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Carretera Austral de Bike Parte 2: Coyhaique Villa O'Higgins

Carretera Austral de Bike Parte 2: Coyhaique Villa O'Higgins

Sexto episódio da série de relatos Ciclotrekking - Pra lá do Fim do Mundo. Uma trip de bike ao extremo sul da Patagônia e Terra del Fuego

Bike Trip Camping Long Distance

Carretera Austral, Segunda Parte - Coyhaique x Villa O´Higgins

Coyhaique é a última cidade grande para quem segue a Carretera Austral na direção sul. É, portanto, a última chance para quem precisa resolver algum problema mais complicado ou fazer compras em um comércio mais variado e com valores melhores. Depois de ali, é contar apenas com pequenos mercados nos povoados pelo caminho e se tiver algum problema mecânico mais sério e irremediável, será necessário arrumar uma carona para regressar até Coyhaique. Até mesmo farmácias são difíceis de encontrar nesse setor da Carretera Austral.

Três dias parados no camping Coyhaique foram suficientes para descansar, curtir um ócio com os amigos de ruta, comer e beber muito, reabastecer o alforje de alimentos e reparar a bicicleta para então encarar, dali para frete, a parte mais dura e pouco habitada da Carretera Austral até Villa O´higgins.

Foram nestes dias parados que ao revisar minha bicicleta, verifiquei que o meu pneu traseiro estava danificado. A banda lateral de um dos lados estava começando a abrir, deixando a câmara de ar exposta. Algo bastante preocupante. Neste momento, chamei meu amigo Richard para me dar uma opinião e a conclusão foi de que poderíamos tentar fazer um reparo por dentro no pneu com fita silver tape para tentar evitar um furo na câmara de ar. Assim foi feito.

07 de dezembro de 2019

Acordei cedo, e seguindo a rotina de dia de pedal. Tomei meu café da manhã, desmontei e guardei todo o equipamento na bicicleta para seguir em frente até a próxima parada no pequeno povoado de El Blanco.

O dia estava bom para pedalar, parcialmente nublado, temperatura amena e quase nada de vento. Parecia que eu teria um ótimo dia de pedal. Apenas parecia.

Ao tomar o rumo do asfalto, percebi que a bicicleta estava estranha, pois na medida em que eu dava velocidade, ela começava a balançar de um lado para o outro, e quando eu diminuía a velocidade o balanço parava. Era usa situação desconfortável e muito irritante.

Após pedalar mais ou menos 10 kms, resolvi parar para ver o que é que estava acontecendo. Verifiquei os bagageiros, os alforjes e por fim, as rodas. Foi nesse momento que recordei do pneu traseiro danificado, e olhando mais de perto percebi que o pneu estava deformado e ocasionando a vibração.

Decidi seguir em frente em velocidade mais baixa até o local de acampamento que estava programado no próximo povoado. Faltavam apenas 25 quilômetros e, além disto, era tudo asfalto. Era relaxar e tocar em frente despacito, afinal, o problema era percebido apenas quando a velocidade superava 20km/h.

Depois de pouco mais de duas horas de pedal, cheguei até El Blanco e fui logo na direção do local de acampamento grátis que o app OIverlander indicava. Um camping municipal sem estrutura nenhuma, apenas um belo bosque para abrigar do vento e o rio correndo ao fundo com águas cristalinas, distante uns 100 metros. Um lugar perfeito para quem viaja de bicicleta.

Enquanto terminava de montar minha barraca, meus amigos de viagem foram chegando. Primeiro o italiano Lucas e depois a família de franceses, e como de costume, quando nos reunirmos, é sempre uma bagunça divertida, onde compartilhamos as aventuras e perrengues do dia de pedal, tentamos todos nos comunicar no idioma local, o que por si só já é algo muito divertido e o mais importante de tudo, preparamos e compartilhamos o jantar antes de nos recolhermos para nossas barracas.

Após montar minha barraca e fazer um lanche rápido, fui resolver o problema do meu pneu danificado. Para minha sorte, segui as recomendações de um amigo experiente em perrengues de ciclismo e trouxe comigo um pneu usado de reserva, que apesar de não ser tão bom quanto o Schwalbe, estava em perfeito estado. Foi a minha salvação!

08 de dezembro de 2019

O objetivo combinado era chegar em Villa Cerro Castillo, distante 55 quilômetros, com trajeto todo asfaltado e com um bom acumulo de altimetria para o dia.

Acordei bem cedo, na intenção de tentar evitar o vento e também para sentir como a bicicleta se comportaria com o pneu substituído. Já de saída, percebi que a bicicleta estava normal. Ufa! Agora, era apenas desfrutar do caminho e encarar os desafios que se apresentassem pela frente durante o pedal.

O caminho nesse trecho entre El Blanco e Villa Cerro Castillo estava muito tranqüilo no que diz respeito ao movimento de veículos, pois na medida em que se avança para o sul, menores são os povoados, a quantidade de casas pelo caminho e de gente trafegando.

O pedal estava rendendo bem até que começaram as subidas que eram prevista para o caminho. Nessa hora a estratégia para seguir em frente e vencer as subidas é ajustar o câmbio da bicicleta para uma marcha reduzida e manter uma cadência de pedalas não muito acelerada. Devagar e sempre.

Tendo um cenário muito bonito, com vales verdes, montanhas nevadas e um asfalto bom, tornava o sobe e desce da estrada entre as montanhas, ainda que puxado, bastante divertido. Não demorou muito e eu cheguei ao portal de entrada do PN Cerro Castillo, onde encontro Lucas, que estava com uma cara de acabado por não estar acostumado com tanto sobe e desce.

Aproveitei para fazer uma parada para comer e descansar antes do esforço final encarar a maior subida de todas e só depois desta vencida, chegar ao destino do dia no camping El Arbolito, localizado as margem da Ruta 7 e poucos quilômetros antes da Villa de Cerro Castillo.

Com temperaturas muito baixas e chuva, é complicado fazer paradas muito prolongadas, pois o corpo que está aquecido durante o pedal, dependendo das condições climáticas e de abrigo, começa a esfriar rapidamente, exigindo uma constante mudança de vestuário. É um tira e veste de luvas, gorro, jaqueta, anorak... Nessas horas que eu percebia como era bom carregar o peso extra do pote termico com sopa e a garrafa térmica com um café ou chá bem quente.

Tocamos em frente e logo a grande subida final do dia se apresentava diante de nós, exigindo um grande esforço para ser superada, mas tendo a garantia de que ao chegar ao ponto mais alto, uma bela vista seria a recompensa. Depois, era só descida com uma super ladeira em caracol que nos deixaria praticamente na porteira do camping El Arbolito.

A enorme e sinuosa descida só não foi tão divertida por causa do vento que mesmo fraco estava congelante demais. Foi um downhill para pingüim nenhum colocar defeito.

Ao chegar ao camping meu pensamento era montar logo minha barraca e tomar uma ducha para me aquecer por completo. Só depois disto feito, fui preparar meu jantar e conversar com meus amigos de rutas que chegaram logo depois.

A noite apensar de fria, foi muito tranquila. Sem vento ou umidade.

09 de dezembro de 2019

Um belo sol rompeu logo cedo e o céu estava azul, animando a galera para mais um dia de estrada.

Na saída do camping, nos despedimos eu e a família de franceses, do Lucas que seguiria para Puerto Ibáñez onde pegaria um barco para Chile Chico e de lá seguiria para a Argentina.

Após a calorosa despedida, seguimos até a Villa Cerro Castillo, onde fizemos uma parada para comprar alimentos para os próximos dias de estrada.

Neste dia fomos apresentados aos fortíssimos ventos patagônicos logo após nos afastarmos da vila que fica num vale bem protegido. Enquanto pedalávamos, após uma curva em subida, fomos todos, eu e a família de franceses, surpreendidos por um golpe fortíssimo de vento de través que deixaram as coisas muito complicadas. Era praticamente impossível pedalar. O esforço para manter o movimento sem correr o risco de queda era grande de verdade. A solução foi descer e empurrar as bicicletas por um bom pedaço de estrada.

Depois deste suplício que durou quase uma hora, começamos uma descida que nos levou direto para dentro de um vale abrigado dos ventos. Aproveitamos esse momento e fizemos uma parada em um gramado bonito para comer e descansar antes de seguir viagem.

Sem um destino definido para esse dia, combinamos que seguiríamos pedalando até 16 horas, ou até encontrar um lugar bom para fazer um acampamento selvagem.

Não demorou muito e o asfalto acabou dando lugar ao rípio que, daquele ponto em diante, seria constante em todo nosso caminho até o destino final em Villa O´higgins. E para complicar um pouco as coisas nesse dia, tivemos que superar alguns trechos de obras na estrada onde as máquinas de terraplanagem reviravam o rípio, deixando a terra fofa e cheia de pedras soltas antes da compactação com o rolo compressor. O esforço para pedalar nessas condições era bem mais difícil e cansativo.

Depois de pedalar bastante e deixando para trás os trechos em obras, iniciamos nossa busca por um lugar bom para acampar e não demorou muito, acabei localizando uma espécie de estacionamento nas margens de um rio e com um pequeno bosque que garantiria uma noite tranquila e abrigada do vento. Perfeito para passar a noite.

10 de dezembro de 2019

Depois de uma noite tranquila no pequeno bosque na beira da estrada, o dia amanheceu com céu completamente fechado e indicando que logo a chuva seria uma companheira no pedal deste dia.

Enquanto tomávamos nosso café e desmontávamos o acampamento, eu e meus amigos franceses, olhávamos para o mapa do aplicativo IOverlander para saber quais eram nossas próximas possibilidades de paradas e as distâncias para chegar em cada uma. Havia algumas alternativas entre campings pagos, selvagens, algumas pousadas e a indicação de uma casa abandonada que era um point dos ciclistas.

Após muita análise, meus amigos escolheram que iriam para um camping, enquanto eu seguiria até a cabana abandonada que por sua vez, estava mais perto de nosso ponto de partida.

Ao iniciar o pedal, a chuva logo pegou uma carona com a gente. O rípio do caminho estava bom para pedalar e com a temperatura baixa, o negócio era tentar manter um ritmo de pedalas mais forte para manter o corpo aquecido. Em momentos assim, e foram muitos deste ponto em diante, deixa-se de contemplar o caminho e o foco todo se volta para a condução da bicicleta carregada, os buracos da estrada e o tempo que falta para cumprir a distância até o ponto planejado de parada.

Não demorou muito e começaram algumas subidas e descidas com algumas curvas muito fechadas e cheias de erosões, que, com tudo molhado e os reflexos do corpo comprometidos pelo frio, exigia muita atenção e prudência para não sofrer uma queda e suas conseqüências.

A trilha sonora era apenas o barulho dos pneus no rípio molhado e o ruído da chuva que descia em alguns momentos com maior intensidade, batendo no capacete. Ao redor do caminho quase deserto de tráfego, o céu muito fechado de nuvens e bosques dos dois lados da estrada com um pouco de névoa davam uma atmosfera soturna, mas que ainda assim, era bela e inspiradora.

Acabei tomando a frente e me distanciando do pessoal. O frio e a roupa molhada estavam fazendo com que eu acelerasse para chegar logo na cabana para trocar de roupa, comer e principalmente, sair da chuva.

Depois de pouco mais de 35 quilômetros desde o início do pedal, eu avistava ao lado direito da estrada a tal cabana que tinha ao fundo um rio bastante caudaloso. Dentro, apenas três cômodos, janelas e portas quebradas, porem nenhuma goteira, tudo seco. Na parede, como de costume, algum ciclista deixou escrito alguns avisos de como manter o lugar limpo e guardar bem a comida, pois ali havia ratos e o risco destes pequenos roedores estarem infectados com hantavírus, algo que pode ser fatal se transmitido para humanos.

Entrei logo com bicicleta e tudo para dentro, nem desmontei os alforjes. Tratei de tirar a roupa molhada e me secar. Eu estava com bastante frio e um pouco cansado de ter mantido um ritmo mais pesado que o normal.

Escolhi um dos quartos e dentro, montei a estrutura da barraca apenas com o mosqueteiro para evitar insetos, coloquei meu isolante térmico e entrei no meu saco de dormir para tentar me aquecer mais rápido. Acabei dando uma cochilada, mas logo acordei com um ruído no mosqueteiro da barraca. Era um ratinho ligeiro que pelo visto, estava procurando algo para comer.

Com receio de que o pequeno morador da casa resolvesse roer o mosqueteiro da barraca durante a noite, desmontei a barraca e guardei tudo, inclusive o saco de dormir. Deixando para eu dormir, apenas o isolante térmico no chão.

Depois de comer um pouco, vesti meu anorak e a calça corta vento por cima das roupas na intenção de manter o corpo aquecido. Assim que escureceu, começaram vários barulhinhos dos ratos circulando próximo de mim. Nesse momento, peguei meu spray de defesa e dei um jato nos quatro cantos da casa, na tentativa de conter o ímpeto dos pequenos moradores do local. Isso até que funcionou por um tempo. Foi uma noite longa, fria e mal dormida. Na verdade nem dormi, só passei frio, mas ao menos estava seco e longe da chuva.

11 de dezembro de 2019

Choveu a noite toda. Por volta das 5 horas da manhã, com os primeiros sinais da aurora, levantei, tomei meu café pra animar e esperei um pouco para clarear melhor o dia e antes das 7 horas já estava na estrada para chegar o mais rápido possível em ao povoado de Rio Tranquilo.

Enquanto pedalava encontrei meus amigos franceses acampados nas proximidades da beira de um rio. Parei para conversar com eles, contar da minha noite ruim e eles por sua vez, contaram que a noite tinha sido muito complicada também, isso por causa das fortes chuvas que chegaram até a molhar um pouco das coisas dentro da barraca deles. Mas agora, para a sorte de todos nós, o tempo estava firme.

Enquanto eles tomavam café e desmontavam lentamente o acampamento, pesquisei um camping pago em Rio Tranquilo e combinamos de que eu iria na frente para tentar escolher uma boa área coberta para armar o acampamento do nosso grupo.

Ao chegar no camping, por volta 10 horas da manhã, encontrei o lugar praticamente sem campistas, e como de praxe, perguntei ao administrador se havia disponível alguma área coberta e para minha alegria, ele me mostrou um galpão bem fechado e com espaço suficiente para armar o nosso circo. O camping tinha também uma boa cozinha coletiva com fogão de lenha. Larguei tudo no galpão e fui direto tomar um ducha quente para tirar o frio e a sensação de umidade que eu sentia desde a noite anterior. Que maravilha!

Duas horas depois meus amigos chegaram. E no restante deste dia, ficamos apenas comendo, bebendo e conversando ao redor do fogo na cozinha.

12 de dezembro de 2019

Na noite anterior, reservamos junto com um operador de turismo local um passeio de lancha no Lago General Carrera, o maior lago do Chile, para conhecer as belíssimas Catedrall e Capilla de Marmol (catedral e capela de mármore).

Amanheceu um belo dia de sol, perfeito para dar uma “turistada”. Fazia frio, mas o céu azul e praticamente nada de vento, eram os indicadores que nosso passeio seria bacana.

O passeio de lancha tem quase duas horas de duração, percorrendo a distância entre o atracadouro no povoado e as formações de mármore. As cores das águas do lago são um espetáculo e quando se chega ao principal atrativo do passeio, não tem como não se sentir surpreendido pela beleza singular das formações de mármore. Realmente é uma experiência única e que vale muito a pena.

Na hora de retornar, o comandante da lancha perguntou se gostaríamos de voltar de boas ou com adrenalina. A resposta foi óbvia e de imediato os motores foram acelerados e navegamos num ritmo de sobe e desce frenético e que em certos momentos chegava a voar água dentro da embarcação. Foi bastante divertido.

Após o termino do nosso passeio de lancha, fomos ao mercado para comprar alimentos para os próximos dias de estrada. Depois disto, regressamos ao camping e ficamos o resto do dia de bobeira descansando, se aquecendo com um bom vinho ao redor do fogo na cozinha.

13 de dezembro de 2019

Depois de um dia de folga para a bicicleta, era chegada a hora de seguir em frente. O objetivo deste dia era chegar até a Ponte General Carrera, e estando lá, encontrar um bom lugar para montar nosso acampamento. O clima estava bom, nada de vento ou previsão de chuva.

Como de praxe, arranquei alguns minutos na frente da turma. Nessa altura da Carretera Austral, não existe asfalto, mas o rípio nesse trecho é bom para pedalar.

A paisagem, com um clima bom, é de certa forma, um atrativo perigoso por assim dizer, pois a cada instante, ao percorrer o sobe e desce sinuoso da estrada, uma nova e bela surpresa pode tirar a atenção do condutor e com isso, causar algum acidente. O lago com suas cores que vão do verde ao azul turquesa e as montanhas com seus picos nevados ao fundo, são um espetáculo realmente muito lindo que me fez fazer várias paradas apenas para apreciar a paisagem.

Após três horas e meia, eu já estava na ponte e em poucos minutos, meus amigos franceses me alcançaram. Tratamos de escolher um lugar adequado para o acampamento, que fosse primeiramente abrigado dos ventos e que também proporcionasse uma vista para o lago.

O clima estava agradável para os padrões patagônicos. Nada de vento, e embora estivéssemos bem próximos da cabeceira da ponte, o trânsito de veículos quase inexistente não atrapalhava em nada a paz do lugar. Apenas um ou outro carro parava para as pessoas sacarem uma foto e quando elas viam nosso acampamento, acenavam e nos saldavam com um sonoro olá.

Tirando o solo extremamente duro que se fez sentir durante a noite de sono, o lugar era muito bom mesmo. Bem abrigado do vento, com água limpa em abundância direto do lago e a trilha sonora era basicamente o som das marolas batendo nas pedras da margem do lago.

14 de dezembro de 2019

Éramos presenteados mais uma vez com um dia de tempo bom e o plano da missão era chegar próximo da confluência do Rio Baker/Neff, e uma vez estando lá, acampar selvagem.

Nesse trecho mais ao sul da Carretera Austral, optamos por fazer quilometragens diárias baixar, por volta de 45 quilômetros, e com isso, manter um ritmo de pedal lento e chegar sempre cedo aos locais de acampamento e assim, curtir ao máximo cada momento. Uma espécie de tentativa de enganar o tempo. Como se fosse possível estender as horas para extrair o máximo possível da experiência de cada momento, ao melhor estilo “slow travel”.

O caminho mais uma vez nos brindava com belas paisagens. As montanhas, os bosques e o Rio Cochrane como ator principal, enchiam os olhos e faziam que o esforço de encarar a estrada e o sinuoso sobe e desce no rípio que já não estava tão bom para as bicicletas, um preço modesto para se pagar por tamanho espetáculo.

Por volta das 14 horas, já estávamos no local de acampamento que consistia num pequeno bosque de arbustos de no máximo dois metros de altura e afastado uns 100 metros da estrada. Tinha ainda uma vista do rio que ficava bem mais abaixo, numa calha onde as margens eram paredões de rocha que tornava impossível, sem equipamento de rapel, qualquer tentativa de chegar à margem para tomar banho ou coletar água. Nossa sorte é que sabíamos desta dificuldade de coletar água e durante o caminho localizamos um pequeno córrego que descia da montanha e cruzava por debaixo da estrada por uma tubulação. Bastava apenas coletar e filtrar a água para garantir nosso abastecimento para o jantar e café da manhã seguinte.

15 de dezembro de 2019

Como de costume, após uma noite de descanso, tomamos nosso café da manhã, desmontamos acampamento e às 10 horas iniciamos a nossa jornada do dia onde o destino seria a pequenina cidade de Cochrane, que por sua vez, pode ser considerada como o último povoado onde se consegue, ainda que de maneira bem limitada, algum tipo mais variado de comércio e serviços.

Este trecho em especial teve diversas subidas e descidas fortes e que exigiram um esforço físico mais intenso. Porém, nada que com calma, bebendo muita água e usando a marcha certa no câmbio da bicicleta, não pudesse ser superado. Um caminho muito duro, mas igualmente belo como os dias anteriores.

Neste dia aconteceu um fato muito engraçado. Eu seguia um pouco à frente dos meus amigos quando avistei dois ciclistas vindos da direção contrária, subindo uma ladeira gigante. Ao me aproximar mais, nos reconhecemos. Era um casal de franceses que eu tinha conhecido meses antes em Buenos Aires e que iriam começar sua aventura pedalando de Ushuaia até o Alaska.

Enquanto conversava com esse casal, Richard e o pequeno Lucas, meus companheiro de viagem, se aproximaram e também pararam para conversar com o casal. A “francesada” estava reunida. E quando Natalie, esposa do Richard chegou por último com sua bicicleta mega carregada com os equipamentos e o outro filho, o pequeno Martin, ao ver a bicicleta da outra francesa sem nenhum tipo de bagagem, um pouco distante do grupo, exclamou em alto e bom som para Richard, falando em francês algo como “assim é fácil! não está carregando nada de peso!”. No mesmo instante, um silêncio eloqüente se fez no ar. Richard se despediu rapidamente e disse para Natalie seguir em frente. Tão logo nos afastaramos do outro casal, Richard falou para Natalie que o outro casal também eram franceses e que eles tinham entendido tudo o que ela tinha esbravejado em tom de ironia. Hahaha!

Quando me alcançara, numa parada para beber água, Richard rindo sem parar me contou a cena constrangedora. Quando perguntei para Natalie, o que ela estava sentindo a respeito da gafe, Natalie deu de ombros, repetiu as mesmas palavras e em seguida deu uma gargalhada. Todos nós rimos juntos.

Cheguei cedo do camping. Reservei uma cama no abrigo coletivo que não era nada mais do que um pequeno quarto com dois beliches. Depois de vários dias diretos montando e desmontando barraca, achei que seria uma boa dar uma folga desta tarefa. O resto da turma, armou a barraca na grama.

16 de dezembro 2019

O dia amanheceu com céu completamente fechado. Enquanto tomávamos café da manhã, verificamos as possibilidades de acampamento e paradas para o dia e tão logo terminei de preparar minhas coisas, toquei em frente enquanto meus amigos desmontavam acampamento e organizavam as coisas e as crianças.

O céu com cara de chuva era um incentivo para mudar a estratégia de pedal, numa tocada mais rápida para evitar a chuva, ao contrário do ritmo mais contemplativo dos dias de sol.

O caminho mais plano neste dia ajudou bastante e antes da chuva chegar, eu já tinha alcançado no início da tarde o destino do dia, o pequeno sítio de Don Arturo e Señora Belarmina. Na propriedade que fica bem na beira da estrada é possível acampar e fazer uso do banheiro e cozinha da casa. Além disto, dona Belarmina faz pães caseiros (os melhores que provei por toda a ruta), geléias caseiras e vende ovos. O lugar é um ponto de apoio muito tradicional para ciclistas que cruzam aquele setor da Carretera.

No fim da tarde, começou um chuvisqueiro fraco que durou boa parte da noite. Nada que comprometesse a boa noite de sono que tive na barraca montada em cima da relva do quintal.

17 de dezembro de 2019

Iniciamos o pedal do dia e não demorou muito para começar a chover. Frio, chuva e barro na ruta, mais um dia de clima duro. É impressionante como a ausência do sol muda as coisas nessa região.

Tomei a dianteira após definir com meus amigos quais seriam os possíveis pontos de parada para pernoitar e enquanto pedalava atento aos buracos na estrada, percebi marcas recentes de pneu de bicicleta na estrada. Isso acabou virando uma distração naquele clima ruim. Eu seguia as marcas de pneu e pensava comigo mesmo se alcançaria ou não a bicicleta misteriosa.

Depois de aproximadamente duas horas, já passando do meio-dia, avistei no alto de uma ladeira a tal bicicleta. De longe e na chuva. Não dava para ver muita coisa. Dei uma apurada para alcançar e quando aproximei uns 50 metros, gritei um sonoro e ofegante olá! A bicicleta parou.

Para minha surpresa, era Rosangela. A cicloviajante brasileira com quem eu cruzei na estrada duas semanas antes, coincidentemente debaixo de chuva.

Conversamos rapidamente sobre como as coisas haviam se desenrolado desde nosso primeiro encontro e quais os planos para os próximos dias e, mais importante de tudo naquela hora, qual eram as possibilidade de abrigo para a noite chuvosa que estava se desenhando. Comentei com Rosangela que eu tinha pesquisado no IOverlander e localizado no mapa dois abrigos que talvez fossem uma boa alternativa. Tratava-se de dois alojamentos abandonados da empresa que realiza as manutenções da estrada que talvez dessem para montar as barracas em seu interior. Comentei também que a família de franceses vinha logo atrás e que nos encontraríamos pelo caminho.

Seguimos em frente debaixo de uma chuva que alternava entre momentos de maior e menor intensidade e quando chegamos no primeiro local, nos deparamos com as portas lacradas por taboas de madeira e olhando pelas frestas, vimos também que tinha muito entulho dentro. Com isso resolvemos seguir em frente e tentar a sorte no outro prédio sinalizado no mapa e que estava por volta de 2 quilômetros adiante.

Ao chegar na frente do segundo prédio, já dava para ver que esse era o lugar perfeito. Tinha uma série de salas e alojamentos abandonados, e uma sala em especial estava marcada com algumas escrituras dizendo que ali era “a casa de ciclistas”. A sala tinha uns 4 metros de largura por 6 metros de comprimento, vidro nas janelas e o mais importante, completamente limpa, sem nada que roubasse o espaço para nossos equipamentos. Chovia bastante naquele momento e saber que estávamos salvos de ter de acampar selvagem naquelas condições climáticas foi um alivio e uma grande alegria.

Enquanto a tarde caia junto com a chuva incessante, comentei com Rosangela sobre a minha preocupação com os franceses que não tinha aparecido até então. De fato naquele dia, eles não iriam aparecer. Só depois, no dia seguinte, saberíamos que por causa do clima duro eles decidiram acampar bem antes, coisa de uns 10 quilômetros para trás.

18 de dezembro de 2019

Embora tenha caído muita água durante a noite, ao amanhecer a chuva nos deu uma trégua e enquanto tomávamos nosso café da manhã e organizávamos os equipamentos nas bicicletas, os franceses finalmente apareceram.Agora com a trupe reunida novamente, tocamos em frente.

O plano era chegarmos, eu e os franceses, até Puerto Yungay para embarcar na balsa e chegando do outro lado no Embarcadero Río Bravo, pernoitar no abrigo que lá existe. Enquanto isso, Rosangela seguiria apenas parte do caminho com o grupo pois seus planos eram de fazer uma passada pelo povoado de Caleta Tortel e só depois seguir o caminho para o sul.

O clima ruim não tardou a mostrar novamente suas armas. O frio e a chuva tornavam a tarefa de pedalar um tanto sofrida, e somada a esta situação climática, o péssimo estado da estrada cheia de buracos e valetas e o relevo com subidas e descidas fortes deixavam as coisas um tanto perigosa. No molhado, qualquer escorregão ou batida mais forte num buraco, poderia significar uma queda com conseqüências dolorosas.

Após a despedida de Rosangela, seguimos na estrada que além das condições antes descritas, agora ficava mais estreita por ter que contornar um trecho muito sinuoso e íngreme de montanha. De um lado do acostamento era rocha com vegetação e do outro lado, uma pirambeira com o rio bem mais abaixo. O lado bom deste momento é que o fluxo de veículos é quase zero por conta de não ter nada até o embarcadouro da balsa, que por sua vez, opera apenas em dois horários por dia, de cedo pela manhã e ao fim de tarde.

Chegamos em Puerto Yungay por volta das 15 horas, molhados e com fome. Corremos para dentro da sala de espera do refúgio que fica junto da rampa de embarque na balsa. Lá dentro fizemos nossa farofada enquanto nos abrigávamos do frio e da chuva. A balsa partiria às 18 horas para fazer a rápida travessia.

Após a travessia, desembarcamos e novamente corremos para o refúgio do embarcadouro Rio Bravo. Estando lá dentro, fizemos um varal para colocar as roupas molhadas para secar com o vento e organizamos um bivaque. Jantamos e após, para dormir colocamos nossos isolantes térmicos em cima dos bancos de madeira. Estávamos salvos. Longe do frio, da umidade e da chuva. Santo lugar!

19 de dezembro de 2019

Bateu água e ventou muito a noite toda. Pela manhã o céu seguia fechado e dizendo que mandaria mais chuva para nos acompanhar nesse dia. Não tínhamos muitas alternativas além de seguir em frente. É sabido que esta é a região que mais chove em toda a extensão da Carretera Austral.

Para nosso alívio, sabíamos da existência de alguns refúgios pelo caminho até Villa O´higgins e fazendo uso desta informação, dividimos esse trecho final da estrada em duas paradas, pernoitando dentro destes abrigos longe da chuva e do vento. Tais refúgios, são pequenos galpões de 3 metros de largura por 5 metros de comprimento, com porta e lareira. Um luxuoso conforto para quem está se aventurando de bicicleta e se depara com uma condição climática adversa.

Esse dia o pedal começou com alguns quilômetros quase que com relevo plano, mas após uma hora de pedal, começaram novamente o sobe e desce alucinado do relevo. Ao menos nesse momento de pedal mais duro, por conta das subidas e descidas, a chuva tinha dado uma trégua.

Esse dia em especial, eu recordo que depois de muito subir e descer, eu literalmente quebrei de cansaço. Lembro que os últimos dez quilômetros, já em um trecho praticamente plano, simplesmente não conseguia manter um ritmo moderado de pedalada, tanto foi que meus amigos franceses me alcançaram, e pela primeira vez, chegaram na minha frente ao nosso destino do dia. Até hoje, não sei exatamente o que foi que me causou aquele cansaço absurdo.

Demoramos um pouco para localizar o refúgio, pois o mesmo estava afastado uns 200 metros da beira da estrada, dentro de uma propriedade. Chegando lá, nos deparamos com uma dupla de brasileiros que estavam percorrendo a Carretera Austral a pé e puxando uma pequena carretinha que parecia muito um carrinho de sorvete. É mole?

Após uma rápida negociação, conseguimos organizar o espaço para todos dormirem dentro do refúgio. Depois, eu e o Richard, fomos com os meninos, procurar madeira para colocar na lareira para garantir aquecimento até hora de dormir.

20 de dezembro de 2019

A chuva tornara-se a constante, assim como o frio, mas é para frente que se anda. Após uma rápida reunião de cúpula, definimos que se estivesse chovendo muito pelo caminho, iríamos até o próximo refúgio, coisa de apenas vinte e poucos quilômetros e ficaríamos por lá mesmo sabendo que ficaria faltando pouco mais de trinta quilômetros para chegar a Villa O´Higgins.

A dupla da carretinha foi a primeira a encarar o caminho molhado. Eu e os franceses ficamos tomando café e olhando para o clima do lado de fora com vontade zero de encarar aquela fria. Só o fato de trocar a roupa seca e quente de dormir pelas roupas molhadas e frias para pedalar era algo que desmotivava qualquer ação.

Depois de uma luta ingrata contra a preguiça, tomei o rumo debaixo de uma chuva fraca e uma névoa que não deixava ver além de 500 metros. Para piorar as coisas, uma equipe de manutenção da estrada estava passando com uma máquina niveladora que revirava e deixava solto o rípio pelo caminho, tornando o pedalar lento e pesado.

Com uma hora de pedal, ultrapassei a dupla da carretinha e logo depois avistei o Refúgio. Ao me aproximar, percebi que tinha uma fumaça consistente saindo da chaminé. De imediato pensei que tivessem pessoas lá dentro, mas quando abri a porta, estava completamente vazio.

Escorei a bicicleta do lado de fora, pequei minha pequena garrafa térmica com chá e fui para dentro do refúgio, sentando o mais próximo possível do fogo. Que recepção! Quem teria feito esse pequeno grande regalo? Foi um momento mágico que me surpreendeu.

Enquanto me aquecia junto ao fogo, a porta abriu e finalmente o mistério do fogo aceso foi revelado. O autor do fogo era o caseiro do sítio próximo ao refúgio, o Sr. Jorge. Um autêntico gaúcho austral, nascido na região e acostumado com a lida da vida rural naqueles rincões remotos do sul chileno.

Acompanhado de um mate, Jorge me contou um pouco das coisas do seu cotidiano e que em dias de clima ruim, sempre acendia um fogo no refúgio para receber os muitos ciclistas que passam por ali na temporada de verão.

Não demorou muito e o resto da turma chegou e encheu o refúgio.

O restante do dia resumiu-se a muita conversa e comilança junto ao conforto do fogo da lareira.

21 de dezembro de 2019

Acordei com certa ansiedade, pois esse seria o último dia de pedal na Carretera Austral. O dia, assim como os anteriores, estava completamente fechado e de tempos em tempos, caia uma pancada de chuva. Nesta altura do campeonato, depois de tantos dias de frio e chuva, já estávamos aclimatados e, tirando a preguiça de iniciar o pedal, depois que se entrava no ritmo e aquecia os músculos, a chuva não assustava mais.

As condições da estrada nesse trecho final estavam muito ruins, tornando o pedalar mais lento que o normal. Muita pedra, terra solta e buracos cheios de água. Impossível manter a elegância. Para completar o quadro de complicações, havia um tráfego de idas e vindas de máquinas e caminhões carregando terra para os reparos na estrada.

Avançamos e logo após uma subida moderada, avistei o famoso Lago Cisnes cuja beleza ajudou distrair um pouco a mente e esquecer por alguns instantes o frio e a chuva. Fiquei imaginando o quão bom seria acampar em sua orla tendo um clima bom, de dia com sol e uma noite de luar.

Seguindo em frente, logo alcancei a ponte sobre o Rio Mayer e esse foi um momento de emoção, pois nesse instante “caiu a ficha” de que eu tinha completado o tão sonhado desafio de percorrer a Carretera Austral. A alegria foi muito grande.

Após o momento festivo, retomei o pedal e logo começaram a aparecer as primeiras casas que ficam próximas da Villa O´higgins. Alguns cachorros vieram me dar as boas-vindas sem nenhum stress. Tirando o clima ruim, foi uma entrada triunfal com um pequeno cortejo de uns três vira-latas! Kkk

Logo que cheguei ao pequeno povoado de Villa O´Higgins, um casal de cicloviajantes argentinos que estavam na varanda de um prédio, me chamou para conversar. Eles tinham terminado a aventura deles e aguardavam por um ônibus ou carona para regressarem até Cochrane. Aproveitei a conversa para me inteirar sobre hospedagem e comércio local.

Enquanto a conversa com o casal de argentinos fluía, uma caminhonete passou e alguém deu um sonoro grito: “Oi Edson!”. Era a Rosangela que por conta de estar com dores no joelho arrumou uma carona, com todo seu equipamento e bicicleta amontoada na caçamba. A caminhonete parou e desembarcamos todas as coisas.

Despedimos-nos dos argentinos e fomos para o camping que tínhamos como referência e chegando lá, conversando com a moça da administração, explicamos que precisávamos de uma área coberta para montar nosso acampamento, porém o camping não tinha nenhum galpão para isso. Conversa vem e vai e a moça disse que talvez pudesse arrumar o salão de festas para nos abrigarmos pois a previsão era de muita chuva para os dias seguintes. Após ela conversar com o proprietário, fomos autorizados a armar nosso circo no salão de festas. Que Alegria! Nada de barraca na chuva. Fizemos um grande bivak, Rosângela, a família de franceses, eu e depois ainda chegaram mais duas mochileiras chilenas.

22 de dezembro 2019

Desde nossa chegada, no dia anterior, chovia direto, e em um dos momentos em que a chuva deu uma trégua, fomos ver como estava a questão para sair de Villa O´Higgins. Os franceses e a Rosangela tinham planos de pegar o barco que leva para a Argentina. Por outro lado, eu queria fazer a travessia para a Argentina pelo Paso Mayer, que é um dos caminhos mais selvagens e pouquíssimo freqüentado devido às dificuldades de deslocamento e orientação, uma vez não existe uma trilha definida e também, em alguns trechos é necessário estar atento ao nível da água para atravessar por dentro do rio.

Meus amigos coloram uma pressão para eu fazer a travessia de barco, e assim, passarmos o Natal na trilha e chegarmos todos juntos em El Chaltén. Por conta deste apelo emocional, acabei cedendo. Porém, na hora em que eu fui comprar a minha passagem junto com a Rosângela, descobrimos que o barco estava lotado, e que teríamos que entrar numa fila de espera para quem sabe no dia 26, se o clima estivesse favorável, poder embarcar e seguir em frente para a Argentina. Nesse instante a Rosangela decidiu fazer a reserva no escritório da empresa de transportes. Enquanto isto, eu que estava muito aborrecido com essa situação de incerteza, decidi ir até o posto dos Carabineros para tentar descobrir como estava indo a coisa em relação ao nível do Rio Mayer, se era possível fazer a travessia com aquela condição climática de chuva intensa.

Chegando ao posto dos Carabineros, fui muito bem recebido e o oficial de plantão que via rádio entrou em contato com o posto de fronteira para saber das condições do rio. A notícia não era nada boa. O rio estava com o nível muito elevado e demoraria pelo menos três dias para baixar e diminuir a correnteza. Ou seja, eu estava virtualmente ilhado em Villa O´Higgins.

23 e 24 de dezembro de 2019

Meus amigos franceses estavam de partida. Tomamos café da manhã reunidos no salão do camping e depois nos despedimos com a promessa de que seria apenas um até breve, pois se tudo desse certo, nos encontraríamos em El Chaltén dentro de uma semana se as condições permitissem pegar o barco ou encarar o Paso Mayer.

Depois da despedida dos amigos, eu e Rosangela, fomos à outra agencia para tentar um barco e novamente as informações não davam certeza de nada. Estava bem complicada a coisa. Neste dia também saímos do camping e, enquanto circulávamos a procura de alguma alternativa que não tivesse custo, e num golpe de sorte, ou milagre, conhecemos o Sr. Hugo, morador do povoado que sem pedirmos nada, nos ofereceu uma cabana um pouco afastada do povoado. Sem energia elétrica, mas que tinha água e um belo fogão de lenha. Esse foi, sem dúvidas, o nosso milagre de Natal. Tínhamos um lugar para ficar pelo tempo que precisássemos e com custo zero.

No dia seguinte, véspera de Natal, eu fui novamente ao posto dos Carabineiros para ter informações mais atualizadas do Paso Mayer, e para minha alegria, como a chuva tinha diminuído muito, a informação que me foi passada era que em mais um dia, já seria possível tentar a sorte no Passo Mayer.

Regressei para a cabana e comentei com Rosangela que eu iria seguiria no dia seguinte para o Paso Mayer para fazer a travessia para a Argentina, e após explicar como era o passo, o quão selvagem e pouquíssimo freqüentado, consegui convencer ela de seguir junto comigo. As coisas finalmente estavam se encaminhando.

Ainda fomos convidados pelo Sr. Hugo para participarmos da ceia de Natal junto com a sua família. Foi um momento bastante especial onde nos sentimos muito bem acolhidos por todos. Após a ceia fomos para a cabana organizar as nossas coisas para seguir no dia seguinte para o início da travessia do Paso Mayer.

O sonho realizado.

A emoção e a satisfação de ter completado a Carretera Austral em seus 1247 quilômetros, sem correria. Sem ter que se programar com datas para termino e retorno. Vivendo apenas um dia de cada vez, encarando com resiliência e gratidão tudo que a estrada e o clima ofereciam de bom e ruim, e, tendo a companhia de amigos que ganhei pelo caminho, foi para mim uma alegria sem precedentes no que diz respeito a viver uma aventura intensa junto da natureza, e o melhor de tudo, é que a viagem continuaria com novas experiências e descobertas através da Patagônia e Terra do Fogo.

A aventura pra lá do fim do mundo continuou e para saber como cheguei até aqui, veja os relatos anteriores:

https://aventurebox.com/ejmaia/carretera-austral-parte-1-puerto-montt-x-coyhaique/report

https://aventurebox.com/ejmaia/cicloturismo-bariloche-x-puerto-varas/report

https://aventurebox.com/ejmaia/massa-critica-amp-5-dias-en-la-ciudad-de-la-furia/report

https://aventurebox.com/ejmaia/uruguay-express-barra-del-chuy-x-colonia-del-sacramento/report

https://aventurebox.com/ejmaia/travessia-subaquatica-do-taim-ciclotrekking/report

Edson Maia
Edson Maia

Published on 09/16/2020 09:39

Performed from 12/07/2019 to 12/25/2019

1 Participant

Ciclotrekking

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Edson Maia
Edson Maia 09/17/2020 16:56

Tiago Araujo, infelizmente não computei o caminho... até estava com o gps, mas era tanta coisa acontecendo que deixei isso de lado. Mas para ter uma ideia do caminho, é só visualizar no google maps a ruta 7, desde Puerto Montt até Villa O´Higgins... trip alucinante, meu camarada!

Edson Maia
Edson Maia 09/17/2020 16:59

Fala Alberto! Se eu fosse descrever tudo, daria um livro..kkkk Foi uma experiência muito gratificante poder realizar esse sonho de percorrer a Carretera Austral. Logo, logo, teremos a continuação do que rolou nessa primeira temporada! hahaha... P.S.: já ando pensando na segunda temporada.

Edson Maia
Edson Maia 09/17/2020 17:02

Olá Bruno!!! Bicicleta é o bicho, meu camarada e depois que se faz uma "tripzinha" é caminho sem volta. A liberdade é extrema e viciante, eu diria. Abraço!

Edson Maia
Edson Maia 09/17/2020 17:04

Valeu Peter!!! O melhor de tudo é que a trip, nesse ponto, estava longe de acabar. Logo mais tem mais postagens sobre minhas andanças austrais. Abraço!

Alexandre Ritter
Alexandre Ritter 09/24/2020 08:22

Grande Edson! Gostaria de te parabenizar pelo relato! Você deve saber o quanto é gratificante encontrarmos material (relatos, áudio, etc) quando se está planejando uma cicloviagem! Já havia te ouvido nos PodCast do Extremos, junto a Rosângela, e admiro bastante teus feitos! Estou morando em Belo Horizonte, porém sou de Porto Alegre. Já lí alguns livros de relatos de viagens pelo nosso continente e a cada novo que encontro, seja em páginas de papel ou virtual na internet, acabo devorando em poucos instante. Li todos os teus relatos aqui no AventureBox, olhei fotos e vídeos, bem como ouvi os podcast no TrekkingRS. Fantástico! Na torcida por novos relatos e com desejo de sucesso para você! De coração, tens minha admiração. Pedalei e vivenciei junto a tuas palavras cada km rodado. Um forte abraço e bons ventos! Precisando de algo ou vindo a Belo Horizonte, estou a disposição.

Edson Maia
Edson Maia 09/26/2020 10:29

Salve, Alexandre Ritter! Que massa que tu está curtindo os causos e perrengues... A ideia é incentivar e passar alguma informação útil para quem também quer se aventurar por aí. Também sou de PoA, mas hoje em dia, moro em SC. Mudei em definitivo faz pouco mais de 3 anos. Gosto muito de estar perto do mar e da rotina menos acelerada de interior que tenho por aqui. Minhas viagens de bicicleta, foram fortemente inspiradas em alguns livros que li e me influenciaram muito eu querer, planejar e realizar essas aventuras. Eu também piro com esse tipo de livros que relatam grandes viagens e aventuras. Aproveite nosso espaço aqui no AventureBox é compartilhe as tuas experiências e dicas de livros para a galera. Tenho certeza que vai somar muito aqui na nossa rede. Em breve vem mais relatos novos da última "missão" CicloTrekking. Tenho vontade de voltar para fazer umas trilhas na região da Serra do Espinhaço. Quem sabe armamos um trekking no futuro... Abração e obrigado pelas palavras!

David Sousa
David Sousa 01/05/2021 13:29

Parabéns

Edson Maia
Edson Maia 01/07/2021 06:56

Valeu, David!

Edson Maia

Edson Maia

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