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Férias na Mantiqueira. Segunda parte - Serra Fina
Travessia da Serra Fina em 4 dias.
Montanhismo Trekking AcampamentoFérias na Mantiqueira. Segunda parte - Travessia da Serra Fina.
Setembro de 2019.
Cinco dias depois, voltei à Passa Quatro - MG (vide a primeira parte desse relato).
O objetivo, era tirar meu “trauma” da Serra Fina. E sumir da civilização por 4 dias.
Em dezembro de 2008 eu havia subido a Pedra da Mina, via Paiolinho, durante os exercícios do Curso de Escalada de Progressão e Escalada em Gelo e Neve do Clube Alpino Paulista.
Depois de sete horas de caminhada morro acima, recebi uma ligação. Meu pai havia falecido. Não tinha condições de voltar e passei a noite no cume, descendo no dia seguinte.
Não lembrava de nada do caminho, nem como consegui descer. E nunca mais voltei à Serra.
Me hospedei no Ultra Hostel P4, onde consegui um “frete”, com o Samuel, até o início da trilha e me buscaria depois na saída.
Samuel é guia local e caso acontecesse alguma coisa, ele saberia onde eu estaria.
Diz-se que a Travessia da Serra Fina é a trilha “mais dura” do país, tanto tecnicamente quanto pela exigência física. Principalmente pela escassez de água.
E eu iria sozinho.
Tomei um café reforçado e ganhei um lanche da pousada. Saímos às 6:30 da manhã. Chegando 20km depois, com 4km de estrada de terra, na Fazenda Santa Amália / Toca do Lobo, onde a trilha se inicia. Ali, num pequeno riacho, abasteci o cantil e comecei a subir.
Samuel estava com “tempo livre” e resolveu subir correndo até o Cume do Capim Amarelo, pra esticar as pernas.
Em poucos minutos o perdi de vista e fiquei sozinho ali, subindo vagarosamente. Repassando o que tinha na mochila mentalmente, o que comeria primeiro para aliviar o peso da carga para 4 dias. Cerca de uma hora depois, atingi o nível das nuvens que, paradas ali, permitiam a visibilidade de uns 50 metros à frente.
Já tinha ouvido relatos de gente perdida ou com dificuldades na Serra Fina por conta da neblina, do tempo ruim. Não fiquei preocupado naquele instante porque a trilha me parecia bem marcada. Tinha um mapa, bússola (sim! Old school.) e por via das dúvidas, tinha um mapa baixado em um aplicativo de trilhas no celular. Não é um lugar pra ir se você não tiver noção de como sair dali. Ou de ficar ali por mais tempo se não conseguir sair. Se perder faz parte, desde que você tenha tomado precauções caso isso aconteça.
O começo da trilha era por dentro de um bosque denso, íngrime, e úmido. E depois, na altura que eu estava, na neblina, seguia por uma crista, ora com mato alto, ora com o caminho marcado por muitas pequenas pedras, como “cristais”. Devia dar uma bela vista dali se desse pra ver alguma coisa.
Lembrei do filme Serra Fina, Perna Grossa, (disponível no canal Aventura e Cultura, no Youtube) do Guilherme Cavallari. E ficou bem claro porque ele desistiu de sua tentativa de fazer a travessia de bike. Em alguns trechos, de escalaminhada, já estava difícil de subir com a mochila cargueira, imagina com uma bicicleta.
Após umas duas ou três horas de subida, solitário, a neblina arrefeceu e pude ver na subida da montanha seguinte o Samuel passando por um grupo de mais 4 pessoas. Me senti um pouco frustrado, pois queria mesmo era ficar sozinho. Quando alcancei o grupo, o guia (ou o mais experiente) deles, me cumprimentou e perguntou se eu estava bem. Trocamos algumas amenidades e continuei a todo vapor. Realmente não queria papo.
Cheguei ao Cume do Capim amarelo às 11:30h. Achei o Samuel dormindo à sombra de uma moita. Quando me viu, acordou assustado dizendo que estava atrasado. Combinamos novamente o horário do “resgate” dali há três dias e nos despedimos.
Não havia passado pela minha cabeça que chegaria tão cedo ao primeiro ponto de acampamento. E nem que estaria sem sombra nenhuma, ali no cume. Montei a barraca, comi alguma coisa e desci um trecho da montanha até encontrar uma moita onde pudesse tirar um cochilo. Nos próximos dias não repetiria esse vacilo.
No fim da tarde, o pôr do Sol coroou o dia, e o frio veio com força.
Depois do jantar me juntei ao grupo dos quatro que chegaram depois e dividi a sobremesa, uma barra de chocolate, tomando um chá. Contaram que faziam parte de um grupo de trekking de Itanhaém. E o guia já tinha estado ali várias vezes. Deram a entender que eu poderia seguí-los se quisesse. Agradeci e fui pra barraca.
No segundo dia, tomei o café e empacotei as coisas, sem pressa. Não tinha porque correr e ficar no Sol tostando quando chegasse à Pedra da Mina, próximo ponto de acampamento. Saí enquanto o grupo ainda tomava o desjejum, e peguei uma descida íngrime e andei umas duas horas até um bambuzal, que parecia confuso de seguir. Sentei, tomei uma água e fiquei por ali na sombra comendo castanhas. Um pouco depois o grupo me alcançou. O guia me apontou por onde ir, sem que eu perguntasse nada, e novamente ofereceu para que os seguissem.
Agradeci a gentileza e continuei deitado ali na sombra, curtindo o silêncio entre um vento e outro.
É interessante ver como as pessoas, fora dos centros urbanos, e da correria do dia a dia ficam muito mais solidárias, hospitaleiras, gentis e preocupadas umas com as outras.
Depois da viagem eu conversei com esse guia e ele disse que, quando encontrou Samuel, eles conversaram sobre minha mochila estar muito pesada e que eu subia lentamente. E esse guia julgou que talvez eu fosse inexperiente e que talvez precisasse de ajuda.
Acho que eu teria feito o mesmo no lugar dele. Mas não era o caso.
Deixei que tomassem boa distância e depois de uma hora, voltei a andar. Não tinha certeza quanto tempo levaria até o Cume da Pedra da Mina (2798m, ponto mais alto de São Paulo), mas sabia que seria mais demorado que o dia anterior. Não queria chegar muito cedo, mas também não queria chegar muito tarde, pois era um sábado e fatalmente haveriam outros grupos subindo diretamente para a Pedra da Mina pelo Paiolinho, no bate-volta de fim de semana. Queria poder escolher onde acampar.
Passei voando pelo grupo e às 15h já estava com a barraca montada no melhor ponto possível, cercado por pedras, protegido do vento, e com espaço pra cozinha e até um “banquinho” improvisado. Um luxo. Assinei o livro de cume e deixei uma dedicatória pro meu pai. Chorei sozinho ali. Não só por isso, mas também por tantas outras dificuldades que aconteceram nos anos seguintes e que não tinha tido tempo pra lamentar. Logo ouvi outros grupos chegando e se instalando. Lotou.
As nuvens passavam rápido, lambendo o cume da pedra, esfriando mais e mais enquanto o Sol se punha. Fiquei um tempo deitado nas pedras vendo as primeiras estrelas aparecerem.
Ofereci ao grupo que utilizassem meu espaço de cozinha, protegida, para que fizessem o jantar ali na minha varanda e me juntei a eles. Fiz cappelletti e um chá e fui dormir exausto.
No terceiro dia, dei uma enrolada pra arrumar as coisas. Fiz umas fotos, comi a última maçã e desci rápido até o trecho de charco e entrei no Vale do Huá. Esperei ali na sombra até conseguir ver outras pessoas começarem a descer para o vale também. De lá de cima certamente elas me veriam indo pro lado errado se eu fizesse isso. O vale é uma área confusa de trilhas entre moitas altas de mato e sem muita referência visual. Certamente ficaria complicado seguir nesse labirinto se a neblina descesse.
Caminhei tentando me orientar por onde deveria estar o rio, até que meu caminho se aproximou dele e encontrei uma pequena cachoeira. O Sol já estava forte e foi providencial dar uma refrescada ali naquela água gelada.
Ali o grupo me alcançou novamente e seguimos mais ou menos próximos até mais um bambuzal confuso. Dessa vez o guia estava me esperando pra apontar por onde ir. Realmente não era muito óbvio e agradeci pela dica. Seguiu-se um sobe desce por alguns morros e uma escalaminhada divertida até o Pico dos Três Cumes. Ponto do terceiro pernoite e divisa dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Cheguei ao cume com Sol forte ainda. Assinei o livro, fiz umas fotos e montei a barraca meio enfiada no matagal, e me acobertei debaixo de uma touceira que fazia sombra em metade do corpo. Uma aranha passou pelo meu pé e achei melhor não ficar deitado ali. Quando não há muito o que fazer, o que fazemos? Comemos. Adiantei o jantar, no almoço e depois o café da manhã na janta. Acabando com quase todo o peso alimentício da mochila.
O cansaço bateu forte e dormi cedo. Mas acabei acordando de madrugada e não consegui dormir mais. No primeiro raio de Sol já tinha desmontado tudo e me preparado pra descer o trecho final, mas resolvi esperar o grupo. Começamos a descida juntos, ora fui ficando pra trás, ora avançando. O guia perguntava se eu tinha água, se a mochila estava pesada, se estava tudo bem… minha cara não devia estar a mais simpática do mundo e eu só queria ficar em silêncio. Passamos o Pico Bandeirantes e o Alto dos Ivos, e eu já estava pensando se haveria algum lugar no final da trilha pra tomar um suco.
De repente aparece um rapaz a cavalo subindo na “contra-mão”. Havíamos chegado ao fim da trilha, mas ainda haviam alguns quilômetros abaixo, por uma estradinha de paralelepípedos, chata de andar com mochila, mas simpática pela quantidade de bromélias.
No fim da estrada, uma casinha vendia coca-cola. Casa do Pierre. E logo ali na porteira, o transporte do grupo aguardava. Eu havia marcado com o Samuel na BR, então teria que andar mais. Gentilmente me ofereceram uma carona, que acabei aceitando. E me despedi deles na estrada. Olhei pra trás e me despedi também do meu pai, e de outras mazelas. Com dores nas pernas, mas leve.
Ainda aguardei uma meia hora sentado na mochila, com o boné na cara. Os carros passavam subindo em direção a Garganta do Registro, entrada para a parte alta do Parque Nacional de Itataia. Quando Samuel chegou, já havia decidido pra onde ir a seguir.
Gostou? Veja pra onde fui na terceira e última parte dessas férias.
