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Vale do Pati - Chapada Diamantina | Bahia

8 dias caminhando sozinha e de forma autônoma pelo Vale do Pati, coração da Chapada Diamantina.

Waterfall Hiking Trekking

Uma semana.

Esse foi o tempo entre eu saber que precisava de um plano B para as férias de fim de ano e estar com o pé na estrada. O destino me levou de volta, pela terceira vez, à Chapada Diamantina (os relatos anteriores você pode ler AQUI e AQUI). 

Desde 2013, eu estava engasgada com o fato de não ter dado certo a travessia do Vale do Pati e, seis anos depois, era chegada a hora de encarar essa que é das mais clássicas travessias brasileiras.

Estava disposta a ir sozinha e sem guia. Se por um lado isso facilitava as decisões e cronograma, por outro exigia maior planejamento e preparo.  

Como tinha tempo disponível, quis colocar todos os pontos de interesse possíveis dentro do plano. Também queria ter dias mais tranquilos, em que eu pudesse só ficar em uma cachoeira, proseando com moradores ou lendo um livro. A ideia inicial rendeu um percurso para ser feito em 9 dias, saindo de Andaraí e chegando no Vale do Capão.

Fim de ano é o período com mais turistas na região. Por isso, optei por levar os equipamentos de camping, assim não ficava dependendo de pouso em cama na casa dos moradores. Levei alguns itens para alimentação durante o dia, mas todos os cafés da manhã e jantares foram comprados também nesses pontos de apoio. Aliás, as refeições servidas por todos eles são um espetáculo à parte e valem muito a pena.

 

#Vale do Pati parte baixa 

O primeiro dia sempre é difícil. As costas não estão acostumadas, a mochila está pesada, há muita comida. Além disso, a impressão que tenho é a de que o primeiro dia sempre começa com aquela subida desgraçada, hahaha.

Andaraí ficando ao fundo

Dessa vez não foi diferente. Saí caminhando do Hostel Don’Anna, no centro de Andaraí, e já ganhei de presente 10 quilômetros iniciais de um subidão. O dia estava bem quente, o céu aberto e minha resistência física lá embaixo. Perdi as contas de quantas vezes parei para descansar e pegar um fôlego. Às vezes eu não dava 20 passos entre uma parada e outra. Às vezes parecia que estava tendo um ataque cardíaco. Juro! Andei das 8h às 13h, quando finalmente cheguei no topo do morro, passei a descer a Ladeira do Império e pude avistar, cada vez mais aberto, o vale por onde andaria nos próximos dias. Difícil descrever a animação, a alegria e a expectativa que tomavam conta de mim. 

 

Terminei de descer a Ladeira do Império perto de 15h e parei para um banho num lugar delicioso, no encontro dos rios Paty e Cachoeirão

Depois segui beirando o rio cachoeirão, que tem um poço para banho mais gostoso do que outro. Acabei parando para dormir na casa de Dona Dagmar e Seu Antônio, porque era bem próxima ao rio, permitia acampamento e estava vazia.

[13,9km no dia - R$35 o PF e R$15 o camping]

 

***

Dia 31 de dezembro, último dia do ano. Era dia de seguir pelo trecho que me causava maior insegurança: o Cachoeirão por baixo.

Saindo da casa de Dona Dagmar, segui pelo rio Cachoeirão (no caminho, passei dentro da propriedade de Seu Eduardo) e o caminho era bastante óbvio por cerca de uns 2 kms. Dali para frente começou um trepa pedra danado. Fui me orientando ainda pelas marcas de desgaste das pedras, mas começava a ficar com muitas dúvidas sobre o caminho. Em um determinado ponto, meu GPS já não reconhecia satélite algum (Etrex 30). Não parecia que eu estava no caminho errado, mas era possível que eu estivesse seguindo por um mais difícil.

 

Finalmente avistei o paredão da cachoeira e algumas quedas-d'água. Parei para descansar, comer alguma coisa, quando surgiram 3 pessoas que passaram por mim bem rápido e vi que continuaram sem dificuldades dali até o poço da cachoeira principal. Tentei seguir com eles, mas fiquei insegura. Estava escorregando muito e a todo momento parecia que eu ia me quebrar nas pedras.

Eu já estava super feliz por ter chegado ali. Seguir não estava confortável para mim. Então só parei, fiquei ali um tempão sentindo a vibração maravilhosa daquele cânion e de lá mesmo voltei para o camping, onde passei o resto do dia no rio.

 

[10,7km no dia - R$40 o café da manhã, R$35 o PF e R$15 camping] 

 


#Vale do Pati parte alta

Dia 1º de janeiro, terceiro dia de trilha e eu madruguei. Às 6h estava em pé, desarmando a barraca e fechando a mochila para seguir até a prefeitura, onde esperava tomar café. Estava bastante curiosa sobre esse lugar por conta do nome. Pensava que no meio daquele vale, em algum momento, houvera uma “prefeitura”. hahaha O que acontece é que a casa era da prefeitura, mas estava abandonada há muitos anos. Então o Jailso solicitou à prefeitura a responsabilidade sobre o imóvel e passou a morar ali. Por isso até hoje leva o nome de “prefeitura”. :P 

O caminho até lá seguiu sem grandes dificuldades e já anunciando qual seria a “estrela” daquela parte do parque: o morro da Lapinha ou também chamado morro do Castelo. Próximo à prefeitura, o visual se abre como uma espécie de portal. É lindo!


Às 8h30 cheguei na moradia, tomei um café improvisado pela Dona Maria, deixei minha mochila pesada por lá e parti para conhecer as cachoeiras Escada, Palmital e Calixto. 

Como à noite havia chovido muito, o caminho estava bastante cheio de lama. Isso fez com que o avanço não fosse muito rápido. Saindo da prefeitura sentido Calixto, depois de 2,7km aproximadamente, peguei uma saída à direita para conhecer as cachoeiras Escada e Palmital. O trecho da saída é bastante fechado e escorregadio (é uma baita ladeira). Apesar do perrengue, ambas as cachoeiras são incríveis. Não vi mais ninguém por ali e passei um tempão lendo meu livro e nadando. 

 

Cachoeira Palmital

Voltei à trilha principal e segui para a cachoeira Calixto, também muito bonita, mas mais frequentada. Passei o resto da tarde nessa cachoeira, tomando lanche, escrevendo em meu diário, tirando fotos etc. Vale muito a pena conhecê-la, pois a trilha que vai direto até ela é super bem marcada.

 

Cachoeira Calixto

Voltei para a prefeitura antes de a chuva me pegar e à noite jantei a comida mais deliciosa do vale. O refogado de palma da Dona Maria é imperdível!

[13,5km no dia - R$15 café da manhã improvisado + R$130,00 por 1 diária completa)

***

 

O quarto dia de travessia, dia 2 de janeiro, foi dia de descanso.

Acordei tarde na prefeitura, tomei aquele café da manhã maravilhoso e fui até o poço da Árvore, cerca de 1km dali. O poço é um lugar de fácil acesso e muito frequentado pelos grupos guiados. Achei um cantinho escondido e passei a manhã toda ali. Na parte alta há uma pequena queda d’água que escorre até a parte baixa por uma grande laje de pedra. Ao fundo, bem abaixo, nasce um poço enorme, chamado poço da árvore. Não cheguei a entrar na água porque parecia bem fundo e eu não sei nadar. :P 

À tarde, voltei para a prefeitura, peguei minha mochila, tirei muitas fotos com a doce Mayara (filha do casal donos da casa) e parti para a casa de Dona Raquel, famosa no vale.

[4,7km no dia - R$130,00 por 1 diária completa] 



***

A casa de Dona Raquel, que se junta com outras duas casas de seus parentes, parece bem um complexo turístico. É super movimentada e tem dezenas de quartos com outras dezenas de beliches. Por conta disso, não espere silêncio nem mesmo depois das 22h, principalmente nos quartos compartilhados.

O quinto dia de travessia começou depois de uma noite de chuva ininterrupta. Por conta disso, as trilhas estavam parecendo pequenos riachos. Tirei o dia para fazer o bate e volta até o Cachoeirão visto pela parte de cima. 

 

Saindo da casa de Dona Raquel, o caminho segue sem problemas de orientação, mas por uma ladeira desgraçada, hahaha. Já chegando nas proximidades da Toca do Gavião é que o trajeto pode confundir o caminhante desatento, porque deixa de ser por terra e passa a ser em laje de pedra. Devido ao grande fluxo de pessoas nessa parte do parque, é possível seguir pela marcação das pedras, mas é necessária muita atenção.

O Vale do Cachoeirão talvez seja a cereja do bolo de toda a travessia. É um lugar fenomenal. Inesquecível a brisa dali enchendo o peito de boas energias para um ano que promete não ser fácil. 

Por ter saído bastante cedo, tive o prazer de estar sozinha ali naquele lugar por cerca de 1h30, pensando na vida e sonhando.

Renovada, voltei para a casa de Dona Raquel, onde passei o resto da tarde jogando dominó com os netos dela. hahaha

 [17km no dia -  R$130,00 por 1 diária completa] 


***

No sexto dia saí bem cedo da casa de Dona Raquel, depois de uma noite bastante mal dormida. Cheguei na casa do Seu Wilson e logo senti a maior conexão com o lugar. Primeiro porque o Seu Wilson parecida um vovô de roça. Segundo porque as mulheres que trabalham na casa são simplesmente maravilhosas, super gentis, acolhedoras e amorosas. 

Deixei minha mochila ali e uma delas, a Nadia, me orientou sobre o caminho até a gruta do Morro do Castelo.

A subida até lá era bem forte, mas eu já estava no sexto dia de travessia e meu corpo já bem mais acostumado. Cheguei na entrada da gruta, liguei a lanterna e entrei com a cara e a coragem. Aliás, quase que a coragem ficou para atrás, porque minhas pernas começaram a tremer de medo de estar ali sozinha naquela escuridão. A passagem da gruta parecia ter 5km e não acabava nunca, hahaha. Na verdade ela tem por volta de 800 metros. :P

 

Assim que avistei uma luz, sai correndo e precisei sentar para me acalmar. Foi medonho, mas foi engraçado. =D

Do outro lado do morro, ainda achei alguns mirantes mais famosos, mas não todos. Ali também não há sinal de GPS e o deslocamento é complicado, porque se dá sobre um amontoado de pedras. Satisfeita por ter chegado até ali, voltei para a casa de Seu Wilson, não sem antes parar para um banho no rio próximo à casa, onde passei o resto do dia de boa.

[5,6km no dia - R$130,00 por 1 diária completa]

***

Dia 5 de janeiro, sétimo dia de travessia, já sentia meu corpo completamente diferente do dia em que comecei a pernada. A meta do dia era chegar até o local conhecido por “Igrejinha”, comandado pelo Seu João, só que seguindo o curso do rio da cachoeira do Funis. Ao longo dele é possível encontrar pelo menos três cachoeiras, pelo que soube - Bananeira, Funis e Altina -, além de inúmeros poços. 

 

Saí tarde da casa de Seu Wilson, já que a quilometragem do dia era bastante baixa. Segui sentido o rio, mas ao me deparar com ele, o volume de água estava ASSUSTADOR. Havia chovido muito na noite anterior e eu resolvi arriscar do mesmo jeito. Mas não havia jeito, estava impossível seguir por ali.

Então, voltei para a parte alta da trilha e segui o caminho tradicional até a Igrejinha. No entanto, cheguei cedo demais ali… cogitei seguir com a pernada rumo ao Capão, mas para isso já estava tarde. Então passei mais um dia tranquilo por ali.

[3,5km no dia - R$40 o jantar e R$25 o camping]

 

***

Último dia. 

Meu corpo estava a todo vapor, eu estava me sentindo ótima, mas sentia falta de roupas limpas e algumas facilidades da cidade. 

Tanto é que, pelos planos iniciais, eu dividiria o trecho final em duas partes: Igrejinha até o Rancho e do Rancho até o Capão. Não fiz isso. Saí para a caminhada às 6h da manhã disposta a finalizar a travessia.

 

Pela Rampa, saindo do Vale do Pati

A parte ruim foi ter saído do Vale do Pati ainda antes de o sol aparecer, portanto estava tudo bastante nublado. Ao terminar de subir a Rampa, não pude ver uma paisagem tão bonita. Segui firme pelos Gerais do Rio Preto apreciando o dia que lentamente nascia. Às 8h estava já descendo o famoso Quebra-Bunda em direção ao Gerais do Vieira, onde, em tese eu pararia.

A caminhada pela parte baixa também foi muito agradável. Em um determinado momento começou uma chuva bem leve e tranquila. Aproveitei para receber aquela água sem ficar me cercando de proteções contra a chuva. Foi uma delícia! Eu me sentia em um filme de aventuras, hahaha.

Vista do Vale do Capão

Ao final do Gerais do Vieira, passei a avistar ao longe o Vale do Capão, de fato, cercado de morros lindos por todos os lados. Cheguei no Bomba, atravessei o córrego das Galinhas e parei uns 30 minutos para tomar uma Coca-Cola gelada e comer o famoso pastel de jaca! Descansei um pouco e segui caminhando pela estrada de terra que leva até o centro da cidade do Capão. 

Cheguei 13h na pousada Pé no Mato, muito cansada pela esticada final e também muito feliz por ter realizado tudo aquilo. 

[24km no dia]

 

A Chapada Diamantina é deslumbrante e vale cada visita. Além das paisagens de tirar o fôlego e das cachoeiras maravilhosas, as pessoas que moram ali compõem o capítulo mais especial da viagem.

Ter percorrido a travessia sozinha trouxe, por um lado, uma conexão enorme comigo mesma e com meus próprios desejos; por outro lado, maior abertura para conhecer pessoas pelo caminho e suas próprias histórias e motivações (em especial o Michael, parceiro da zona norte de SP e da bicicleta; o Guibson, se reinventando e refazendo seus planos; a Sabrina, a Val e a Carol, queridas e doces na caminhada; o Marcelo, com tantas palavras lindas).

 

Quem desejar conhecer o Vale do Pati na companhia de um guia responsável e gente boa, recomendo fortemente dois deles:

Dmitri, da Chapada Trekking (075) 982987075

Val, da Tambori (075)991676817

Bruna Fávaro
Bruna Fávaro

Published on 02/02/2020 21:52

Performed from 12/30/2019 to 01/06/2020

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Mariana
Mariana 02/15/2020 17:33

Nossa que relato lindo! Estou indo no carnaval e com um pouquinho de receio do peso da mochila (vai dar uns 12 kg). Mas vamos lá!

Fernando Santos dos Anjos
Fernando Santos dos Anjos 02/26/2020 18:34

Muito lindo esse vale do pati🖤🖤🖤🖤

Damião Santana
Damião Santana 03/28/2020 23:01

Lindo relato! Estive no Vale do Pati em jun.2019. Não fiz travessia. Entrei pelo Guiné, que atravessa a Gerais do Rio Preto. Fiquei 4 dias. Olha, na Gruta do Morro do Castelo tem um segredo escondido: uma segunda via q sai num outro lado da montanha, mais a acima. Este local em geral só é descoberto com auxílio de guia. É demais a parte alta do Morro do Castelo. Adorei seu relato pois quero muito voltar ao Pati em forma de travessia. :)

Airton Rosas
Airton Rosas 05/02/2020 00:04

BOA NOITE BRUNA. AQUI É O AIRTON DE ITATIBA-SP PRAZER EM CONHECÊ-LA, DIGA-ME: QUAL A DIFICULDADE REAL DESSA TRILHA, E CUSTOS E LOGÍSTICA. FOI FÁCIL OU DIFÍCIL. MEU INTERESSE É PORQUE GOSTO DE FAZER TRILHAS E ESCALADAS SOLO.

Rodrigo Oliveira
Rodrigo Oliveira 05/19/2020 18:35

Sensacional! Minha próxima travessia no Brasil qdo a Pandemia acabar :)

Gonçalves
Gonçalves 07/17/2020 15:23

Eu nao canso de ir (4 vezes ate agora). Vou a 5 vezes agora em setembro, mas por um caminho pouco conhecido: mucuge-paty-capao.

Christian
Christian 08/02/2020 13:30

Fantástica aventura!

Gonçalves
Gonçalves 08/02/2020 13:31

O parque esta fechado e nao se sabe quando vai abrir

Bruna Fávaro

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