra frente. Só subida num caminho árido, o Cerro Virginia deste lado é uma paisagem marciana. A musculatura estava começando a esfriar e precisava decidir rápido. Minha cabeça estava pregando uma peça e devia seguir em frente porque, se ficasse aqui, ia ser uma fria (literalmente), porque não tinha abrigo nenhum contra vento. Não pensei no pior que podia me acontecer, só queria chegar ao local pré-definido pra acampar e trocar de roupa. Sigo em frente, mas ainda olho três ou quatro vezes pra trás, como se fosse um cachorro que tivesse abandonado e estivesse arrependido. Ando mais um tanto arrastando os pés e as mãos não têm mais forças pra fazer o grip de segurar o bastão quando vejo o Hito 34, que marca o fim do Paso e o começo da descida. O visual é lindo, de todas as lagunas por onde passei acho que essa é tem a vista mais fantástica. As imagens ficaram na memória, porque sem bateria no celular e com a câmera na mochila, só voltando lá (será que volto?). Lembrei da dica do guia do Cavallari de não chegar próximo à borda e ir escorregando. A descida é fácil, você vai descendo-deslizando-patinando a encosta íngreme. Alguns vários tombos se seguiram, pela falta de forças nas pernas, mas o objetivo está próximo. Contorno a lagoa pelo lado esquerdo e chego até um pequeno palanque de observação, onde já há duas barracas montadas atrás. A neve começa a cair mais forte, empurrada pelo vento. Tento montar a barraca o mais rápido possível porque estou congelando, mas o vento e as mãos sem força não ajudam. Mesmo ancorando nas pedras, levo uns 20 minutos pra conseguir armar a barraca. Pela primeira vez na trilha experimentei o infame vento polar patagônico, que vinha rugindo lá do paso onde estava, descia a montanha e explodia com tudo na barraca. Dava pra ouvir o ribombar do alto do morro e contar até a hora que ele batia na lona. Tão logo ficou pronta, atirei-me (literalmente) na barraca e fiquei tremendo lá dentro. Lembrei da água. Enchi a garrafa no lago e corri de volta a tirar as roupas molhadas. Não tinha mais NADA seco, à exceção de umas peças de roupa (meias, uma camiseta e fleece) que estavam dentro do saco estanque mais reforçado, e estavam um pouco úmidas de condensação. Com o saco de dormir molhado, dei graças por ter trazido um cobertor de emergência aluminizado. Coloquei entre meu corpo e o saco de dormir, na esperança de reter calor enquanto cozinhava algo quente. Ajudou em termos, mas ajudou. Depois de esquentar a água, deixei o fogareiro ligado entre as pernas cruzadas um pouco mais pra ver se descongelava as extremidades. Enquanto isso, descubro que os ocupantes das duas barracas são todos do mesmo grupo (vou descobrir depois que são todos estrangeiros morando em NY), mas os da barraca menor desistiram por medo dos ventos. Desmontaram acampamento e foram procurar um lugar mais abrigado abaixo. Foi uma noite terrível, dormi pouco porque estava tremendo de frio. Desci dois antigripais pra ver se ajudavam e apaguei. Mas estava bem porque sabia que havia feito a coisa certa, não parando naquele campo aberto no alto do paso e faltava só mais um dia.

~~~~~~~~~~~~~~~~ FIM DO DRAMA

Manhã cedo na Laguna Los Guanacos:

Último dia: Laguna Los Guanacos - Pesquera MacLean - Puerto Williams (13.2km)

Acordei com os vizinhos desmontando acampamento. Botei a cara pra fora da janela e estava tudo coberto de neve. Resolvi enrolar um pouco mais, fiz café, comi e enfim saí da barraca. Por causa da neve que caiu até a manhã e me acompanhou por mais um tanto, a temperatura despencou. Complementei o look do dia (que era o mesmo do dia anterior e do outro) com o fleece, balaclava e gorro. O último dia é basicamente descida, você passa pela Laguna Las Guanacas, alguns bosques e um longo trecho da coisa que eu mais odeio em trilhas (já desde aqui no brasil): pular troncos. E são centenas deles, ao longo do rio. E são troncos enormes. Caminhar com uma mochila enorme e pesada por si só já é difícil. Transpor um obstáculo com ela é um desafio: você não tem noção das dimensões da mesma e a sua mobilidade e equilíbro estão restritos. Resultado: Algumas horas tinha que parar, jogar uma perna, jogar o corpo e olhar cuidadosamente onde iria cair. Vários muitos tombos depois (que foram progressivamente ficando mais artísticos - pra descontrair comecei a dar notas para mim mesmo e tentar ver qual queda arrancaria mais risadas em um programa de videocassetadas), cheguei a um descampado. Já conseguia ver o canal Beagle ao fundo: era só descer reto que alguma hora, de qualquer forma, chegaria ao meu destino. Vários muitos terrenos alagados, vários muitas quedas, incluindo um buraco onde afundei até a cintura na lama e quase deixei as botas e sem trilhas definidas depois, sempre descendo, você chega onde estão as fazendas - creio eu, porque não vi viva alma a não ser os gringos que estavam acampando lá em cima, e um labirinto de trilhos de gado, cocô de gado, poças de água com cocô de gado, pilhas de cocô de gado, charco alagado com cocô de gado. Acho que até hoje tem esterco grudado nas polainas... Curiosamente, não vi nenhum gado. Mas segue-se descendo até chegar num galpão velho, abandonado. Este é o Pesquero MacLean. De lá, são aproximadamente oito quilômetros intermináveis até a cidade e fim da aventura. Cheguei no hostel, larguei tudo pelo caminho, enlameado mesmo (disse a Patty que não tinha problema, devia acontecer com frequência) e corri direto pra aquecedor. Se pudesse, teria dado um abraço nele. Vi a expressão dos recém-chegados que vão se aventurar ao me ver nesse estado e dei risada. Tomei um banho quente demorado, abri uma cerveja, dei uma volta sem que ter que carregar 25kg nas costas, me atirei na cama quente e macia. E no dia seguinte passei nos carabineros pra dar baixa.

Pula tronco, pula!

<3

Eduardo Sato
Eduardo Sato

Published on 05/24/2017 02:43

Performed from 01/01/2017 to 01/04/2017

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Eduardo Sato
Eduardo Sato 05/25/2017 01:13

Hahahaha pior que eu tentei ser um pouco mais sucinto, Renan! Espero que quando vc for, pegue um tempo um pouco melhor que o meu. (Aliás, ainda quero voltar praquelas bandas e fazer umas rotas mais.... inóspitas... Quem sabe em 2019/2020?) Bom que você gostou das dicas, se precisar de alguma ajuda é só gritar!

Guilherme Cavallari
Guilherme Cavallari 05/25/2017 07:46

Uma extensão bem legal para esse trekking é visita a Bahia Windhond, que visitei quando estava na TRANSPATAGÔNIA... Tem que ir até o Lago Windhond, onde há uma cabana de tábuas para pescadores, que usei como dormitório, seguir a margem leste do lago, atravessar o Rio Windhond (não sei como, rs) e chegar até a bahia... Encontrei ossadas de baleias na praia... Com vista para o Cabo Horn. Foi nessa bahia que o explorador italiano Giuliao Giongo "naufragou" com seu bote inflável durante a viagem que gerou o livro TEKENIKA...

Eduardo Sato
Eduardo Sato 06/02/2017 01:56

Pô Guilherme, sabe que meu roteiro original era ir até o Lago Windhond e depois emendar na trilha normal? Mas como era a primeira vez lá e fui solo, resolvi não me arriscar muito. E já foi suficiente pra querer voltar lá. Estudei essa trilha pra ir até a Caleta Bevan, vi que se tiver um packraft dá pra cruzar, massss é mais uma coisa pra levar, mais despesa (e vou ficar depois levando um remo pra cima e pra baixo?). Quem sabe da próxima.. ;-)

Guilherme Cavallari
Guilherme Cavallari 06/13/2017 08:31

Eduardo, eu acabei de adquirir um packrafting pensando em situações assim. Não compensa carregar o equipamento se for apenas para fazer a travessia de um corpo d'água qualquer, tem que ser uma expedição mista, onde metade do tempo o deslocamento é por terra e a outra metade por água. A Ilha Navarino é ainda muito selvagem, essas trilhas abertas são relativamente seguras, mas fora delas o bicho pega! No livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS eu falo sobre os "cachorros selvagens" e os "pântanos sem fundo" da ilha... Abraço!

Peter Tofte
Peter Tofte 11/24/2017 08:29

Muito bom relato! Uma aventura e tanto. Qual a barraca de parede única que vc levou, uma da Black Diamond?

Edvander A. Nepomuceno
Edvander A. Nepomuceno 12/20/2017 14:57

Eduardo, sabe se é permitido fazer o trekking no inverno, com ou sem contratação de guia?

Eduardo Sato
Eduardo Sato 12/21/2017 12:27

Edvander: permitido deve ser, porque a trilha é aberta. Mas não recomendaria

Eduardo Sato
Eduardo Sato 12/21/2017 12:27

Peter: TNF Assault 2

Eduardo Sato

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