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Remada de Bote pelo rio Araguaia (Ribeirãozinho/MT) - Jul/21

Remada de Bote pelo rio Araguaia (Ribeirãozinho/MT) - Jul/21

Descida de bote de 60 km pelo rio Araguaia, onde ele se enfia em um cânion fantástico. Belezas que só o Brasil traduz. Vem comigo!

Kayaking Waterfall

Descida a remo pelo Araguaia

Prólogo

Minha relação com rios e mar vem desde muito pequeno. Não, não nasci na beira do mar tampouco ribeirinho de algum rio desfrutável, mas minha ligação com esses corpos líquidos sempre foi muito forte: a fluidez, o movimento, vida pulsando. Na época de escola, moleque, me via fascinado nas aulas de geografia quando o assunto eram os rios brasileiros. Ali foi se lapidando o desejo e o gosto por conhecer novos lugares, ultrapassar as fronteiras, caminhar. Fiz uma lista dos incontáveis rios que eu queria conhecer: São Francisco, Xingu, Tapajós, a parte limpa do Tietê, tantos, tantos...Alguns eu já tive o privilegio de estar cara a cara. Outros ainda aguardam.

Em 2021 chegou a vez de conhecer o rio Araguaia. Gigante, enorme, importante. Responsável por uma das bacias hidrográficas seminais no Brasil. A ideia era remar nos seus quilômetros iniciais, onde o rio se enfia por 60 km de cânions. Espetacular, especial. Me juntei a uma galera já experiente e começamos a descida em uma pequena praia que o Araguaia vez ou outra forma na época de baixa.

A remada, enfim!

Enfim havia chegado o dia!

Depois de sair de São Paulo, passar em Campinas (SP) para encontrar meu amigo Gil Cardoso e rasgar de ônibus cerca de 1000 km para encontrar a outra integrante do time (Suely, de Rio Verde) seguimos finalmente para Ribeirãozinho (MT). Era lá que encontraríamos os outros remadores do Jangadão Ecológico. Seis horas depois de sair de Rio Verde chegamos à Ribeirãozinho. Típica cidade pequena, meio empoeirada pela época seca em que noa encontramos. Começamos a juntar o grupo no final da tarde de quinta-feira e seguimos rumo a um rancho na beira do rio. Aquelas horas iniciais de confraternização, conhecendo as pessoas e ja estabelecendo laços foram incríveis. Muita risada e ja alguma expectativa a respeito da descida do dia seguinte.

Nos primeiros raios da aurora ja fomos acordados pela movimentação do pessoal de apoio da expedição. Não desceríamos de caiaque, mas sim com botes. Mais estáveis e com a promessa de aproveitar melhor as corredeiras vindouras.

A primeira hora de remada no rio é de pura fascinação. É impressionante saber e entender que estamos diante de uma paisagem que se descortina por 4 meses por ano e que na época das chuvas desaparece completamente, submersa pelo volume de água. O Araguaia é assim: guarda segredos. Tocas, cavernas, fauna surpreendente a cada meandro percorrido. Nesse primeiro dia tivemos a sorte até de ver o boto cinza que habita essas águas e do qual eu nem fazia ideia existir. Incrível e comovente!

As corredeiras desse primeiro dia são só o aquecimento para o que viria no dia seguinte. Afora a fauna e flora, o que mais me impactou foi mesmo a formação rochosa do Araguaia. Nesse seu trecho inicial ele é praticamente um cânion profundo que faz com que suas águas fluam muito rápido em vários pontos. O cerrado, é sabido, é a grande caixa dagua do Brasil. E isso fica muito evidente nos incontáveis afluentes que descem até o vale e desaguam no Araguaia. Em muitos casos formando cachoeiras com quedas até altas. Claro que esses tesouros desaparecem na época de cheia do rio.

Segundo dia

O segundo dia de expedição começou como anterior: bem cedo, animado e com cheirinho de café invadindo o acampamento. As brasas da fogueira da noite anterior ainda ardiam, ajudando a afastar o friozinho da manhã.Desmontei minha barraca, ajeitei meus equipamentos e fui ver meus companheiros de bote. O segundo dia prometia ser intenso com corredeiras mais fortes e visuais ainda mais bonitos.

Equipamentos nos botes, o sol de Julho já brilhando no céu azul limpíssimo. Tudo pronto para continuarmos a descida do Araguaia. Logo nos primeiros minutos fomos agraciados com a vista de uma cachoeira de bom porte à nossa margem esquerda. Com o passar do tempo também foi ficando evidente que estávamos passando pelo trecho de maior desnível do rio: as corredeiras ficaram muito mais rápidas em relação ao dia anterior, com trechos realmente emocionantes. Por diversas vezes eu aproveitei esse fluxo e me joguei do bote, seguindo a nado ao lado do bote. As águas do Araguaia nessa época são mais frias do que eu imaginava e em alguns momentos chegava a causar tremor no corpo. Mas a diversão foi garantida! Notável também foi perceber o estreitamento do cânion a ponto de ficar pouco mais largo do que o nosso bote. Ali ficou evidente que a profundidade do cânion era bastante grande, fazendo o rio "caber" numa largura tão pequena, porem fundo, muito fundo. Que maravilha!

Seguramente o segundo dia da jornada foi o que mais apresentou lugares incríveis. Desde a saída do acampamento de manhã já fomos brindados com cachoeiras desaguando no rio em ambos os lados. As corredeiras também se mostraram muito mais fortes e adrenalizantes, arrancando aqueles "uhhhuuuu" típicos de quando a gente completa alguma façanha. O local do almoço foi um presente: um ponto de curva do rio, onde um areial dourado dava as boas vindas a uma cachoeira lindíssima, com diversos níveis de quedas. Fiquei maravilhado com aquela paisagem, agradeci muito a oportunidade de poder estar ali.

Mas não parou por ai: logo mais a frente mais uma cachoeira enorme, alcançada com uma caminhada leve a partir da margem rochosa direita do rio. Mas essa cachoeira guardava ainda um segredo. Com mais 10 minutos de caminhada rio acima encontramos um mini canion com um lago cristalino, onde o mergulho era quase obrigatório. Tesouros do cerrado brasileiro.

Após um almoço incrível - em lugar mais incrível ainda - seguimos rio abaixo. Aproveitei e me joguei do bote algumas vezes, usando a correnteza do rio e fazendo pouca força para ganhar velocidade. As águas do Araguaia, como já disse em outra postagem, são frias o suficiente para fazer seu corpo tremer após 10 minutos dentre dele. Passando por mais algumas belas corredeiras finalizamos o dia em um rancho ao lado de uma grande abertura que o rio forma, muito diferente do cânion que estávamos habituados até então.

Terminamos o dia no rancho Cantinho do Céu, onde a noite foi animada com um jantar ótimo e muita conversa. Um banho de rio para o asseio e logo estávamos formando uma roda animada de conversa, à espera do jantar. Foi uma noite muito divertida, motivada pelo dia intenso e cheio de boas surpresas. Contemplei o céu estrelado pela última vez antes de dormir e agradeci mais uma vez pela oportunidade.

Terceiro e último dia

Depois de uma noite muito animada turbinada a risada, boa comida e cerveja, nos preparamos para o último dia de remada no rio Araguaia. A expectativa era de uma dia curto porem com mais força nos remos, uma vez que chegaríamos a uma região do rio onde o canion acaba e a declividade diminui drasticamente, fazendo o rio perder sua correnteza forte dos últimos dias.

Acordamos cedo, desmontamos o acampamento e tomamos café. Um ar de despedida tomou conta do grupo, e o Nélio (idealizador do Jangadão) fez até um discurso de agradecimento. Fotos, abraços e trocas de contatos eletrônicos e estávamos prontos para entrar no bote.

Nos encontrávamos no limite dos municípios de Ribeirãozinho e Torixoréu, e na margem esquerda do Araguaia desagua, naquele ponto, o rio São Domingos. Mais a frente encaramos mais duas corredeiras nervosas (ver o video), e paramos para um banho de cachoeira de aguas mornas. É nesse mesmo ponto que pude ver duas balsas de extração de minérios do leito do rio, devidamente regulamentadas pelo municipio, mas nem por isso menos agressivas aos meus olhos. Fiquei um pouco triste com aquilo no rio.

Depois de passadas as últimas corredeiras o rio "acalma" e se abre. Já não existe mais cânion, o rio se espraia literalmente, com areia em alguns pontos das margens. E da-lhe remo na água!! Seguramente é o dia que mais se rema no Jangadão Ecológico.

Remamos muito até sermos resgatados pelo barco de apoio, que ancorou um bote no outro e finalizou os últimos 2 km de rio até o ponto onde saímos do Araguaia em definitivo. Terminava ali a remada pelo Araguaia, e junto veio uma sensação deliciosa de reencontro e preenchimento. O Araguaia marcou meu coração, e tenho certeza que esse não foi nosso ultimo encontro.

Até lá então!

Marcelo Baptista
Marcelo Baptista

Published on 08/30/2021 17:54

Performed from 07/15/2021 to 07/19/2021

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Marcelo Baptista

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Montanhista, mochileiro, viajante, pai, conectado com as boas vibes do universo e com disposição ainda para descobrir os mistérios da vida.

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