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Paso Mayer - El Camino Donde No Hay Camino

Paso Mayer - El Camino Donde No Hay Camino

Sétimo episódio de relatos Ciclotrekking - Pra Lá do Fim do Mundo. Uma cicloviagem ao extremo sul da Patagônia e Terra del Fuego

Camping Trekking Bike Trip

A Travessia Selvagem do Passo Rio Mayer

O Paso Rio Mayer

É uma passagem de fronteira entre Chile e Argentina. É constituída de vários caminhos difusos que seguem numa mesma direção, dentro de um vale largo e de difícil acesso, onde só é possível o deslocamento a pé, de bicicleta, cavalgando, ou ainda, de forma mais rara e arriscada, em veículos fora de estrada.

Tudo que se tem por lá é o rio Mayer com seu leito largo, de profundidade irregular e solo pedregoso, além de muitas trilhas feitas pelo gado que formam uma espécie de labirinto em meio a um gigantesco bosque que vez ou outra, acabava dando em algum terreno pantanoso e lamacento.

Para completar essa travessia é necessário percorrer cerca de quinze quilômetros, desde o posto de controle dos Carabineiros no Chile até o posto de controle da Gendarmeria Argentina.

Dia 25 de dezembro de 2019

Era a manhã de Natal em Villa O´Higgins. Depois de vários dias de chuva, a previsão climática indicava uma janela de tempo bom pelos próximos dois dias. Essa era a deixa para encarar aquele que seria o maior desafio de toda a viagem: cruzar o Paso do Rio Mayer, que carinhosamente eu apelidei de “o caminho onde não há caminho”.

Eu estava acompanhado de Rosangela Ludwig, que reencontrei logo que cheguei a Villa O´Higgins, após percorrer a totalidade da Carretera Austral.

A idéia para este primeiro dia era pedalar os 47 km da Ruta X-905 para chegar a um refugio de estrada localizado bem próximo do posto de controle de fronteira chileno que está situado no início do Paso Mayer.

Saímos do povoado por volta das 10 horas da manhã, com alguns sinais de azul no céu e uma temperatura que deveria estar beirando o zero grau. Mantendo um ritmo lento para poder contemplar a paisagem do caminho e também nos pouparmos para o dia seguinte, pois tínhamos a idéia de que seria bastante exigente.

A Ruta X-905 estava em boas condições e o movimento de veículos naquela manhã natalina era praticamente nenhum. Esses fatores tornaram nossa tarefa bem mais agradável e divertida, ainda que em diversos momentos pelo caminho fossemos obrigados a encarar várias subidas e descidas mais acentuadas, que por sua vez cobravam o preço do esforço físico para subir e nas descidas o uso severo dos freios, que no meu caso já estavam bastante desgastados.

Pelo caminho é possível desfrutar de uma bela e tranquila paisagem, cheia de cenários idílicos, dignos de cartões postais. Montanhas com neve, algumas estâncias, pequenas casas junto a bosques, pontes, rios... Uma variedade grande de cenários que distraiam minha mente que, por outro lado, estava bastante ansiosa com o que viria pela frente no dia seguinte.

Fizemos várias paradas para comer, beber e descansar. Não tínhamos nenhuma pressa e o dia estava realmente muito bom para pedalar.

No meio da tarde finalmente chegamos ao nosso destino final para o dia, o refúgio na beira da estrada.

No final do dia aproveitamos para ir conhecer o posto de fronteira chileno, verificar as condições para passagem do rio e também deixar nossos documentos para registrar nossa saída do país.

Dia 26 de dezembro de 2019

Nessa época do ano, amanhece muito cedo na região. A luz solar permanece quase até as 22 horas. Esse fato dá uma ótima vantagem, pois garante que se pode planejar e realizar um roteiro com muita tranqüilidade, sabendo que é possível deslocar por várias horas, sem atropelos, fazendo paradas para comer e ainda, ao final do dia, ter tempo para montar acampamento e preparar o jantar.

Acordamos cedo e bem dispostos depois de uma noite sossegada de bivak no refugio da estrada. Sem ter que desmontar acampamento, as coisas ficam mais rápidas e menos trabalhosas. Preparamos um café da manhã reforçado para garantir energias para poder encarar o grande desafio que estava pela frente.

Chegamos relativamente cedo no posto de fronteira chileno. Enquanto aguardávamos a documentação de nossa saída do Chile ser liberada, aproveitei para conversar e conseguir algumas dicas sobre o caminho com os militares que estava de serviço no posto.

Após sermos instruídos das condições do caminho e informados com algumas dicas de orientação e navegação visual, nos despedimos da guarnição do posto de fronteira e seguimos para o nosso desafio.

Já de cara, o primeiro obstáculo estava fácil. Atravessar um rio não muito largo, com leito de pedras com a profundidade máxima de meio metro. Nem me dei ao trabalho de remover os alforjes da bicicleta. Toquei direto, molhando tudo dos joelhos para baixo na água que estava geladíssima.

Nosso plano original era seguir pela margem pedregosa do rio Mayer até o encontro das águas com o rio Chico e chegando lá, atravessar a passarela das ovelhas. Mas como o nível das águas ainda estava um tanto alto, seguirmos a dica dos militares chilenos e fomos em direção oposta, buscando um bosque em terras mais altas, onde conseguiríamos avançar por trilhas até a passarela das ovelhas. Naquelas condições esse caminho parecia mais simples.

De qualquer maneira, se as coisas ficassem muito complicadas, eu tinha em mãos meu GPS com o tracklog de um aventureiro Argentino que, após muita pesquisa, encontrei num blog na internet. Era um relato bem detalhado que me passou segurança nos dados para navegação.

Seguimos em frente por um caminho que nos levaria até uma pequena propriedade rural onde mora uma família isolada. Ao chegarmos lá, não encontramos ninguém. Sabíamos que deveríamos prestar atenção numa porteira e uma cerca que deveriam estar do lado direito. Ao localizar a porteira, deveríamos cruzar para o outro lado e dali em frente, seguir pela parte alta do relevo, sempre pelas trilhas abertas pelo gado, buscando o rumo SE e localizando sempre visualmente o destino final, um pequeno morro arredondado no fundo do vale já em terras argentinas, distante uns 13 quilômetros em linha reta. Fazendo assim, evitaríamos os charcos mais complicados da parte baixa e o rio que estava alto naquele momento.

Nesta primeira parte da empreitada, que é chegar até a passarela das ovelhas, o que de fato aconteceu é que nos deparamos com um enorme e difícil labirinto de trilhas estreitas dentro de um belo e bruto bosque patagônico, onde na maior parte do tempo a navegação visual era impossível por causa da vegetação alta. Além disto, as trilhas estreitas e cheias de arbustos tornavam a tarefa de empurrar a bicicleta bastante cansativa. O tempo todo galhos da vegetação prendiam nos alforjes e na bicicleta. Pedalar ali então, nem pensar, era impossível.

Seguimos por dentro do bosque até onde julgamos possível, mas num dado momento, vendo que as trilhas estavam cada vez mais estreitas, decidimos seguir mais para a parte baixa e aberta, onde aparentemente seria mais fácil progredir em frente, deixando de lado a orientação dos militares chilenos e seguindo um rumo mais próximo do caminho indicado no tracklog que eu portava no GPS.

A paisagem e a experiência sensorial de total imersão em um uma área praticamente selvagem tornavam o esforço físico uma preocupação menor diante da beleza daquele momento. Os sons, cheiros, a vegetação, os poucos animais e o clima, formavam uma atmosfera que me levaram para um estado de espírito quase eufórico, mas sem deixar de lado todo o cuidado e atenção que aquele lugar exige. Afinal estávamos cruzando um passo de fronteira selvagem e pouquíssimo freqüentado onde qualquer coisa que acontecesse de errado poderia nos colocar em uma situação difícil. Por causa disto, já sabendo desde bem antes destas peculiaridades do local, durante meu planejamento para esta aventura, tratei de pesquisar bastante o assunto, carregar no GPS um tracklog confiável e portar meu Rastreador Satelital SPOT Gen3 para deixar os familiares e amigos mais tranqüilos em casa, e mais importante ainda, no caso de algum perrengue sério, acionar socorro.

Ao chegarmos nas partes baixas do relevo, a dificuldade não diminuiu, apenas mudou. Se antes era a vegetação que prendia a bicicleta, tornando o esforço de progressão no terreno uma tarefa pesada, agora a vegetação rasteira, que estava toda encharcada e enlameada, tornava o esforço de empurrar a bicicleta que atolava o tempo todo, uma tarefa tanto ou até mais pesada do que antes no bosque. Ou seja, “pulamos para fora do caldeirão direto na fogueira”. Kkkk

Naquele momento a navegação em si estava bem fácil, tínhamos o visual do morro redondo e o rio Mayer. Difícil mesmo era a tarefa de avançar no terreno com as bicicletas pesando mais de 40 quilos. Resignados com a situação, seguíamos lentamente, fazendo muitas paradas para tomar um fôlego e beber água para poder avançar.

Depois de duas horas desde o início do percurso, decidimos mudar o caminho e tentar a sorte ao avançar seguindo o tracklog que nos conduzia por um caminho pela margem pedregosa do rio Mayer. Não fossem as bicicletas pesadas, as coisas seriam tranqüilas, pois caminhando com bastões a tarefa torna-se um trekking de nível fácil, mas com as bicicletas a coisa muda completamente.

Depois de penar por uns 500 metros pela margem do rio, arrastando a bicicleta sobre as pedras, nos deparamos com um braço do rio onde não havia uma margem para caminhar, e era necessário atravessar as águas por um trecho até acessar a continuação da margem pedregosa mais adiante.

Conversando com Rosangela, decidimos que eu iria testar a profundidade e a correnteza das águas para saber se de fato seria viável seguir em frente por ali com as bicicletas. A correnteza das águas no momento era bem considerável, com água próxima da cintura eu tive dificuldade para encarar um trecho um pouco mais profundo e com uns oito ou dez metros de largura. Andei em frente mais um pouco e identifiquei visualmente pela cor escura em alguns pontos do leito do rio a profundidade poderia estar um pouco maior, talvez passando de um metro. Até aí isso não deveria ser problema, mas com a forte correnteza decidi abortar a idéia.

Ainda na volta, ao cruzar o mesmo trecho mais profundo, me desequilibrei e acabei caindo com o corpo inteiro naquela água gelada e fui arrastado por uns cinco metros pela corrente até conseguir firmar novamente. Que friaca medonha!

Retomamos o rumo cruzando uns duzentos metros de terreno encharcado e lamacento para alcançar uma parte ligeiramente mais alta do terreno. Esse foi um momento de esforço bem pesado. Era bota enterrando na lama, bicicleta com as rodas atoladas... O lado bom foi que isso serviu para eu aquecer o meu corpo que estava molhado.

Após cruzarmos o charco, subimos um barranco de uns três ou quatro metros de altura e finalmente encontramos uma trilha mais aberta. Nesse instante, consultando o GPS constatei que a passarela das ovelhas já estava próxima. Algo como setecentos metros em linha reta.

Enquanto seguíamos por esse caminho mais tranqüilo, encontramos ainda uma carcaça de gado que estava comida mais ou menos pela metade. Teria sido o almoço de algum puma? Ou será que morreu e virou café da manhã dos zorros patagônicos? Mistério! Kkkk

Não demorou muito e começamos escutar um som forte águas correndo e logo em seguida, avistamos o barranco rochoso do outro lado do rio Chico que corre forte e caudaloso dentro de uma calha rochosa que não oferece nenhuma chance para uma travessia segura. O lugar é perfeito sim para rafting ou caiaque.

Depois de muito sofrer nesse labirinto caótico, por voltas das 15:30 horas, finalmente lográvamos “a cereja do bolo”. A mítica e intimidatória passarela das ovelhas, que nada mais é do que uma ponte estreita sustentada em cabos de aço, com piso de madeiras velhas (várias quebradas), com largura de meio metro e mais de cinqüenta metros de comprimento e com uma altura de uns dez metros em relação ao leito do rio que corre nervoso debaixo.

Devido a largura estreita da passarela, tivemos que fazer várias travessias para poder levar as bicicletas e todos os alforjes para o outro lado do rio. É possível cruzar a passarela com as bicicletas carregadas. Como havia um vento um pouco forte, posso afirmar que este foi o momento mais emotivo por conta do balanço da estrutura de um lado para o outro.

Assim que terminamos a travessia de todo o equipamento, sabendo que o pior tinha ficado para trás, fizemos uma parada ali mesmo, junto da passarela. Era o momento de relaxar e comer alguma coisa para repor as energias para depois encarar os dez quilômetros até o posto de fronteira argentino.

Após cruzar a passarela das ovelhas, as coisas mudam para melhor. Dali para frente existe um caminho feito de marcas de rodas do Unimog do posto de fronteira argentino, onde já é possível pedalar. Sem grandes obstáculos, basta apenas seguir as marcas pelos trechos menos lamacentos próximo do rio e depois entrar em um bosque muito bonito, com árvores grandes e muito antigas.

Começamos a pedalar e não demorou muito para eu perceber que algo de errado estava acontecendo com a minha bicicleta. O pneu traseiro estava bem baixo. Provavelmente por conta de um micro furo causado por algum espinho na trilha. Faltavam uns oito quilômetros para o final.

Decidi não parar para fazer o reparo ali por conta do pneu não estar completamente vazio. Não queria perder tempo desmontando tudo, sacando fora a roda que estava cheia de lama, pois não havia uma grande diferença de velocidade caminhando rápido em relação a seguir pedalando. Assim segui, empurrando até o final, deixando para fazer o reparo no dia seguinte com tranqüilidade.

Depois que saímos do bosque, entramos em uma área de campo aberto de onde avistamos o morro redondo e uma antena de rádio, numa distância aproximada de três quilômetros. Naquele momento uma chuva fraca e muito gelada nos dava boas-vindas, mas a visão da antena nos animou bastante, pois indicava que o final da travessia já estava próximo.

Seguimos em frente e quando encontramos a placa indicando o posto de controle argentino e logo em frente o prédio, a sensação de conseguir realizar a travessia foi, para mim, uma mistura de euforia e alivio. Cansado, molhado, com frio e fome, mas absurdamente feliz por ter realizado o sonho de completar a travessia do Paso Rio Mayer.

Já passando das 20 horas, e após darmos entrada na imigração argentina, pedimos para acampar junto ao posto de fronteira e a guarnição autorizou montarmos nossas barracas abrigadas da chuva e do vento dentro de um galpão com mesa.

No dia seguinte, seguimos em frente através de um caminho muito bonito onde a paisagem e a condição climática foram mudando completamente na medida em que pedalávamos para o leste, mas isso vai ficar para o próximo capítulo desta aventura que seguiu “pra lá do fim do mundo”.

A aventura pra lá do fim do mundo continuou e para saber como cheguei até aqui, veja os relatos anteriores:

https://aventurebox.com/ejmaia/carretera-austral-de-bike-parte-2-coyhaique-villa-o039higgins/report

https://aventurebox.com/ejmaia/carretera-austral-parte-1-puerto-montt-x-coyhaique/report

https://aventurebox.com/ejmaia/cicloturismo-bariloche-x-puerto-varas/report

https://aventurebox.com/ejmaia/massa-critica-amp-5-dias-en-la-ciudad-de-la-furia/report

https://aventurebox.com/ejmaia/uruguay-express-barra-del-chuy-x-colonia-del-sacramento/report

https://aventurebox.com/ejmaia/travessia-subaquatica-do-taim-ciclotrekking/report

Edson Maia
Edson Maia

Published on 01/10/2021 16:30

Performed from 12/25/2019 to 12/27/2019

2 Participants

Spot Brasil Ciclotrekking

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2
Alberto Farber
Alberto Farber 01/11/2021 10:45

Parabens Edson!! esta trip está na lista dos sonhos.

Edson Maia
Edson Maia 02/08/2021 08:55

Valeu Alberto! Esse dia foi demais. Sonhe, planeje e realize! Forte abraço!

Edson Maia

Edson Maia

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Um pouco cigarra. Um pouco formiga. Não necessariamente nesta ordem. Instagram: @edee_maia

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