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Chapada dos Veadeiros - GO |  FEAL - Outward Bound Brasil

Chapada dos Veadeiros - GO | FEAL - Outward Bound Brasil

Primeira parte da expedição na Chapada dos Veadeiros em Goiás com Trekking e Canionismo no Programa FEAL da Outward Bound Brasil.

Trekking Camping Waterfall

"Bom dia Bounders!"

Prólogo (Renan)

Há cerca de dois anos conheci a Outward Bound Brasil em um evento outdoor e fiquei admirado com a proposta da instituição e os valores que cultiva. No final de abril de 2019 tive a oportunidade de vivenciar um dos programas da OBB conhecido como FEAL (Fundamentos da Educação ao Ar Livre) que foi um marco em minha vida outdoor e de todos os participantes.

Esta é a primeira de duas partes de um relato compartilhado, escrito por todos os amigos durante a expedição, onde registramos um pouco do dia-a-dia de uma jornada em áreas remotas da Chapada dos Veadeiros em Goiás.

Para quem ainda não conhece a Outward Bound é um instituição internacional sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento de habilidades socioemocionais por meio do aprendizado em experiências desafiadoras na natureza. A Outward Bound está presente em mais de 30 países e todos os anos desafia milhares de pessoas ao redor do mundo a saírem da zona de conforto e vivenciarem uma jornada outdoor única e enriquecedora.

Esta aventura é um convite para conhecer um pouco da Chapada dos Veadeiros por meio de nossa expedição com as experiências, desafios, aprendizados e conquistas. Que essa jornada possa inspirar outros aventureiros a conhecer e participar também de um programa Outward Bound e cultivar o estilo de vida outdoor.

PARTE 1: TREKKING CAVALCANTE - JURAMIDÃ

Dia 1 – 27/04/2019 – Bruno Negreiros

Após um longo dia de viagem, cada um vindo do seu local de origem, dormimos na noite anterior no nosso ponto de apoio em Cavalcante, mais exatamente na casa do Maurício. Um cara muito gente boa, que estaria com a gente no fim dessa expedição. Vale ressaltar que esse dia não foi relatado oficialmente no caderninho do curso, mas foi muito importante porque nos conhecemos melhor, separamos coisas e tivemos muitas aulas, tomei a liberdade de escrever esse pequeno relato.

O primeiro dia do FEAL foi de aprendizado. Tudo começou com uma apresentação da Outward Bound Brasil (OBB), seus representantes, instrutores e os objetivos do programa. Os participantes também se apresentaram e abriram os seus corações sobre objetivos pessoais. Retiramos todos os equipamentos do carro e colocamos em uma lona azul, aquilo era a introdução perfeita do que estaria por vir.


Tivemos uma série de aulas sobre equipamentos, comida e etc. Tive a honra de começar o ciclo de aulas que cada participante deveria dar durante o curso. Falei sobre como arrumar uma mochila cargueira: soca tudo, aproveita todos os espaços vazios. Acesso, Balanço, Compressão e Sescrição eram as regras mais importantes. Ion complementou falando sobre o ajuste das mesmas.

Após isso, era hora de dividirmos os pesos e comprar os últimos itens no mercado local. Entra saco de dormir, dividir as partes da barraca, equipamentos de higiene, cozinha e etc. As mochilas estavam pesadas, mas muito bem arrumadas.

Para finalizar, à noite tivemos uma aula sobre cozinha outdoor, como utilizar os fogareiros com combustível líquido. Comemos muito bem, nós mesmos cozinhamos. Fomos dormir com a mente cheia de expectativas.

Dia 2 - 28/04/2019 – Bruno Negreiros

Acredito que fomos dormir na noite anterior com muitos pensamentos e sentimentos. Ninguém realmente sabia o que esperar ou o que estaria por vir. O grupo parecia bem entrosado e com múltiplos talentos. Eu, particularmente, estava muito empolgado com a oportunidade de aprimoramento técnico e de relações sociais.

Voltando para o relato em si, acordamos com os despertadores gritando e com os instrutores já arrumando suas mochilas. A galera estava empolgada. O processo de preparo do café da manhã foi tranquilo e todos ajudaram como foi recomendado pelo Humberto. Comemos muito. O destaque absoluto ficou com as tapiocas preparadas pela nossa dupla Renan e Esthéfane.

Após o café, começamos o processo final de preparação. Arruma mochila, coloca coisa, tira coisa, soca tudo dentro, aparece mais coisa para colocar, esquece alguma coisa e depois aparece mais coisa. O processo foi longo, mas com ajuda mútua todos estavam prontos para o desafio.

O Maurício chegou, arrumamos tudo e partimos. Mais uma direção lotada de histórias do Humberto. Na chegada no ponto inicial, tivemos uma aula introdutória de orientação e navegação. Nortear o mapa virou a nossa lei suprema. O Ion também aproveitou para uma demonstração prática de como ajustar as mochilas pesadas. Tudo pronto. Subimos.

Borboleta contribuindo com a aula sobre curvas de nível. :)

Nesse momento todos os desafios apareceram. Quando eu falo todos, realmente são todos: os internos e os externos. Claro, uma mochila de 25kg nas costas favorecia para que os dragões internos saíssem junto ao suor e das baforadas fora de ritmo. As placas apareciam como piadas irônicas no caminho. Você já andou 250, 500, 750 metros. Elas apenas anunciavam todas as belezas que vinham pela frente. Mas falo dessas belezas adiante.

Seguindo, apareceram os sentimentos comuns em um começo de caminhada em grupo: “será que dou conta? ”, “será que estou atrasando o grupo? ”, “o que estou fazendo aqui? ”. As pequenas, médias, minúsculas ou gigantes guerras internas começaram a ser travadas em paralelo com o quartzito erodido, a vegetação de savana e as árvores tortuosas que só o cerrado pode promover.

Terminando a subida, adentramos no cânion com o rio São Domingos correndo em suas entranhas rochosas e arenosas. Chegamos à um local plano em sua margem direita. Ali decidimos bater aquele almoço especial para nos livrarmos de um pouco de peso. Mas antes, rolou aquele banho no lago formado sob a belíssima Ponte de Pedra. Que local sensacional. Um cantinho do cerrado pouco conhecido e maestralmente apresentado pelo Ion. Pude ver a alegria saltando pelos olhos das meninas. O destaque fica para o rosto de contemplação da Karina. Ela parecia uma criança no parque de diversões.

Terminamos o banho, voltamos, comemos muito e tivemos algumas conversas difíceis e muito emocionais. Para ser honesto, a notícia da possível desistência da Fiona abalou o grupo. Mas nesse momento, vi um misto de amor e empatia emanando de todos os participantes. Escutar a Fiona falando com uma sinceridade única iniciou um processo de autorreflexão profunda em todos. Cara, começou a sair cada parada bonita. Fiona, você é foda, guerreira, porreta e, como dizem no RJ: sinistra. Indiferente da sua decisão, tmj e admiração total. Rox.

Decidimos fazer mais um café e iniciamos uma aula da Karina sobre Leave no Trace. Foi muito legal a riqueza de conteúdo, a participação e curiosidade de todos. Geral quer aplicar as técnicas de cagar no mato logo que eu sei rsrs

Já no fim da tarde, o Humberto fez o procedimento de entrar em contato com o nosso apoio e acertou toda a logística do resgate. Lembram quando eu mencionei, muitas palavras atrás, sobre as belezas do dia? Então, a procura de um local de camping, subimos a margem direita do cânion e vimos um dos visuais mais lindos das nossas vidas. Um Pôr do sol incrível. Pena que não dava para acampar lá, seria magnífico. Essa foi a primeira beleza.

Eu e Humberto fomos tomar um último banho enquanto o pessoal procurava um bom local para camping. Nos encontramos momentos depois. Montamos acampamento, esticamos tudo e procedemos para a segunda beleza do dia: sem querer puxar o saco, a OBB realmente mostrou a força da sua filosofia. O nível de preocupação com todos e o grau de humanidade no bate-papo conduzido vai marcar. Acho que ninguém nunca mais vai esquecer sobre as zonas de conforto, medo e pânico. Foi muito punk e emocionante. Muito mais punk que o Dead Kennedies.

Por fim, começamos a cozinhar, dividimos tarefas e eu, a escrever esse humilde relato.

Dia 3 - 29/04/2019 – Renan Cavichi

Acordamos às 6h da manhã com o chamado do Bruno que foi nomeado líder do grupo na noite anterior. Logo todos estavam despertos para preparar o café da manhã. A noite foi tranquila, com poucas gotas de chuva e nenhum contratempo. Não ouvi muitos pássaros no amanhecer, mas a luzes no horizonte fizeram o espetáculo.

Com muitas tarefas no dia, o grupo se preocupou rápido em desmontar as barracas e conduzir a Fiona até o resgate. Um momento triste se despedir de uma parceira no início do curso, mas todos respeitaram sua decisão e momento. Nos despedimos, Bruno e Ion ficaram incumbidos da missão de acompanhar nossa amiga, voltar para terminarmos de arrumar as mochilas e iniciar a aventura. Ion preparou o café antes de descer, eu e Lígia assumimos a cozinha.

Para o menu do dia preparamos uma fina iguaria francesa conhecida como “restedontê” com “oevos revoltos”. rsrs Para finalizar, Humberto preparou uma torta de maçã no double twin ou double twist carpado, algo do tipo. Uma técnica legal de transformar uma frigideira em um forninho, colocando a panela um pouco afastada do fogo e fazendo uma mini fogueira na tampa. Um grande candidato ao Chefe do Fogareiro 2019 do Mountain Festival. Enquanto aguardávamos Ion e Bruno, terminamos de desmontar o acampamento e o Humberto iniciou uma aula de mapa e bússola.

Os dois retornaram no horário previsto e, em segundos, terminamos com a torta. Nem deu tempo de tomar um “gool” de suco. Mochilas arrumadas, fizemos uma última varredura para verificar se nada ficou para trás e partimos. Só que não. Um incidente com o solado da bota da Esthéfane fez com que o Humberto saísse do posto de chefe do fogareiro para o de sapateiro. Com a ajuda do Ion, colaram o solado. Enquanto a cola secava, nos reunimos em uma sombra ao lado para uma aula conduzida pelo Ion sobre a Chapada dos Veadeiros.

Partimos em seguida para iniciar a caminhada pela margem esquerda do rio. Atravessamos o pequeno riacho próximo ao acampamento e retornamos alguns metros pela trilha. Dalí em diante iniciamos o “vara mato”. Bruno e Esthéfane assumiram a navegação procurando alcançar inicialmente o ponto onde o rio fazia a curva e uma forma de atravessá-lo. Durante toda a trilha enfrentamos a vegetação característica da Chapada. Galhos secos, regiões de queimada e muitas pedras no caminho.

A primeira parada foi às margens do rio. Bruno e Esthéfane tentaram encontrar algum lugar para atravessar, mas a margem oposta estava forrada de bambus. Enquanto todos se hidratavam, Ion e eu seguimos para o lado esquerdo e avistamos uma região de queimada que parecia mais fácil para seguir, agora acompanhando a curva do rio. Para nossa surpresa, encontramos um marco do IBAMA e uma pequena cachoeira perfeita para o almoço.

Depois de almoçar e curtir o banho na pequena cascata, subimos um barranco e seguimos por uma planície com muitos candombás. O objetivo agora era ganhar terreno até a onde o rio fazia um “Y”. Ao final da planície, o grupo decidiu tentar transpor um morro e alcançar um campo mais limpo e alto que levaria até o local que buscávamos. Foi uma subida dura, com vegetação densa e muitas pedras pontiagudas. Depois de alguns metros, conseguimos chegar ao topo e em frente por algumas colinas e platôs.

O final da tarde já se aproximava e percebemos que iria ficar tarde para chegar na bifurcação do rio. Paramos algumas vezes para nos hidratar e descansar, mas logo ao final do dia chegou e tivemos de encontrar um local para acampamento. Achamos um bom lugar plano e perto de um riacho. Preparamos todas as barracas e Cláudia e Humberto prepararam um delicioso jantar. A noite foi estrelada e palco de uma boa roda de conversas.

Dia 4 - 30/04/2019 – Lígia Eisenlohr

O dia começou meio nublado e com duas expectativas: uma boa e uma ruim. Qual vocês querem primeiro? A boa: não sofreríamos muito na caminhada com o sol quente na cabeça. A ruim: a cozinha seria pilotada pelo Bruno e pela Esthéfane. rsrs

No fim, as duas expectativas foram boas. Tivemos uma caminhada deliciosa e dura, lógico, mas na sombra e até com chuvinha na hora certa. Voltando para a manhã nublada, uma nuvem escura pairou na cabeça do Gru (Bruno hoje chamou o Humberto de “meu malvado favorito "– e reparem – o nariz dele até que parece). Ele ficou bem bravo com o acondicionamento do lixo. Reconhecemos que fizemos errado. Aprendemos.

E falando em malvado favorito, partimos para o deserto de Minions (putz, eu adorava eles, agora...). Cruzamos riachos lindos, subimos e descemos paredes de pedras duras, sempre um ajudando o outro, principalmente a líder Cláudia, que várias vezes parou para me dar uma mão. Sobre a navegação do Renan, cruzamos campos e chegamos ao nosso destino. Não era o destino esperado, mas se tornou um destino desejado. Tínhamos três opções: subir o morro, acampar perto de um pico lindo ou encontrar um local um pouco mais longe, mas mais tranquilo e perto do rio. A líder decidiu que iríamos acampar no lugar mais tranquilo e partimos. Pegamos o pôr do sol mais lindo que já vi na vida. E de quebra, uma família de arco-íris. Demais!

Amanhã existe a possibilidade dos corajosos atacarem o cume de um morro lindo que está à nossa frente. Tô fora...mas queria. Bom, por enquanto é isso, se eu esqueci de alguma coisa, volto já já...

Esqueci mesmo: de falar da crepioca. Uma delícia da chef Esthéfane. Com direito a cardápio do Rango no Racho (preciso pedir a receita para ela...não posso esquecer). Agora uma sensação de missão cumprida, de paz, de gratidão e uma surpresa para mim: tenho novos amigos!

Lembranças: quando a gente parou para almoçar, rolou uma dúvida: montamos ou não a tarp? Humberto queria montar e o Ion não. Humberto deu duas razões (estava nublado naquele momento): se o sol vier ou se chover. E choveu. Terminamos o almoço e partimos na hora que a chuva diminuiu um pouco.

O jantar foi uma rodada de cuscuz pero, uma de carne e finalizou com um de goiaba com Coco. Este último, maravilhoso. Conversamos sobre as tarefas do dia seguinte e definições. Humberto pediu para Ion anotar as picadas que eu e Bruno levamos no final da noite. Humberto nos deu uma aula de cânions, como surgiu e o que é. Um papo muito legal sobre a atividade que tanto estamos esperando para os próximos dias.

Dia 5 – 01/05/2019 – Cláudia Santos

Fomos dormir na noite anterior agraciados por um pôr do sol lindo, acompanhado de arco-íris multiplicados saindo de uma nuvem e entrando na outra. A noite nos brindou com um céu estrelado com vista para a via láctea. Hora víamos o cinturão de Órion, e, com o passar da noite, a constelação de escorpião. Reza a mitologia que Órion foi picado por um escorpião sobre orientação de Ártemis, que não teria se agradado com as suas investidas, enviando então o animal para mata-lo.

Em socorro aos cozinheiros do dia, veio o Ion cozinhando três cuscuzes (dois salgados e um doce). Para auxiliar no cozimento, conseguimos um pano estrelado para combinar com a noite. As gurias dormiram sob as estrelas e os piás dentro da barraca. No amanhecer, tivemos um café da manhã com um pseudo fortaia com queijo que terminou como ovo mexido (com ovos em pó).

Logo antes da partida do acampamento, tivemos um fenômeno natural nomeado Leave no Trace. Tal fenômeno é capaz de trazer alívio imediato a qualquer um que o pratique.

Caminhamos rumo ao sul, onde tivemos alguns acidentes como a pancada que o Ion sofreu, o alvejamento de marimbondos que atingiram a Lívia na subida da rocha. Anteriormente a isso, passamos por um inseto que parecia uma mistura de aranha com grilo, com o ferrão posterior de coloração vermelho tomate com a ponta em direção ao céu, chamado Botó. Passamos por um tipo de plantinha vermelha com aspecto espinhoso (e carnívora) que solta um tipo de resina que cola o inseto, matando-o lentamente, deixando seu corpo na planta, exceto seu exoesqueleto.

Almoçamos e seguimos o rumo morro acima. Um morro, dois morros, atravessamos o terceiro e chegamos num “prado”, onde a cozinha foi montada. Os participantes se organizaram com a cozinha e buscamos água. O anoitecer nos brindou com mais uma note estrelada.

Adendos: O Renan também sofreu um acidente de trabalho (em homenagem ao dia de hoje). Ele cortou a falange do dedo indicador esquerdo. Mas a situação foi contornada pela paramédica da equipe: Karina;

Os insetos do cerrado mostraram-se bastante agressivos (marimbondos, abelhas, formigas). Além dos insetos também algumas plantinhas como a Canela de Ema. Uma analogia tosca: o serumaninho nasce agressivo e no decorrer de sua existência vai sendo lapidado num mundo onde sobrevive não o mais forte, mas sim o que melhor se adapta.

Hoje é dia 1º de maio, feriado internacional. A data de forma irônica homenageia trabalhadores que morreram dentro de uma fábrica na Inglaterra.

PS: Leave no Trace poderá ser acessado a qualquer hora do dia, seu corpo saberá qual o momento.

Dia 6 – 02/05/2019 – Bruno Negreiros

Acordamos ás 6h30 da manhã, conforme votado pelo grupo na noite anterior. A manhã foi tranquila, sinto que o time está cada vez mais entrosado e com os processos otimizados.

Após isso, tivemos uma aula punk e reflexiva do Humberto sobre feedback. Aprendemos que dar e receber é importante para aumentar a área de arena. Acredito que estamos chegando a um patamar mais elevado na dinâmica do grupo. Depois de um papo difícil e sincero na noite anterior, aumentamos a zona de aprendizado/confiança. Chegou a hora de sermos honestos uns com os outros pensando no autodesenvolvimento. Acredito que a caminhada de hoje foi bem reflexiva.

Desmontamos tudo e subimos o morro que tínhamos subido no dia anterior. O grupo foi muito bem, vencemos o desafio com uma facilidade antes impensável. Logo entramos no altiplano, uma reta em direção à uma zona pouco conhecida do parque. Vale ressaltar que a presença da fauna na borda dessa zona é um indicador de seu nível de preservação e pouquíssima interferência humana.

Esse altiplano era uma composição de zonas úmidas, com a presença de gramíneas e espécies características do cerrado, como o chuveirinho. Também depósitos de cristais de quartzito e seus candombás e campos rochosos marcados pelos processos erosivos de milhões de anos. É sério, o cerrado já foi mar.

Uma reflexão louca me veio à tona enquanto pulávamos riachos e córregos. Comecei a vê-los na bacia hidrográfica como veias e artérias pulsando vida para o interior do corpo vivo da Chapada.

Subimos e encontramos um pequeno rio, uma cascata que apelidamos de salto 1,20 metros. Almoçamos e bebemos de suas águas . Nossa miniatura de grandes dragões de água.

Daí cara, sei lá, entramos nos jardins do paraíso. Na verdade, nos jardins psicodélicos do paraíso. Uma mistura de uma música do Pink Floyd com uma das melhores violas do centro-oeste brasileiro. Uma perfeição cênica que não consigo descrever.

A caminhada seguiu por uma rampa em uma região mais plana. Um belo piso para ganharmos terreno. Andamos muito. Vou sempre lembrar com carinho dos papos loucos de futuro que tive com o Ion. Andamos, andamos e andamos. O cansaço estava exposto no rosto de todos. Paramos, traçamos o azimute, redistribuímos a barraca e a tarp e seguimos “na frente”. Para mim, particularmente, foi uma mistura de “chega logo” com “não acaba nunca”. Chegamos ao camping, arrumamos tudo e até rolou um banho no “rio que corre pra cima”.

Agora estamos todos aqui, depois de um belo jantar e falando sobre nossas lembranças do dia. O dia ainda toca como música nos meus ouvidos. Algo representativo da entrada no paraíso. Sim, o cerrado está tocando como Stairway do Heaven do Led Zeppelin para mim.

Dia 7 – 03/05/2019 – Cláudia Santos

Ao final da jornada longa e com trechos até então não percorridos por outras pessoas, chegamos ao local de acampamento. Todos cansados (pelo menos eu estava e pensava em um colchão de espuma me abraçando). Os mestres cucas da noite foram a Ligia, a Esthéfane e o Renan. Menu da noite: massa parafuso de arroz com molho de carne seca e tomate e outra com molho de atum com queijo. Confesso que essa última combinação achei estranha. Durante o jantar terminaram dois torpedos de combustível e tivemos que nos reorganizar com essa situação. Após a janta, trocamos experiências e fomos dormir.

Na manhã de sexta-feira, a líder do dia Esthéfane nos acordou, tomamos café enquanto apreciávamos o amanhecer com a cerração, frio e algumas gotas de chuva. A vontade era de voltar a dormir, mas tínhamos que seguir até a cachoeira. Andamos por lugares com jardins de mimosas (planta com cerca de 1,5 – 2 m com flores rosas que parecem delicados pompons. Outra planta que me encanta é o chuveirinho, com cachopa perfeita e pequenas florezinhas brancas distantes do tronco. Dá para fazer analogia com a coluna vertebral, que de base tem a região sacral (raiz) seguindo para a coluna lombar-torácica e cervical, onde a grande estrela dessa conjuntura é a medula espinhal, que é protegida por todo esse arcabouço ósseo. A medula é parte do tronco cerebral, base do crânio (miolo, base de onde saem as “hastes” das flores). Da base saem 12 pares cranianas com diferentes funções no organismo, assim como essas flores estão todas ligadas pela base de onde saem.

Paramos para o almoço com tempo de folga, próximo à uma bica de água. Nos alimentamos, descansamos e seguimos até o objetivo do dia: a CACHOEIRA. Fizemos a travessia após a colocação de uma corda pelos instrutores e cruzamos de forma segura e satisfatória. Enquanto uns desfrutavam da água gelada, transparente e com fundo escuro, outros desbravavam novas paisagens no topo da cachoeira. Confesso que tive paúra (medão) por minha pouca experiência em nadar. Mas foi bonito vê-los se deliciarem. Após a travessia, fomos desbravar o pé da cachoeira.

Durante o acesso, a vista que deslumbrava era absolutamente linda e irretocável, lembrou rapidamente uma cena do filme Jurassic Park, ou Viagem ao Centro da Terra. Um local aparentemente não tocado pelo homem. À direita da cachoeira era exuberante, a água lambia as rochas por onde caía. Ao longe, o leito do rio estava cercado por mata de um verde exuberante e algumas colinas que pareciam proteger o local – disse o Ion, um dos instrutores que desejou conhecer esse local por muito tempo e hoje concretizou esse desejo. Diz a física quântica que quando você estabelece um objetivo, idealiza com o cérebro e põe o sentimento do coração, ele se concretiza. Seria como se você sinalizasse o sonho que quer para o universo (razão cérebro + sentir/emoção gerado). É como se ele entendesse e ele te respondesse “ok, eu entendi, vou trabalhar para te satisfazer”.

Nos deliciamos nas águas da cachoeira admirando a sua beleza. Retornamos e tivemos a informação do Humberto que hoje teríamos a opção de achar um local para dormirmos de forma individual. Estou aqui escrevendo sob o céu estrelado, num cantinho que encontrei, ouvindo o cantar da cachoeira, gritos de morcegos (não tenho certeza) e um grilo me chamando para dormir (penso nesse momento como ele emite esse som e qual o nome do som). Enfim, pesquisarei em algum momento.

Durante a transcrição desse dia, que foi um dos pontos altos, devo mencionar que foi achado ou visto um cristal de rocha branco e sextavado com facetas perfeitas, nem mesmo um joalheiro teria sido tão preciso nos cortes. É, realmente, a natureza é fantástica. Também acredito que as pessoas são, já que também somos a natureza. Formamos um círculo e o cristal passou de mão em mão, cada um mentalizou e sentiu o que quis naquele momento.

Adendos: Antes de sair do acampamento, fizemos uma rodada de feedback, onde cada participante falava de sua percepção com relação ao outro, distantes do grupo todo. Durante essa rodada, percebo que é mais fácil expor ao outro o que ele te permite, assim como foi comigo. Ainda acho que para alguns fiquei devendo, mas as vezes é o suficiente aquilo que foi trocado para aquele momento.

Dia 8 – 04/05/2019 – Esthéfane

Oitavo dia do FEAL, sétimo dia dentro do mato. Fomos acordados pelo apito de um dos instrutores, exceto eu, pois não ouvi nada. Nos juntamos na tarp e ouvimos duas notícias desagradáveis: A Karina machucou o ombro e teremos que ir até a estrada para ela ser resgatada. A segunda é que nosso combustível está escarço e ainda temos várias refeições até o resupply. Tomamos café da manhã e o mérito vai novamente para o cozinheiro Renan, a Cláudia e meu canga, Bruno, pelo shake. Finalizando nossas atividades no local do camping, tivemos a aula da bandeira, símbolo da OBB, chamada de Blue pita. Onde todos escrevemos e desenhamos na bandeira. Foi incrível. Nossa bandeira ficou linda e com nosso jeitinho.

Levantamos acampamento com nossas mochilas e com os sentimentos aflorados pela aula e pelo descontentamento de nos separarmos de nossa instrutora Karina e de nossa amiga Cláudia. A mesma havia nos dito que também sairia para cuidar do seu pulso que já estava imobilizado há alguns dias. No percurso, após alguns quilómetros de caminhada, paramos para contemplar a distância que já tínhamos percorrido e também a beleza do lugar. Mais alguns quilômetros adiante e paramos novamente para o Ion e o Humberto ligarem para a Mara, que faria o resgate das meninas. Enquanto eles tentavam ter êxito, os meninos, Renan e Bruno nos davam uma aula sobre equipo, especificamente a mochila da Deuter.

Adiante, chegamos numa área muito complicada e cheia de charco. Atravessamos com bravura, apesar da dificuldade e dos tênis molhados. Avançamos até o pé da montanha, subimos para a direção da estrada.

Após 6, 8 km, a estrada finalmente deu as caras e com ela a Mara maravilha, a irmã do Ion que veio resgatar nossas "Bound’s". Foi uma despedida leve, mas difícil, o sentimento é de insatisfação, mas a esperança é de que elas voltem para finalizar conosco o FEAL.

O Bruno e o Renan montaram a tarp próximo dali, na estrada mesmo. Almoçamos, mas como estávamos com pouco combustível, o Humberto teve a ideia de fazermos uma fogueira nos moldes Leave no Trace (já na região fora do parque) e cozinhar o café da manhã e o almoço do dia seguinte. Ele fez uns bolinhos com um tanto do que tínhamos, farinha, ovo em pó, queijo ralado e fermento.

Logo depois começamos a caminhar novamente, agora até o nosso ponto final do dia: um acampamento com vista para o Capão Grosso. Para nossa sorte, havia ali uma cachoeirinha bem próxima, onde nos banhamos. Nos reunimos para o jantar, onde o Renan, a Lígia e o Humberto prepararam com todo carinho, como sempre. Todos alimentados e satisfeitos, o Bruno ministrou uma aula sobre impacto e consciência ambiental, envolvendo os 5 e os 3R’s. Conversamos sobre esse tema e outros relacionados. Finalizamos com as metas do dia seguinte. Boa noite, Bound’s!

Dia 9 – 05/05/2019 – Lígia

Depois de uma noite ondulada e encaroçada, acordamos às 6:30 e voamos para a tarp (cozinha). Literalmente voamos, pois nos esperava um bolinho de tapiocarrozonocheese feito de fogo roots no meio da estrada. O desejo era grande, além da conta, porque o cozinheiro nos deixou com água na boca, só na vontade... matamos... e que delícia.

Após o café, tivemos uma aula mil que começou com a frase: “a beleza poética de se fazer o que quiser”. Algo assim, profundo. Na aula, ouvimos os motivos do por quê e para que aprendemos coisas... demais! Depois, aprendemos os fundamentos da educação ao ar livre: “lugares não familiares com pessoas desconhecidas e com desafios físicos e técnicos”. Caraca, como este fundamento faz sentido nesta hora, com estas pessoas, neste lugar, quase morrendo de desafios físicos e técnicos. Isto é aprender, isto é sair da zona de conforto. Estamos o tempo todo nos desafiando aqui, ás vezes mais, ás vezes menos...muitas vezes mais.

Outra coisa que me fez pensar muito foi um comentário que rolou durante a aula, que se você se prepara, o universo faz as coisas acontecerem de alguma maneira. Como isto é verdade. Coisas pra carregar na mochila gigante que estou arrumando, socando tudo bem lá no fundo para caber mais e mais aprendizado, xuxando tudo que posso, da maneira que posso.

O desafio de hoje para os navegadores era encontrar o caminho para a próxima parada sem o GPS e sem os “intocáveis” para nos guiar. Desafio lançado, Renan e Bruno traçaram a rota e, após minha autorização, partimos.

Foi muito estranho andar pela estrada, pelo asfalto, carros indo e vindo a milhão, nos trazendo de volta à realidade, aquela que confesso, às vezes não dá vontade de voltar não... Aí aparece na nossa frente uma placa de “restaurante em 10 km”. Meu Deus, cada um deve ter pensado em alguma coisa. Eu imaginei uma Baden trincando, suando, harmonizando uma trutinha frita crocante, com molho de alcaparra. “Terra chamando”. De volta para a estrada, saímos do asfalto e partimos para o rio em que deveríamos chegar, na casa da mãe do Ion. Os “intocáveis” tiveram que nos salvar algumas vezes para não nos metermos em nenhuma enroscada, mas depois achamos a trilha e cá estamos. Incrível a casa e indescritível e a energia desse lugar. Uma cabana no meio do mato, com a proteção de Nossa Senhora.

Deixamos as coisas e Tchibum... um poção que permitiu um mergulho delicioso, daquele de tirar a nhaca. Sentamos para almoçar e de repente eis que surge na trilha as nossas queridas Karina e Cláudia escoltadas pelo Mauricio. Sim, elas voltaram. Que momento emocionante, que conforto e alegria em tê-las de volta. Hoje foi o melhor dia.

Almoçamos juntos e voltamos para a casa. Enquanto Ion e Maurício capinavam nosso lugar de acampamento, alguns partiram para o porteio – pegar o resupply e os equipamentos de cânion. Eu, Esthéfane e Cláudia ficamos para a segunda turma como havíamos combinado mais cedo. Eu e Esthéfane para descansarmos um pouco. Enquanto isso, fomos buscar água, arrumamos algumas coisas da cozinha, acendemos as velas e montamos a barraca. Estranhamos a demora. Haviam falado que era uma trilha de 40 minutos ida e volta. Quando chegaram, partimos só nós três para a última leva de equipamentos. Eles tinham mudado os planos.

Tudo na casa, todos na casa, começou aquela parte deliciosa desta expedição: as histórias, piadas, causos e o cheiro da comida. Hoje este momento foi regado com uma emocionante carta da Sheila, que tocou a todos nós, um a um... Show! E a Karina transformou a cabana em uma casa, estava tudo lindo, arrumadinho. E na hora do jantar agradecemos a Deus, aos céus, a jah, que a Cláudia voltou. Jantamos um macarrão com cogumelos maravilhoso.

Só lembrando da nossa manhã, ao entrar na trilha encontrei um punhal muito antigo, lindo, surreal. Depois o Ion falou que pode ser da família dele... legal... fiquei emocionada.

E mais uma lembrança: de manhã passei a bandeira, a Blue Pita, para o querido Renan, que recebeu e já colocou na mochila com orgulho. É nois!

Continua...

Parte 2: Magic Cabane

Renan Cavichi
Renan Cavichi

Published on 05/19/2019 16:43

Performed from 04/26/2019 to 05/06/2019

9 Participants

Bruno Negreiros Ligia Eisenlohr Humberto Medaglia Esthéfane Rubianne Sheìla Machado

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Karina
Karina 05/19/2019 21:02

Nossa Senhora, muita saudades de vocês!!! En todas las fotos quiero comentar algo jajaja. Beijos

Humberto Medaglia
Humberto Medaglia 05/20/2019 13:38

Acredito que foi o começo de muitas mudanças para todos. Sem palavras para expressar a gratidão e companheirismo em nossos muitos momentos fáceis, alegres, difíceis. Amo vocês ! HAUX HAUX !

Kelson Rodrigues
Kelson Rodrigues 05/20/2019 15:52

Nossa bateu saudades, fiz no verão de 2014 na Mantiqueira, com Humberto TB, top D+

Vitor Hotz Partiu Trilha
Vitor Hotz Partiu Trilha 05/20/2019 17:09

Loucooooo mais muito irado, já fiz a Chapada dos Veadeiros, mais não nesse nivel Top !!! Parabéns !!!

Sheìla Machado
Sheìla Machado 05/20/2019 21:18

Coração até bateu mais forte! Vcs são todos incríveis; foi sensacional!

Nathachi_Aventureira
Nathachi_Aventureira 05/24/2019 14:44

Adorei a parte: "Muito mais punk que o Dead Kennedies." Sempre, e é assim que crescemos ♥ Parabéns pelo Feal e pelo relato Renan!

Alex Souza
Alex Souza 09/17/2019 11:09

Muito show o seu relato!

Jone Rodrigues
Jone Rodrigues 11/16/2019 17:32

Muito show, ainda quero participar de um programa

Renan Cavichi

Renan Cavichi

Caraguatatuba - SP

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Apaixonado por atividades outdoor e aventuras. Explorar as belezas naturais do nosso mundo na companhia dos amigos é uma das minhas maiores felicidades na vida.

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