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Farol da Juatinga em Caiaque Oceânico | Outward Leaders - 1

Farol da Juatinga em Caiaque Oceânico | Outward Leaders - 1

Relato sobre a remada até o Farol da Juatinga, em Paraty/RJ - Primeira parte do Curso Outward Leaders 2020 da Outward Bound Brasil - OBB.

Kayaking Camping Navigating

Não lembro muito bem de como fiquei sabendo da existência da Outward Bound Brasil – OBB. Provavelmente foi em alguma palestra ou workshop sobre desenvolvimento de habilidades na prática de montanhismo que participei lá pelo ano de 2018 e 2019, bem antes disso tudo que vivemos hoje em dia. Apesar de não me recordar desse exato momento, lembro do sentimento de curiosidade que me tomou por durante muito tempo para com os cursos da OBB. Opa, eu procurava desenvolvimento e tinha achado uma instituição muito maneira que poderia me proporcionar muita coisa boa nesse processo.

A curiosidade foi aumentando e os contatos ficando mais próximos até que, ainda no fim de 2018 eu tive a honra de participar do curso de Orientação e Navegação realizado aqui no Rio de Janeiro, no Parque Nacional da Tijuca ministrado pelo grande Humberto Medaglia. Fiquei muito encantado com toda aquela metodologia da educação ao ar livre... Eu queria mais. Eu queria participar dos cursos de expedição. Eu consegui!! Depois de fazer uma mega manobra na minha vida, participei do curso de Fundamentos de Educação ao Ar Livre – FEAL em abril de 2019 na chapada dos Veadeiros também com o Humberto. Uma experiência que, com certeza, mudou a minha vida e pode ser melhor entendida no relato e na matéria abaixo listadas.

Mas não parei por aí... Minha fome de vivências e experiências é infinita... Eu queria sair totalmente da minha zona de conforto e me arriscar em alguma nova modalidade ao ar livre. Foi quando eu fiquei sabendo do curso Outward Leaders, que basicamente se trata de uma formação em liderança e vivência outdoor em formado de expedição com caiaques oceânicos. Saiba mais em https://aventurebox.com/outward-bound/programa-outward-leaders-canoagem-oceanica.

Melhor ainda... Ia rolar em Paraty (aqui pertinho), passando pelo Saco do Mamanguá e a Ponta da Juatinga. Fiquei maluco, comecei a arrumar novamente a minha vida para me inscrever, algumas boas oportunidades surgiram e eu consegui!!!! Lá ia eu, viver mais uma grande aventura por aí, mas ao invés de estar andando com uma mochila pesada nas costas, essa seria remando sobre o mar...

Esse relato transmite o meu olhar sobre a primeira parte da experiência vivida na Edição Outward Leaders 2020, realizada em dezembro de 2020. Nele, transcrevo aqui para o AventureBox parte do que escrevi em campo durante a expedição (tínhamos um caderninho que alternava diariamente entre todos os participantes) e adiciono também algumas partes escritas recentes do conforto da minha casa. Nessa primeira parte conto como foi a ida até o ponto mais longe de toda a expedição: o Farol da Juatinga. Existe também um relato bem bacana sobre tudo que aconteceu, escrito coletivamente pelos participantes e publicado aqui no AventureBox em: https://aventurebox.com/outward-bound/outward-leaders-canoagem-oceanica-em-paraty-rj/report

Se liga lá, vale muito a pena conferir!!

Introdução

Era 29/11/2020, dia de eleição no Rio de Janeiro e período de baixa nos índices da pandemia provocada pelo COVID-19. Eu precisava resolver todas as coisas do dia, arrumar os equipamentos, o carro, pegar o pessoal que ia de carona comigo e dirigir 5 horas até o ponto de encontro do curso, em Paraty-Mirim. Confesso que foi um dia de muita tensão e expectativas... “Será que vai dar tudo certo???”. Fiquei me perguntando enquanto disfarçava o nervosismo de estar indo para uma expedição de caiaque, esporte do qual eu não tenho nenhuma prática ou domínio.

Bom, as coisas foram se encaixando aos poucos, os equipamentos entrando dentro das bolsas e as logísticas sendo montadas. Saí do Rio de Janeiro ainda de noite para pegar a Rodovia Rio-Santos, uma estrada extremamente cansativa para ser dirigia nesse horário... estava tenso. Apesar disso, com muito cuidado e atenção, deu tudo certo e cheguei ao ponto de encontro (camping do Jesus) por volta de 1:00 da manhã do dia 30/11... Encontrei uma rede gentilmente pronta deixada pelos instrutores e me joguei. Estava exausto e ansioso: “o que será que viria pelos próximos 7 dias?”.

Dia 1 – 30/11/2020 – Escrito em campo e também transcrito no relato coletivo na página oficial da OBB.

Depois de uma longa viagem de carro, chegamos por volta das 1:00 ao Camping do Jesus. Montamos ou aproveitamos estruturas já prontas e descansamos. O dia 30 começou de fato por volta das 6:15, com o sol batendo forte na rede em que dormia. Acordei, olhei ao redor, vi pessoas por todos os lados. Todos com as mesmas expressões: aquela combinação de empolgação e desconhecimento de tudo que viria.

Aos poucos os papos foram surgindo e as apresentações sendo feitas. O gelo começou a quebrar quando, por volta das 7:15, partimos para a lanchonete Piratas, próxima ao camping para tomar café da manhã. Chegamos lá, pedimos os cafés fortes ou com leite, mistos e pães com ovos. Nesse tempo, começamos a conversar sobre tudo o que ali nos trazia e o que esperávamos. Ali já estava no canto nos observando quieto e com bastante atenção um dos nossos instrutores: o Fabio Raimo. Nós nem sabíamos, mas a leitura da nossa dinâmica de grupo já tinha começado. Enquanto isso, Álvaro e Fuchs, pelo contrário, conversavam e socializavam com todos.

Voltamos para o acampamento, pré-arrumamos as coisas, recebemos as primeiras instruções e fomos provocados pela dinâmica do Álvaro: “quem são vocês? Mas olha só, eu não quero saber dos clichês. Para mim não importa a sua profissão, ou sua experiência lá fora. Quem são vocês como seres humanos?” Começou a pegada da OBB. Todos foram provocados a refletir. Eu mesmo não soube muito bem o que responder.

Preparativos iniciais.

Voltamos às instruções, divisões de refeições e de grupos de cozinha. Terminamos os arranjos, fechamos as coisas e fizemos os porteios de equipamentos e caiaques para a praia de Paraty-mirim. Já na praia, recebemos os ensinamentos básicos: olha não é que a gente boia tranquilamente só com a ação dos equipamentos.

Voltamos aos barcos, colocamos tudo nos caiaques. Soca, tira, enfia lá no canto, puxa, coloca tudo de novo e soca mais um pouco. Com um pouco de carinho, fechamos os compartimentos com todas as nossas coisas, escolhemos os caiaques e, enfim, partimos.

Fomos remando com vontade. Eu, particularmente, sem técnica nenhuma. Confesso com toda a humildade do mundo que estava muito difícil ficar confortável. O pedal estava estranho, eu não sabia bem de como pegar no remo...tava punk. Mas sabe o que mais? Tava difícil e, ao mesmo tempo, gratificante. Eu olhava ao redor e via o mar verde contrastando com as rochas se envolvendo em cores com a vegetação. Ao mesmo tempo eu via os sorrisos estampados nos rostos de todos. Tava todo mundo num perrengue de felicidade.

Seguimos, saímos da enseada de Paraty-mirim e viramos a ponta rumo ao leste. Lá, pegamos algumas ondulações BEM LEGAIS. Rapaz, meu caiaque tava cheio de água e eu lá, segui remando tranquilão, achando que tava tudo bem. No grupo, via cada um na sua. Uns aprendendo devagar e se matando só pra não fazer besteira (eu) e outros desenvolvendo muito bem.

Viramos então para o sul e nos defrontamos com a imensa beleza do Saco do Mamanguá. Continuamos remando por sua margem direita até fazermos uma parada para descansar. O Fuchs olhou para o meu barco e me viu dentro de uma banheira. Perguntou: “tá cheio?”. Respondi com a maior inocência: “acho que tá, uai”. Rimos inocentemente. “sai daí, moleque, você vai afundar assim”. Haahahahhaha... Saí do barco, me joguei na água enquanto ele tirava a água de dentro. Lembro bem dele falando: “olha lá, e o moleque ainda tá rindo. Ignorância as vezes é uma benção”.

Voltamos a remar. Em certo momento, atravessamos rumo ao outro lado do Saco e chegamos na praia. Eu tava exausto. Mano, remar não é fácil, não. Desembarcamos, tiramos as coisas, guardamos os barcos e montamos acampamento no Seu Orlando.

Já tranquilos, fomos tomar um banho de mar e comemorar o dia. Afinal, chegamos bem e sem quebrar nada. Foi uma roda de conversa muito legal. Com direito até ao debate sobre a melhor parmegiana do Brasil. Voltamos, tomamos um banho, cozinhamos um arroz bolado, comemos e nos encontramos por volta das 19:00 para o papo final sobre o dia.

Com a luz do Fabio no centro da roda, falamos muito sobre o que trazemos e o que queremos levar do curso. Com todas as luzes ao redor apagadas, falávamos totalmente conectados com o entorno. Aquelas micro-ondas no mar batendo e o vento soprando entre as orelhas. Eu fiquei mais como ouvinte do que falante. Estava tímido e reflexivo. Que dia, aprendi muito e de todas as formas.

Mais uma rodada de bate-papo sobre a vida e o mundo até que todos voltaram para os seus pontos de descanso. Montei a minha rede, coloquei o mosquiteiro, o isolante e deitei. Antes de dormir, respirei e sorri: “ainda bem que eu estou aqui”. Se o primordial da vida é tomar decisões, a de estar dormindo esta noite com o barulho das ondas foi a melhor possível. Respirei mais uma vez, que venham os próximos dias... apaguei!

Dia 2 – 01/11/2020

Não dormi muito bem. Acredito que ainda estava tomado pela adrenalina do primeiro contato com o caiaque oceânico do dia anterior. Felizmente tinha dado tudo certo, mas algo dentro de mim dizia que muitas emoções ainda estariam por vir.

O despertar no Saco do Mamanguá.

O nosso segundo dia de expedição foi o mais calmo de todos. Depois de uma saída adiantada de Patary-Mirim para o Saco do Mamanguá por conta da superlotação do nosso primeiro ponto de estadia, agora era hora de realmente termos aulas sobre a técnica de remada, tanto teóricas quanto práticas. O conteúdo agora seria preenchido com muita observação e experiência do que foi realizado no dia anterior.

Acordei já com o sol me dando boas-vindas, desmontei a rede, fiz os procedimentos de checagem por conta do Covid-19 e logo fui me encontrar com o meu grupo de cozinha: Laura e Samir. Tivemos uma breve conversa sobre como tinha sido o dia anterior e sobre o que esperávamos para os próximos. Fizemos umas tapiocas, rimos um pouco e começamos a construir uma boa sintonia entre nós. Logo estávamos prontos e nos encontramos todos com os instrutores.

Aquela tapioca bolada.

Nossa tarefa era nos dividir em dois grupos. O primeiro partiria na parte da manhã para a aula prática de canoagem oceânica mais pra dentro do Saco do Mamanguá, enquanto o outro ficaria no acampamento tendo aulas teóricas. De tarde, os grupos se inverteriam. Ficamos com as aulas práticas na parte da manhã. Voltamos brevemente para a cozinha e fizemos um café. Tomamos e no sentamos em roda junto ao professor Fabio Raimo pra muito debater sobre o esporte. Aprendemos sobre boas práticas, técnicas, tempo, clima, ventos, o mar... Uma daquelas aula incríveis e indescritíveis. Lembro do professor apontando para o mapa com um pedaço de galho em mãos, nos explicando sobre canoagem, navegação e as características de todo aquele entorno do Saco do mamanguá até a ponta da Juatinga.

Posso falar, com toda a certeza, que aquela foi uma das melhores aulas que tive na vida. Minha ansiedade e hiperatividade sempre me ataca quando estou em um processo de educação padrão indoor, não conseguindo me concentrar com clareza. Alí, sentados na areia da praia, com o vento batendo no rosto e usando exemplos bem práticos como elucidações de todo o conteúdo, tudo parecia mais calmo e sereno para mim... Eu estava surpreendentemente concentrado e focado, sem medos, sem anseios e sem confusões mentais. Era uma conexão muito louca.

Professor Fabio Raimo em ação.

Algo ainda mais legal me tocou sobre essa manhã. Não nos prendemos somente aos assuntos da canoagem. Falamos muito sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre os seres humanos nisso tudo e sobre uma diversidade de problemas e reflexões sociais dos dias atuais. Além de muita técnica, uma mega aula sobre a vida!!

A outra turma voltou, paramos todos em nossos subgrupos para cozinhar. Almoçamos e logo já era 14:00. Era hora de ir para o caiaque e rumar para a aula prática. Entramos na água e remamos mais para dentro do Saco do Mamanguá, bem próximo a uma das primeiras ilhas centrais avistadas. Ali paramos e tivemos instruções sobre o funcionamento dos equipamentos, do caiaque, o que fazer em caso de o caiaque virar (o que foi muito útil pra mim), como voltar, resgate de outras pessoas, além de técnicas mais eficientes de remadas. Ficou clara a diferença entre uma prática amadora de fim de semana que tanto nos diverte e o desempenho esportivo que procurávamos. Assim como na parte da manhã, mais uma série de incríveis aprendizados.

Retornamos ao camping, jantamos e fortalecemos ainda mais o senso de coletividade dentro e fora dos grupos. O pessoal começava a se conhecer e a conversar mais, agora já com dois dias de histórias para falar. Eu estava feliz de estar alí totalmente off... totalmente imerso em algo novo. No fim da noite, sentamos em roda para mais um bate-papo entre todos. Fizemos uma passagem sobre o que seria o próximo dia, sobre tudo que tinha acontecido no segundo dia e fomos dormir... Rede amarrada e ZzzzZZzzzzZZzzz....

Dia 3 – 02/11/2020

Um dia de fortes emoções. Acordamos, tomamos café da manhã e ficamos prontos por volta das 8:00... Tivemos algumas novas instruções sobre o que rolaria durante o dia. Agora com um pouco mais de conhecimento na bagagem, esse seria realmente o primeiro dia de expedição pra valer. Não tínhamos muita ideia de quais condições de tempo enfrentaríamos, já que estava prevista a chegada de uma frente nos próximos dias.

Barcos Prontos.

Terminamos de arrumar os caiaques e saímos próximo das 9:30. Começamos com uma remada bem tranquila (e mais bem realizada) em direção à saída do Saco do Mamanguá. Seguimos sem muitos problemas curtindo aquele visual que intercalava as águas verdes com as montanhas que a envolviam. Uma primeira parada um pouco mais à frente da Praia do Engenho: “todos bem? Alguém quer beber água?”. Falamos um pouco sobre a observação prática da natureza envolvendo todos aqueles conhecimentos teóricos que tínhamos aprendidos no dia anterior. Avaliamos como estava o vento, as nuvens, a água e as montanhas. Também como estávamos nós. Tudo pronto, viramos à direita e encaramos mais uma tranquila remada até a ponta da Cajaíba onde fizemos uma última verificação de tudo antes de contornarmos à direita rumo à Praia de Itaoca. Vamos adiante.

Contornamos e foi aí que tudo mudou... Um vento forte de sudeste nos acertou, fazendo com que as ondas ficassem imensas (pra quem não tem experiência). Cada remada era mais pesada que a outra e eu fui tendo muita dificuldade em me equilibrar no caiaque.

Foi aí que cometi um grande erro. Resolvi contornar muito próximo às rochas... Não deu certo, logo uma onda bateu à direita do meu caiaque e me virou. Debaixo da água. Aqueles segundos cheios de andrenalina. As águas estavam mexidas, parecia que era possível perder um pouco o senso de cima, baixo e lados. Com calma, rapidamente ejetei da forma que tinha aprendido... Subi respirando fundo até que consegui boiar em pé sobre as águas com a ajuda do colete. Consegui manter a mão no meu caiaque e não perdi o remo. Segurei firma os dois para que não fossem parar longe enquanto via o mar me jogando cada vez com mais força em direção às pedras. Eu tentava nadar com as pernas, mas era inútil. Entendi que, naquele momento, deveria apenas tentar permanecer calmo e esperar o resgate. Foi quando o Instrutor Álvaro chegou, pegou o mau Caiaque, virou ele e me deu todo o suporte para voltar para cima. As pedras estavam muito próximas. Só escutei o Fuchs gritando: “agora rema forte”. Álvaro começou a remar com toda a força do mundo, enquanto eu não podia ajudar muito, parte por não entender bem o que fazer naquela situação, parte por ainda estar meio desnorteado... rema, rema, rema, rema... Foram segundos, mas pareceram horas. Enfim saímos do ponto mais perigosos e com as maiores ondas, nos afastamos das rochas, consegui me recompor, observei os outros barcos agrupados ali próximo e remamos até lá. Ufa, QUE EMOÇÃO AMIGOS!

Reagrupamos, falei que estava bem e seguimos. Comecei a pensar no que tinha acontecido. É claro que eu estava ainda um pouco assustado com tudo, mas ao mesmo tempo também pensava que tinha tido vivido uma grande experiência e uma grande oportunidade de aprendizado. Vivi um resgate ao vivo... ahahahhahaha quem me conhece sabe que eu estava bem feliz. Felizmente vivo também.

Felicidade e adrenalina.

Voltamos a remar no sentido sudoeste, transpondo cada onda que nos acertava. Parecia que estávamos remando num mar de concreto... Cada remada era exaustiva e tudo parecia mais difícil. O vento nos jogava para trás, as ondas nos chacoalhavam e a Praia Grande de Cajaíba era um horizonte muito longe. Nós, remadores com pouquíssima experiência não iríamos aguentar. Resolvemos então fazer uma parada na praia deserta que estava logo à oeste... agrupamos e decidimos por aportar lá para descansar. Eu estava fisicamente e psicologicamente exausto por tudo que tinha acontecido. Confesso que comemorei muito a decisão de parar.

Aportamos na praia, descemos e começamos a conversar sobre tudo que tinha acontecido. Mano, foi muito sinistro. Todos compartilhavam o olhar cansado e o medo de retomar à remada. Eles me perguntaram algumas vezes como tinha sido a experiência e se eu estava bem. Agradecia imensamente a preocupação e tentava passar calma e serenidade. Eu sabia que não podia assustar o resto do grupo naquele momento.

Passamos ali algumas horas comendo e debatendo sobre o que faríamos. Alguns instrutores chegaram a conversar com o morador local para perguntar sobre a possibilidade de acamparmos ali. Não foi preciso, aos poucos a adrenalina foi passando e a energia foi retornando junto com a coragem de se aventurar. Depois de quase duas horas parados, resolvemos enfrentar o mar.

Saímos da enseada, viramos novamente rumo à Praia de Itaoca e, para nossa surpresa, as condições estavam um pouco melhores, ajudando no nosso progresso. O vento e as ondas ainda estavam fortes, mas não como mais cedo. Nossa disposição estava renovada também. Depois de cerca de 30 minutos de remada cadenciada e com muito cuidado, evitando novos problemas, chegamos lá. Eu cheguei com um grande sentimento de dever cumprido. Ufa, estava bem vivo!

Conversamos com o morador local, pedimos para acampar por ali e nos alojamos. Era o terceiro dia de expedição e, com certeza, O MAIS EMOCIONANTE ATÉ AGORA. Vimos de verdade o que é a força do mar... Quando o tempo vira, a coisa fica braba de encarar... hahahahahahahaha. De resto, o ritual de sempre, jantamos e conversamos muito sobre o dia. Falamos sobre erros e acertos. Sobre estilos de liderança e o que poderíamos melhorar para o futuro. Agora os grupos de cozinha iriam se revezar na liderança diária da expedição... muitas emoções por vir.

Nosso mapa durante a expedição.

Com certeza carregamos os exemplos do 3º dia para o resto da expedição. Eu, carreguei para a minha vida. Um grande aprendizado sobre ansiedade e autocontrole. Acho que a nossa primeira queda a gente nunca esquece. Principalmente quando ela acontece bem perto das rochas...

Dia 4 – 03/12/2020 – Escrito em campo e também transcrito no relato coletivo na página oficial da OBB.

Com a decisão tomada na noite anterior, acordamos no nosso camping com o nascer do sol. O primeiro olhar foi o verde da tarp, o azul do céu, o mar batendo na areia e o colorido dos caiaques. O tempo estava bom e mantivemos o plano de remar até a Ponta da Juatinga. Arruma as coisas, come uma tapioca com queijo, aquece a água e toma aquele cafézão.

Como não moveríamos acampamento, foi mais fácil estar prontos. Um pouco depois das 8:00 estávamos já na areia. Aqui confesso a minha ansiedade de ir até a Ponta da Juatinga. Já fiz a travessia da região algumas vezes e nunca consegui chegar até esse ponto.

Todos prontos, entramos nos barcos e saímos da praia. O mar estava bem calmo e a remada estava cadenciada. Uma mistura de nuvens e o marzão na nossa frente. Desde que o curso começou, foi a primeira vez que remei calmo e sereno. Eu estava me sentindo completamente conectado com tudo à minha volta. Pá na água, empurra, trava o pé do fundo, tira a pá e gira o ombro. O ritual que se repetia na cadencia de 13 pessoas emanando energia e disposição.

Rema de um lado, do outro e desliza suavemente pela água. Saímos da Cajaíba, viramos à leste, miramos a Ponta e seguimos. Era bonito de ver a paz que vinha do movimento suave do Fuchs remando bem perto das rochas.

Em certo ponto, uma das líderes do dia me pediu para rebocar a Monnik no trecho final. Confesso que não entendi de cara. Na segunda, atendi. Fiquei, de certa forma, empolgado em viver mais uma diferente situação no mar. Conectei e comecei a tentar puxar o outro caiaque. Não conseguia. A Pernambucana arretada danou-se a remar forte no meu ritmo e não puxei foi nada. Fiquei feliz também. Troquei o orgulho egoísta de ser forte pelo prazer de remar e ser motivado por uma conseguidora. Seguimos e chegamos.

Após um tempo de planejamento e logística, conseguimos subir ou amarrar os barcos. E agora? Onde está o lanche de um dos barcos? Pergunta daqui, pergunta dali. Não achamos e resolvemos subir. Calma, para onde é? Aí apareceu o guarda-parque mirim/instrutor da OBB júnior Caíque. Com seu boné, mochila e sandálias foi nos guiando morro acima por 20 minutos de trilha até a Dona de.... um cachorro brabo... opa, não, Dona Carmem nos salvou e pegamos a trilha certa.

Chegamos no Farol!!!! Uma construção branca de aproximadamente 5 ou 6 metros de altura. Encostei nele e pensei: “cheguei aqui, mas... dane-se, prefiro a vista do infinito do oceano, da mata, daquele mar onde meio metro de onda já nos desafiava na remada e agora parecia um belo tapete verde a perder de vista... Conversamos, comemos algo e ouvimos os contos do Caíque.

O Farol da Juatinga.

Depois de uma pedra, outra pedra. Descemos, chegamos lá nos barcos, tomamos uma ducha, nos jogamos no mar. Opa, cadê meus óculos? Perdiiiiiiiii. Bom, voltei ao ponto de encontro, conversamos e... opa, meus óculos retornaram. A Priscila mergulhou e achou. Foi muito bacana ver as crianças brincando no mar com a enorme felicidade e simplicidade que a vida precisa pra ser vivida.

Subimos nos barcos e voltamos a remar. Uma volta calma e tranquila.

Chegamos, conversei internamente com o meu grupo para planejar o dia seguinte. Chamamos todos, conversamos, apresentamos nossas ideias a alinhamos os últimos detalhes. Tudo certo para o que viria... TOMARA QUE SEM FRENTE.

De uma forma geral, foi um grande dia, tanto para o grupo, como para mim. Foram aproximadamente 10 milhas de exploração, histórias pra contar e, claro, experiências na veia misturadas com sal, sol e bolhas dos remos na mão.

Fiquei feliz demais com esse dia de remada. Já há algum tempo eu penso em chegar no Farol da Juatinga a pé, enquanto faço a Travessia da Ponta da Juatinga em um trekking. Por falta de tempo ou por sempre estar com uma logística apertada, nunca consegui. Agora o objetivo foi conquistado, mesmo que a paisagem à frente seja ainda mais encantadora. Mais legal ainda foi chegar lá remando, totalmente fora da minha zona de conforto. Uma experiência que fica, sabe? É tipo aquele primeiro cume que você chega caminhando ou escalando... vira um marco.

Aprendi e vivi muito nesses primeiros quatro dias de expedição. Fui apresentado a um novo esporte, fiz amigos, refleti sobre o desenvolvimento socioemocional, virei o barco, me joguei na água diversas vezes, passei dias e dias cheio de sal no corpo, tomei muito muito banho de mar. Sempre feliz! Com a certeza absoluta de que chutar tudo na vida pessoal para estar desconectado ali tinha sido a melhor escolha. Que venham os próximos dias! Que venha a parte 2 deste relato. Se liga aqui que logo estará no ar.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros

Published on 06/08/2021 17:45

Performed from 11/30/2020 to 12/03/2020

3 Participants

Álvaro Aurélio da Matta Outward Bound Brasil Monnik

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Edson Maia
Edson Maia 06/09/2021 09:12

Que demais, Bruno! Canoagem oceânica é o bicho mesmo... Faz tempo que ando sonhando com uma expedição de dias remando e acampando... Esse teu relato é um grande incentivo!

Edson Maia
Edson Maia 06/09/2021 09:13

Ah! realmente, a primeira capotada a gente nunca esquece! kkkkk

Tiago Borges
Tiago Borges 06/09/2021 13:49

relato espetacular

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 06/09/2021 19:05

Fala, Edson!! Eu vi suas fotos recentes remando e fiquei doido pra remar novamente! hahahahaah

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 06/09/2021 19:06

Escrever esse relato me fez relembrar de toda a experiência... foi incrível!!

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 06/09/2021 19:06

Grande Tiago.... obrigado demais pelo carinho!!

Bruno Negreiros

Bruno Negreiros

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Engenheiro ambiental e montanhista com o sonho de contribuir para a disseminação dos esportes ao ar livre e de aumentar a conscientização ambiental e social no mundo outdoor.

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