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Monte Roraima | Parte II – Dias 5 - 8/8

Segunda parte do relato da expedição ao Monte Roraima, entre a Venezuela, o Brasil e a Guiana. Cume x Paraitepuy + Retorno

Mountaineering Trekking

Monte Roraima | Parte II – Dias 5 a 8/8 – Cume x Paraitepuy + Retorno.

Tipo de Aventura: Expedição entre a Venezuela, o Brasil e a Guiana.

Ponto Base:  Aldeia de Paraitepuy - https://goo.gl/maps/1CAQAJJV9jEkey4k9

DICAS:

  • A contratação de guias e carregadores locais é obrigatória. Mesmo que você esteja contratando uma empresa brasileira para fazer todo o processo, procure se informar sobre quais serão os verdadeiros guias.
  • Após a expedição, nos hospedamos e tomamos banho via Booking no Hostel Roraima. https://www.booking.com/hotel/br/hostel-roraima.pt-br.html
  • Guia contratado: Leopoldo – Roraima Destiny = +58 424-9115872
  • Tenha total conhecimento do roteiro a ser seguido. Isso vai te ajudar a conversar e argumentar com os guias frente às adversidades que possam aparecer.
  • Escolha um voo de retorno em um horário seguro. Nós voltamos no voo das 1:00 da manhã do dia seguinte ao trekking.
  • Esteja com os transportes de retorno agendados para não perder muito tempo na fronteira.
  • Os quatro últimos dias da expedição representam a exploração do cume e a descida de retorno. Esteja fisicamente preparado.
  • Em caso de excesso de cansaço ou de problemas físicos, a melhor opção é contratar ou pedir ajuda para algum carregador. Ninguém precisa provar nada pra ninguém e a ajuda deles será essencial para que todos possam viver uma grande experiência.
  • Desfrute de todas as experiências do cume.
  • Seja um montanhista consciente e não um otário sem ética e caráter.

Esse relato é a segunda parte da descrição dessa grande aventura realizada com o Clube Outdoor, referentes aos quatro últimos dias de trekking, de um total de oito.  Veja o relato da Parte I em:

Para saber mais sobre esta aventura do ponto de vista de outros participantes e para conhecer mais sobre o Clube Outdoor, visite os relatos abaixo indicados.

 

Ainda no dia 4...

O planejamento da segunda parte de expedição tinha sido acordado no dia anterior ainda no cume do Maverick com representantes de todos os grupos que andavam com os nossos guias. Eu, representando o Clube Outdoor, um paulista, um mineiro e uma alemã concordamos em, no dia 5, fazer uma super caminhada para que nenhum ponto de interesse fosse deixado pra trás, já que os problemas ocorridos tinham atrapalhado o nosso cronograma. Com tudo certo, o acordo era de levantar antes do sol nascer e começar a andar às 6:00.

Por conta de muitos fatores que já foram mencionados no relato anterior, as expedições para o Roraima estavam cheias. Isso afetou também a nossa viagem, já que descobrimos no dia de início da caminhada que nós, um grupo de 16 pessoas que vinham do Rio de Janeiro, também teríamos a companhia esporádica de mais 8 pessoas de diversos outros lugares (4 paulistas, 2 mineiros e 2 alemãs). Apesar dos grupos andarem separados e de serem guiados por pessoas diferentes, a logística de camping e refeições era a mesma. Essa logística teve altos e baixos, mas em um todo, não gerou grandes problemas até o fim do dia 4, quando uma pequena divergência se iniciou ainda no cume do Maverick.

Chateado com a postura bem estranha de um dos participantes vindos de São Paulo (Alex) de incomodar uma aranha que transitava pelas rochas que compunham o cume, um dos nossos participantes resolveu reclamar diretamente. Isso iniciou um bate-boca e uma quase confusão generalizada. Ofensas foram disparadas por esse Alex, tentando de qualquer forma se mostrar um montanhista superior e humilhar o nosso amigo. A coisa foi tão bizarra que frases como “Só porque você subiu o Pão de Açúcar, você acha que é montanhista?” nós tivemos que escutar. Uma enorme demonstração do grande ridículo em que o ser humano e o elitismo do montanhismo nacional podem chegar. Eu mal imaginava que isso era só o começo de todo um processo social que se perpetuaria por todo o resto de nossa viagem. Ao menos, as coisas não chegaram ao nível de agressões físicas, já que foram apartadas.

 

Dia 5 – 26/02/2020 – Ponto Tríplice + Ida até a Gruta Três Nações + Aproximação na Pedra da Proa.

Bom, após todo os acontecimentos do dia anterior, acordei no horário combinado, ainda com as estrelas no céu e com todos arrumando as coisas da forma mais rápida possível. Saímos das barracas e nos aprontamos entre a escuridão e as luzes de lanternas refletindo por toda a caverna. Tomamos café e assistimos um incrível nascer do sol, o que nos encheu de disposição para, talvez, o dia mais cansativo de toda a viagem. Por volta das 6:20 já estávamos caminhando rumo à exploração da face norte do Monte Roraima.

O Monte Roraima (Fonte: Google Earth).

Iniciamos a caminhada em um ritmo bem forte e guiado pelo nosso guia Leopoldo. Voltamos um pouco na direção da subida do Maverick (leste) antes de mirarmos para norte do cume. Aqui começava a caminhada que, para todos nós, seria mais representativa da exploração do cume. Infinitos caminhos brancos provocados pela erosão do arenito proveniente dos passos de muitos aventureiros. Não era difícil olhar ao longe e ver a nossa trilha a ser seguida no horizonte. Tinha chegado a nossa hora de realmente conhecer toda a imensidão daquele Tepuy.

Quando o arenito é erodido, pode assumir formatos de monolitos bem curiosos que se assemelham a objetos ou animais. Eram inúmeras e curiosas formações rochosas que vimos pelo caminho. Formas e desenhos que valiam milhões de interpretações e risadas. Vimos cachorros, macacos, golfinhos e etc. Mas a minha imaginação é tão doida que, lembro de parar no meio da caminhada e avistar uma região que mais parecia outro planeta. Uma superfície inóspita e rochosa, lembrando aqueles filmes de ficção científica com diversos pontos que pareciam pistas de pousos de OVNIS.

As trilhas brancas no horizonte entre as pistas de pousos de OVNIS

Seguimos pelo branco que contrastava com o cinza escuro do restante da paisagem. Por volta das 10:00, chegamos ao Ponto Tríplice: um marco que simboliza o ponto de encontro entre as fronteiras da Venezuela, do Brasil e da Guiana. Um sorriso se abria no meu rosto. Sei lá, quem ler esse relato pode achar uma grande bobeira, mas atravessar países durante uma caminhada tem algum tipo de simbolismo atrelado. Lembro de ter pensado: “Estou tão bem aqui fazendo o que mais amo que não vou colocar os pés no Brasil novamente”. Apenas uma grande brincadeira, já que com o esforço de um passo ao redor do marco, cruzei a fronteira tantas vezes que perdi a conta. Eu me apegava ao ponto como se fosse algum tipo de ponto espiritual. Uma doce bobeira de uma criança que ali estava realizando um grande sonho.

Ponto Tríplice.

Atravessamos pequenas descidas e subidas até que começamos a avistar um pouco mais de vegetação. As árvores, epífitas e savanas secas ou pantanosas davam o tom do que estava diante de nossos olhos. O Monte Roraima abria espaço para o verde da vegetação retorcida e o colorido de flores e jardins belíssimos. Vale destacar o cruzamento de uma ponte instalada pelo ICMBIO para preservar um dos pontos com vegetação mais densa.

 

A vegetação aparece no cume do Monte Roraima.

Ponte para proteção da vegetação.

Por volta de 12:00 avistamos o belo vale onde fica a gruta do Quati e seu respectivo camping. Não ficaríamos no local já que o mesmo estava ocupado por algum outro grupo que tinha chegado antes. Nos deslocamos então para a Gruta Três Nações. Gastamos um tempo até que todas as barracas estivessem montadas e todos abrigados.

Um pouco da Gruta Três Nações.

Após o almoço, já por volta das 13:30, rumamos para o que seria o restante do dia: a tentativa de chegar até o mirante da Pedra da Proa. Seguimos somente em 12 pessoas, já que muitos preferiram descansar e aproveitar um pouco do entorno. Já havia sido caminhado cerca 12 km na primeira parte do dia e ainda teríamos mais 9 km pela tarde.

Com um grupo mais compacto e leve, andamos em um ritmo mais acelerado. A paisagem continuava tomada pelas formações rochosas que dividiam espaço, agora ainda mais presentes, com os coloridos jardins que cruzávamos. Conseguimos ganhar terreno com facilidade. Cruzamos belos rios e seguimos adiante. Foi então que, por volta das 15:30, alcançamos o Lago Gladys, um imenso lago, em uma espécie de afundamento da formação rochosa da região, bem no topo do Monte Roraima, com quase o tamanho de um campo de futebol.

Lago Gladys.

Dalí em diante o tempo fechou e começou a chover. Continuamos andando em direção à Pedra da Proa, até um ponto bem próximo onde deveríamos tomar a direção oeste para ir até o mirante. A chuva parecia não dar trégua e as nuvens que se anunciavam no horizonte davam a impressão de que tudo seria ainda pior. Esperamos ainda por mais 30 minutos sem sucesso. Foi então que resolvemos ficar com a visão que tínhamos da ponta norte do Monte Roraima e retornar para o acampamento, já que se aproximava das 17 horas.

A ponta da Pedra da Proa.

Foi uma caminhada de retorno tranquila e em um bom ritmo, apesar do longo dia e do cansaço. Tomamos banho em um dos belos lagos cercados por vegetação e terminamos os aproximadamente 21 km do dia de exploração chegando ao camping por volta das 18:30. Foi um dia incrível. Daqueles onde um real praticante de atividades ao ar livre se sente satisfeito por conta da longa caminhada, das belas paisagens e dos perrengues que deixam histórias.

Já no camping, jantamos e nos abrigamos para descansar. Entre jogatinas e bate papos, ficamos sabendo de novas acusações direcionadas ao nosso grupo. Segundo o amigo brigão do dia anterior (que optou por descansar a tarde), nós tínhamos pago algum tipo de suborno para os guias nos levarem à Proa. Isso foi algo que me deixou realmente perplexo, já que tudo tinha sido devidamente acertado e concordado em reunião do dia anterior. Na boa, se você quer acusar alguém de não ser um bom montanhista, ENTÃO AGUENTA ANDAR. Dinheiro nenhum no mundo compra disposição e amor à natureza. Mais ainda, dinheiro nenhum no mundo compra o  real amor pelo esporte.

 

Dia 6 – 27/02/2020 – Nascer do Sol no Mirante para o Roraiminha + Vale dos Cristais + El Foso + Hotel próximo ao Abismo.

Acordamos por volta das 5:00 com o objetivo de ver o nascer do sol em um mirante próximo ao acampamento. Abri a barraca e olhei para o céu com poucas esperanças de que as estrelas estariam à vista, por conta das nuvens que estacionaram alí na noite anterior. Foi quando eu fui completamente surpreendido por um céu estrelado e limpo. Soltei aquele sorriso no rosto, tomei coragem, sai do saco de dormir, me arrumei e percebi outros malucos também empolgados. Era aquele samba de lanternas de cabeça na gruta Três Nações.

Após uma caminhada fácil de cerca de 15 minutos, chegamos ao mirante ainda no breu da noite. Percebíamos o mar de nuvens cobrindo o horizonte como um lençol delicadamente posto sobre a paisagem. Ali esperamos e tivemos ótimas conversas. Por volta das 6:15 nasceu o sol no horizonte. Foi um espetáculo visual indescritível. Esperávamos por isso desde o primeiro dia de expedição. Aos poucos o céu foi se tornando vermelho, depois alaranjado e, por fim, azul. Neste processo podíamos ver, ao mesmo tempo, as feições de relevo que pouco se erguiam sobre o lençol de nuvens. Era o Monte Roraiminha. Também percebíamos o infinito que se apresentava diante de nós e a felicidade e a satisfação exposta em todos os rostos.

O Monte Roraiminha e o nascer do sol.

O infinito do Roraima.

Voltamos para o acampamento, tomamos o café da manhã, desmontamos tudo e iniciamos a nossa caminhada de volta ao sul do Monte Roraima. Nosso roteiro do dia visava chegar até alguma boa caverna próxima à entrada do Cume e lá acampar para descermos nos dois dias seguintes. No caminho, passaríamos pelo Vale dos Cristais e pelo El Foso, todos localizados próximos ao ponto da Tríplice Fronteira.

Saímos do acampamento por volta das 9:00 para percorrer todo o caminho da manhã do dia anterior, agora ao contrário. Deixávamos nossas pegadas no caminho e, aos poucos, já nos enxiamos de bons sentimentos sobre tudo que já havia sido vivido. Chegamos à uma bifurcação próxima ao ponto tríplice, largamos as mochilas e seguimos para o Vale dos Cristais. Um ponto onde os cristais de Quartzo branco afloram e ficam em total destaque, enchendo o local de uma beleza diferente do resto da paisagem. Também um lugar que sofre muito com o roubo de "lembranças" dos turistas.

Admirando uns cristais.

Retornamos, colocamos as mochilas nas costas e seguimos para o El Foso. Por volta de 10:20 estávamos lá. Parte do grupo resolveu ficar descansando e apreciando a vista, enquanto outra topou o desafio de descer e entrar nas águas geladas. Eu fui, claro. A trilha segue dando a volta pelas rochas do entorno, pulando pedra e se metendo num pequeno fundo de vale onde fica a entrada da gruta. Passando pelo escuro, fomos nos embreando até o ponto exposto e cheio de luz do foso. Brincamos e nos divertimos muito até o ponto de não sentirmos mais os dedos dos pés. Saímos, nos secamos e seguimos caminhada.

El foso.

Por volta de 12:00 voltamos a caminhar pelos locais psicodélicos já descritos anteriormente. Foi uma caminhada tranquila até que, por volta das 15:00 encontramos a Gruta Guacharo disponível para o nosso grupo. No processo de nos alojarmos e de montagem de barracas, eu confesso que aqui tive um pequeno momento de estresse. Por situações logísticas repetidas e pelo desgaste psicológico que vinha tendo, acabei me estourando um pouco por pouca coisa. Abro aqui meu coração para assumir que errei e que disso vou tirar grandes aprendizados para o meu desenvolvimento pessoal.

Com tudo (quase resolvido), comemos e fomos até a beira do Abismo próximo curtir o fim do dia que caia sobre nós. Com os guias no local, conversamos bastante e rimos com suas piadas e brincadeiras. Aquela seria nossa última noite no cume. Eu queria gravar cada pequeno pedaço daquilo tudo que vivi na memória para nunca mais esquecer. Meu coração estava enfraquecido pelo ocorrido e minha emoção estava a flor da pele. Um tempero psicológico perfeito para fazer com que a experiência tenha sido ainda mais única. Conversamos mais um pouco, comemos e fomos descansar. Agora começaria a descida e a despedida.

 No abismo com nossos guias.

Gruta Guacharo.

 

Dia 7 – 28/02/2020 – Cume x Acampamento do Rio Tek.

Acordamos cedo já que o dia seria longo: toda a descida de volta até o Rio Tek, percurso que, na subida, fizemos em dois dias. Saímos por volta de 8:00 rumo ao ponto de descida. No caminho, avistamos helicópteros de passeio ou de entrega de suprimentos dando rasantes pelo cume. Em conversas com nossos guias, entendemos que muitos turistas pagam por sobrevoos no local e que algumas operadoras de trekking contratam a operação de entregas de suprimeito aérea.

Chegando ao ponto de descida, paramos para uma última visualização da paisagem lá de cima. Tiramos muitas fotos, comemoramos e tocamos pra baixo. A primeira parte da descida tem degraus bem grandes, fazendo com que seja necessário o uso das mãos de apoio. Passando essa parte, atravessamos mais uma vez o Paso de Las Lagrimas, agora com muito menos água que na subida, o que nos fez valorizar ainda mais a experiência do terceiro dia. Depois veio uma pequena subida antes de voltarmos a perder altimetria. Aqui rolou algo muito legal, passando por este ponto, nosso guia pintou nossos rostos com um pouco de terra. Cada um tinha seu desenho personalizado.

Antes da descida.

Cara pintada.

Chegamos ao acampamento base por volta das 11:00, depois de um bom banho de cachoeira. Almoçamos, descansamos e continuamos a descida rumo ao acampamento do Rio Tek. Estava muito calor e a descida ocorria no chão vermelho de cascalho, com pequenos escorregões e deslizes. Aqui não havia nada de muito novo a descobrir, apenas o sentimento de chegar logo ao camping seguros e com a sensação de dever cumprido. Atrás de nós estava o paredão, desejo e companhia dos dias anteriores. Como já conhecíamos bem o caminho e sabíamos que não existiam muitas bifurcações, o grupo andou bem espaçado e livre, cada um no seu ritmo.

O paredão.

Eu fiquei acompanhando o grupo de trás e, por volta das 16 horas chegamos no Rio Kukénan, onde agrupamos e tomamos um bom banho gelado. Saímos, nos secamos e voltamos a caminhar. Por volta das 17:00 enfim chegamos ao acampamento do Rio Tek depois de caminhar aproximadamente 21km. Muitos do grupo estavam exaustos e famintos. Enquanto a comida não saia, nos distraímos jogando e conversando, sempre olhando para o Monte Roraima. Não é que a gente tinha realmente ido lá...

Kukénan visto de dentro da barraca.

Continuamos a diversão próximo das barracas até que a noite caiu. Todos com muita fome esperavam ansiosamente pela refeição. Enquanto isso, comecei a passar o chapéu por todo o grupo para arrecadar uma simbólica quantia de gorjeta para dar aos carregadores e guias que tanto nos apoiaram.

Em contrapartida, neste mesmo momento, presenciamos o nosso guia ser cobrado de forma bem enfática pelo Alex (causador de confusões) e seus amigos sobre problemas na expedição. Ok, tenho que admitir que muitas coisas poderiam ter sido melhores, mas não havia necessidade da forma como tudo estava sendo falado e exposto. Parecia uma gritaria no camping. Num todo, superamos tudo que apareceu e tinhamos o dever que valorizar o empenho de toda a equipe em fazer o melhor possível por todos nós. Fico ainda mais triste de ver isso de uma galera que o tempo todo fez questão de trata-los como serviçais, sem ao menos ter a gentileza de sair de uma barraca pra buscar um prato de comida. Bando de babacas.

Nós fizemos diferente. Reunimos todos. Lá estavam os guias, os cozinheiros e carregadores. Fizemos questão de dar voz a cada um alí presente. Agradecemos, escutamos, refletimos, nos emocionamos e, óbvio, comemoramos muito. Fizemos apenas o essencial para demonstrar tamanha gratidão. Pequenos gestos de compreensão e compaixão fazem toda a diferença na energia do ambiente. A caminhada no Monte Roraima tinha sido mais do que um trekking, tinha sido uma grande experiência. Por fim, entregamos os valores simbólicos arrecadados e comemos MUITO. Retornamos para um pouco de jogatina e dormimos. Que dia.

 

Dia 8 – 29/02/2020 – Acampamento do Rio Tek x Paraitepuy

Acordei com o bom sentimento no peito de que tudo daria certo. Comi o café da manhã, arrumei tudo e parti junto ao grupo pra finalizar a expedição. O caminho já era conhecido: a estrada de terra e cascalho que tínhamos enfrentado no primeiro dia.

Fui fechando o grupo e caminhando bem devagar. Era uma combinação de cuidado com todos para que tudo terminasse bem e uma sincera vontade de que aquilo passasse mais devagar. Por muitas vezes me deparei olhando para trás para avistar o Monte Roraima. Na subida, as nuvens o cobriam de longe, agora lá estava ele impressionantemente posicionado sob um céu azul espetacular, sempre acompanhado do Kukénan.

A despedida.

Indo bem devagar, percebi bem o trabalho dos carregadores de todos os grupos, sempre com muito peso nas costas. A sensação é de que todos estavam aliviados por conta do sucesso de tantas expedições e do bom sentimento de que agora poderiam descansar. Alguns chegavam a carregar quase 50 kg. Os verdadeiros montanhistas da região, dignos de aplausos, agradecimentos e admiração. Nós somos apenas os turistas, que por um súbito pico de ego, gostamos de nos denominar como desbravadores. Ali não, somos somente os convidados e passantes dos verdadeiros conhecedores daqueles Tepuys.

Os verdadeiros montanhistas do Monte Roraima.

Chegamos em Paraitepuy e finalizamos o trekking às 11:00. Comemoramos bastante com direito a muitas cervejas. Eu desabei a chorar dentro de todos os abraços que recebia. A emoção estava a flor da pele por 8 dias. Queria que tudo desse certo. Queria sinceramente que todos tivessem uma grande viagem e uma grande experiência de vida. Acho que consegui. Mesmo já com as lagrimas secas, eu não parava de pensar em tudo e não deixava de me emocionar com cada aperto de mão, com cada sorriso, cada agradecimento e, principalmente, com cada brinde.

Seguimos para a revista final, onde os locais abrem toda a nossa mochila para checar se não estamos carregando nada do Monte e receber a permissão final de saída. Não estávamos. Seguimos para os veículos 4x4, pegamos mais bebidas de um isopor que nos esperava, comemoramos ainda mais, entramos e seguimos viagem. No carro, as pessoas se entreolhavam com sinceros sentimentos de satisfação. Eu não conseguia me conter de felicidade. Finalizei uma das expedições dos meus sonhos. Caminhei literalmente e internamente por esses 8 dias. EU ESTIVE NO MONTE RORAIMA.

 Permissão de saída concedida.

 

O Retorno

Estávamos exaustos quando entramos nos veículos 4x4 e seguimos viagens pelas estradas de terra/asfalto da Venezuela. Nosso destino no país seria a aldeia San Francisco de Yuruani para o almoço final de comemoração. Chegamos lá por volta de 12:30, recebemos um prato enorme de comida, alguns refrigerantes e comemos até o fim do mundo. Próximo ao restaurante tinham diversas lojas de artesanato e lembranças, tanto da cultura local quando do próprio Monte Roraima. Era a chance que todos queriam de levar pequenas lembranças para as pessoas que amam no Brasil ou para guardar um pedaço daquela aventura consigo. Fiquei com uma pequena miniatura da mochila que os carregadores usavam na montanha ("Wuayare", no dialeto local). Sem dúvidas, a recordação mais marcante de todas.

Mais uma pequena parada em Santa Elena de Uairén para despedidas finais de toda a nossa equipe e para comprar um par de Crocs, sandália usada pela maioria dos locais durante a expedição e, sem dúvida, também uma lembrança marcante. Seguimos para a fronteira e, por volta das 15:00, estávamos lá fazendo o nosso trâmite de saída. Se comparado com o de entrada, esse processo foi um pouco mais longo e demorado por conta do pouco contingente de funcionários. Bom, mas com tudo resolvido, seguimos para o ponto onde os Táxis estavam nos esperando para o retorno para Boa Vista.

Foi aqui que tivemos mais um choque negativo na viagem. Enquanto estávamos almoçando, o grupo de São Paulo se retirou antes da gente, fez todo o procedimento de saída do país e NÃO PAGOU OS 50% FINAIS DOS GUIAS CONTRATADOS. Meus olhos se encheram de ódio e tristeza. Eu olhava para o nosso guia e conseguia ver a decepção no seu olhar. Tinham sido dias de trabalho duro e aquele dinheirinho suado faria falta. Eu não acreditava que alguém, no alto de sua soberba, seria capaz daquilo. Conversamos e perguntamos como poderíamos ajudar. Resolvemos não tomar nenhuma atitude ofensiva, mesmo em redes sociais. O Leopoldo tentaria resolver isso depois na base do diálogo, já que precisava do dinheiro. Fazer algo que resultasse no não pagamento só prejudicaria a ele mesmo.

Entramos nos carros, passamos por uma barreira sanitária e partimos. Foi uma viagem tranquila até Boa Vista, quando chegamos por volta das 19:00. Seguimos para o Hostel Roraima tomar um banho e pegar alguns itens que tínhamos deixado. Uma última parada para comer algo e fomos para o aeroporto. Como mencionado nas dicas desse relato, compramos o voo das 1:00 para não arriscar problemas de logística. Deu tudo certo. Despachamos nossas mochilas cheias de ótimas energias, entramos no avião e nos despedimos da região norte do país.

 

Conclusão

Sempre sou uma daquelas pessoas que permanece pacientemente sentado esperando a fila de embarque diminuir para que eu possa entrar na aeronave. Ao chegar em Brasília para fazer a nossa conexão aérea, fiquei sabendo de algo que me incomodou bastante. Ao encontrarmos com os CUZÕES dentro do mesmo voo para a capital, o tal do Alex se voltou para um de meus amigos e disse: “Eu não sabia que o subúrbio agora andava de avião”, enquanto sua esposa disparou: “E aí, parcelou essa passagem em quantas vezes e vai ficar até quando pagando?”. Uma pura tentativa de humilhação. Algo que eu não presenciei.

Quem me conhece sabe da minha origem. De onde eu vim e ainda sou. Sou do subúrbio com muito orgulho. Sou feliz, leve e tenho uma tremenda energia dentro de mim. O que tenho de sobra também é raiva e vontade de lutar. Confesso que me culpei por muito tempo de não ter presenciado esse acontecimento, mas talvez assim tenha sido melhor. Não consigo prever ou descrever minhas reações. Apenas imagino uma explosão de sentimentos.

Já no Rio de Janeiro, trabalhando internamente tudo que tinha acontecido, preferi ficar, ao invés do ódio e da decepção, com tudo de mais bonito e de melhor que eu vivi. Fecho os olhos hoje e lembro daquele enorme paredão ainda chuvoso que me recebeu no começo da caminhada, da minha enorme emoção na chegada ao cume, do impacto imediato ao observar a imensidão de muitos abismos, da caminhada pelas pegadas brancas no meio do psicodelismo cinza, do que estava o tempo todo em volta ou de como eu caminhei lentamente nos últimos dias apenas pensando “Valeu, Roraima”. Mas confesso que também carrego dentro de mim uma enorme motivação para fazer a diferença. Os esportes ao ar livre no Brasil não precisam ser a representação do que tem pior no ser humano. O contato e a vivência na natureza não podem ser elitizados. O ego e a cegueira não podem ser o fio condutor do nosso tipo de humanidade.

Há alguns dias uma pessoa da qual eu gosto muito (e que muito me inspira) me disse algo sobre eu ter um tipo diferente de brilho nos olhos. Ela está repleta de razão. Meus olhos queimam todos os dias. Eu sempre levanto sob uma forte combinação de amor, força e coragem que me motivam intensamente para ser/viver um mundo melhor. Levante, caminhe e lute! E como diz o Emicida: “Jamais volte pra sua quebrada de mão e mente vazias”.

 

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros

Published on 08/25/2020 10:14

Performed from 02/26/2020 to 02/29/2020

5 Participants

Henrique Protázio Josye Villela Clube Outdoor Adhemar André Leopoldino (Dino)

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Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 08/25/2020 19:23

Obrigado pela força, Fliess. Se hoje eu escrevo aqui com tanta sinceridade, é por causa de você e do Renan!

Ana Retore
Ana Retore 08/25/2020 23:43

Bruno, seu relato aumentou (ainda mais) a minha vontade de conhecer o Monte Roraima! 😍 Lamento que tenham vivenciado esses momentos desagradáveis. Infelizmente, o mundo tem muitos egos, discursos de ódio e de superioridade. Mas, é nosso papel sermos o exemplo de tolerância, de bondade e de solidariedade. Que bom que vocês fizeram isso dentro daquelas condições, e tomara que essas pessoas tenham oportunidades para melhorar e se tornarem mais empáticas. A luta nunca acaba!

Rafael Damiati
Rafael Damiati 08/26/2020 09:40

Muitos aprendizados, Bruno! Que venham as próximas 😃

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 08/26/2020 10:07

Ana, o Roraima é uma grande experiência. No meu caso, em muitos sentidos. Obrigado pela comentário e pelas boas energias. Nossa luta continua em todos os aspectos. Aqui, fazemos o melhor para que as pessoas tenham acesso a um pouco mais de humildade e consciência.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 08/26/2020 10:08

Valeu, Damiati. #bora #vamo #meguia #voutepertubar

Renan Cavichi
Renan Cavichi 08/28/2020 15:03

Caraca, não da pra acreditar! Um lugar desses não combina com esse tipo de gente... que fiquem as boas memórias porque o lugar é mágico! Está no topo da listinha infinita de desejos por aqui... parabéns pelo registro brother!

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 08/28/2020 17:29

Pois é, Renan! Rolé do AventureBox lá? Eu volto e ainda acerto toda a logística hein!!!! Hahahahahaa tmj

Renan Cavichi
Renan Cavichi 08/28/2020 17:56

Cara, com certeza nós estamos dentro!!! Só a vacininha chegar que vamos agitar essa ai! rsrsrs

Bruno Negreiros

Bruno Negreiros

Rio de Janeiro

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1922

Engenheiro ambiental e montanhista com o sonho de contribuir para a disseminação dos esportes ao ar livre e de aumentar a conscientização ambiental e social no mundo outdoor.

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